LOGINPOV Angeline
Caminhar atrás do Padre André pelos corredores estreitos da casa paroquial até a igreja era como assistir a um desfile particular de frustração reprimida. Ele andava rápido, a batina balançando com uma urgência que dizia: "Se eu não chegar ao altar em dez segundos, vou acabar fazendo algo de que o Vaticano nunca me perdoaria". Minha cabeça ainda latejava um pouco, mas a visão daquela postura rígida era o melhor analgésico que eu poderia pedir. Entramos no salão anexo, onde montanhas de caixas de papelão se amontoavam. O cheiro de poeira e mofo misturava-se ao aroma de incenso que parecia impregnado nas paredes de pedra. — Então, é aqui que os milagres acontecem? — perguntei, passando o dedo sobre uma mesa empoeirada e depois limpando no meu vestido branco. — Pensei que você me levaria para um lugar mais... privado. André parou de costas para mim. Vi seus ombros subirem e descerem em uma respiração profunda. Ele estava contando até dez. Ou até cem. — São doações para o orfanato da cidade vizinha, Angeline — ele disse, a voz soando como se estivesse sendo filtrada por uma camada de gelo. — Precisamos separar as roupas por tamanho e verificar se os alimentos estão no prazo. Ele finalmente se virou, mas seus olhos evitaram os meus, fixando-se em um ponto logo acima da minha cabeça, na parede onde um crucifixo solitário observava nossa interação. — Você disse que queria ser útil. Aqui está sua oportunidade. — Eu disse que faria o que você quisesse, André. Há uma diferença sutil aí — provoquei, aproximando-me de uma das caixas e me curvando deliberadamente para espiar o conteúdo. Eu sabia que, daquele ângulo, o corte do vestido não deixava nada para a imaginação. Ouvi um barulho seco. André tinha deixado cair um maço de formulários no chão. — Angeline, por favor... — O tom de súplica estava lá de novo, misturado com uma irritação latente. — Comporte-se. Estamos em solo sagrado. — O solo é sagrado, mas o ar... — Eu me levantei devagar, segurando um sapatinho de bebê que encontrei na caixa. POV André Eu estava no limite. Senti o suor frio brotando na base da minha nuca, mesmo com o frescor da manhã entrando pelas janelas altas. Ter Angeline ali, naquele vestido que parecia uma ofensa direta à minha castidade, era uma tortura que eu não desejava nem ao meu pior inimigo. Cada movimento que ela fazia era calculado para me desestabilizar. Quando ela se curvou sobre a caixa, eu tive que fechar os olhos e recitar mentalmente o Salmo 23 para não perder o que restava da minha sanidade. "O Senhor é meu pastor, nada me faltará..." Mas o que me faltava era ar. — Vamos focar no trabalho — eu disse, minha voz saindo mais áspera do que eu pretendia. Comecei a abrir as caixas com uma violência desnecessária, tentando descarregar a tensão física naquelas fitas adesivas. — Por que você é tão relutante, André? — A voz dela estava mais perto agora. Senti o calor do seu corpo às minhas costas. — Por que luta tanto contra o que é natural? Deus não nos fez de carne e osso apenas para sermos estátuas de mármore. — Deus nos deu o livre-arbítrio para escolhermos entre a luz e a escuridão, Angeline — respondi, sem me virar. Eu não podia me virar. Se eu o fizesse e encontrasse aqueles olhos verdes, eu estava perdido. — Eu fiz uma promessa. Uma aliança. — Alianças podem ser quebradas — ela sussurrou, e eu senti um fio de cabelo ruivo roçar no meu ombro. — Ou pelo menos... esquecidas por uma hora ou duas. Afastei-me bruscamente, pegando uma pilha de roupas velhas e jogando-as sobre a mesa de triagem. — Chega! — Minha voz ecoou pelo salão, fazendo-a dar um passo atrás, surpresa com o meu tom. — Se você não vai ajudar, saia. Eu não vou deixar que você transforme esta casa em um... em um lugar de pecados insanos. Eu estava tremendo. Minhas mãos, escondidas nas dobras da batina, estavam cerradas em punhos. Eu era um homem de fé, um líder espiritual, mas naquele momento, eu me sentia como um prisioneiro tentando não pular do penhasco. POV Angeline Ele estava furioso. E a fúria dele era a coisa mais honesta que eu já tinha visto. André não estava zangado comigo; ele estava zangado com o fato de que seu corpo não obedecia mais às suas orações. — Tudo bem, Padre — disse eu, levantando as mãos em sinal de rendição, mas mantendo o sorriso de lado. — Não precisa gritar. Eu vou trabalhar. Afinal, sou uma pecadora em busca de redenção, não é? Passei a próxima hora separando camisas e calças, mas mantive meu jogo. Sempre que passava por ele para colocar algo em outra caixa, eu garantia que nossos ombros se tocassem. Sempre que ele se abaixava, eu comentava sobre como o trabalho manual destacava a força dele. O silêncio no salão era