Share

Girassóis

Author: Sah Flor
last update publish date: 2021-11-03 22:29:28

― E agora? O que eu vou fazer? Como vamos pagar as dívidas? Vamos perder a casa... vamos ficar na rua!

― Você nos colocou nessa, Joseph, quando se enfiou no vício do jogo, arriscando o futuro dos nossos filhos! Já não temos mais nada. Você perdeu quase tudo o que tínhamos. Levou nossa família à ruína!

― Como ousa falar assim comigo, Norma?

― Ouso da mesma forma que você ousou jogar e perder todo o nosso patrimônio! Nossas terras, nosso apartamento... tudo o que lutamos tanto para conquistar! Anos de trabalho jogados fora por causa de algumas noites suas no vício!

― Chega!!! Não quero mais ouvir seus sermões. Tenho que pensar em algo... ― ele passa a mão pelos cabelos, inquieto. ― Já sei. É isso! A única forma de nos livrarmos dessas dívidas é apressando o casamento da Lyz.

― Como é? Eu ouvi bem? Pai, o senhor acha que eu sou uma moeda de troca?!

― Não, minha querida, não é isso...

― Pois foi exatamente o que eu entendi.

― Você não é isso, minha filha. Você é o meu anjo. Mas todos devemos concordar que seu casamento com Oliver será vantajoso para nós.

― Mãe, você está ouvindo o mesmo que eu?

― Sim, querida. Estou ouvindo... e sinto muito que você tenha de escutar esse absurdo do seu pai.

― Ah, Norma, não seja hipócrita. Todos nós sabemos que esse casamento será vantajoso sim. O Oliver é rico, poderoso e apaixonado. Fará tudo o que ela pedir. Lyz, como esposa, pode usar isso a nosso favor — ajudar os pais, a família.

― Meu Deus... como o senhor pode falar isso de mim, pai? Eu estou sem palavras. Nunca pensei que ouviria algo assim do senhor. Preciso sair daqui... eu estou sem condições. Suas palavras me causam náuseas.

― Lyz, espere, minha filha!

― Eu vou ficar bem, mãe. Só preciso caminhar um pouco... respirar. Preciso ficar sozinha.

....

Elizabeth

Preciso caminhar e arejar minhas ideias. Doeu ouvir meu pai falar daquela forma. Ele sempre foi um homem duro, firme, mas eu nunca imaginei que tivesse intenções de praticamente vender a própria filha. É horrível pensar nisso. Pensar que meu pai seria capaz de fazer algo assim por dinheiro... Não o reconheço mais. Talvez seja o desespero das dívidas, mas nada justifica. Nada.

...

Lyz subiu em sua bicicleta, amarrou o cabelo com um pequeno laço de cetim e seguiu seu caminho. Andar de bicicleta a acalmava, fazia com que ela refletisse. Sentir o vento refrescar seu rosto suado lhe trazia uma sensação de liberdade e paz, como se nada mais ao redor importasse.

Enquanto pedalava pelas ruas de Ametyville, percebia alguns olhares curiosos a seguindo. Afinal, era uma cidade pequena; difícil alguém não saber o que acontecia com os Wilhans, uma família outrora influente e poderosa. Todos ali se conheciam desde sempre, e os comentários eram inevitáveis. Mas Lyz nunca se importou e não seria agora que iria se importar.

Pedalou sem olhar para os lados, sem ouvir ou pensar em nada, apenas seguiu sem rumo até chegar ao limite da cidade. Um rio enorme dividia Ametyville da cidade vizinha, cortado por uma longa ponte de ferro com uns quinze metros de comprimento, que ajudava os moradores na travessia.

O sol ardia sobre sua cabeça, mas um vento leve refrescava seu rosto. À esquerda da estrada, antes do limite da cidade, havia uma grande plantação de girassóis, suas flores preferidas.

