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Ponto de Vista: Mayla
O salão do Hotel Astoria estava exatamente como eu esperava: bonito, caro e completamente previsível. Cristais pendiam do teto, refletindo a luz dos lustres sobre vestidos de alta-costura e smokings impecáveis. Garçons circulavam entre empresários, investidores e políticos, equilibrando taças de champanhe como se aquilo fosse uma operação de precisão. Eu conhecia aquele mundo. Sabia exatamente quando sorrir, quando apertar uma mão e, principalmente, quando ficar em silêncio. Mas naquela noite eu não estava ali como executiva. Estava ali como a esposa de Daniel Layer. — Você está me olhando como se estivesse prestes a negociar a compra do hotel — Daniel murmurou ao meu lado. Virei o rosto e encontrei seu sorriso. Daniel tinha aquele tipo de presença que não precisava de esforço. Aos trinta e dois anos, era alto, elegante, dono de cabelos castanhos sempre impecavelmente penteados e olhos verdes que pareciam mais gentis do que aquele ambiente merecia. Ele não tinha a arrogância do irmão. Daniel sabia que era poderoso, mas nunca precisava provar. — Estou analisando o ambiente. — Claro. — Ele sorriu. — E qual é o relatório? — Setenta por cento das pessoas aqui querem alguma coisa de você. Vinte por cento querem alguma coisa de mim. — E os outros dez? — Ainda não decidiram. Daniel soltou uma risada. Era uma das coisas que eu mais gostava nele. Ele conseguia me fazer esquecer, por alguns segundos, que o mundo inteiro parecia esperar alguma coisa de nós. Conheci Daniel quando tinha vinte e um anos. Eu não tinha sobrenome importante, família influente ou uma conta bancária herdada. Na verdade, durante boa parte da minha infância, eu nem sequer soube exatamente de onde tinha vindo. Passei por abrigos, casas temporárias e pessoas que prometiam ficar, mas quase sempre iam embora. Aprendi cedo a não depender de ninguém. Daniel foi a primeira pessoa que não tentou me salvar. Ele simplesmente ficou. Talvez tenha sido por isso que eu me apaixonei. — Mayla. A voz dele me trouxe de volta. — O quê? Daniel segurava minha mão. — Eu estava perguntando se você queria ir embora. Olhei para ele. — Você quer? — Quero ficar sozinho com minha esposa. Meu sorriso apareceu antes que eu pudesse impedir. — Isso foi quase romântico. — Estou tentando melhorar. — Continue tentando. Ele beijou minha testa. Por um instante, tudo pareceu perfeito. Até eu perceber o homem parado do outro lado do salão. Victor. O irmão mais novo de Daniel. Aos vinte e nove anos, Victor era praticamente o oposto dele. Alto, de ombros largos, cabelos escuros e olhos cinzentos que pareciam analisar tudo ao redor como uma ameaça em potencial. Ele não sorria. Nunca sorria quando estava olhando para mim. — Seu irmão está vindo — murmurei. Daniel olhou por cima do ombro. — Ah. O tom dele mudou. Victor aproximou-se com uma taça na mão. — Daniel. — Victor. Os dois trocaram aquele tipo de cumprimento educado que escondia anos de competição. Então Victor olhou para mim. — Mayla. — Victor. Ele inclinou a cabeça. — Aproveitando a noite? — Bastante. — Interessante. Daniel franziu a testa. — O que foi? — Nada. Victor tomou um gole do champanhe. — Só estava pensando em como algumas pessoas têm muita sorte. — E algumas têm dificuldade de reconhecer a própria — respondi. Os olhos dele se estreitaram. Daniel segurou minha mão com um pouco mais de força. — Vamos deixar os negócios para amanhã. Victor sorriu de lado. — Claro. Ele se afastou. Observei-o desaparecer entre os convidados. — Vocês dois vão acabar se matando — murmurei. Daniel suspirou. — Victor acredita que tudo precisa ser conquistado. — E você? Ele olhou para mim. — Algumas coisas simplesmente acontecem. Meu coração apertou. — Como nós? — Principalmente nós. Ele me beijou. Um beijo breve, discreto, mas suficiente para fazer o barulho do salão desaparecer por alguns segundos. Quando nos afastamos, Daniel encostou a testa na minha. — Eu te amo, Mayla. Sorri. — Eu também te amo. Daniel sorriu e voltou a entrelaçar os dedos nos meus. Do lado de fora, Manhattan continuava iluminada, indiferente a tudo. Eu não sabia que, naquela mesma noite, alguém observava o hotel. Não sabia o que aquela presença queria. Não sabia que existiam perguntas sobre a minha vida que nem eu mesma sabia responder. Naquele momento, eu só sabia de uma coisa: eu amava Daniel Layer. E acreditava que conhecia a minha vida. Eu estava errada.POV — Nancy— Então deixe-me ver se entendi.O investigador fechou o pequeno caderno e olhou primeiro para mim, depois para Victor.Estávamos naquela sala havia quase uma hora.Uma hora.E eu começava a desenvolver sentimentos pouco amigáveis por cadeiras de delegacia.— Mayla saiu sozinha no domingo à noite, dirigiu até uma propriedade abandonada no meio do nada e não contou a ninguém para onde estava indo.— Nós já explicamos isso — Victor respondeu.A voz dele estava controlada.O maxilar, não.Eu o conhecia o suficiente para saber que faltava pouco para aquela conversa terminar mal.— Ela recebeu o endereço naquela noite — acrescentei.O investigador voltou os olhos para mim.— Do senhor Victor.— Sim.— E disse que não iria até lá.— Sim.— Mas foi.— Evidentemente.Ele me encarou.Talvez “evidentemente” não tivesse ajudado.Victor esfregou o rosto.Ele parecia não dormir desde que encontráramos os carros.Provavelmente não dormira.Eu também não estava muito melhor.— O endereço
