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4 dias depois... O despertador nem precisou tocar. Meus olhos se abriram antes do amanhecer, impulsionados por uma energia que borbulhava em meu peito: hoje minha irmã mais nova, Clara, chegaria ao país. A saudade era uma presença física, uma contagem regressiva que eu fazia desde que nos despedimos no aniversário de casamento dos nossos pais. A simples ideia de abraçá-la novamente era o suficiente para me tirar da cama. Virei-me, o movimento automático de quem procura o calor de outro corpo, mas o lençol ao meu lado estava frio e intocado. O travesseiro de Pedro, perfeitamente arrumado, parecia zombar de mim. Não havia um amassado, um vinco, nenhum sinal de que ele tivesse sequer deitado ali durante a noite. Uma pontada de inquietação atravessou meu bom humor matinal. Onde ele teria ido? Peguei o celular, os dedos deslizando pela tela fria. Tentei afastar a dúvida, optando pela leveza. “Bom dia, querido! Onde está? Quando volta para casa?” Enviei a mensagem e esperei, mas nenhuma resposta veio. O silêncio digital começou a pesar. Uma pergunta incômoda começou a se formar na minha mente: será que ele esqueceu? Esqueceu que combinamos de buscar Clara juntos no aeroporto? A possibilidade era tão frustrante que decidi empurrá-la para o fundo da mente. Vou esperar mais um tempo, disse a mim mesma, depois eu ligo. Não vou começar o dia com uma briga. Decidi canalizar minha energia inquieta em algo produtivo. Fui para o banheiro, deixando a água quente do chuveiro lavar um pouco da minha tensão. Escolhi minha roupa com cuidado, querendo estar bonita para o reencontro. Enquanto me arrumava, o som agudo do celular tocando ecoou pelo quarto. Um alívio imediato me percorreu. Com certeza ele não esqueceu... Caminhei apressada até a cama, um sorriso já se formando em meus lábios. Mas, ao pegar o aparelho, o nome que brilhava na tela não era o de Pedro. Era Patrícia, minha melhor amiga. O sorriso vacilou, e a pontada de inquietação retornou, mais forte desta vez. Atendi, tentando manter a voz firme. — Oi, amiga, bom dia! — Bom dia, amiga! Já está pronta? Quer que eu passe na sua casa para te buscar? — Não precisa. Combinei de ir de carro com o Pedro. Nos encontramos no aeroporto, ok? — Ok. Até daqui a pouco, beijos. — Até! Beijos. Continuei me arrumando no automático, os movimentos rápidos e mecânicos. Precisava ver meu filho. Fui até o quarto dele, mas o encontrei vazio, a cama perfeitamente arrumada. Provavelmente Jessica já o tinha levado para o café da manhã. Respirei fundo e segui para o andar de baixo. Foi então que, do topo da escada, a cena se desenrolou diante de mim. O som de risadas infantis me fez parar. Meu olhar desceu e encontrou Pedro, sentado no tapete da sala, completamente imerso em uma brincadeira com Benjamin. Jessica estava ao lado, sorrindo, participando do momento. A voz grave de Pedro se misturava com a gargalhada de Benjamin, criando uma melodia que eu não ouvia há muito tempo. Uma parte de mim sentiu o coração aquecer com a imagem daquele pai dedicado. Mas outra parte, a que se sentia ignorada, sentiu uma ferroada de ressentimento. Ele não dormiu em casa, não respondeu minha mensagem, mas estava ali, agindo como se nada estivesse errado. Forcei meus pés a se moverem e continuei a descer. No instante em que pisei no último degrau, Benjamin se virou. — Mamãe! O grito foi pura alegria. Ele correu em minha direção com os bracinhos abertos. Agachei-me e o apartei em meus braços, o impacto de seu abraço sendo a única coisa real e sólida naquele momento. — Bom dia, meu amor! Você dormiu bem? — Sim, mamãe. — Ele respondeu e depois me perguntou com um lindo sorriso — Você quer brincar comigo um pouquinho? — Claro que quero, meu amor, mas espera eu tomar café primeiro. Ainda com o calor do abraço dele, levantei o olhar e tentei manter a voz leve. — Bom dia, querido! Bom dia, Jessica! — Bom dia, senhora. — Jessica respondeu — Bom dia — a voz de Pedro foi neutra. Ele se levantou e se acomodou no sofá, o celular já em sua mão. Sem desviar os olhos da tela, ele disse: — Vai tomar seu café para irmos. A frase soou como uma ordem. — Você já comeu? — perguntei, uma última tentativa. — Sim, comi mais cedo com o Benja e a Jessica. A resposta confirmou o que eu temia: o momento matinal em família tinha acontecido sem mim. Caminhei em direção à sala de jantar, a fome já desaparecida. A ideia de comer sozinha me trouxe uma tristeza aguda. Foi quando Susi, a filha da governanta, apareceu. — Bom dia, tia Isa. Quer que eu me sente com você para tomar café? A gentileza dela foi um bálsamo. — Claro! Pode se juntar a mim. Comemos juntas, ou melhor, eu comi enquanto ela me