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Capítulo 4

Author: Yuna
Naquela noite, Samuel não voltou para casa.

Só apareceu perto do meio-dia do dia seguinte, trazendo no corpo um leve perfume amadeirado.

Era a fragrância que Mariana costumava usar.

Ele colocou a chave do carro sobre o móvel e me encarou com frieza.

— Já acabou com o seu drama de ontem?

Eu estava de cabeça baixa, fechando uma caixa de papelão com fita adesiva, e não respondi.

Samuel se aproximou e tocou a caixa com a ponta do pé.

— Estou falando com você. Por que está arrumando tanta coisa?

— Estou separando o que não uso mais.

Ele soltou uma risada fria.

— Então você ficou me tratando com frieza esses dias todos só para ver se eu vinha atrás de você?

Me endireitei e tirei a poeira das mãos.

— Eu não estava esperando que você viesse atrás de mim.

— Então que atitude é essa? Mariana chorou por mais de meia hora ontem por causa do que você disse. Você deve um pedido de desculpas a ela.

— Não vou pedir desculpas.

Samuel passou a mão pelos cabelos, irritado, e se jogou no sofá.

— Você realmente não tem jeito. Não tenho tempo para ficar discutindo isso com você. Na quarta-feira que vem, vou fazer a rota da aurora boreal para a República de Montévia. Se você pedir desculpas pelo que aconteceu ontem, dou para você a passagem com benefício de funcionário que eu tinha reservado para Mariana e levo você para ver a aurora.

Fiquei imóvel.

Seis anos antes, eu tinha descoberto um nódulo na tireoide.

No fim, os exames confirmaram que era benigno.

Mas, enquanto esperava o resultado, fiquei apavorada.

Naquela época, Samuel segurou minha mão e prometeu:

— Quando você estiver bem, vou levar você para ver a aurora. Você vai no voo que eu estiver comandando, e a gente vai ver juntos o céu noturno mais bonito de todos.

Ele vinha adiando aquela promessa havia seis anos.

Agora, usava aquilo como se estivesse fazendo uma grande concessão para mim.

E o mais ridículo era que aquela passagem nem sequer seria minha a princípio.

Samuel pretendia dar para Mariana.

Como eu não respondi, ele franziu a testa.

— Você não quer? Tem ideia de como é difícil conseguir uma passagem dessas nessa rota? Mariana ficou falando disso comigo por um tempão até eu concordar. Se eu não tivesse lembrado do nosso aniversário de oito anos, nem teria mudado de ideia de última hora para dar a passagem a você.

Olhei para ele e respondi em voz baixa:

— Dá para Mariana.

Samuel ficou sem entender.

— O quê?

— Dá a passagem para ela. Eu não preciso.

Ele se levantou de repente, com o rosto fechado.

— Não abusa da minha boa vontade. Eu já dei a oportunidade. Foi você que não quis. Depois, não venha me pedir.

— Eu não vou pedir.

Samuel passou o braço pela mesa num movimento brusco e derrubou o copo de vidro.

O copo caiu no chão e se despedaçou.

Um dos cacos atingiu minha panturrilha e abriu um corte fino.

Uma linha de sangue surgiu na pele.

Ele nem olhou.

Virou as costas, saiu e bateu a porta com força.

Baixei os olhos para o sangue na minha perna e peguei um lenço de papel para limpar.

Estranhamente, não doía tanto quanto eu imaginava.

......

Logo chegou a quarta-feira seguinte.

Nosso aniversário de oito anos juntos.

Também era o dia em que meu desligamento do trabalho se tornava oficial e eu deixaria aquela cidade.

Levei apenas uma mala e chamei um carro para o aeroporto.

Meu voo para Sol Nascente sairia às três da tarde.

Depois de fazer o check-in, sentei na área de embarque e fiquei observando pela janela os aviões pousando e decolando.

O voo de Samuel na rota da aurora estava programado para sair às duas da tarde.

Pelo horário, ele já deveria estar na cabine de comando, fazendo os preparativos para a decolagem.

Peguei o celular.

Queria conferir o voo dele uma última vez, como se aquilo pudesse colocar um ponto final naqueles oito anos.

Abri a página que sempre usava para acompanhar a escala de Samuel.

Mas o nome que aparecia no campo reservado ao comandante não era o dele.

Era um nome que eu nunca tinha visto.

Fiquei surpresa.

Será que Samuel tinha passado mal de última hora e precisou ser substituído?

Foi então que meu olhar caiu sobre a entrada da sala VIP, não muito longe dali.

Um homem empurrava uma mala em direção à entrada.

Ao lado dele caminhava uma mulher usando um casaco em tons que combinavam com os dele.

Ela estava agarrada ao braço do homem com intimidade, com a cabeça apoiada no ombro dele.

Eram Samuel e Mariana.

Fiquei parada, observando os dois entrarem na sala VIP.

Perto dali, duas funcionárias de solo conversavam em voz baixa.

— Aquele que acabou de entrar não era o Samuel? Ele não ia voar para a República de Montévia hoje?

— Ele pediu férias de última hora. Ouvi dizer que vai acompanhar Mariana até Maréa.

— Ontem Mariana ficou falando disso um tempão no grupo da tripulação no WhatsApp. Disse que Samuel até abriu mão da rota da aurora e comprou uma passagem só para viajar com ela.

— Que romântico. Samuel realmente faz de tudo pela Mariana.

De repente, tive vontade de rir.

Então Samuel nunca tinha resolvido dar para mim a passagem que antes estava reservada para Mariana.

Na verdade, ele tinha pedido férias de última hora, aberto mão do voo que deveria comandar e decidido ir ver a aurora com Mariana.

Aquela mentira ridícula sobre me dar a passagem servia apenas para fazer com que eu me sentisse grata a ele.

O aviso de embarque do meu voo soou pelos alto-falantes.

Olhei uma última vez na direção da sala VIP.

Depois, virei as costas e entreguei meu cartão de embarque à funcionária.

A porta da aeronave se fechou.

O avião começou a taxiar, ganhou velocidade e deixou a pista.

Pouco depois, as nuvens já estavam abaixo das asas.

Aquele avião, da mesma companhia aérea em que Samuel trabalhava, me levou até o céu a dez mil metros de altitude que ele conhecia tão bem.

Enquanto isso, Samuel, que tinha pedido férias por causa de Mariana, estava naquele momento sentado em outro avião.

Olhei para o imenso mar de nuvens que se estendia do lado de fora da janela.

Oito anos.

Finalmente, eu estava livre.

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