MasukCAPÍTULO 55 — A RECUSA DO PURGATÓRIO DOURADO Helena A manhã seguinte na sede da Martins & Cia amanheceu sob um céu chumbo, daqueles em que a garoa paulistana transforma a metrópole em um labirinto de vidros embaçados e asfalto brilhante. O café amargo na xícara de porcelana já havia esfriado ao lado da pasta de balanços trimestrais, mas minha atenção não conseguia se fixar nos gráficos de rentabilidade. A porta do meu gabinete abriu-se de forma abrupta, quebrando o silêncio fúnebre da diretoria. Não era Julian. Era Camila, e suas feições não traziam a habitual tranquilidade corporativa. Ela segurava um envelope lacrado e uma pequena sacola de papel pardo. — O que houve? — indaguei, erguendo o queixo de imediato e recompondo a postura de comando. Camila aproximou-se da mesa com passos apressados e depositou os dois itens exatamente sobre a minha agenda executiva. — O motorista que deixamos de plantão na portaria do flat em Cerqueira César acabou de me ligar — informou ela, a res
CAPÍTULO 54 — O TETO DA PIEDADE Helena A chuva fina que caía sobre a Alameda Santos transformava as luzes dos faróis em borrões dourados e vermelhos através da janela do meu gabinete. Eu segurava uma caneta Montblanc entre os dedos, mas a folha timbrada à minha frente continuava intocada. O relatório de alta médica do Hospital Sírio-Libanês jazia aberto sobre o couro da mesa: Rafael Almeida estava liberado da internação hospitalar, com recomendação de repouso, fisioterapia para a reabilitação do ombro esquerdo e acompanhamento ambulatorial contínuo. A porta da sala abriu-se após duas batidas discretas. Camila entrou com passos cautelosos, segurando um envelope pardo e uma chave magnética prateada. — Consegui resolver tudo com a máxima discrição, Helena — disse Camila, aproximando-se da mesa e depositando a chave e o contrato de locação diante de mim. — É um flat de serviço no nono andar de um edifício discreto em Cerqueira César. Não está no seu nome, nem no da holding; aluguei at
CAPÍTULO 53 — O VENENO NAS SOMBRAS DO CÁRCERE Helena O ar da manhã paulistana parecia pesado, carregado de uma poeira cinzenta que filtrava o sol sobre os edifícios espelhados da Faria Lima. Ao deixar o hospital, cada fibra do meu corpo protestava pelo cansaço acumulado, mas a armadura executiva precisava ser mantida impecável. No banco de trás do sedã blindado, o silêncio entre mim e o motorista só era quebrado pelo som seco das notificações urgentes no meu tablet corporativo. Eu tentava focar nos números, nos balanços de reestruturação da Martins & Cia e nos contratos de blindagem patrimonial geridos pela Vance Global Capital. Porém, a cada linha de texto que meus olhos percorriam, o que realmente surgia diante de mim eram os olhos marejados de Rafael suplicando para permanecer por perto, e a frieza ameaçadora no semblante de Julian Vance ao cruzar o umbral daquele quarto. Eu estava no epicentro de uma tempestade que eu mesma havia atraído. De um lado, o bilionário britânico que
CAPÍTULO 52 — O CHOQUE DOS DOIS MUNDOS Helena O silêncio que se seguiu à pergunta de Julian foi tão denso que o leve ruído do fluxo de oxigênio na máscara de Rafael parecia o estrondo de uma tempestade. Julian deu mais um passo para o interior do quarto privativo. Os ombros largos e o terno cinza-chumbo pareciam preencher todo o espaço estéril da UTI, esmagando o ambiente com uma presença avassaladora. Seus olhos cinzentos deslizavam de mim — com o rastro ainda úmido das lágrimas nas bochechas — para a figura abatida e trêmula de Rafael na cama, cujos olhos castanhos injetados de sangue fitavam o bilionário britânico com uma mistura latente de pânico e ódio impotente. — Eu fiz uma pergunta, Helena — repetiu Julian, a voz mantendo o timbre aveludado, mas carregada de uma lâmina fria que cortava o ar. Ele parou a menos de um metro de mim, erguendo levemente o queixo. — O que o seu ex-marido acordado da morte tem a ver com as suas lágrimas? Endireitei os ombros, forçando o meu corpo
CAPÍTULO 51 — O DESPERTAR DAS CINZAS Helena O silêncio daquela madrugada na UTI não trazia paz; trazia sufocamento. O cheiro antisséptico e cortante do hospital parecia impregnado na minha pele, misturando-se ao cansaço brutal que pesava sobre as minhas pálpebras. Eu havia dispensado os seguranças da porta do quarto privativo há mais de uma hora e ordenado a Camila que fosse para casa descansar. Julian ainda estava na sede da holding, coordenando a transição das contas e a auditoria que varreu os últimos vestígios da traição corporativa. Ele achava que eu estava dormindo na cobertura. Mas os meus pés me trouxeram de volta para cá. Sempre para cá. Aproximei a cadeira de ferro estofada da cabeceira da cama. O ritmo das bombas de infusão parecia mais lento agora que os médicos haviam suspendido o sedativo contínuo. Sobre o lençol branco e engomado, a mão direita de Rafael repousava inerte, perfurada por acessos venosos, pálida e fria. Fiquei observando as linhas daquela mão. Quanta
CAPÍTULO 50 — O XEQUE-MATE NA SALA DE CONSELHO Helena O silêncio que se abateu sobre a sala de reuniões executivas da Martins & Cia possuía uma densidade quase palpável, daquelas atmosferas sufocantes que antecedem tempestades de proporções cataclísmicas. A temperatura do ambiente, rigorosamente calibrada pelo sistema central de climatização em vinte e um graus, parecia ter despencado dezenas de graus no exato segundo em que pronunciei a palavra "traição". A única trilha sonora que restava era o zumbido longínquo do ar-condicionado e a respiração contida dos doze membros do conselho de administração, cujos rostos empalideciam sob a iluminação fria dos lustres de design moderno. Otávio, o vice-presidente de finanças corporativas e meu suposto braço direito operacional por mais de três anos de dedicação mútua, engoliu em seco. O som da sua garganta contraindo-se foi audível no silêncio sepulcral. Gotas de suor frio brotaram instantaneamente em sua testa, unindo-se em um filete brilha







