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Capítulo 2

Author: Runa Thorne
last update publish date: 2025-11-18 23:18:46

Ponto de Vista: Mayla

Na manhã seguinte, acordei com a sensação de que alguma coisa estava errada.

Não era um pressentimento.

Eu não acreditava em pressentimentos.

Era apenas aquela inquietação incômoda que surgia quando havia uma variável fora do lugar.

Abri os olhos e encontrei Daniel ainda dormindo ao meu lado.

Por alguns segundos, fiquei observando-o.

O cabelo estava bagunçado, a expressão tranquila, completamente diferente do homem impecável que comandava a Layer Capital diante de centenas de acionistas.

Sorri.

— Você ronca — murmurei.

— Mentira.

Abri os olhos de surpresa.

Ele continuava de olhos fechados.

— Você estava acordado?

— Desde o momento em que você começou a me difamar.

Peguei o travesseiro e bati nele.

Daniel riu.

— Cinco minutos — pediu, puxando-me de volta para seus braços.

— Você tem uma reunião em quarenta minutos.

— Cancelei.

— Não cancelou.

— Cancelei mentalmente.

— Isso não conta.

Ele abriu os olhos.

— Às vezes eu esqueço que casei com uma mulher que fala comigo como se fosse minha diretora financeira.

— E você reclama?

— Nunca.

Ele beijou minha testa.

Aquele era Daniel.

Meu Daniel.

O homem que conseguia transformar uma manhã comum em alguma coisa especial.

Levantei-me e caminhei até a janela.

Nova York estava acordando.

Carros, buzinas, pessoas atravessando as ruas. O mundo inteiro correndo atrás de alguma coisa.

Eu entendia aquele movimento.

Talvez porque tivesse passado a vida inteira fazendo exatamente o mesmo.

Desde criança, aprendi que ninguém viria me buscar.

Então eu fui atrás de mim mesma.

Estudei.

Trabalhei.

Aprendi a negociar.

Aprendi a observar pessoas antes que elas percebessem que estavam sendo observadas.

Daniel dizia que eu tinha uma inteligência quase assustadora.

Eu dizia que ele era dramático.

— Mayla?

Virei-me.

Daniel estava sentado na cama, olhando para mim.

— O que foi?

— Você está pensando demais.

— Isso é um crime?

— Para você, às vezes.

Ele sorriu.

— Hoje vou passar o dia inteiro na empresa. Tenho reunião com o conselho às onze.

— Victor vai estar?

O sorriso dele desapareceu um pouco.

— Provavelmente.

— Vocês brigaram ontem?

— Nós sempre brigamos.

— Isso não respondeu.

Daniel levantou-se.

— Victor acredita que a Layer deveria funcionar de uma maneira diferente.

— E você não concorda.

— Não.

Ele pegou a camisa sobre a poltrona.

— Ele quer expandir agressivamente. Comprar empresas, assumir dívidas, esmagar concorrentes antes que eles se tornem ameaça.

— E você?

— Quero construir algo que continue existindo quando eu não estiver mais aqui.

Parei.

— Não fala assim.

Daniel me olhou.

— Assim como?

— Como se estivesse se despedindo.

Ele sorriu.

— Não estou.

Aproximou-se e segurou meu rosto.

— Só estou falando de futuro.

Beijou-me.

— Te vejo no jantar.

— Promete?

— Prometo.

Ele saiu.

Fiquei alguns segundos olhando para a porta fechada.

Depois balancei a cabeça.

Eu estava ficando paranoica.

Duas horas depois, eu estava na Layer Capital.

Não como CEO.

Ainda não.

Naquele momento, meu cargo era simplesmente diretora de estratégia, uma posição que eu havia conquistado por competência, não por casamento.

Era assim que eu gostava.

Ninguém precisava dizer que eu estava ali porque era esposa de Daniel.

Eu fazia questão de provar que merecia estar.

Entrei na sala de reuniões e encontrei Victor sentado à cabeceira.

— Você está atrasada — ele disse.

Olhei para o relógio.

— Estou três minutos adiantada.

Victor sorriu.

— Então eu estava esperando há três minutos.

Sentei-me.

— Problema seu.

Alguns executivos esconderam sorrisos.

Victor me observou por alguns segundos.

— Você sabe que um dia vai precisar escolher um lado, Mayla.

— Eu já escolhi.

— Daniel?

— Minha própria cabeça.

Ele ficou em silêncio.

A reunião começou.

Aquisições.

Investimentos.

Expansão internacional.

Números.

Riscos.

Nada fora do normal.

Até o celular de Daniel tocar.

Não era o telefone corporativo.

Era o pessoal.

A tela acendeu sobre a mesa.

Número desconhecido.

Victor olhou.

Eu também.

Daniel olhou não atendeu

Seu rosto mudou.

Foi rápido.

Quase imperceptível.

Mas eu conhecia aquele homem.

Daniel levantou-se.

Saiu para atender,

Mais alguns segundos.

Então ele voltou

— Daniel?

— Preciso sair.

Victor franziu a testa.

— Agora?

— Agora.

Daniel olhou para mim.

Havia alguma coisa diferente em seus olhos.

Preocupação.

— Mayla, não saia daqui até eu voltar.

Meu coração acelerou.

— O que aconteceu?

Ele hesitou.

— Nada que eu não possa resolver.

E saiu.

Fiquei olhando para a porta.

Pela primeira vez naquela manhã, aquela sensação voltou.

Aquela variável fora do lugar.

Só que agora eu tinha certeza de uma coisa.

Alguma coisa havia encontrado Daniel.

E eu ainda não sabia o que era.

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