FAZER LOGINO silêncio que seguiu a fala da figura mascarada não foi vazio, foi pesado, como se o ar tivesse sido drenado da aldeia inteira e deixado apenas a sensação de algo prestes a romper. Sakura sentiu os dedos ficarem frios enquanto observava aquela presença imóvel no centro do vilarejo, e mesmo sem entender exatamente por quê, teve a certeza de que aquilo não era apenas um inimigo comum, mas algo que já sabia demais sobre ela antes mesmo de qualquer encontro acontecer.
Rintaro avançou um passo sem desviar o olhar, mantendo a espada firme como se o simples movimento fosse suficiente para separar o mundo em dois lados opostos. Aoi, por outro lado, não se moveu de imediato, mas o arco já estava tensionado em suas mãos, e o olhar que ela lançou para a figura mascarada carregava uma mistura estranha de cautela e reconhecimento que Sakura não conseguiu ignorar. "Mostre o rosto", disse Rintaro, com a voz firme, mas sem elevar o tom. A figura inclinou levemente a cabeça, como se estivesse analisando não apenas a ordem, mas a própria existência de quem a pronunciou. O bastão escuro que segurava tocou o chão com leveza, e um som seco ecoou pelo vilarejo vazio, espalhando um arrepio quase físico pelo ambiente. "Você continua falando como se ainda tivesse autoridade sobre tudo", respondeu a figura, com uma calma perturbadora. Sakura sentiu o estômago apertar. A voz era masculina, mas havia algo nela que parecia distorcido, como se viesse de dois lugares ao mesmo tempo. Ela tentou dar um passo para trás sem perceber, mas acabou trombando levemente em uma das estruturas de madeira da casa ao lado, o que chamou a atenção da figura mascarada por um breve instante. "Não se aproxime dela", disse Aoi de repente, sem olhar para Sakura, mas com um tom que deixou claro que a frase não era sugestão. Rintaro virou levemente o rosto para Aoi nesse momento, e por um segundo algo antigo atravessou o olhar dele, algo que Sakura não conseguiu identificar, mas que fez o ar entre os dois ficar mais denso do que qualquer presença espiritual ao redor. Aoi sustentou o olhar por tempo suficiente para que o desconforto se tornasse quase físico antes de desviar, como se tivesse encerrado uma conversa que nunca deveria ter começado ali. A figura mascarada observava tudo com uma calma quase ofensiva, como se aquela tensão fosse exatamente o que esperava encontrar. Então, sem aviso, levantou o bastão e o bateu levemente no chão novamente, e o som dessa vez não ecoou apenas fisicamente, mas pareceu atravessar o espaço ao redor deles, distorcendo o ar por um segundo. "Os fragmentos já começaram a responder à presença dela", disse a figura, agora olhando diretamente para Sakura. Ela congelou. O simples fato de ser mencionada daquela forma fez algo dentro dela reagir, como se uma parte desconhecida estivesse despertando contra sua vontade. Sakura levou a mão ao peito instintivamente, sentindo um leve calor sob a pele, e isso não passou despercebido por Rintaro, que mudou a postura imediatamente. "Afaste-se dela", repetiu ele, agora com mais força. A figura inclinou o corpo levemente para frente, como quem observa algo interessante demais para ignorar. "Você ainda não entendeu, não é?", disse ela, com uma leve ironia na voz. "Ela não foi levada para este tempo por acaso. O cristal escolheu uma âncora." Sakura sentiu o coração acelerar. Aquela palavra, âncora, não fazia sentido, mas mesmo assim parecia perigosa demais para ser ignorada. Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, Aoi finalmente avançou um passo, interrompendo a linha de visão entre Sakura e a figura. "Se você sabe tanto sobre o cristal, então sabe o que está acontecendo com as aldeias", disse Aoi, com firmeza controlada. A figura virou lentamente o rosto na direção dela, e por um instante o ambiente pareceu perder parte da luz natural. "Elas não estão desaparecendo", respondeu. "Estão sendo esquecidas." Sakura franziu a testa, tentando entender a diferença, mas o peso daquela frase parecia propositalmente incompleto, como se o sentido total estivesse escondido atrás de algo maior. Rintaro pareceu reagir mais rápido do que ela, estreitando os olhos. "Isso não faz sentido." A