FAZER LOGINBella
Um mês. Trinta dias. Setecentas e vinte horas desde que eu decidi que a vida de herdeira injustiçada não combinava com o meu novo visual "fujona-precisando-de-um-milagre". Eu agora era Isabella Santos. O "Andrade" tinha ficado lá no aeroporto, enterrado em algum lugar entre a sala VIP e o balcão da companhia aérea. Agora, eu era apenas a Bella. Uma Bella que descobriu, da maneira mais dolorosa possível, que o dinheiro não nasce em árvores, ele nasce de turnos de doze horas em pé, servindo chope gelado para homens que acham que o bar é uma extensão do sofá da casa deles. Mudei de cidade com a coragem de um leão e o orçamento de um camundongo. Se não fosse pela Milena, eu provavelmente estaria dormindo em uma caixa de geladeira com vista para o canal. Milena era um anjo que o destino — aquele safado — colocou no meu caminho. Ela era garçonete no bar onde eu implorei por um trabalho temporário e, em três dias juntas, ela decidiu que eu era sua "irmã de alma" e que dividir o aluguel de um apartamento do tamanho de um closet era uma ideia brilhante. E lá estava eu, voltando para casa à meia-noite, com os pés latejando tanto que eu tinha certeza de que meu dedão estava tentando pedir demissão do meu corpo. — Não pode ser... — murmurei, revirando minha bolsa de lona pela décima vez na frente da porta aberta do ônibus. Cadê o cartão do ônibus? Onde estava aquele pedaço de plástico sagrado que garantia minha volta ao lar? O motorista me olhava pelo retrovisor com a paciência de quem está prestes a atropelar um cone. O cobrador, um homem que parecia ter sido esculpido em um bloco de mau humor puro, batia os dedos no balcão. — Vai subir ou vai ficar aí fazendo inventário da bolsa, moça? — ele rosnou. — Só um segundo... eu... eu juro que estava aqui — gaguejei, mergulhando a mão no fundo da bolsa. Encontrei um batom seco, um grampo de cabelo torto, uma balinha de menta grudada num papel e... moedas. Comecei a catar as moedas como se estivesse minerando ouro. Dez centavos... vinte e cinco... cinquenta... mais cinco centavos pretos de 1998... — Faltam um e quarenta centavos — o cobrador sentenciou, com a voz de quem estava pronto para me jogar para fora do ônibus em movimento. — só mais um minuto estou procurando, senhor! Eu tive um dia terrível! — Tentei o drama. Ele nem piscou. Olhou para as moedas como se fossem lixo. Em um bolsinho na lateral da bolsa vi mais algumas moedas, que olhando por cima tinham uma setenta centavos peguei aquele punhado na mão. Foi então que o universo resolveu me dar um empurrão. Literalmente. O motorista, provavelmente querendo terminar o turno para ir ver a parte final da novela das onze, pisou no freio com a sutileza de um rinoceronte em fúria. O ônibus deu um solavanco que me arremessou para frente do cobrador. Em um reflexo que nem eu sabia que tinha, minhas mãos voaram para frente. O punhado de moedas — incluindo a balinha de menta grudada e o grampo torto — decolou da minha palma como projéteis. As moedas choveram sobre o colo do cobrador, algumas entrando pela gola polo da camisa dele, outras batendo no seu nariz. Aproveitando o vácuo da inércia e o choque do homem que agora tinha um monte de moedas espalhadas pelas calças, encostou o cartão no leitor e eu girei a catraca com uma agilidade que deixaria qualquer ginasta olímpica com inveja. — FICA COM O TROCO! — gritei, já correndo para o fundo do ônibus enquanto o cobrador rugia algo que eu tinha certeza que não era uma bênção. Cheguei em casa cheirando a fritura e derrota. Abri a porta do nosso "palácio" — um apartamento onde a cozinha era tão perto do sofá que você podia fritar um ovo sem levantar— e me joguei no sofá de cor indefinida. — Sobrevivi — anunciei para o teto descascado. Cinco minutos depois, Milena entrou. Ela estava com o uniforme do bar, o cabelo cacheado preso em um coque que desafiava as leis da física e um sorriso que era a única coisa iluminada naquela sala. — Amiga, você não vai acreditar — ela disse, jogando as chaves na mesa. — O Paulo me deu uma gorjeta só porque eu não derramei a cerveja no colo dele quando o bar foi à loucura por causa do jogo. E você? Por que parece que foi atropelada por um bando de búfalos? — Eu quase fui presa por sonegação de centavos, Mi. E joguei uma bala de menta na fuça do cobrador de ônibus. Minha