denso, quebrado apenas pelo som do papelão e pelos sussurros das beatas que ainda podiam ser ouvidos ao longe, na sala principal. A tensão era um terceiro elemento ali dentro, invisível e sufocante. — Sabe — comecei, sem olhar para ele —, eu sempre me perguntei o que acontece quando um padre se apaixona. Ele simplesmente apaga o sentimento? Ou ele vive em uma mentira eterna? André parou o que estava fazendo. Ele segurava uma manta de lã, os dedos longos enterrados no tecido. — Um padre não se apaixona da mesma forma que os outros homens, Angeline — ele disse, com uma melancolia que me pegou desprevenida. — Nosso amor é voltado para algo maior. — Que desperdício — retruquei, caminhando até ele e parando à sua frente, forçando-o a olhar para mim. POV André Ela estava perto demais de novo. A fragrância de Angeline — uma mistura de jasmim e perigo — estava entupindo meus sentidos. Eu queria empurrá-la para longe e, ao mesmo tempo, puxá-la para o meu peito e nunca mais soltar. A luta interna era exaustiva. — Você não entende — murmurei, sentindo minha resistência diminuir a cada segundo. — Você não sabe o que é dedicar cada fibra do seu ser a uma causa. — Talvez eu entenda mais do que você pensa — ela disse, a voz subitamente suave, perdendo o tom sarcástico. Ela estendeu a mão e, desta vez, não permiti que ela recuasse. Ela tocou meu rosto, a ponta dos dedos traçando a linha da minha mandíbula. Eu deveria ter me afastado. Deveria ter citado as escrituras. Deveria ter corrido para o confessionário. Mas meu corpo simplesmente não obedeceu. Eu estava congelado, sentindo o toque dela como se fosse fogo líquido queimando minha pele. — André... — ela sussurrou meu nome. Sem o "Padre". Apenas eu. O homem sob a batina. Fechei os olhos, sentindo uma lágrima de frustração ameaçar cair. Eu estava perdendo a batalha. A cada segundo que a mão dela permanecia ali, o mundo lá fora, as beatas, a paróquia, até o próprio Deus parecia se tornar um eco distante. — Afaste-se — eu disse, mas não houve força no meu comando. Era apenas um sussurro de um homem que sabia que estava prestes a cair, e que, em algum lugar escuro de sua alma, ele queria a queda. Relutante, segurei o pulso dela, pretendendo afastar sua mão. Mas, em vez disso, acabei segurando-a com força, sentindo o pulso dela acelerado sob meus dedos. Nós estávamos os dois no precipício. — Eu não posso! — comecei, abrindo os olhos e encontrando a imensidão verde do olhar dela. — Eu perco tudo. — Ou — ela disse, aproximando o rosto do meu até que nossas respirações se tornassem uma só — você descobre que o que você tem agora não é nada comparado ao que podemos ter juntos. Eu estava prestes a fazer o que jurei nunca fazer. A batina parecia pesar toneladas. O silêncio da igreja era uma acusação silenciosa. Eu era o Padre André, e estava prestes a provar o meu doce pecado. POV Angeline Eu vi o momento exato em que ele quebrou. A luz nos olhos dele mudou de resistência para uma aceitação dolorosa. O "Santo" estava finalmente descendo do pedestal, e eu estava lá para pegá-lo. — Faça — eu o desafiei em um sussurro. — Esqueça o mundo lá fora, André. Só por um momento, seja apenas meu. Ele não respondeu com palavras. Ele apenas apertou meu pulso com mais força e, pela primeira vez, vi o brilho da luxúria pura. A porta do salão estava fechada, as beatas estavam longe, e o Padre estava finalmente pronto para a sua própria confissão.POV: André Eu não devia ter tanta pressa. Passei seis meses morrendo de sede no deserto, e agora que tinha a fonte bem diante de mim, precisava saborear cada gota antes de me afogar. Eu passei tempo demais alimentando um ódio cego, imaginando que ela tinha me roubado para viver uma vida de luxo, ostentação e liberdade bem longe de mim. Mas a verdade que ela me entregou mudou tudo. Ela tinha se sacrificado. E agora, trancados naquele quarto, longe de Vila Nova e do fantasma do Thiago, tudo o que importava era reaver o que era meu. Afastei-me ligeiramente, o suficiente para diminuir o ritmo frenético da minha própria respiração, mas sem perder o contato visual. Angel estava deitada no meio do colchão, o cabelo ruivo espalhado como uma auréola profana contra o lençol gasto. Os olhos dela injetados de luxúria, acompanhavam cada movimento meu. — André... — ela sussurrou, a voz manhosa, os quadris se elevando sutilmente em um convite mudo. — Espera — ordenei, a voz saindo baixa, arr
