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Capítulo 4: As Regras do Castelo de Gelo

ผู้เขียน: Isa S
last update วันที่เผยแพร่: 2026-01-20 06:15:54

Bella

O escritório de Rafael Mendes não era apenas um local de trabalho; era um monumento à frieza e ao poder. Localizado no trigésimo andar de um dos prédios mais caros da cidade, o lugar exalava um cheiro de café caro, couro novo e segredos jurídicos. Eu estava sentada em uma cadeira de design minimalista que parecia ter sido projetada para ser tudo, menos confortável, esperando ser chamada para a entrevista que poderia, finalmente, tirar meu nome do fundo do poço e devolver minha dignidade.

Eu vestia minha melhor roupa de "mulher séria e responsável": uma calça de alfaiataria preta que Milena me emprestou e uma camisa branca que passei com tanto afinco que quase fiz um buraco na gola.

— Senhorita Isabella Santos? — Uma voz feminina, precisa como um relógio suíço, me tirou dos meus devaneios sobre o preço do quilo do feijão.

Levantei-me de um salto, quase derrubando minha bolsa de lona que, graças a Deus, não tinha moedas soltas hoje.

— Sou eu.

A mulher à minha frente era a personificação da eficiência. Cabelo preso em um coque tão apertado que suas sobrancelhas pareciam permanentemente levantadas, óculos de aro fino e um tablet que ela operava como se fosse uma extensão de seu braço.

— Sou Simone, secretária executiva do Dr. Rafael. Por favor, acompanhe-me.

Caminhamos por um corredor de vidro que dava vista para toda a cidade. Eu me sentia uma formiga prestes a ser esmagada por uma bota de grife. Simone entrou em uma sala de reuniões pequena, mas luxuosa, e fez um gesto para que eu me sentasse. Ela não sorriu. Simone parecia ter sido programada para ignorar qualquer emoção humana básica.

— Dona Helena falou muito bem de você, Isabella — começou ela, os olhos fixos na tela do tablet. — Mas aqui, referências são apenas o ponto de partida. O Dr. Rafael é um homem extremamente metódico. Ele não tolera erros, atrasos ou, acima de tudo, desordem.

— Eu sou muito organizada — menti, lembrando da pilha de sapatos que Milena e eu tínhamos na entrada do nosso apartamento. — E adoro crianças. Tenho muita facilidade em criar vínculos.

Simone finalmente levantou os olhos, e o que vi foi uma mistura de pena e advertência.

— Vínculos são para a Sofia. Com o Dr. Rafael, o que esperamos é... invisibilidade.

Engoli em seco. Invisibilidade? Eu não sabia que o cargo era para super-heroína.

— Deixe-me explicar as regras, Isabella. E preste muita atenção, porque a última babá não durou uma semana por não levar isso a sério. — Ela limpou a garganta. — O horário é rigoroso: das 10h às 17h. Você chegará à residência às 10h, onde organizará os itens de Sofia. Às 11h em ponto, o motorista a levará para buscá-la na escola. O resto da tarde é dedicado às atividades educativas, almoço e lazer da criança.

— Parece perfeitamente exequível — respondi, tentando parecer profissional.

— No entanto — Simone inclinou-se para frente — há uma regra de ouro. Uma diretriz que, se quebrada, resulta em demissão imediata sem direito a conversa.

Senti um frio na espinha. Será que eu tinha que sacrificar um bode em noites de lua cheia?

— Você nunca, sob hipótese alguma, deve interferir no trabalho dos outros funcionários da casa. A governanta cuida da casa, a cozinheira da comida, o motorista do transporte. Você é a babá. Mantenha-se no seu quadrado. E a regra mais importante: você não deve cruzar o caminho do Dr. Rafael.

Pisquei, confusa.

— Como assim? Eu estarei... quer dizer, trabalhar na casa dele. Como não vou cruzá-lo?

— O Dr. Rafael é um homem de rotinas rígidas e uma privacidade quase sagrada — explicou Simone, com uma voz que parecia ler um manual de instruções. — Ele sai para o escritório antes de você chegar e, geralmente, retorna após o seu horário. Se, por acaso, ele chegar mais cedo ou precisar passar em casa, você deve levar Sofia para o quarto ou para o jardim. Ele não mistura vida pessoal com profissional. Ele não quer ouvir barulho, ele não quer ver babás nos corredores e ele não quer ser interrompido. A babá anterior foi demitida porque tentou "dar bom dia" a ele no escritório da casa enquanto ele estava em uma conferência internacional. Ele detesta interrupções. Ele detesta... pessoalismo.

