LOGINCAPÍTULO 57 — O PESO DA RESPOSTA E A CICATRIZ ABERTA Helena O silêncio no Salão Nobre do Palácio Tangará parecia prestes a explodir. Centenas de pares de olhos atentos, as lentes das câmeras apontadas como fuzis e o brilho gélido daquele diamante solitário de oito quilates refletiam a encruzilhada mais perigosa da minha vida. Julian mantinha o estojo aberto à minha frente. O sorriso polido em seus lábios não escondia a frieza ameaçadora e calculista de quem havia planejado cada milímetro daquela armadilha de veludo. Ele sabia perfeitamente o impacto das ações da Martins & Cia na bolsa se eu hesitasse; sabia o escândalo financeiro que uma negativa pública provocaria entre os investidores internacionais. Ele estava me cobrando a conta do resgate. O ar sumiu da minha garganta por uma fração de segundo. Se eu dissesse um "não" taxativo ali, ao vivo para as emissoras de economia, o mercado puniria a holding na abertura do pregão da manhã seguinte. Julian retiraria a blindagem do fundo
CAPÍTULO 56 — O CERCO DE DIAMANTES E O SUOR DA EXPIRIAÇÃO Helena A noite da grande gala anual de consolidação da Martins & Cia transformou o Salão Nobre do Palácio Tangará em um mar de sedas, smokings e joias que cintilavam sob a luz de imensos lustres de cristal Baccarat. O tilintar incessante de taças de champanhe francês e o murmúrio polido da elite financeira da América Latina criavam a ilusão de um mundo onde fraqueza e dor simplesmente não existiam. Eu usava um vestido longo de cetim verde-esmeralda, com as costas nuas e a silhueta desenhada com a precisão de uma armadura de alta-costura. Meus cabelos estavam presos em um coque sóbrio, e os diamantes herdados da minha avó adornavam meu colo. Todos os olhos do salão convergiam para mim: a mulher que havia ressurgido do limbo para comandar com punho de ferro o maior conglomerado de infraestrutura do país. Mas por trás do sorriso diplomático que ofereci aos embaixadores e aos presidentes de bancos multinacionais, o peso do bilh
CAPÍTULO 55 — A RECUSA DO PURGATÓRIO DOURADO Helena A manhã seguinte na sede da Martins & Cia amanheceu sob um céu chumbo, daqueles em que a garoa paulistana transforma a metrópole em um labirinto de vidros embaçados e asfalto brilhante. O café amargo na xícara de porcelana já havia esfriado ao lado da pasta de balanços trimestrais, mas minha atenção não conseguia se fixar nos gráficos de rentabilidade. A porta do meu gabinete abriu-se de forma abrupta, quebrando o silêncio fúnebre da diretoria. Não era Julian. Era Camila, e suas feições não traziam a habitual tranquilidade corporativa. Ela segurava um envelope lacrado e uma pequena sacola de papel pardo. — O que houve? — indaguei, erguendo o queixo de imediato e recompondo a postura de comando. Camila aproximou-se da mesa com passos apressados e depositou os dois itens exatamente sobre a minha agenda executiva. — O motorista que deixamos de plantão na portaria do flat em Cerqueira César acabou de me ligar — informou ela, a res
CAPÍTULO 54 — O TETO DA PIEDADE Helena A chuva fina que caía sobre a Alameda Santos transformava as luzes dos faróis em borrões dourados e vermelhos através da janela do meu gabinete. Eu segurava uma caneta Montblanc entre os dedos, mas a folha timbrada à minha frente continuava intocada. O relatório de alta médica do Hospital Sírio-Libanês jazia aberto sobre o couro da mesa: Rafael Almeida estava liberado da internação hospitalar, com recomendação de repouso, fisioterapia para a reabilitação do ombro esquerdo e acompanhamento ambulatorial contínuo. A porta da sala abriu-se após duas batidas discretas. Camila entrou com passos cautelosos, segurando um envelope pardo e uma chave magnética prateada. — Consegui resolver tudo com a máxima discrição, Helena — disse Camila, aproximando-se da mesa e depositando a chave e o contrato de locação diante de mim. — É um flat de serviço no nono andar de um edifício discreto em Cerqueira César. Não está no seu nome, nem no da holding; aluguei at
CAPÍTULO 53 — O VENENO NAS SOMBRAS DO CÁRCERE Helena O ar da manhã paulistana parecia pesado, carregado de uma poeira cinzenta que filtrava o sol sobre os edifícios espelhados da Faria Lima. Ao deixar o hospital, cada fibra do meu corpo protestava pelo cansaço acumulado, mas a armadura executiva precisava ser mantida impecável. No banco de trás do sedã blindado, o silêncio entre mim e o motorista só era quebrado pelo som seco das notificações urgentes no meu tablet corporativo. Eu tentava focar nos números, nos balanços de reestruturação da Martins & Cia e nos contratos de blindagem patrimonial geridos pela Vance Global Capital. Porém, a cada linha de texto que meus olhos percorriam, o que realmente surgia diante de mim eram os olhos marejados de Rafael suplicando para permanecer por perto, e a frieza ameaçadora no semblante de Julian Vance ao cruzar o umbral daquele quarto. Eu estava no epicentro de uma tempestade que eu mesma havia atraído. De um lado, o bilionário britânico que
CAPÍTULO 52 — O CHOQUE DOS DOIS MUNDOS Helena O silêncio que se seguiu à pergunta de Julian foi tão denso que o leve ruído do fluxo de oxigênio na máscara de Rafael parecia o estrondo de uma tempestade. Julian deu mais um passo para o interior do quarto privativo. Os ombros largos e o terno cinza-chumbo pareciam preencher todo o espaço estéril da UTI, esmagando o ambiente com uma presença avassaladora. Seus olhos cinzentos deslizavam de mim — com o rastro ainda úmido das lágrimas nas bochechas — para a figura abatida e trêmula de Rafael na cama, cujos olhos castanhos injetados de sangue fitavam o bilionário britânico com uma mistura latente de pânico e ódio impotente. — Eu fiz uma pergunta, Helena — repetiu Julian, a voz mantendo o timbre aveludado, mas carregada de uma lâmina fria que cortava o ar. Ele parou a menos de um metro de mim, erguendo levemente o queixo. — O que o seu ex-marido acordado da morte tem a ver com as suas lágrimas? Endireitei os ombros, forçando o meu corpo