fazia companhia, ela mal tocou na comida, provavelmente já devia ter tomado café antes. Quando terminei, retornei à sala. A cena que encontrei fez meu estômago afundar. Pedro continuava no sofá, absorto no celular. Ao lado dele, perto demais, Jessica falava com ele em voz baixa. E no chão, Benjamin agora brincava sozinho, em silêncio. — Jessica, pode ir arrumar uma bolsa para eu levar o Benja para sair, por favor. — Claro, senhora. Por acaso, posso saber onde a senhora vai levar ele? A pergunta, a intimidade casual deles... A irritação que eu vinha reprimindo transbordou. — Não. Você não pode! Minha voz saiu firme e cortante. O silêncio que se seguiu foi pesado. Jessica se encolheu. — Desculpa, senhora! Só queria saber o que colocar na bolsa. Ela praticamente fugiu, subindo as escadas, como se fosse uma criança assustada que tinha sido acabado de ser repreendida. Senti o olhar crítico de Pedro sobre mim. — Precisava falar assim com a menina? — ele questionou. — Menina? Ela já tem vinte anos, Pedro. Devia saber se portar. Ela é a babá, não eu. Ele desviou o olhar, contrariado. — Certo... Aproveitando que estamos falando dela, ela me pediu para estagiar na empresa. Pode aceitar ela como sua estagiária? Ela faz arquitetura. — Já tenho duas estagiárias, não preciso de mais uma. Pode ver com um dos outros arquitetos. — A resignação pesou em minha voz. — Tudo bem. — Ele se levantou, já se movendo em direção à saída — Como você tem um compromisso agora pela manhã, já vou indo para a empresa. Nos vemos mais tarde. E foi isso. Ele saiu. Ele esqueceu. Esqueceu completamente do nosso combinado. A frustração se transformou em ação. Saí apressada atrás dele. — PEDRO! Espere. Ele já estava no carro. O vidro deslizou para baixo, revelando seu rosto impaciente. — O que foi? — Lembra que combinamos de ir buscar minha irmã no aeroporto juntos?... Ele abriu a boca para responder, mas seu telefone tocou. — Desculpa, mas tenho que atender! Fiquei ali, esperando, enquanto ele falava ao telefone. Foram três minutos que pareceram uma eternidade. Permaneci de pé ao lado do carro, observando-o gesticular, a testa franzida em concentração. Ele estava em seu mundo, e eu era apenas um detalhe inconveniente na paisagem. Assim que desligou, o olhar voltou para mim, mas já estava distante, focado no problema que acabara de surgir. — Apareceu um problema no projeto do país Z, preciso ir para a empresa agora. Até mais tarde. — Certo. — Foi tudo o que consegui dizer. A palavra saiu vazia, desprovida de qualquer sentimento. Logo após, o carro se afastou, ganhando velocidade. Fiquei parada exatamente no mesmo lugar, observando o veículo se distanciar até se tornar um ponto e desaparecer. O pensamento que me consumia era avassalador: ele nem se importou. Não se desculpou, não fez a menor questão de responder à minha pergunta. Era como se nossa conversa nunca tivesse acontecido. Voltei para dentro, movida por uma determinação fria. Peguei minhas coisas, a bolsa de Benjamin, e dirigi para longe daquela casa, daquela indiferença, em direção ao aeroporto. Chegando lá, avistei Paty de longe. O sorriso acolhedor da minha amiga, com seus cabelos cacheados e olhos expressivos, foi um pingo de alívio. — Madrinha! — Benja correu em direção a ela. — Ai, madrinha... Você está me apertando. — Desculpa! É que você é um neném tão fofo. — Eu não sou neném. Eu já cresci. Começamos a rir e eu a cumprimentei. — O voo está atrasado. Talvez demore uma hora. — Ok. — Respondi — Amiga, cadê o cunhado? — Ele teve um assunto urgente na empresa e não pôde vir. — Eu estava começando a ficar boa nessas mentiras. — Entendi. Bom, como vamos ter que esperar, é melhor procurarmos um lugar para nos sentarmos.(Oscar) Um ano desde que a vi caminhar em minha direção, em um vestido que parecia feito de luz do sol, na vinícola de sua família. Um ano desde que prometi, diante de todos que amamos, dedicar minha vida a ela e ao nosso filho. E, esta noite, olhando para a casa que ela projetou, sinto que a promessa se renova a cada pôr do sol. A casa no topo da colina era mais do que uma estrutura de vidro, madeira e pedra, era o nosso lar. Projetada por Isabella, cada linha, cada janela panorâmica, cada ambiente era um reflexo da nossa história. Da ampla sala de estar, a vista do pôr do sol era espetacular, pintando o céu com os mesmos tons de laranja e coral das flores que um dia lhe dei, uma lembrança poética do início de tudo, que me faz sorrir sempre que a vejo. Observo Isabella, agora, concentrada em um esboço, e meu peito se enche de um orgulho que mal consigo conter. A carreira dela decolou. Seu escritório, agora com uma pequena e dedicada equipe, é um dos mais requisitados da cidade.