figura inclinou levemente a cabeça outra vez, quase como se estivesse sorrindo sob a máscara. "Faz, para quem já viu o resultado completo." Um silêncio curto caiu novamente, mas dessa vez não veio apenas da tensão entre eles. O ambiente ao redor parecia mais vazio, como se até mesmo o som estivesse sendo sugado para longe. Sakura percebeu então algo estranho nas bordas da aldeia: pequenas partículas de luz, quase imperceptíveis, começavam a se desfazer no ar, como poeira sendo apagada da existência. "Rintaro", disse Aoi, agora com um tom mais urgente, "isso não é só um ataque comum." Ele não respondeu imediatamente, porque também havia notado a mesma coisa. A mão dele apertou o cabo da espada com mais força, e por um instante a postura dele deixou de ser apenas defensiva e passou a ser instintiva, como se o corpo já tivesse reconhecido uma ameaça antes da mente. A figura mascarada deu um passo para trás, e o bastão tocou o chão mais uma vez, mas dessa vez o som foi mais profundo, quase como um sino distante. "Quando o cristal se completa, o tempo não se divide", disse ela. "Ele corrige." Sakura sentiu um calafrio mais intenso do que todos os anteriores. A palavra “corrige” não soava como algo bom, soava como algo que apagava tudo que não deveria existir. Ela olhou ao redor novamente e percebeu que a pequena aldeia não estava apenas vazia, mas começando a perder nitidez, como se estivesse sendo desenhada por uma mão invisível e apagada ao mesmo tempo. Rintaro avançou de repente, cortando o espaço entre ele e a figura mascarada com velocidade suficiente para levantar poeira do chão. A espada brilhou no ar, mas o golpe não atingiu nada sólido. A figura simplesmente desapareceu no instante do impacto, como se tivesse sido dissolvida antes do contato acontecer. Sakura deu um passo para frente, assustada. "Ele sumiu?" Aoi olhou ao redor com atenção, mas não respondeu de imediato. O olhar dela estava fixo em um ponto específico do chão, onde o bastão havia tocado pela última vez, e foi ali que Sakura percebeu algo ainda mais estranho: um fragmento escuro de energia permanecia pulsando, como uma marca deixada para trás. "Não foi fuga", disse Aoi, finalmente. "Foi aviso." Rintaro guardou a espada lentamente, mas o olhar dele continuava preso no vazio onde a figura esteve. Havia algo ali que Sakura não conseguia decifrar, uma mistura de raiva contida e algo mais antigo, mais profundo, que parecia não pertencer exatamente ao presente. Ela se aproximou dele com cautela. "Você sabe quem ele é, não sabe?" Rintaro demorou mais do que o normal para responder, como se escolhesse cada fragmento da própria memória antes de deixá-los escapar. "Eu conheço alguém que falava assim", disse ele, por fim. Aoi desviou o olhar nesse momento, e esse simples gesto foi suficiente para Sakura perceber que a resposta não era só sobre um inimigo. Era sobre algo que ainda não tinha terminado entre eles. O vento voltou a circular pela aldeia, mas agora parecia diferente, como se tivesse perdido parte da sua consistência. Sakura olhou novamente para o céu e teve a sensação clara de que aquele mundo estava começando a esquecer a si mesmo aos poucos, e que eles estavam bem no centro desse esquecimento.O tempo tinha uma maneira curiosa de passar. Quando Hina era pequena, eu tinha a impressão de que cada mudança acontecia diante dos meus olhos. Primeiro vieram os primeiros passos, depois as primeiras palavras, as corridas pelo quintal, as amizades, as discussões, os sonhos. Então ela cresceu. Casou-se. Construiu sua própria casa. E, quando percebi, aquela menina que um dia segurou minha mão para aprender a andar agora segurava a mão dos próprios filhos. Eu estava sentada na varanda de casa naquela manhã, observando o movimento do jardim, quando ouvi uma risada vindo da estrada. Sorri antes mesmo de olhar. Eu conhecia aquela voz. "Vovó!" Virei o rosto. Kanao corria em minha direção, com Amane logo atrás. "Kanao, não corre tanto!", Hina gritou de longe. Era tarde demais. Kanao subiu os degraus da varanda quase tropeçando e se jogou nos meus braços. "Vovó!" "Calma, menina." Ela riu. "Eu cheguei primeiro!" Amane apareceu logo depois, respirando fundo.
