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Meu quarto é o lugar mais seguro da casa porque aqui tudo fica onde eu deixo e nada some sem avisar, as bonecas sentam direitinho no tapete cor-de-rosa, a caminha delas fica encostada na parede de baixo da janela e o sol da tarde entra sempre do mesmo jeito, fazendo um quadrado quentinho no chão que eu gosto de atravessar descalça, mesmo quando o chão está frio em outros lugares.
Hoje eu estou sentada no meio do tapete, com as pernas cruzadas meio tortas, porque nunca consigo ficar igual às meninas das fotos dos livros, e a minha boneca favorita está no meu colo, aquela de cabelo castanho comprido que eu penteio com cuidado para não embaraçar, porque embaraço dói, mesmo quando é cabelo de mentira, e eu não gosto de imaginar dor em coisas que eu gosto.
Do meu lado, bem pertinho, está a foto da mamãe.
Ela fica sempre ali, encostada na caixinha de música que só toca quando eu lembro de dar corda, e eu gosto de deixar a foto perto de mim quando brinco, porque assim parece que ela está assistindo, como se estivesse sentada na cama, com aquele sorriso que não muda nunca, nem quando eu fico olhando por muito tempo.
A mamãe na foto é bonita de um jeito calmo, como quando a gente acorda sem pressa, e eu sei que ela é minha mãe porque o papai diz, porque as pessoas dizem, porque tem vídeos também, mas às vezes eu sinto que sei disso por dentro, como se meu coração tivesse aprendido antes da minha cabeça.
O papai diz que ela mora no céu, mas não daquele jeito que dá para apontar com o dedo, e sim num lugar que não some nunca, mesmo quando a gente fecha os olhos.
Eu não lembro dela de verdade, só lembro das histórias.
O papai conta que ela ria alto quando ficava feliz e que cantava para mim quando eu era bebê, mesmo cantando meio errado, e às vezes, quando a casa fica muito silenciosa à noite, eu imagino que o silêncio é só ela ouvindo a gente dormir.
Meu papai é grande.
Não grande como os gigantes dos livros, mas grande de um jeito que ocupa os lugares, o sofá, a cozinha, os corredores, como se a casa tivesse sido desenhada para ele e eu tivesse sido desenhada para caber no espaço do braço dele quando ele me pega no colo.
Ele trabalha muito, eu sei disso porque as pessoas sempre dizem, e porque ele sai cedo e volta quando o céu já está mudando de cor, mas quando ele chega, ele sempre pergunta como foi meu dia, mesmo que meu dia seja só bonecas, desenhos e histórias repetidas.
Eu gosto quando ele me chama de “pequena”, porque parece que essa palavra me guarda.
Às vezes ele fica olhando para mim como se estivesse pensando em outra coisa, e eu não sei explicar, mas parece um olhar pesado, como quando a mochila da escola fica cheia demais, e eu tenho vontade de dizer que está tudo bem, mesmo sem saber exatamente o que é esse tudo.
No meu quarto tem cheiro de sabonete, lápis de cor e um pouquinho do perfume dele, que fica nas minhas roupas quando ele me abraça forte demais antes de sair, como se estivesse tentando me levar junto sem ninguém perceber.
Eu não sei tudo sobre o mundo.
Eu sei o nome das minhas bonecas, sei que a mamãe está na foto e em algum lugar que não dói mais, sei que o papai é meu e que eu sou dele, e sei que aqui, sentada no tapete com o sol passando devagar pelo chão, eu sou feliz de um jeito simples, daquele que não precisa ser explicado.
Eu encosto a foto da mamãe mais perto da boneca, como se estivesse apresentando as duas, e sorrio sozinha, porque gosto de pensar que, mesmo sem estar aqui de verdade, ela ainda faz parte das minhas brincadeiras, do meu quarto e de mim.
E isso, para mim, já é quase tudo.