Saímos da delegacia quase no fim da tarde. Victor caminhou até o carro sem dizer uma palavra. Entramos. Ele não ligou o motor. Ficou olhando para frente. — Você acha que foi ele? Eu sabia de quem estava falando. — Não sei. — O carro dele estava escondido. — Eu sei. — Ele apareceu na empresa. — Eu sei. — Depois na casa de campo. — Victor... — E depois seguiu Mayla até aquele casarão. — Nós não sabemos se ele a seguiu. Victor virou para mim. — Nancy. — Eu sei como parece. — Parece que ele estava se aproximando dela. Não respondi. Porque parecia. Muito. Peguei o celular. — O que está fazendo? — Uma coisa que a polícia provavelmente já fez. — Que coisa? Digitei. Kael Global. Resultados apareceram. Site institucional. Notícias empresariais. Registros. Abri o site. Erro. Atualizei. Nada. — O site caiu. Victor pegou o próprio celular. — Pode ser manutenção. — Pode. Mas não acreditava. Pesquisei novamente. Abner Kaelen. As primeiras referências eram
POV — Nancy — Então deixe-me ver se entendi. O investigador fechou o pequeno caderno e olhou primeiro para mim, depois para Victor. Estávamos naquela sala havia quase uma hora. Uma hora. E eu começava a desenvolver sentimentos pouco amigáveis por cadeiras de delegacia. — Mayla saiu sozinha no domingo à noite, dirigiu até uma propriedade abandonada no meio do nada e não contou a ninguém para onde estava indo. — Nós já explicamos isso — Victor respondeu. A voz dele estava controlada. O maxilar, não. Eu o conhecia o suficiente para saber que faltava pouco para aquela conversa terminar mal. — Ela recebeu o endereço naquela noite — acrescentei. O investigador voltou os olhos para mim. — Do senhor Victor. — Sim. — E disse que não iria até lá. — Sim. — Mas foi. — Evidentemente. Ele me encarou. Talvez “evidentemente” não tivesse ajudado. Victor esfregou o rosto. Ele parecia não dormir desde que encontráramos os carros. Provavelmente não dormira.
Os lábios dele tocaram os meus.Suavemente.Por um instante, foi apenas isso.Um contato cuidadoso, quase hesitante, como se Abner ainda me oferecesse uma última oportunidade de mudar de ideia.Eu não queria.A primeira coisa que percebi foi o calor.A boca dele estava quente, contrastando com o ar fresco dos túneis. Depois veio o cheiro — aquele aroma que eu já associava a ele sem sequer perceber. Madeira, ervas e alguma coisa limpa e terrosa que permanecera em sua pele mesmo depois das águas termais.Fechei os olhos.Meu corpo inteiro pareceu prestar atenção.Os dedos dele continuavam em meu rosto, o polegar imóvel junto à minha bochecha, e senti um arrepio começar exatamente onde me tocava e descer lentamente pelo pescoço.Abner começou a se afastar.Não.Minha mão agarrou a frente de sua túnica antes que eu pensasse melhor e o puxei de volta.A surpresa dele durou menos de um segundo.Sua boca encontrou a minha novamente.Dessa vez, não havia pergunta.A mão que tocava meu rosto d
CAPÍTULO 61 — A LINHA ENTRE NÓSPOV — MaylaAquela tinha sido, surpreendentemente, uma boa refeição.Não boa no sentido de desejar repeti-la quando voltasse para casa — se algum dia voltasse para casa —, mas boa considerando que consistira em pão, queijo, frutas e sementes divididos sobre uma mesa de pedra no interior de uma montanha.Abner também havia preparado uma infusão com as ervas que trouxera do santuário.Eu ainda segurava a pequena caneca entre as mãos.O líquido estava quente.Levemente adocicado.— Você sabe cozinhar? — perguntei.Abner, sentado do outro lado da antiga mesa, levantou os olhos.— Sei.— Cozinhar de verdade?— Existe outra forma?— Você acabou de jogar folhas em água quente.— E está bebendo.Olhei para a caneca.— Isso não prova nada.O canto da boca dele se ergueu.A luz dos cristais era mais fraca naquela parte das ruínas. Algumas pequenas formações azuladas atravessavam o teto e iluminavam o ambiente o suficiente para dispensarmos outra fonte de luz.Do
O caminho alternava entre galerias estreitas e câmaras tão grandes que eu não conseguia enxergar o teto.Em alguns pontos, raízes atravessavam as pedras acima de nós.Não eram pequenas.Eram enormes.Desciam pelas paredes e desapareciam novamente no chão, como se árvores inteiras estivessem tentando alcançar aquele mundo subterrâneo.Paramos duas vezes para beber água.Na segunda, aproveitei para prender parcialmente os cabelos ainda úmidos.Ou tentei.— Droga.O pedaço de tecido escapou dos meus dedos pela terceira vez.— Quer ajuda?Olhei para Abner.— Você sabe prender cabelo?— Sei fazer um nó.— Isso não me tranquiliza.Ele estendeu a mão.— Dê.Entreguei o tecido.Abner ficou atrás de mim.Imediatamente me arrependi.Senti seus dedos reunirem meus cabelos.Meu corpo ficou rígido.— Está puxando?— Não.As pontas dos dedos roçaram minha nuca.Um arrepio percorreu minhas costas.Abner parou.— Está com frio?— Não.— Você arrepiou.Fechei os olhos.Claro que ele perceberia.— Meu