dignidade está em algum lugar naquela Avenida, provavelmente sendo pisoteada. Milena caiu na gargalhada, uma risada tão alta que o vizinho de baixo bateu no teto com uma vassoura. — Bella, você é uma comédia romântica ambulante, só falta o romance! — Ela se sentou ao meu lado e me entregou um copo de água. — E seu pai? Ligou de novo? — Oitenta e sete chamadas perdidas — suspirei, olhando para o celular no fundo da bolsa. — Ele que ligue. Isabella Andrade morreu. Agora só existe a Isabella Santos, a mulher que atira moedas e foge de cobradores de ônibus. — É assim que se fala! Amanhã é um novo dia. Quem sabe o destino não te reserva algo melhor do que servir chope para bêbado? No dia seguinte, eu estava no elevador, descendo para pegar cartas que estavam acumuladas na portaria, tentando convencer minhas olheiras de que elas não precisavam ser tão protuberantes. O espelho do elevador me devolvia a imagem de uma loira que precisava urgentemente de um café ou de um milagre. A porta abriu no quarto andar e Dona Helena entrou. Ela era a governanta de algum figurão e morava no nosso prédio. Uma mulher elegante, de cabelos brancos sempre impecáveis, que exalava cheiro de amaciante e bondade. — Bom dia, querida — ela disse, me avaliando com aqueles olhos de avó que tudo veem. — Você parece cansada. Ainda trabalhando naquele bar barulhento? — Bom dia, Dona Helena. Digamos que o bar é um estágio intensivo de paciência humana — respondi com um sorriso amarelo. — Pois saiba que eu estava pensando em você — ela disse, enquanto o elevador descia lentamente. — O meu patrão, onde trabalho como governanta está desesperado. A babá da filha dele saiu ontem, provavelmente porque não aguentou o... temperamento dele. O salário é excelente, três vezes o que você deve ganhar naquele bar, e você teria o fim de semana livre. Meus ouvidos até se mexeram. Três vezes o salário? — Babá? Eu adoro crianças, Dona Helena. Mas quem é o patrão? Ele é muito terrível? — Ah, o Dr. Rafael é um homem difícil. Reservado, exige silêncio absoluto e tem regras muito rígidas. Mas ele quase nunca para em casa. Você cuidaria da pequena Sofia, uma doçura de menina que precisa de um pouco de luz naquela casa sombria. O que me diz? — Eu digo que aceito até ser babá de um dragão se o salário for bom! — brinquei, sentindo uma pontinha de esperança. — Ótimo. Vou dar o seu contato para a secretária dele. Prepare-se, Isabella. É um emprego sério, mas pode ser a sua grande chance. Saí do elevador sentindo que as coisas finalmente iam melhorar. Mal sabia eu que o "Dr. Rafael" não era apenas um homem difícil. Ele era o dono dos olhos verdes que ainda assombravam meus sonhos.Milena— Estão aqui, Bella, as suas roupas. Pelo menos você consegue tomar um banho digno já que se recusa a pisar em casa.Pousei a bolsa de viagem sobre o sofá do quarto de hospital, soltando um suspiro longo enquanto me aproximava da cama. Ajeitei meu casaco nos ombros, olhando feio para a minha melhor amiga, que continuava sentada na poltrona ao lado de Rafael como se tivesse sido colada ali. Ela exibia olheiras fundas, mas a teimosia nos olhos azuis permanecia intocada.Rafael, recostado sobre os travesseiros com o curativo espesso no peito e o semblante cansado, olhou para mim e depois para ela.— Eu já disse para ela ir para casa descansar, Milena — a voz dele saiu baixa, rouca, mas carregada daquela autoridade natural que ele achava que ainda podia exercer. — Mas a sua amiga não me ouve.— Eu só saio daqui quando você sair, Rafael — Bella respondeu no mesmo segundo, sem nem piscar, cruzando os braços com um queixo erguido que não dava margem para discussões. — Já avisei e vou
Milena— Vai ficar aí até fechar? — perguntei, o tom de voz carregado de um sarcasmo afiado que fez o bartender ao meu lado olhar de relance.Davi ergueu os olhos do copo de uísque com uma lentidão exasperante. Ele olhou para a esquerda, para a direita, e depois apontou para o próprio peito com um semblante de genuína surpresa, como se não soubesse que era com ele que eu estava falando. Aquela cara de tonto, aquele teatro disfarçado de inocência, fez o meu sangue ferver na hora.— Eu? — ele perguntou, com a voz grave e o olhar divertido.— Sim, você! — apoiei os cotovelos no balcão de madeira escura, me aproximando o suficiente para que apenas ele me ouvisse. — Quem mais seria? Você está me encarando há quase uma hora. Perdeu alguma coisa na minha cara ou o seu escritório não tem trabalho pra fazer?Davi deu um gole calmo no uísque, saboreando o líquido antes de pousar o copo de volta no descanso de papel. A postura dele continuava impecável, relaxada no banco alto, contrastando terri
