Share

O Fim Da Realidade
O Fim Da Realidade
Author: Dimond

O Esquecido

Author: Dimond
last update publish date: 2025-06-16 19:40:10

Era primavera em Kanagawa, e as pétalas de cerejeira dançavam ao vento como se o mundo estivesse em perfeita harmonia. Para Haruki Nakamura, então com apenas três anos, tudo realmente parecia estar certo. Seu mundo se resumia ao carinho dos pais, ao cheiro do arroz recém-cozido, às noites em que se aninhava entre os dois ouvindo histórias sobre raposas e dragões.

Seus pais, Takashi e Emiko Nakamura, eram exemplos típicos de um casal de classe média japonesa: ele, engenheiro civil respeitado numa construtora local; ela, professora do jardim de infância, conhecida pelo sorriso doce e a voz suave. Tinham uma casa modesta, mas aconchegante, com um jardim de bonsais e uma varanda onde Emiko cultivava hortênsias em vasos de cerâmica pintados à mão.

Haruki cresceu cercado por amor. Era comum vê-lo andando de bicicleta com o pai aos domingos ou ajudando a mãe a preparar onigiris na cozinha enquanto ela ria das tentativas desajeitadas do menino em moldar o arroz. Os dois olhavam para Haruki como o centro do universo — e por muito tempo, ele acreditou ser.

Mas então, tudo mudou.

Em um outono pálido, quando Haruki completou cinco anos, Emiko apareceu no corredor com um sorriso hesitante, segurando um pequeno exame de ultrassom contra o peito. Ela estava grávida. Haruki não entendeu completamente o que aquilo significava, apenas soube, a partir dali, que algo se alterava no ar — um silêncio diferente, olhares mais distantes, menos tempo para ele.

A bebê nasceu antes do previsto, três meses depois, com sérios problemas respiratórios e imunidade quase nula. O hospital virou a segunda casa dos Nakamura. A menina foi chamada de Yui, e Haruki logo aprendeu que aquele nome significaria “prioridade” por muitos anos.

Takashi, que antes ensinava Haruki a montar maquetes e lhe contava histórias de heróis antigos, agora mal o notava. Emiko já não ria com as tentativas de onigiris. Ela se tornara uma sombra ansiosa, com olheiras fundas, sempre ao lado do berço da pequena, cercada por aparelhos e tubos de oxigênio.

“Ela precisa de nós agora”, diziam.

E Haruki entendia. No início.

Mas os anos passaram, e o que parecia ser uma fase virou permanência. Quando Yui fez três anos e começou a andar, mesmo fraca, era como se a casa celebrasse um milagre a cada passo. Se caía, era a braveza de Haruki por deixá-la sozinha. Se chorava, era porque ele a olhara com “rancor”. Se dizia que ela o havia batido, mentia.

Aos poucos, Haruki foi desaparecendo.

Quando trouxe seu primeiro boletim exemplar com notas máximas em todas as matérias, Emiko mal levantou os olhos do termômetro com que monitorava Yui. Takashi resmungou um “muito bem” sem emoção enquanto ajeitava o inalador da filha. No dia do festival escolar, Haruki se apresentou sozinho no palco, olhando a plateia em vão por um par de olhos familiares. Eles não vieram. “Yui teve febre”, disseram depois.

Foi naquela noite que sentiu algo quebrar dentro do peito.

Os anos seguintes foram cruéis em sua simplicidade: todos os dias iguais. A cada conquista sua, silêncio. A cada pequeno erro, punição. Yui crescia cada vez mais mimada, ardilosa — e mesmo com sua saúde mais estável, agia como um imperador intocável. Ela gritava com a empregada, rasgava cadernos, escondia objetos do irmão e depois apontava o dedo dizendo: “Foi o Haruki.”

E os pais acreditavam.

A primeira vez que Takashi levantou a mão contra ele foi quando Yui empurrou uma colega da escola e disse que Haruki mandou. A menina tinha oito anos. Haruki tinha onze.

“Desgraçado, está estragando sua irmã!”, gritou o pai, o rosto vermelho de raiva, como se já não visse o filho diante de si, mas um inimigo.

A mão foi forte, a palma ardida. E Emiko não impediu. Nem depois, quando ele chorou sozinho no quarto, nem quando sangrou do lábio cortado. Ela apenas disse, fria: “Você precisa aprender a cuidar da sua irmã, não a colocar contra o mundo.”

Agora, aos dezessete anos, Haruki não esperava mais amor.

Naquela manhã chuvosa de março, ele se vestiu em silêncio, a farda colegial impecável como sempre. Seus cabelos pretos e lisos caíam sobre os olhos cansados, e o uniforme ocultava os ombros cada vez mais rígidos pela tensão constante. No café da manhã, o pai lia o jornal, a mãe alimentava Yui com frutas picadas, elogiando cada mordida como se ela tivesse escalado o Monte Fuji.