A primeira coisa que descobri depois de me casar foi que uma aliança não mudava magicamente a rotina.Eu continuava acordando cedo.Continuava reclamando quando fazia frio.Continuava esquecendo onde tinha colocado algumas coisas.E Kazuki continuava deixando objetos em lugares que, na opinião dele, eram perfeitamente lógicos e, na minha opinião, não faziam sentido nenhum.A diferença era que agora acordávamos na mesma casa.Nossa casa.Ainda parecia estranho pensar nisso.Nossa.Depois do casamento, passamos alguns dias na casa dos meus pais, cercados pela família e por comemorações. Mas, pouco tempo depois, chegou o momento de começar nossa própria rotina.A casa ficava numa parte tranquila da vila, não muito distante das outras famílias. Era simples, construída de madeira, com um pequeno jardim na frente, uma cozinha, dois quartos e uma varanda que dava para algumas árvores.Não era grande.Não era luxuosa.Mas era nossa.Naquela manhã, acordei com o som de alguém mexendo em alguma
Dois anos.Às vezes, eu ainda achava estranho pensar em como o tempo tinha passado tão rápido.Parecia que tinha sido ontem que eu estava sentado perto do rio, tentando controlar o nervosismo enquanto segurava uma pequena caixa de madeira.Agora, eu estava diante de um espelho, ajeitando a roupa do casamento pela terceira vez.Eu tinha vinte e um anos.Hina também.E, naquele dia, nós finalmente nos casaríamos.Passei a mão pelo tecido da roupa e respirei fundo."Você vai furar o tecido se continuar fazendo isso."Virei o rosto.Kaien estava encostado na porta, me observando com um sorriso."Você está aqui há quanto tempo?""Tempo suficiente para perceber que está nervoso.""Não estou.""Está.""Não estou."Ele entrou no quarto."Você está ajeitando a mesma parte da roupa há uns cinco minutos."Olhei para baixo.Era verdade."Talvez eu esteja um pouco nervoso."Kaien riu."Um pouco?""Está bem. Muito."Ele se aproximou e colocou a mão no meu ombro."É normal.""Você ficou nervoso quan
Um ano.Foi estranho perceber o quanto podia mudar em apenas um ano.Quando completei dezoito anos, achei que as mudanças aconteceriam de maneira lenta, quase imperceptível. Imaginei que continuaria acordando todos os dias na mesma casa, vendo as mesmas pessoas e vivendo praticamente a mesma rotina.E, em parte, foi exatamente assim.Mas, ao mesmo tempo, tudo tinha mudado.Agora eu tinha dezenove anos.Kaori e Itsuki tinham vinte.Yuki e Akane tinham dezesseis.E algumas das pessoas que cresceram conosco já estavam começando suas próprias vidas.Inclusive Kaori e Itsuki.Os dois tinham se casado alguns meses antes e agora moravam em uma casa própria, construída um pouco mais afastada da nossa vila. Ainda apareciam praticamente todos os dias, mas havia algo diferente quando eu os visitava.Aquela casa era deles.As escolhas eram deles.A rotina era deles.Era estranho.Bonito.E, de certa maneira, assustador.Naquela manhã, eu estava sentada na varanda de casa, observando o movimento d
Naquela noite, depois que todos foram embora, a casa finalmente ficou silenciosa.Não completamente, porque ainda era possível ouvir algumas vozes do lado de fora e o som distante de passos pela vila. Mas, depois de uma tarde inteira cercada por pessoas, risadas e conversas, aquele silêncio parecia diferente.Mais profundo.Mais tranquilo.Fiquei alguns minutos na cozinha, terminando de guardar os últimos pratos enquanto Rintaro organizava a mesa. De vez em quando, nossos olhares se encontravam, e eu percebia que ele também estava pensando na mesma coisa.Hina tinha dezoito anos.Eu ainda estava tentando entender quando exatamente aquilo tinha acontecido.Parece que foi ontem que eu segurava sua pequena mão enquanto ela tentava andar pela primeira vez. Depois vieram os primeiros passos sozinha, as primeiras palavras, as corridas pelo quintal, as discussões por coisas pequenas e aquele jeito determinado que sempre fez parte dela.Agora ela estava crescida.E, pela primeira vez, eu come
Fazer dezoito anos parecia muito mais importante quando eu imaginava essa idade alguns anos atrás.Eu achava que, quando chegasse aos dezoito, alguma coisa dentro de mim simplesmente mudaria.Que eu acordaria diferente.Mais madura.Mais responsável.Talvez até com todas as respostas que eu ainda não tinha.Mas, naquela manhã, quando abri os olhos, a primeira coisa que pensei foi que eu continuava sendo eu.A mesma Hina.Talvez um pouco mais velha.Talvez um pouco mais consciente das minhas escolhas.Mas ainda eu.Olhei para o teto por alguns segundos antes de me sentar na cama.A luz da manhã entrava pela janela, iluminando o quarto.Dezoito anos.Eu tinha dezoito anos.Era estranho pensar nisso.Pela primeira vez, aquela palavra parecia representar alguma coisa diferente.Liberdade.Responsabilidade.Escolhas.Futuro.Tudo parecia estar começando a ganhar um peso novo.Levantei-me e comecei a me arrumar.Quando desci, encontrei minha mãe na cozinha."Bom dia."Ela olhou para mim e s







