LOGINELIOT LESSAN
O meu dia foi cansativo, repleto de deveres que eu não podia adiar ou desmarcar. Se eu pudesse escolher, preferia ter ficado em minha casa com a minha filha, rodeado pelas pessoas que se tornaram a minha família. Quando cheguei naquele evento de arrecadação de fundos, eu só podia sentir o peso do mundo nas minhas costas. Já não aguentava mais ter que lidar com tantas pessoas, muitos deles presentes apenas me enchendo o saco e querendo me bajular. Não me entenda mal, eu gosto de saber que minha presença ainda é tão marcante quanto na época que eu vivia na Ucrânia, mas acontece que aqueles foram outros tempos, aqui eu não sou o Lorde Lessan, não sou um legado. Para todos eu sou apenas um filantropo podre de rico e que se dedica a ajudar os mais necessitados, ninguém conhece a fundo a minha história além daqueles que moram comigo. Depois de tantos cumprimentos e tantas formalidades, eu não esperava o desfecho que a noite teria, a revelação das mortes me bateu como uma verdadeira bomba, eu não acredito que tudo está acontecendo, um ser que seja lá qual for, os humanos não estão preparados para lidar com ele. Em meio às conversas, minha mente viajava e volta e meia eu via Uriel me olhando. Ele lançava aquele olhar cúmplice que somente eu entendia e percebia. Ambos sabíamos o tipo de coisa com a qual eles estavam lidando, e sabíamos que tínhamos que fazer alguma coisa a respeito, caso contrário muito mais mortes sem explicação ainda viriam. Teríamos que correr contra o tempo, descobrir com qual ser estamos lidando e onde que ele se esconde antes que mais mortes aconteçam. Depois de horas nessa arrecadação de fundos, finalmente pude respirar aliviado. Eu estava simplesmente cansado do dia de hoje e tudo o que eu desejava era voltar para casa, dar um beijo em minha menina e finalmente poder descansar, o dia de amanhã seria corrido, começaríamos a procurar e eu ainda tinha o compromisso com a babá. Após a nossa conversa na volta para casa, onde eu deixei Marcel a par de tudo o que soubemos na festa, chegamos à conclusão de que o ser que anda atacando os casais infiéis só pode ser um Akaran. Levando em conta o seu modus operante, percebemos que havia mais alguém por trás disso. Não havia tempo de descobrir tudo a fundo, eu preciso definitivamente acabar com o mal antes que ele leve mais pessoas. Quando entramos no elevador, eu olhava para os andares almejando que logo chegasse ao meu, minha menina a essa altura já estaria dormindo, mas eu preciso vê-la e dar um beijo nela, sentir o cheiro dos seus cabelos macios, o cheirinho inconfundível do seu shampoo de amora, o mesmo que ela insiste em comprar. Quando entramos em casa o silêncio que reina é quase sepulcral, quebrado apenas pelo som dos passos de Marcel e Uriel à minha frente. Quando chego no corredor, resolvo ir rapidamente ver a minha menina, meu coração de pai anseia por isso, quase como se tivesse que atender a um chamado. Não imaginei a surpresa quando percebi que a minha menina estava fora da cama, seu olhar perdido, olhando a noite que estendia lentamente. Me aproximei com cautela, seja o que for que tenha acontecido, aquilo a estava perturbando o suficiente para que ela não conseguisse dormir. Acendi a luz do abajur ao lado da cama, ela estava com um olhar perdido e com a luz acesa pude finalmente vislumbrar as lágrimas que escorriam por seu rosto lentamente, deixando o seu aspecto já triste, ainda pior. - Foi um pesadelo? – perguntei a ela enquanto a abraçava apertado. Ela não me respondeu, tudo o que ela fez foi me abraçar fortemente e balançar a cabeça em confirmação. Ela respirava de forma descompassada e seu corpo tremia, não por conta do choro, mas por causa de um medo feroz que ainda estava enraizado em seu corpo. Minha menina era frágil, eu sabia que ela sempre procurava parecer mais forte do que realmente é, mas comigo ela sempre deixava o seu lado vulnerável aparecer, ela confiava em mim e eu era grato pela confiança que ela depositava. Já que este lugar seria ocupado pela mãe que ela não pode ter por perto, tento fazer os dois papéis. - Quer falar sobre ele? – perguntei mais uma vez. Eiva soltou um suspiro tão pesado que eu podia sentir como o seu coração estava pesado. Seja