Ela parou admirada diante daquele campo dourado, deixou a bicicleta encostada na estrada e entrou entre as flores. No meio da plantação, notou um espaço onde haviam cortado alguns girassóis recentemente. Sentou-se no chão, entre capins e flores secas, e apanhou um punhado de sementes espalhadas ali. Sorriu, encantada. Ficou por alguns instantes observando o céu azul e silencioso.

Algum tempo depois, ouviu passos se aproximando. Em um pulo, ficou de pé.

Levou a mão ao peito, seu coração disparava. Sentiu o rosto aquecer e o sangue pulsar forte nas veias. O vento soprou e fez seus cabelos esvoaçarem, lançando para longe a pequena fita vermelha de cetim que os prendia.

Então, uma silhueta masculina surgiu entre os girassóis, vindo na mesma direção por onde ela entrara.

― Mocinha, você está em uma propriedade particular. Sabia disso?

Ela hesitou, sem saber o que responder. Estava extasiada... e assustada. Suas pernas pareciam petrificadas. Se precisasse correr ou gritar, não conseguiria.

― O gato comeu sua língua? ― o homem perguntou, sério.

― Senhor, eu... eu... ― sua voz saiu trêmula, quase num sussurro. ― Me desculpe, eu não queria invadir...

O olhar dele era frio, mas, ao mesmo tempo, havia algo de sedutor. Ele se aproximou lentamente, segurando um bastão.

Lyz fechou os olhos, assustada.

― Deveria olhar onde se senta da próxima vez, moça. Sorte sua eu estar por perto... ou você já era ― disse ele, mostrando uma víbora que se contorcia perto de onde ela estivera sentada.

O coração dela quase saltou pela boca.

― Obrigada! Se o senhor não estivesse aqui, eu não sei o que poderia ter acontecido. ― Ela o agradeceu, ainda ofegante.

Os dois estavam tão próximos que Lyz pôde ver, com nitidez, os olhos dele, negros e acinzentados ...fixos nos seus. Um arrepio percorreu sua espinha. O perfume intenso e marcante dele a envolveu, deixando-a quase hipnotizada.

― Me chame de Eduardo. Não sou tão velho assim ― disse ele, levemente irritado.

― Como quiser, senhor... digo, Eduardo ― ela corrigiu-se, envergonhada. ― A propósito, parabéns pela vitória no festival.

― Obrigado. Me empenhei muito para isso ― respondeu, com um leve sorriso.

Havia algo misterioso em seu olhar. Sua voz firme e grave a deixava abalada, e ela se repreendeu em pensamento:

"Acorda, Elizabeth!"

― Então, eu já vou indo... me desculpe novamente por invadir sua propriedade.

Ele apenas assentiu, em silêncio.

Quando ela deu um passo para sair, tropeçou numa palha seca, a tira de sua sandália havia se enroscado. Eduardo a amparou rapidamente. Suas mãos fortes e firmes seguraram seus braços, e Lyz estremeceu ao sentir o toque.

Por alguns segundos, o mundo pareceu parar. Seus olhares se cruzaram, e ela conseguiu ver, por um breve instante, doçura naqueles olhos antes tão frios.

― Elizabeth!!!

O clima foi quebrado pela voz furiosa de Oliver, que se aproximava aos berros.

― O que está acontecendo aqui?!

― Oliver! ― ela exclamou, assustada.

Eduardo soltou o braço dela de imediato, o semblante voltando a se fechar.

― Oliver, esse senhor... digo, esse é o Eduardo. Ele salvou minha vida agora há pouco ― Lyz tentou explicar, mas o noivo a olhava com fúria e desconfiança. ― Eu estava pedalando, cheguei aqui por engano... havia uma cobra e ele a matou. Eu já estava indo embora, juro.

Eduardo observava tudo em silêncio.

― Você invadiu essa propriedade, Lyz? ― Oliver perguntou, seco.

― Sim, mas já pedi desculpas a ele ― respondeu, nervosa.