— Ele parece um pouco... intenso — comentei, tentando suavizar o fato de que meu futuro patrão parecia um vilão de filme da Disney.

— Ele é o melhor advogado do país, Isabella. Ele lida com caos o dia todo. Em casa, ele exige paz e silêncio. Se você for capaz de ser uma sombra eficiente que faz a filha dele feliz, vocês se darão muito bem. Principalmente porque você nunca vai falar com ele. O salário, como Dona Helena mencionou, é de XXXX mensais, mais benefícios.

Quase caí da cadeira. Isso era mais do que eu ganharia em seis meses servindo chopes e desviando de moedas voadoras. Eu poderia pagar meu aluguel, comprar roupas novas, parar de comer macarrão instantâneo e ainda sobraria para um tratamento de canal que eu estava adiando.

— Onde eu assino? — perguntei, antes que ela mudasse de ideia.

— Aqui — disse ela, estendendo uma caneta que provavelmente custava mais que meu celular. — Você começa amanhã. O Dr. Rafael não estará em casa, como de costume. Dona Helena lhe dará as chaves e mostrará as dependências de Sofia. Lembre-se, Isabella: discrição, silêncio e distância.

Saí do escritório flutuando. Eu tinha um emprego. Um emprego de verdade, com ar-condicionado e sem cheiro de cigarro barato. Liguei para Milena assim que cheguei à calçada.

— MI! EU CONSEGUI! — gritei, ignorando os olhares dos engravatados que passavam. — Eu sou a nova babá do Dr. Abominável das Neves!

— Parabéns, amiga! — Milena gritou do outro lado. — Vamos comemorar com uma pizza! Uma daquelas que vem com borda recheada de verdade, não aquela que parece papelão!

— Pode pedir! Eu pago... quer dizer, eu pago quando receber! Mas hoje a conta é da esperança!

Naquela noite, eu não conseguia parar de sorrir. Eu olhava para as fotos de Sofia que Dona Helena tinha me enviado: uma menininha loira, de olhos verdes expressivos e um sorriso que parecia esconder uma pontinha de tristeza. Meu coração se apertou. Eu sabia o que era ser uma criança em uma casa grande e fria, cercada de regras e vazia de afeto real. Meu pai sempre foi ausente, e Clarice... bem, Clarice era a rainha do gelo original.

Eu ia cuidar daquela menina. Ia ser a melhor babá que ela já teve. E quanto ao Dr. Rafael? Bom, se ele queria ser um fantasma, por mim tudo bem. Eu já estava acostumada a lidar com homens difíceis. Meu ex era um idiota, meu pai era um omisso. Lidar com um chefe recluso seria fichinha.

— Só tem uma coisa, Mi — falei, enquanto devorávamos a pizza no nosso sofá manchado. — A regra principal é nunca, jamais, cruzar com ele. Ele é tipo um eclipse: se você olhar diretamente, sua carreira fica cega.

— Melhor assim, Bella — Milena respondeu, de boca cheia. — Homem rico e metódico é sempre problema. Faz o teu, cuida da pequena e ignora o ogro.

Eu concordei, rindo. O plano era perfeito. O que poderia dar errado? Eu estava segura na minha bolha de anonimato como Isabella Santos. O mundo era grande demais para que aquele homem do aeroporto — o único homem que realmente mexeu com cada fibra do meu ser — fosse o mesmo Dr. Rafael Mendes. As chances eram de uma em um bilhão.

Enquanto eu adormecia no meu quarto, senti um leve enjoo. Atribui à pizza de procedência duvidosa. Mal sabia eu que aquele não seria o único sintoma que eu teria nos próximos meses. E que o destino, depois de me fazer fugir de um casamento, estava me levando diretamente para o covil do leão...

Amanhã seria o meu primeiro dia. O dia em que eu entraria naquela casa sem saber que estava caminhando para o maior choque da minha vida.

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