(Isabella) Três meses. Fazia três meses que eu estava me preparando para deixar de ser Isabella Andrade para me tornar Isabella Almonte, e a paz que eu sentia naquele dia ainda parecia tão vívida quanto a luz do sol que entrava pela janela do nosso quarto esta manhã. Fechei os olhos por um instante, aquele dia, nítido e perfeito. O sol do país Y derramava uma luz dourada e suave sobre os jardins da vinícola da minha família. O lugar, que guardava tantas memórias da minha infância, havia se transformado em um cenário de conto de fadas. Enquanto eu caminhava em direção ao altar, sentia o tecido do vestido que eu mesma desenhei fluir a cada passo, movendo-se como uma extensão da minha própria felicidade reencontrada. Eu não estava apenas deslumbrante; pela primeira vez em anos, eu estava em paz. Ao meu lado, Oscar me esperava. O sorriso em seu rosto não era apenas de alegria, mas de uma profunda reverência que fazia meu coração transbordar. Em seu terno de linho claro, ele parecia
A fúria que impulsionou Oscar do escritório de seu pai até o prédio de Isabella se transformou em uma ansiedade desesperada durante o trajeto. Cada semáforo vermelho era uma tortura, cada carro lento em seu caminho, um obstáculo para o que mais importava no mundo. Ele não estava mais pensando em negócios, em impérios ou em legados. Estava pensando nela. Na dor que ele, indiretamente, causou. Na mentira que ela foi forçada a contar. No amor que ele quase perdeu. Ele parou o carro de qualquer jeito em frente ao prédio, sem se importar com a vaga. Não anunciou sua chegada. Apenas entrou, o coração martelando contra as costelas, e torceu para que o porteiro, que já o reconhecia, o deixasse subir. No apartamento, o clima era de uma calma melancólica. Clara e Patrícia tentavam animar Isabella, que estava sentada no sofá, o olhar perdido, uma taça de vinho intocada na mesinha de centro. A campainha tocou, estridente, quebrando o silêncio. — Ué, está esperando alguém? — perguntou Pat
(Oscar) A imagem de Isabella, de joelhos, chorando em meio a cacos de vidro, se recusava a sair da minha mente. A dor que Pedro descreveu era tão vívida que eu podia senti-la como se fosse minha. Meu pai. Aquele desgraçado. Ele não apenas a ameaçou; ele a quebrou. Saí da sala privativa enfurecido, Rafael e Gabriel em meu encalço. Eu não via nada, não ouvia nada além do sangue pulsando, e em meus ouvidos o nome do meu pai ecoando como uma maldição. O caminho para o escritório do meu pai foi de uma fúria silenciosa. Cada passo que eu dava no mármore polido do lobby era uma batida surda de raiva contida. Rafael caminhava ao meu lado, o rosto sério, uma solidariedade silenciosa que valia mais do que mil palavras. A revelação de Pedro não tinha apenas me chocado, tinha acendido um pavio que queimava em direção a décadas de pressão, de expectativas, da constante sensação de ser uma peça no tabuleiro de xadrez do meu pai, e não um filho. Não bati na porta do escritório dele. Apen
(Pedro) Essas duas palavras eram como pequenas agulhas sendo enfiadas no meu peito... "Tio Oscar". Virei-me e olhei para onde ele apontava. E lá estava ele. Oscar Almonte, flanqueado por seu irmão e primo, sendo conduzido por um maître em direção a uma área de salas privativas. Ele não parecia o mesmo homem da festa. Havia uma sombra em seu rosto, uma ausência daquele brilho arrogante e confiante. Parecia... Triste, derrotado. — Tio Oscar! — gritou Benjamin, a voz aguda ecoando no lobby. Mas o trio não ouviu. Eles desapareceram atrás de uma porta de madeira escura. O rosto de Benjamin se encheu de uma decepção genuína. — Ele não me ouviu, papai. — Ele devia estar ocupado, filho — disse eu, tentando guiar o grupo para a mesa, sentindo uma estranha e indesejada pontada de algo. Enquanto caminhávamos, Benjamin puxou a manga da minha camisa e se aproximou, como se fosse contar um grande segredo. — Papai... — sussurrou ele, a voz infantil cheia de uma seriedade que não c
(Pedro) A manhã de terça-feira começou como qualquer outra. Reuniões, telefonemas, a pressão constante de gerenciar um império. Eu estava no meio de uma análise de projeções financeiras, os números se embaralhando na minha frente, quando uma sensação estranha começou a se instalar. Um vazio. Uma ansiedade que não tinha nada a ver com as planilhas ou os contratos. Era a ausência de barulho. A ausência do som de pezinhos correndo pelo corredor, de uma risada infantil interrompendo uma ligação importante. A ausência de do meu filho, Benjamin. Larguei a caneta e me recostei na cadeira, olhando pela janela do meu escritório sem realmente ver a cidade. Desde o divórcio, os dias em que Benja não estava comigo eram mais silenciosos, mais longos. E naquela manhã, o silêncio estava particularmente ensurdecedor. Peguei o celular, movido por um impulso que era mais forte que qualquer lógica de negócios. A desculpa era o almoço, mas a necessidade era minha. Eu precisava de algo real,