― Meu nome é Oliver, noivo dela ― frisou, estendendo a mão a Eduardo.

O homem demorou alguns segundos, mas enfim correspondeu ao aperto.

― Eduardo Gonçalez.

― Agradeço e peço desculpas pelo inconveniente que minha noiva causou ― disse Oliver.

― Tudo bem. Mas peço que saiam da minha propriedade ― respondeu Eduardo, firme.

― Sim, claro. Já estamos indo. E obrigado novamente.

Oliver segurou a mão de Lyz e praticamente a arrastou para fora dali.

Ela, porém, não resistiu e olhou para trás uma última vez. Eduardo ainda estava ali, observando-os ir embora com um olhar penetrante, um olhar que parecia a devorar.

Ele fez um leve aceno com a cabeça, virou-se e seguiu seu caminho.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • O Diário de Elizabeth    Querido Diário

    3 anos depois...Querido DiárioHoje será um dia maravilhoso,pois minha família está toda reunida para o casamento de Jonh e Lya.Nossa casa irradia paz, irradia felicidade, irradia vida.Claro, na medida do possível, pois são muitas pessoas morando aqui, e todas juntas assim no mesmo espaço, é lógico que surgem desentendimentos....Meu pai e minha mãe se mudaram pra cá.Quem diria né?Gonçalez e Wilhans morando sobre o mesmo teto.Quando eu paro pra pensar nisso, sinto meu sorriso se alargar, é algo inacreditável.Meus pais não poderiam morar sozinhos naquela casa, ainda mais depois do que aconteceu com seu Joseph. Aqui temos mais estrutura e mais acompanhamento e ele está junto dos netos, o que o ajuda muito em sua recuperação. Meu pai não anda igual antigamente, mas seu progresso é surpreendente, ele consegue se locomover por todos os lados com a ajuda de uma bengala.Meu pai e Eduardo são inseparáveis, mas de vez em quando surgem desentendimento entre eles, mas logo voltam a se f

  • O Diário de Elizabeth    Entre o coração e a Espada (PARTE 3)

    Pov Jonh Peguei meu carro onde o havia deixado antes de ir junto com Oliver ajudar Eduardo, e fui em casa. Dona Inês estava a minha espera ansiosa. Ela não conseguia acreditar na traição de Joaquim, ninguém conseguia acreditar....Entrei no quarto, minha mãe estava com ela, coloquei a bolsa com os pertences dela e da bebê na mesinha ao lado da cama, e abracei minha irmã e mãe, e logo peguei minha sobrinha no colo.―Como você está minha irmã?―Estou bem John, obrigado por vocês estarem ao lado de Eduardo,―Era o mínimo que podíamos fazer. O Oliver foi de muita ajuda.―Eu sei.―Ah minha querida que susto você nos deu.―Eu estou bem dona Inês, eu e o bebê, Lyz diz passando a mão no ventre.Dona Inês levou a mão na boca que estava aberta com tal notícia.―Meu anjo, que notícia maravilhosa.Elas conversavam enquanto eu ninava minha sobrinha.Logo ouvimos batidas na porta, era Eduardo e Ella, que estava com os olhos vermelhos e olhar extremamente abatido.Eles entraram e Ella foi até Lyz

  • O Diário de Elizabeth    Entre o coração e a Espada ( PARTE 2)