o que for que tenha acontecido no sonho, mexeu fortemente com o estado de espírito da minha menina. Após um longo momento, ela finalmente começou a falar, sua voz quase um sussurro. - Começou como um sonho bom, como sempre. Eu tinha asas bem grandes e brancas, estava voando e sentia o vento frio batendo no meu rosto. Até que comecei a voar por aquele parque que você me levou uma vez, o que tem um grande lago. Eu sabia de que parque ela estava falando, eu a levei lá um dia em que ela estava muito deprimida, sentindo a falta da mãe. Eu queria deixá-la um pouco feliz e tirar o peso que ela sentia no coração, o dia foi proveitoso e minha menina sorriu pela primeira vez em muito tempo. - O Barigui? – perguntei apenas para confirmar. - Sim esse mesmo. Eu voei perto do lago e toquei a água e nesse momento tudo mudou. Nesse instante o medo que ela sentia parecia consumi-la lentamente. Ela agarrou a minha roupa enquanto se agarrava ainda mais a mim, como uma pessoa abaixo d’água buscando desesperadamente por ar. Fiz tudo o que estava ao meu alcance para acalmá-la, a abraçando com amor e carinho, transmitindo o conforto que eu sei que ela estava precisando. - Está tudo bem meu amor… seja como for, ele não pode te tocar. Você está segura, eu estou aqui. Ela não esperou que eu falasse algo mais, apenas continuou a falar, contando o restante do seu sonho. Eu podia sentir todo o medo que ela ainda sentia, e não fiquei surpreso com os detalhes a respeito da criatura que apareceu em seu sonho, ali eu soube que ele era o mesmo que estava matando os homens e sumindo com suas parceiras. Deixei o pensamento de lado, tudo o que eu precisava cuidar agora era da minha menina, procurar afastar dela o medo que sentia para que ela pudesse voltar a dormir sossegada. - Eu sei que isso foi assustador meu amor…, mas ele não pode te machucar. Lembre-se disso. – falei para ela novamente tentando mostrar que eu estaria sempre aqui para acalmá-la e protegê-la. O tempo passou rapidamente, eu me mantive a todo tempo com a minha filha em meus braços, a embalando para que voltasse a dormir. Como eu amava a minha menina, o fruto do imenso amor que eu sentia por sua mãe. Os leves soluços dela foram ficando mais baixos à medida que eu a embalava. Enquanto minha menina voltava a dormir lentamente, eu não deixava de sentir uma fúria enorme em meu peito, o Akaran não estava sendo uma ameaça apenas para a sociedade, mas agora também para a minha preciosa filha, definitivamente eu tinha que acabar com ele. Logo eu pude ver que Eiva estava em sono profundo, a coloquei deitada novamente, apaguei o abajur, dei um beijo em sua testa e caminhei até a porta do seu quarto. Antes de sair eu dei uma última olhada para ela, fechando a porta em seguida esperando que ela finalmente conseguisse dormir em paz. Fui até o meu quarto e após um longo banho, que falhou em tirar o peso do meu dia das minhas costas, retornei para a cama. Lá eu repassei os passos que faria no dia seguinte, após conhecer a possível babá, eu iria atrás do maldito Akaran e daria um fim nele de uma vez por todas. Olhei para o relógio e já passava das três da manhã, desliguei a luz e me virei para deitar, mesmo que isso se mostrasse uma tarefa extremamente difícil.URIEL LESSANEu simplesmente não conseguia acreditar em tudo o que acabou de acontecer, a Bella simplesmente aceitou a proposta do Marcel, a mesma proposta que eu mesmo achava uma loucura. Eu não sabia dizer como ou por quê, mas eu estava me sentindo o homem mais feliz do mundo. Desde que meu irmão fez a proposta para ela, eu sabia que ele tinha cruzado uma linha perigosa, eu sabia que a Bella era uma mulher moderna, mas ela havia sido criada sobre valores e, mesmo que não fosse, ela ainda era uma mulher muito inocente. Marcel não me falou nada, mas eu sei com toda a certeza que ele foi o primeiro homem que a beijou e o primeiro com quem ela fez amor na vida, sair disso para um relacionamento a três era uma mudança e tanto.Esses dias que eu esperei por uma resposta pareceram uma eternidade, Marcel não dormiu com ela porque não queria que ela pensasse que ele a estava pressionando e nem queria confundir os pensamentos dela. Ele queria deixá-la escolher por conta própria o que queria.