POV: Angel A claridade cinzenta da manhã começou a invadir as frestas da janela de madeira, trazendo consigo a realidade que eu tanto temia encarar. Mas, pela primeira vez em seis meses, o peso no meu peito parecia miligramas mais leve. Quando abri os olhos, ainda estava aninhada entre as pernas de André, sentindo o calor do corpo dele nos meus ombros e o ritmo calmo da sua respiração. Partimos de volta para Ponte Negra bem cedo. Juntar minhas poucas coisas naquele quartinho não levou mais do que cinco minutos. Deixar Vila Nova para trás, ver a silhueta daquele letreiro luminoso do bordel sumir pelo retrovisor do carro, foi como ver um fantasma se dissipar na neblina da estrada. Eu ainda não sabia o que iria acontecer. A ameaça de Thiago continuava pairando sobre as nossas cabeças como uma lâmina afiada, e a ideia de como superaríamos aquela extorsão e o roubo do cofre parecia um quebra-cabeça impossível de resolver. Mas estar ali, sentada ao lado dele, sabendo que ele me entendia
POV: AndréAs lágrimas dela, que antes pareciam uma barreira de segredos, agora lavavam toda a mentira que nos afastou. Segurei seus braços com uma delicadeza que eu temia quebrar, mas Angel não resistiu. O olhar cansado e profundo que ela me direcionou foi o estopim para que suas defesas finalmente desabassem por completo. Ela caiu aos prantos, um choro ruidoso, dolorido, daqueles que estavam guardados no fundo da alma há seis meses.Puxei o corpo dela para o meu peito. Envolvi-a com força, afundando meus dedos em seus cabelos. Ela escondeu o rosto no meu pescoço, soluçando tão alto que o som parecia ecoar nas paredes nuas daquele quarto miserável.— Eu sinto muito... Meu Deus, eu sinto muito — sussurrei contra os seus cabelos, sentindo minhas próprias lágrimas quentes molharem a pele dela. A culpa me esmagava. Como eu pude ser tão cego? Como pude odiá-la? — Eu vou resolver tudo isso, tá? Tudo vai ficar bem, Angel. Eu prometo.Afastei-a levemente, apenas o suficiente para segurar seu
POV: AndréO silêncio do cômodo só era quebrado pelo ruído irritante e metálico daquela geladeira velha. Dei mais um passo para o centro do quarto, sentindo o ar faltar nos meus pulmões. Meus olhos iam de um canto a outro, registrando cada detalhe daquele lugar miserável, e a cada segundo uma pontada de culpa e incredulidade me atingia no peito.O colchão afundado na cama de solteiro. O fogão de duas bocas sem nenhuma panela em cima. A ausência quase total de comida.Eu passei os últimos seis meses alimentando um ódio cego, imaginando que ela tinha me roubado para viver uma vida de luxo, ostentação e liberdade bem longe de mim e das responsabilidades de Ponte Negra. Mas a realidade diante dos meus olhos era um soco violento no meu estômago. Ela estava vivendo em um buraco.Olhei de volta para ela. Angel estava de pé perto da mesa, com os braços cruzados apertados contra o corpo, tremendo de frio ou de puro constrangimento. As asas brancas nas costas dela, que antes no salão pareceram
POV: Angel A determinação na voz de André me causou um arrepio que subiu pela espinha. Ele estendia o meu casaco com firmeza, mas não havia violência nos gestos dele; apenas um desespero controlado, a urgência de um homem que estava prestes a explodir por dentro se não obtivesse a verdade. A gerente olhou para o maço de notas sobre a mesa de vidro e soltou um riso anasalado, os olhos brilhando ao recolher o dinheiro com rapidez. — Bem, o dinheiro dita as regras aqui, cavalheiro. Por mim, ela é toda sua até o amanhecer. Só não façam bagunça no meu corredor — ela disparou, puxando a cortina de veludo de volta e nos deixando sozinhos mais uma vez. O silêncio desabou sobre nós, quebrado apenas pela minha respiração entrecortada. Eu olhava para o casaco na mão dele e depois para o seu rosto. André estava tão perto que eu conseguia ver o tremor sutil no seu maxilar rígido. — André... você não entende o perigo que está correndo vindo atrás de mim — sussurrei, a voz quase sumindo. Peguei
POV: André O silêncio que se instalou na cabine depois que aquelas palavras saíram da minha boca tinha gosto de fel. Eu ainda segurava o queixo dela, sentindo a pele macia que tantas vezes me tirou o sono, mas meus dedos tremiam, movidos por uma mistura de mágoa e uma saudade que eu tentava a todo custo sufocar. Eu me afastei devagar, soltando o rosto dela e dando as costas, incapaz de continuar encarando aquela vulnerabilidade que me desarmava. Clara — ou Angeline, ou seja lá quem ela quisesse ser agora — permaneceu imóvel, recolhendo o pano do chão com as mãos trêmulas. Ela se ergueu lentamente, tentando ajeitar a saia curta com um gesto instintivo de pudor que quebrou ainda mais o meu peito. A asa branca nas costas dela balançava de um jeito melancólico diante daquela cena. — Por que você mentiu seu nome? — perguntei, a voz saindo mais baixa, o tom irônico dando lugar a um cansaço genuíno. — Para garantir que ninguém de Ponte Negra, que eu nunca mais te encontrasse? Ela limp