    alguns minutos depois...―Venha Eduardo, pode entrar.Entrei na sala de interrogatório, sentei na cadeira fria e cinzenta e logo trouxeram Joaquim.―Ah, você!? O que quer?Ele me diz com desdenho revirando os olhos,―Como você pode? Eu não consigo entender.―Não começa vai, não estou com saco pra isso.―Desde o começo foi mentira? Você era meu irmão Joaquim,―Não, eu não era. Eu era apenas seu empregado.―Não. Não mesmo, você está errado. Eu o tratei como um amigo, como meu irmão, e eu tenho consciência disso. Você foi meu apoio quando meu pai morreu, quando Catarina morreu.―Porque eu também estava sofrendo, ele diz socando a mesa―Eu a amava, e você a tirou de mim.―Eu não a tirei de você. Ela me escolheu e você aceitou ser o segundo plano dela.Ele me olha com fúria e se cala.―Você podia ter agido como homem e me dito,nem que nossa amizade ficasse balançada, mas podia ter dito a verdade. Não deixando que o ódio te dominasse.Sabe...eu sei como é estar no seu lugar, pois eu já esti

  • O Diário de Elizabeth    Entre o coração e a Espada

    EduardoMe levantei com a ajuda de Matthew e Jonh. Oliver se aproximou,já com Amellíe calma em seus braços e entregou-a mim, eu apenas agradeci com o olhar.Uma paramédica entrou logo em seguida e pediu para que eu entregasse a menina,―Não, eu mesmo vou levar minha filha, respondi.―Mas senhor, precisamos verificá-la, ver sua nutrição e tudo mais,Prendi a pequena em meu peito e neguei novamente. Matthew olhou para ela e fez sinal que estava tudo bem.―Como o senhor desejar então, ela disse e saiu.Saímos da casa e olhei a minha volta e havia um cenário de um filme policial.Samantha dentro de uma viatura aos prantos e Joaquim sendo quase que arrastado pelos policias com o rosto bem machucado. Entreguei imediatamente minha filha a John e corri até Joaquim.Minha fúria foi imensa, que ninguém podia me segurar. Agarrei-o pelo colarinho quase que rasgando sua camisa,―Se acontecer alguma coisa com Elizabeth, eu vou até o inferno te procurar. Serei preso com gosto por dar fim a vida de

  • O Diário de Elizabeth    Revelações

    Pov Elizabeth...―Como você foi capaz? Eduardo perguntou,―Da mesma forma que você foi capaz de tirar tudo de mim...Eu e Eduardo cruzamos nosso olhares confusos, sem entender o que se passava.―Você me tirou Catarina, tirou meu filho de mim.E depois Lyz apareceu e você a conquistou antes de mim, e a teve em seus braços. Ela era pra ser minha! minha ouviu? Mas você também tirou essa oportunidade de alguém me amar novamente.―Do que você está falando? Perguntei,―Eu nunca te dei nenhuma esperança. Sempre fui respeitosa com você Joaquim, sempre o tratei como uma amigo, um irmão.Ele sorriu com os olhos lacrimejando e se aproximou de mim. Passou o polegar em meu rosto me deixando enojada,―Não toque nela, saia de perto dela seu maldito, ou eu mesmo vou te matar, esbravejou Eduardo,Ele apenas bufou revirando os olhos, puxou uma cadeira e se sentou em frente à Eduardo.―Você lembra como conheceu Catarina?Eduardo não respondeu, apenas o olhou com ódio enquanto eu estava em pânico aos pran

  • O Diário de Elizabeth    Traição parte 2

    ...Está amanhecendo e eu estou aqui sentado no escritório em minha poltrona de frente para a sacada olhando o sol nascer. Tentando aceitar o fato de que minha filha e minha mulher estão nas mãos de uma louca, e que se tudo não acontecer conforme o planejado, isso não acabará bem.Andei de um lado para o outro praticamente a madrugada inteira, estou cansado, exausto e ansioso.―Filho..., minha mãe entrou no escritório com uma bandeja de café,―Alguma notícia?―Ainda não mãe...Matthew me falou o que eu tinha que fazer para conseguir identificar o número. Baixei o tal aplicativo que ele me indicou e descobri o número. Enviei a ele, e ele ficou de me retornar assim que descobrir a localização.―Tome um café querido, você precisa ficar forte. Se ficar sem comer, ficará fraco e doente, como irá trazer minha neta

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status