A frase ainda ecoava na minha cabeça — vamos com calma — como se tivesse sido dita por outra pessoa, em outro momento, em outra versão de nós dois.Porque aquilo… aquilo já não era mais “calma”.Quando a porta se fechou atrás de nós, o som pareceu definitivo demais. Como se o mundo lá fora tivesse sido deixado de lado, e tudo o que restava fosse o espaço entre o meu corpo e o dele.Eu mal tive tempo de respirar.Ethan me puxou de volta antes que eu conseguisse atravessar a sala, como se a ideia de distância, por menor que fosse, simplesmente não fosse mais suportável. O beijo veio carregado — não apressado, mas inevitável. Como algo que já vinha sendo adiado há tempo demais.E eu não pensei.Ou talvez pensei, mas não com a parte de mim que ainda tentava ser responsável.Minhas mãos encontraram ele com uma facilidade assustadora, como se já conhecessem aquele caminho. Senti o calor do corpo dele, a firmeza, a forma como ele me segurava — não com pressa, mas com certeza. E isso me atrav
O caminho de volta parece mais curto do que deveria.Ou talvez seja só a minha cabeça que está cheia demais para prestar atenção na estrada, porque tudo o que aconteceu desde que acordamos ainda está reverberando em mim com uma força difícil de ignorar. A imagem da Lily entrando na sala, a trança, o sorriso dela… e, por trás disso tudo, Clara.Sempre Clara.Ela está no banco do passageiro, olhando pela janela por alguns segundos antes de desviar o olhar para frente, como se também estivesse organizando pensamentos que ainda não encontraram forma completa. O silêncio entre nós não é desconfortável, mas está longe de ser neutro.Ele está carregado.Eu sei disso.Ela sabe disso.E, dessa vez, eu não quero deixar passar.Quando paro o carro na garagem, desligo o motor, mas não saio imediatamente. Fico ali por um segundo, as mãos ainda apoiadas no volante, puxando o ar devagar como se estivesse me preparando para algo que já deveria ter sido dito antes.— Clara…Ela vira o rosto na minha d
A escola tem aquele tipo de movimento que mistura energia e delicadeza ao mesmo tempo, como se cada criança carregasse um pequeno universo próprio que se encontra com outros no meio de corredores coloridos, paredes cheias de desenhos e vozes que nunca param completamente. É diferente da casa, diferente da rotina que a Lily conhece, mas não de um jeito assustador. Pelo contrário, há algo ali que convida, que acolhe, que parece pronto para recebê-la exatamente como ela é.E ela sente isso.Eu percebo na forma como a mão dela aperta a minha no começo, um gesto pequeno, quase automático, mas que aos poucos vai se soltando conforme avançamos pelo espaço. Os olhos dela observam tudo, curiosos, atentos, absorvendo cada detalhe como se estivesse montando um mapa interno daquele novo lugar.— É aqui? — ela pergunta, olhando para a porta da sala.— É aqui — respondo, me abaixando levemente para ficar na altura dela.— Você vai ficar?A pergunta vem mais baixa dessa vez.— Eu vou estar aqui fora
O primeiro dia de aula da Lily chega com um tipo de silêncio diferente dentro da casa, não vazio, mas carregado de expectativa, como se cada objeto estivesse atento, como se até as paredes soubessem que aquele era um daqueles momentos que marcam mais do que parecem à primeira vista. Eu acordo antes do despertador, um hábito antigo, mas dessa vez não é rotina que me tira da cama, é a consciência de que algo está mudando.Desço as escadas ainda com o peso leve do sono nos ombros, e o cheiro de café já preenche a cozinha, misturado ao som suave da voz da Clara vindo do andar de cima. Não consigo entender exatamente o que ela está dizendo, mas reconheço o tom, paciente, calmo, do jeito que ela sempre usa com a Lily, e isso já é suficiente para me fazer parar por um instante no último degrau.Eu observo.Sem entrar ainda.Sem anunciar presença.Há algo naquele som, naquela rotina que está sendo construída entre elas, que me prende mais do que deveria, como se eu estivesse assistindo a algo
O primeiro dia de aula da Lily chega com um tipo de silêncio diferente dentro da casa, não vazio, mas carregado de expectativa, como se cada objeto estivesse atento, como se até as paredes soubessem que aquele era um daqueles momentos que marcam mais do que parecem à primeira vista. Eu acordo antes do despertador, um hábito antigo, mas dessa vez não é rotina que me tira da cama, é a consciência de que algo está mudando.Desço as escadas ainda com o peso leve do sono nos ombros, e o cheiro de café já preenche a cozinha, misturado ao som suave da voz da Clara vindo do andar de cima. Não consigo entender exatamente o que ela está dizendo, mas reconheço o tom, paciente, calmo, do jeito que ela sempre usa com a Lily, e isso já é suficiente para me fazer parar por um instante no último degrau.Eu observo.Sem entrar ainda.Sem anunciar presença.Há algo naquele som, naquela rotina que está sendo construída entre elas, que me prende mais do que deveria, como se eu estivesse assistindo a algo
Há um momento muito específico em que a resistência deixa de ser uma escolha racional e passa a ser apenas um gesto automático, quase mecânico, que já não encontra mais sustentação no que eu estou sentindo. Eu percebo esse momento com uma clareza quase desconcertante, como se algo dentro de mim simplesmente se rendesse ao que já vinha crescendo há dias, talvez semanas, silencioso, paciente, esperando o instante certo para tomar forma.Ethan não me dá espaço para esquecer.O toque dele não é apenas um toque, é presença, é intenção, é a forma como a mão dele se mantém firme na minha cintura como se reconhecesse exatamente o efeito que está causando. Quando os lábios dele percorrem meu pescoço, agora com mais segurança, mais lentos e mais conscientes do caminho que seguem, eu sinto um arrepio que não é só físico, é interno, profundo, como se cada centímetro de pele estivesse acordando ao mesmo tempo.Minha respiração se desorganiza sem que eu consiga controlar, e isso me irritaria em qua







