Compartilhar

38 - Adrian

Autor: Sheid
last update Data de publicação: 2026-07-04 13:11:18

Lisboa tem sete colinas.

Sei isto porque Clara mo disse enquanto caminhávamos — com aquela qualidade de professora que tem mesmo quando não está a dar aulas, que oferece informação de forma natural, como se o mundo fosse uma sala de aula que existe para ser compreendida e não apenas atravessada.

Mostrou-me a cidade com a intimidade de quem cresceu nela — não o roteiro turístico, não as postcards do Tejo e da Torre de Belém, mas os lugares que só os habitantes conhecem: a padaria onde a fila
Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App
Capítulo bloqueado

Último capítulo

  • O Homem Que Não Estava No Contrato   Epílogo - Clara

    Há uma lei não escrita nas casas com crianças que diz que os sábados de manhã pertencem ao caos. Não ao caos destrutivo, ao caos bom, ao caos de vozes sobrepostas e cheiros de pequeno-almoço e alguém a correr no corredor com meias no chão de madeira com uma velocidade que devia ser impossível para quem ainda não tem as pernas compridas. O tipo de caos que é, quando se para para ouvir de verdade, o som mais bonito que existe. Estou na cozinha com o café, o primeiro, o sagrado, o que faço antes de qualquer outra coisa porque aprendi com a minha mãe que os dias que começam sem café não são dias, são sobrevivência, e ouço a casa acordar à minha volta. Do quarto da Lily chega música. Ela tem doze anos agora e toca piano com aquela seriedade que tem em tudo, não porque alguém a obrigue, porque decidiu que sim, porque aprendeu que as coisas que se escolhem de livre vontade são diferentes das que se fazem porque se deve. É uma peça que reconheço, Chopin, um nocturno, o que a professora lh

  • O Homem Que Não Estava No Contrato   40 - Adrian

    Há coisas que não se planeiam. Passei a maior parte da vida adulta a planear. A construir estruturas, a avaliar riscos, a mapear consequências antes de tomar decisões. É uma forma eficaz de gerir um mundo que tem muitas variáveis e poucas certezas — e é também, como aprendi de forma lenta e por vezes custosa, uma forma eficaz de manter à distância as coisas que não têm forma de caber num plano. Clara Mendes não cabia num plano. Entrou nesta casa com o cabelo encharcado e partiu um vaso Ming e disse que ia pagar em prestações por um período que podia chegar à casa das décadas, e eu olhei para ela e o sistema de atenção que passei anos a calibrar decidiu, sem me pedir autorização, que ela era a coisa mais relevante na sala. Não planeei isso. Não planeei as aulas a que fui com café. Não planeei a dança na festa de escola que a Lily orquestrou com a estratégia de uma diplomata de sete anos. Não planeei o beijo no corredor com a luz baixa e a Lily a dormir. Não planeei Lisboa, qu

  • O Homem Que Não Estava No Contrato   39 - Clara

    Nova Iorque em Abril tem aquela coisa que só Nova Iorque tem: muda de estação de forma completamente abrupta, como se a cidade tivesse tomado uma decisão executiva e não tivesse paciência para a transição gradual. Uma semana cinzenta, outra semana com árvores em flor no parque e luz que dura até às sete e toda a gente na rua com aquela expressão de alívio colectivo. Voltei numa segunda-feira de Abril. Não para o apartamento Beckett, ainda. Essa conversa tinha sido tida em Lisboa, no domingo, com pastéis e mãos entrelaçadas: voltava para Nova Iorque, voltava ao trabalho, voltava à Lily. O resto, o como e o onde e o que é isto exactamente, era para construir devagar, com os olhos abertos, sem pressa e sem medo. Mas voltei. O porteiro abriu a porta antes de eu chegar à escada, como sempre. O lobby de mármore estava igual, com as flores enormes na mesa central. O elevador subiu em silêncio. E quando as portas se abriram, a Lily estava lá. Não era suposto. Não era planeado, o T

  • O Homem Que Não Estava No Contrato   38 - Adrian

    Lisboa tem sete colinas. Sei isto porque Clara mo disse enquanto caminhávamos — com aquela qualidade de professora que tem mesmo quando não está a dar aulas, que oferece informação de forma natural, como se o mundo fosse uma sala de aula que existe para ser compreendida e não apenas atravessada. Mostrou-me a cidade com a intimidade de quem cresceu nela — não o roteiro turístico, não as postcards do Tejo e da Torre de Belém, mas os lugares que só os habitantes conhecem: a padaria onde a fila começa às cinco e meia, o miradouro sem placa onde a luz da tarde é a melhor da cidade, a livraria no Chiado que tem uma gata no balcão há doze anos e que se chama Sophia. — Sophia como Sophia de Mello Breyner? — perguntei. Ela olhou para mim com uma expressão de ligeira surpresa e depois de algo mais quente. — Conheces? — Sei que existe. Não conheço a obra. — Vou remediar isso. — Entrou na livraria sem cerimónia, com aquela facilidade de quem entra num sítio onde é conhecida. A Sophi

  • O Homem Que Não Estava No Contrato   37 - Clara

    Há coisas para as quais nenhuma quantidade de preparação mental é suficiente.A minha mãe a chamar-me do quarto com uma voz de completamente normal que conheço como a voz que usa quando não quer que eu perceba que há alguma coisa diferente, por exemplo.— Clara. Tens visita.Estava no quarto do meu quarto de infância, o mesmo quarto com a prateleira de livros que organizei por cor quando tinha doze anos e nunca reorganizei porque a minha mãe acha que é bonito assim, com o computador no colo a tentar trabalhar na distância, que não estava a funcionar muito bem porque trabalhar na distância quando não se está bem nunca funciona bem.— Quem é? — gritei do quarto.— Vem ver.A minha mãe usa o "vem ver" quando não quer dar informação prévia porque sabe que se der eu vou gerir a situação em vez de a viver. É uma táctica que usa desde que eu tinha oito anos e que ainda funciona porque não aprendi a contorná-la.Fui à sala em meias , meia cinzenta, meia verde, porque o quarto de infância tem

  • O Homem Que Não Estava No Contrato   36 - Adrian

    James disse que resolva a Diane. Que não fosse por Clara, que fosse por mim, porque era o certo e porque era tempo.Resolvi a Diane.Não foi uma conversa fácil. Diane não faz nada de forma fácil, é quem é, e parte de mim respeita isso mesmo quando essa qualidade está a trabalhar contra mim. Mas desta vez fui sem a arquitectura habitual, sem o controlo calculado, sem a versão de mim que gere em vez de sentir. Fui com a verdade simples e incomoda e necessária.Disse-lhe que o que tinha feito à fundação tinha sido uma linha que não podia voltar a cruzar. Que o meu amor por Elena nunca tinha incluído o direito de Diane sobre a minha vida. Que a Lily ia crescer num ambiente de amor e estabilidade, e que esse ambiente podia incluir Diane se Diane escolhesse fazer parte dele de forma construtiva, ou podia não a incluir se Diane continuasse a usar a memória de Elena como alavanca.Disse isto sentado à mesa da sala, com chá que nenhum dos dois bebeu, com a voz calma de quem passou uma semana a

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status