Davi Esses dias com o Rafael no hospital estavam uma loucura. A rotina virara um caos absoluto de ligações sem fim, reuniões de emergência, visitas rápidas ao quarto dele para garantir que o "Tubarão" não inventasse de tentar assinar relatórios com o braço cheio de acessos e a escolta ostensiva que nos cercava a cada segundo. O delegado Gabriel, nosso amigo de longa data, não deixou nada ao acaso. Colocou homens armados de prontidão logo na entrada do quarto de Rafael e manteve uma equipe discreta, de olho na casa e na pequena Sofia. A sensação era de estar vivendo em um campo de minado que só agora começava a ser desarmado. Clarice tinha morrido naquela noite podre na zona portuária, mas todos nós sabíamos que ela era apenas a ponta do iceberg. Ela era a face visível de uma engrenagem corrupta muito maior, financiada por figuras influentes, nomes do alto escalão e esquemas de lavagem de dinheiro que se arrastavam há anos nas sombras do judiciário. Eu estava na minha sala no escritó
IsabellaNa manhã seguinte, acordei aos poucos com o som ritmo e persistente daquele bip constante — o único ruído que quebrava o silêncio denso do quarto de hospital.Minha cabeça ainda repousava na beirada do colchão, ao lado da mão de Rafael, e meu corpo cobrava o preço do cansaço e do pavor da noite anterior. Minhas costas doíam, mas a primeira coisa que fiz ao abrir os olhos foi olhar para cima. O peito dele subia e descia devagar, em um ritmo calmo e abençoado. Ele ainda dormia o sono profundo induzido pelos sedativos.Não demorou muito para que o médico da UTI entrasse no quarto, acompanhado por duas enfermeiras. Ele passou logo pela manhã para examinar o quadro clínico de Rafael, checando os sinais vitais no monitor, a ausculta pulmonar e o estado do curativo no peito. Para o meu imenso alívio, a evolução era excelente. Diante da estabilidade e da ausência de complicações, Rafael recebeu alta da Unidade Intensiva e foi liberado para o quarto particular.A transferência foi ráp
Isabella — A cirurgia foi um sucesso. Ele está fora de perigo.As palavras do médico caíram sobre o corredor como uma benção há muito esperada. Senti minhas pernas fraquejarem instantaneamente, e se não fosse pelo braço firme de Davi me amparando e o abraço apertado de Milena, eu teria ido direto ao chão.— A bala atingiu o peito, mas por uma fração de milímetros atravessou o corpo sem perfurar nenhum órgão vital — o cirurgião continuou, limpando o suor da testa e nos oferecendo um sorriso cansado, porém humano. — Ele perdeu muito sangue e o trauma foi severo, mas o quadro é estável. O senhor Mendes é um homem forte.— Eu posso ver ele? Por favor... — perguntei antes mesmo que o médico terminasse de falar, com a voz embargada e as mãos trêmulas agarradas ao meu próprio ventre.— Ele ainda está sob o efeito da anestesia e precisa de repouso absoluto, mas... sim, você pode — o médico concordou, sensibilizado pela minha aflição. — Podem entrar por alguns instantes, mas em absoluto silên
Isabella Eu já estava esperando pelo tiro. Tinha fechado os olhos, encolhido os ombros e entregado a minha alma a Deus, rezando apenas para que o meu bebê sobrevivesse. Mas quando o estrondo avassalador rasgou o ar e senti o corpo de Clarice vacilar sobre mim, o peso do aço desapareceu da minha nuca.Abri os olhos em choque e vi a minha madrasta dar dois passos cambaleantes para trás, a expressão de choque gravada no rosto antes de tombar pesadamente contra o concreto frio. Um dos snipers da polícia, tinha agido no segundo exato em que ela apertou a mandíbula para apertar o gatilho.Senti um misto de alívio brutal e desespero puro encher os meus pulmões. Não me importava com Clarice, não me importava com o império destruído nem com as promessas de vingança. Minha mente só conseguia registrar uma única imagem: Rafael ensanguentado a um metro de mim.— Rafael! — me arrastei pelo chão de concreto, ignorando os arranhões nos joelhos e nas mãos, até alcançar o corpo dele. — Rafael, por fa