— Bom dia — murmurou ele.

Silêncio.

Yui o olhou com desdém. Estava com quatorze agora, uma beleza precoce e perigosa, o olhar malicioso de quem sabe o poder que detém. Ela sorriu de canto, pegou uma uva e jogou no chão.

— Haruki, pega pra mim — ordenou.

Ele a encarou. Pela primeira vez em muito tempo, não obedeceu.

Emiko o olhou como se ele tivesse cuspido blasfêmias.

— Por que está parado? Está ignorando sua irmã?

— Ela tem mãos — respondeu, a voz baixa, mas firme.

O jornal baixou. Takashi levantou os olhos, lentamente.

— Que tipo de tom é esse? Está se achando melhor do que ela agora?

— Não me acho nada. Só queria que me tratassem como um ser humano de vez em quando.

A atmosfera congelou.

Yui fez um som falso de choro, levando as mãos ao rosto como se tivesse sido ferida. A encenação perfeita.

Takashi levantou-se com a lentidão ameaçadora de um trem prestes a descarrilar.

— Você não fala assim com sua mãe. Nem com a sua irmã, entendeu?

E antes que Haruki pudesse responder, o pai já o empurrava com força contra a parede. Um prato caiu da mesa e estilhaçou. Emiko gritou, mas não de horror. De raiva.

— Está vendo o que você causa, Haruki?! Sempre foi você! — berrou ela, os olhos inflamados.

Naquele momento, Haruki sentiu o peito arder, mas não de dor física — disso ele já estava cheio. Era um vazio, uma certeza surda de que naquele lar, não havia lugar para ele.

Saiu batendo a porta. A chuva o acolheu como uma mãe ausente.

A cada passo pelas ruas molhadas, o peso de anos de abandono, dor, humilhação e solidão acumulavam-se nos ombros do jovem. Olhos que não brilhavam mais, um coração que batia apenas por hábito. Havia aprendido a sorrir sozinho, a se esconder no telhado da escola e fingir que tudo estava bem. A ouvir música alta no fone e imaginar que sua vida era outra.

Mas ali, sob a chuva fria de Kanagawa, Haruki percebeu: ele estava à beira do abismo.

Não por fraqueza. Mas porque tudo o que o fazia humano havia sido arrancado lentamente, sob os olhos cegos dos que juraram amá-lo.

E aquele era só o começo.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • O Fim Da Realidade   Quando o Mundo Grita

    onvencer toda a gente de que estava bem, mesmo quando o próprio corpo parecia prestes a desmenti-lo.No início, achei que fosse apenas desconforto. O Mercado Aquático era barulhento, cheio de gente, criaturas e coisas que eu não sabia sequer como descrever. Havia vendedores a gritar preços, crianças a correr entre as bancas, água a circular por canais suspensos e objetos de metal a bater uns nos outros. Até eu precisava de prestar atenção para não perder o fio de uma conversa.Para Haruki, porém, parecia ser diferente.Ele caminhava atrás de mim, olhando para todos os lados. De vez em quando, o olhar parava numa banca ou acompanhava o movimento de alguma criatura. Parecia curioso. Quase distraído.Então comecei a reparar nos pequenos sinais.A mandíbula apertada.Os olhos que nunca permaneciam muito tempo no mesmo lugar.Os dedos que se fechavam e abriam sem motivo aparente.E o silêncio.Haruki conseguia ficar calado durante muito tempo, mas aquele silêncio não era o habitual. Não er

  • O Fim Da Realidade   Dez Vezes Mais

    O mercado começou antes que eu estivesse preparado para ele.Atravessei a entrada atrás de Kaito e, por alguns segundos, fiquei demasiado ocupado a olhar para tudo para me preocupar com os sons.Havia construções de pedra escura atravessadas por veios cristalinos. Pequenas pontes ligavam plataformas de diferentes alturas, enquanto canais de água percorriam o chão entre bancas, escadarias e lojas abertas. Acima de nós, uma extensão de água permanecia suspensa como um céu líquido, refletindo luzes que não consegui identificar.Criaturas de formas muito diferentes ocupavam as ruas. Algumas caminhavam sobre duas pernas; outras deslocavam-se com membros que eu não saberia nomear. Vi uma criatura coberta de pequenas folhas a discutir com um vendedor, duas figuras de pele translúcida a carregar uma caixa e uma criança com barbatanas a correr atrás de alguma coisa que parecia uma bola feita de luz.Era um lugar vivo.E fazia barulho.Muito barulho.— Não te afastes — disse Kaito, olhando para

