FAZER LOGINPOV: André Eu não devia ter tanta pressa. Passei seis meses morrendo de sede no deserto, e agora que tinha a fonte bem diante de mim, precisava saborear cada gota antes de me afogar. Eu passei tempo demais alimentando um ódio cego, imaginando que ela tinha me roubado para viver uma vida de luxo, ostentação e liberdade bem longe de mim. Mas a verdade que ela me entregou mudou tudo. Ela tinha se sacrificado. E agora, trancados naquele quarto, longe de Vila Nova e do fantasma do Thiago, tudo o que importava era reaver o que era meu. Afastei-me ligeiramente, o suficiente para diminuir o ritmo frenético da minha própria respiração, mas sem perder o contato visual. Angel estava deitada no meio do colchão, o cabelo ruivo espalhado como uma auréola profana contra o lençol gasto. Os olhos dela injetados de luxúria, acompanhavam cada movimento meu. — André... — ela sussurrou, a voz manhosa, os quadris se elevando sutilmente em um convite mudo. — Espera — ordenei, a voz saindo baixa, arr
POV: Angel A claridade cinzenta da manhã começou a invadir as frestas da janela de madeira, trazendo consigo a realidade que eu tanto temia encarar. Mas, pela primeira vez em seis meses, o peso no meu peito parecia miligramas mais leve. Quando abri os olhos, ainda estava aninhada entre as pernas de André, sentindo o calor do corpo dele nos meus ombros e o ritmo calmo da sua respiração. Partimos de volta para Ponte Negra bem cedo. Juntar minhas poucas coisas naquele quartinho não levou mais do que cinco minutos. Deixar Vila Nova para trás, ver a silhueta daquele letreiro luminoso do bordel sumir pelo retrovisor do carro, foi como ver um fantasma se dissipar na neblina da estrada. Eu ainda não sabia o que iria acontecer. A ameaça de Thiago continuava pairando sobre as nossas cabeças como uma lâmina afiada, e a ideia de como superaríamos aquela extorsão e o roubo do cofre parecia um quebra-cabeça impossível de resolver. Mas estar ali, sentada ao lado dele, sabendo que ele me entendia
POV: AndréAs lágrimas dela, que antes pareciam uma barreira de segredos, agora lavavam toda a mentira que nos afastou. Segurei seus braços com uma delicadeza que eu temia quebrar, mas Angel não resistiu. O olhar cansado e profundo que ela me direcionou foi o estopim para que suas defesas finalmente desabassem por completo. Ela caiu aos prantos, um choro ruidoso, dolorido, daqueles que estavam guardados no fundo da alma há seis meses.Puxei o corpo dela para o meu peito. Envolvi-a com força, afundando meus dedos em seus cabelos. Ela escondeu o rosto no meu pescoço, soluçando tão alto que o som parecia ecoar nas paredes nuas daquele quarto miserável.— Eu sinto muito... Meu Deus, eu sinto muito — sussurrei contra os seus cabelos, sentindo minhas próprias lágrimas quentes molharem a pele dela. A culpa me esmagava. Como eu pude ser tão cego? Como pude odiá-la? — Eu vou resolver tudo isso, tá? Tudo vai ficar bem, Angel. Eu prometo.Afastei-a levemente, apenas o suficiente para segurar seu
POV: AndréO silêncio do cômodo só era quebrado pelo ruído irritante e metálico daquela geladeira velha. Dei mais um passo para o centro do quarto, sentindo o ar faltar nos meus pulmões. Meus olhos iam de um canto a outro, registrando cada detalhe daquele lugar miserável, e a cada segundo uma pontada de culpa e incredulidade me atingia no peito.O colchão afundado na cama de solteiro. O fogão de duas bocas sem nenhuma panela em cima. A ausência quase total de comida.Eu passei os últimos seis meses alimentando um ódio cego, imaginando que ela tinha me roubado para viver uma vida de luxo, ostentação e liberdade bem longe de mim e das responsabilidades de Ponte Negra. Mas a realidade diante dos meus olhos era um soco violento no meu estômago. Ela estava vivendo em um buraco.Olhei de volta para ela. Angel estava de pé perto da mesa, com os braços cruzados apertados contra o corpo, tremendo de frio ou de puro constrangimento. As asas brancas nas costas dela, que antes no salão pareceram
POV: Angel A determinação na voz de André me causou um arrepio que subiu pela espinha. Ele estendia o meu casaco com firmeza, mas não havia violência nos gestos dele; apenas um desespero controlado, a urgência de um homem que estava prestes a explodir por dentro se não obtivesse a verdade. A gerente olhou para o maço de notas sobre a mesa de vidro e soltou um riso anasalado, os olhos brilhando ao recolher o dinheiro com rapidez. — Bem, o dinheiro dita as regras aqui, cavalheiro. Por mim, ela é toda sua até o amanhecer. Só não façam bagunça no meu corredor — ela disparou, puxando a cortina de veludo de volta e nos deixando sozinhos mais uma vez. O silêncio desabou sobre nós, quebrado apenas pela minha respiração entrecortada. Eu olhava para o casaco na mão dele e depois para o seu rosto. André estava tão perto que eu conseguia ver o tremor sutil no seu maxilar rígido. — André... você não entende o perigo que está correndo vindo atrás de mim — sussurrei, a voz quase sumindo. Peguei
POV: André O silêncio que se instalou na cabine depois que aquelas palavras saíram da minha boca tinha gosto de fel. Eu ainda segurava o queixo dela, sentindo a pele macia que tantas vezes me tirou o sono, mas meus dedos tremiam, movidos por uma mistura de mágoa e uma saudade que eu tentava a todo custo sufocar. Eu me afastei devagar, soltando o rosto dela e dando as costas, incapaz de continuar encarando aquela vulnerabilidade que me desarmava. Clara — ou Angeline, ou seja lá quem ela quisesse ser agora — permaneceu imóvel, recolhendo o pano do chão com as mãos trêmulas. Ela se ergueu lentamente, tentando ajeitar a saia curta com um gesto instintivo de pudor que quebrou ainda mais o meu peito. A asa branca nas costas dela balançava de um jeito melancólico diante daquela cena. — Por que você mentiu seu nome? — perguntei, a voz saindo mais baixa, o tom irônico dando lugar a um cansaço genuíno. — Para garantir que ninguém de Ponte Negra, que eu nunca mais te encontrasse? Ela limp