BELLA VERMONTEu não preciso dizer que mesmo encontrando tarefas em casa para me ocupar, eu não consegui parar de pensar na conversa que eu teria com os rapazes, eu sei que eles estão ansiosos para saber a minha resposta, e que eu enrolei demais para isso. A expectativa pela resposta deve estar alta, pelo menos da parte do Uriel eu sei que está, eu já me decidi e espero que essa decisão não machuque um ou outro, porque eu os amo muito.Ando de um lado para o outro em meu quarto, eu não sei mais o que fazer para me acalmar, eu estou simplesmente suando sem parar e não consigo me controlar com os vários pensamentos que povoam a minha mente, alguns sobre a reação dos dois e outros eu simplesmente não consigo evitar de pensar constantemente, mesmo que o momento não seja propício para pensar nas coisas que eu estou pensando.Olho no espelho e me vejo tão vermelha que fico incomodada, se eles chegarem e me verem assim, com toda a certeza saberão o que eu estou pensando e desejando avidament
BELLA VERMONTHoje fazem exatos quatro dias desde que os rapazes me fizeram aquela proposta. Eu achei que com a impaciência que ambos têm, logo estariam no meu pé cobrando uma resposta, mas se mostraram estranhamente pacientes. Entre cuidar da Lumina e da Eiva e os afazeres diários, eu continuava pensando como seria viver uma vida a três. Eu achava isso tudo uma loucura, mas confesso que não era totalmente indiferente a essa ideia.Eu seria hipócrita de dizer que não sinto nada pelo Uriel, ele é um homem maravilhoso e eu acabei me apaixonando, não sei como pude fazer isso, mas fiz e isso me perturba até agora quando ambos querem esse relacionamento. A quem eu estava querendo enganar, fingindo que não queria nada disso? Eu sou uma mulher adulta e não devo me preocupar com o que a sociedade vai pensar, somos três pessoas esclarecidas e tudo o que importa é o que cada um pensa sobre isso. Eu preciso realmente falar com eles, mas como?Pego um copo com água e me sento na cadeira próxima d
BELLA VERMONTDepois que Marcel e Uriel saíram, eu me deixei cair deitada em cima da cama. Eu não sabia o que dizer sobre tudo o que eu havia escutado. O fato de que Uriel sentia algo por mim já me havia passado pela cabeça, mas eu não me senti confortável em ficar presumindo isso, afinal, eu estava com o Marcel e eu não queria que o meu companheiro, que tanto amo, se sentisse traído. Repasso tudo o que tem acontecido comigo desde que cheguei à casa dos irmãos Lessan, toda a fase da entrevista e a admissão, o meu mal-entendendido com Marcel porque eu não queria que ele se aproximasse e, logo depois, Eliot se ferindo e Marcel quase morrendo.Quando esgotei as forças para salvar a vida do Eliot, eu não sabia que o Marcel estava machucado. Nós estávamos estremecidos porque eu o afastei de forma arredia quando ele somente estava sendo gentil. A verdade é que eu me senti mal pela forma como o tratei e queria voltar a conversar normalmente com ele, mas ele foi irredutível, o que me machucav
MARCEL LESSANEu estava inquieto durante a semana inteira, eu não sabia como eu deveria reagir com tudo o que eu sabia. O meu irmão Uriel e eu sempre fomos muito ligados desde sempre, somos gêmeos e por isso não era estranho que um sentisse o que o outro estava sentindo vez ou outra. Antes eu sentia que ele estava inquieto, nervoso e muito preocupado, mas sempre que eu perguntava o motivo, ele sempre me dizia que era impressão minha e que estava tudo bem. Eu sabia que ele não queria falar nada comigo, caso contrário ele não inventaria uma desculpa sempre que eu perguntava alguma coisa, então eu escolhi simplesmente ignorar.O tempo foi passando e eu sentia cada vez mais os seus sentimentos confusos e em conflito. Meu irmão sempre foi o exemplo de controle e saber que ele estava quase à beira do colapso era algo que mexia comigo e pior… parecia que dessa vez ele não queria a minha ajuda. Mesmo a contragosto eu fiquei longe e não o questionei mais, isso até o dia que a Bella foi sequest
URIEL LESSANOlho em volta do quarto por um momento, enquanto tento organizar os meus pensamentos. Não sei o que ela está pensando de mim agora e por um momento fico com receio de saber. Olho em seus olhos sem realmente conseguir manter contato visual e percebo que isso a deixa ainda mais confusa, seu olhar me diz que ela não entende o que está acontecendo, mas que também está muito curiosa. "Vamos Uriel… essa é a chance da sua vida, cara!", pensei.- Uriel, você está bem? Você parece um tanto nervoso demais… nunca te vi assim. - pergunta Bella ao se aproximar. - Olha, vem cá, senta perto e relaxa, tá bom? - disse ela puxando a minha mão e me levando para sentar de frente para ela na cama.Nós estávamos tão perto agora, mais um pouco e eu conseguiria sentir o toque quente das suas lindas pernas junto das minhas. Olhei em seus olhos lindos e tão carinhosos, os mesmos pelos quais eu me apaixonei, e me aproximei um pouco mais antes de começar… que seja o que tiver que ser.- Então Bella,