  • O Fim Da Realidade   Bem Vindos Ao Mercado Aquático

    A água começou a se mover.Ninguém falou.Eu estava de pé na margem, olhando para o centro do lago.Kaito estava ao meu lado.Ren tinha ficado alguns passos atrás. Maya, Kenichi, Kiko e o soldado estavam espalhados pelo acampamento, todos atentos à água.Aika segurava a roupa de Kaito.— Vai sair alguma coisa? — perguntou.Kaito olhou para o lago.— Espero que não.Fechei os olhos.Não tentei simplesmente ouvir.Emiti uma frequência curta.O som entrou na água.Esperei.O retorno veio.Fraco.Água.Pedras.Lama.Uma raiz.Depois alguma coisa pequena se moveu.Tentei outra frequência.O retorno mudou.Consegui perceber melhor a margem, algumas pedras submersas e pequenas criaturas escondidas entre as plantas.Mas quanto mais fundo eu tentava alcançar, mais difícil ficava.A água distorcia os retornos.Emiti outra onda.Esperei.Nada.Ou melhor...Quase nada.Havia alguma coisa lá embaixo.Eu não conseguia enxergar sua forma.Só conseguia perceber que o som estava encontrando superfície

  • O Fim Da Realidade   O Eco Sob A Agua

    Havia alguma coisa debaixo daquela água.Continuei sentado na margem.Tum.Esperei.Tum.O som era baixo.Tão baixo que eu não tinha certeza se estava realmente ouvindo ou sentindo a vibração através do chão.Abri os olhos.O lago parecia normal.A superfície estava quase parada. A luz da lua refletia na água, quebrada apenas por pequenas ondulações.Olhei para trás.Todos continuavam dormindo.Por alguns segundos, pensei em deixar aquilo para lá.Talvez fosse apenas alguma coisa grande se movendo no fundo.Talvez uma criatura.Talvez pedras deslocando-se.Eu não sabia.E era justamente isso que me incomodava.Fechei os olhos.Não tentei ouvir o lago.Tentei fazer outra coisa.A Visão Sonórica ainda era nova para mim. Eu não podia simplesmente fechar os olhos e esperar que o mundo aparecesse.Eu precisava produzir um som.Respirei fundo.Soltei uma frequência curta.O som saiu de mim quase sem ser percebido.Esperei.O retorno veio.Fraco.Água.Pedras.A margem.As árvores.Não eram

  • O Fim Da Realidade   O Som Sob A Água

    Quando saímos do lago, o sol já começava a descer.Aika estava enrolada numa peça de roupa que Kiko lhe emprestara, sentada numa pedra, apertando o cabelo com as duas mãos.— Ainda estou com frio.Kaito passou por ela.— Eu avisei.— Não avisaste.— Avisei sim.— Não.— Avisei.— Não!Ren suspirou.— Vocês dois conseguem discutir até sobre isso?Kaito apontou para Aika.— Ela começou.Aika apontou para ele.— Ele começou!Ren olhou para os dois.— Não quero saber.Maya começou a rir.Kiko estava tentando torcer a própria roupa.— Amanhã, se alguém disser que tomar banho no lago foi uma excelente ideia, eu vou negar.Kaito levantou a mão.— Eu disse que era uma boa ideia.— Então amanhã eu bato em ti.— Justo.O soldado estava sentado perto do fogo improvisado, esfregando os cabelos com um pedaço de tecido.Kenichi estava quieto.Olhei para ele.— Estás bem?Ele levantou os olhos.— Sim.Ouvi o coração dele.Ainda estava um pouco acelerado.— Não estás.Kenichi franziu a testa.— Estou

  • O Fim Da Realidade   Um Pouco de Paz 🕊️

    Depois da conversa sobre os monstros, ninguém parecia saber muito bem o que dizer.Aika chutava pequenas pedras pelo caminho.Uma delas bateu numa árvore.— Acertei!Kaito olhou para a árvore.— Estavas tentando acertar na árvore?— Sim.— Então erraste.Aika parou.— Como?— A árvore estava ali.Ela ficou olhando para ele.— Não entendi.Kaito sorriu.— Exatamente.Ren soltou uma risada baixa.Foi bom ouvir aquilo.Depois de alguns minutos, parei.Água.— Tem um lago à frente.Kaito levantou a cabeça.— Lago?— Parece.Aika imediatamente acelerou.— Lago?!— Espera — chamou Ren.— Mas tem água!— Nós sabemos.— Então por que eu tenho que esperar?Ren ficou sem resposta.Kaito riu.— Ela ganhou.— Não começa — disse Ren.Pouco depois, atravessámos as árvores.O lago apareceu.Aika parou.— Uau...Era grande.A água refletia o céu entre as árvores e pequenas ondas batiam contra a margem.Kaito foi até a beirada e tocou na água.— Fria.Aika aproximou-se.— Posso entrar?— Primeiro veri

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status