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A Fronteira Invisível

last update publish date: 2026-09-21 22:59:43

O trajeto de volta para o Leblon ocorreu sob a mesma bolha de silêncio e eficiência que marcava o protocolo de Lucas.

No banco traseiro do sedã blindado, mantive os olhos fixos na paisagem que passava rapidamente pela janela: o mar de Ipanema sob a luz do fim de tarde, as pessoas caminhando na calçada, a vida pulsando lá fora sem as amarras de um código estrito. Para mim, no entanto, aquele mundo exterior parecia cada vez mais distante, quase irreal.

Quando o carro finalmente estacionou na vaga
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    O som distante dos carros na Rua das Laranjeiras misturava-se ao farfalhar das folhas dos jacarandás no quintal da frente. Às nove da noite, a casa de dois andares cheirava a tinta fresca, café passado e cera de madeira. Após um dia inteiro desempacotando caixas com a ajuda de dois rapazes da equipe de mudança, a sala ampla finalmente começara a tomar forma. O sofá confortável de tecido claro já estava posicionado sob a janela, e a mesa de jantar redonda que dona Helena insistira em trazer do interior ocupava o centro da sala de jantar, coberta por uma renda feita por ela mesma. Caminhei até a cozinha com passos silenciosos e encontrei minha mãe encostada na bancada de granito, segurando uma xícara de chá. Ela observava o jardim dos fundos iluminado pelas arandelas amareladas do muro. — A senhora está cansada, mãe — disse eu, aproximando-me e pousando a mão sobre o ombro dela. — Foi um dia longo. Por que não vai se deitar? Dona Helena virou-se para mim com um sorriso calmo, os ol

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    O fim de tarde no interior desenhava sombras longas na varanda quando o almoço terminou. Dona Helena já recolhia os pratos com a ajuda de Laura, cujas risadas ecoavam de dentro da casa, trazendo um calor humano que parecia preencher até as vigas antigas do teto. Aproveitei o momento em que Henrique caminhara até o limite do quintal para atender a uma ligação rápida de trabalho. Esperei que ele guardasse o telefone no bolso antes de me aproximar, com passos calmos pela grama baixa. Ele se virou assim que ouviu meus passos, guardando a pasta de couro sob o braço com a postura atenta de sempre. — A comida da sua mãe é imbatível — disse ele, com um sorriso discreto. — A Laura já está querendo levar marmita para o Rio. Sorri de canto, mas mudei o tom de voz, assumindo a firmeza que vinha cultivando ao longo das últimas semanas. — Henrique. Ele percebeu a mudança no meu olhar e silenciou imediatamente, dando-me toda a sua atenção. — Eu pensei no que você disse na semana passada — co

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    Na quinta-feira da semana seguinte, o som da buzina alegre na porteira anunciou a chegada do carro antes mesmo que a poeira da estrada de terra vermelha baixasse. Eu estava na varanda ajudando minha mãe a secar a louça quando a porta do passageiro do utilitário se abriu rapidamente. Laura praticamente saltou do veículo, ignorando os avisos de Henrique para que tomasse cuidado com o piso irregular. — Valentina! — gritou ela, correndo em minha direção com os braços abertos. — Laura! Cuidado! — rindo, desci os degraus da varanda e fui ao encontro dela. O abraço de Laura foi apertado, quente e cheio daquela energia vibrante que sempre parecia afastar qualquer sombra ao redor. Ela me segurou pelos ombros, afastando-se um pouco para examinar meu rosto com um olhar minucioso. — Olha para você! A sua pele, o seu olhar... a roça fez milagres, menina! — exclamou Laura, antes de se virar para dona Helena, que assistia à cena com um sorriso maternal. — Dona Helena! Que saudade da senhora!

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    Henrique tomou um gole do café fumegante que minha mãe trouxera, observando a firmeza do meu olhar após a minha declaração sobre o retorno à faculdade. O silêncio entre nós não era mais tenso como no passado; trazia o peso do respeito e de uma cumplicidade moldada pela tempestade que enfrentamos juntos.Ele pousou a xícara sobre a mesa rústica e abriu novamente a pasta de couro que trouxera. Mas, desta vez, não retirou papéis jurídicos ou relatórios de audiência. Retirou uma pasta de capa azul-marinho, timbrada por um cartório da capital, e a deslizou devagar pela madeira até que ela parasse a poucos centímetros das minhas mãos.Olhei para a capa, intrigada.— O que é isso, Henrique? — perguntei, sem tocar no documento.— Abra, Valentina — disse ele, a voz baixando para um tom calmo, porém carregado de uma gravidade absoluta.Puxei a pasta e abri a primeira página. Trata-se da escritura pública de compra e venda de um imóvel em Botafogo, no Rio de Janeiro — uma casa ampla, com jardim,

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    O som do vento balançando as folhas dos cafezais ao fundo da casa de madeira trazia uma cadência que meu corpo parecia ter esquecido. O cheiro de terra molhada pela orvalho da manhã invadia a varanda, misturando-se ao aroma do café recém-passado que dona Helena servia na mesa de rústica.Três meses haviam se passado desde a noite da invasão na cobertura do Leblon.Eu estava sentada no banco de madeira, vestindo uma camisa de algodão leve e chinelos simples. Minhas mãos, que antes seguravam com pavor os lençóis de cetim do quarto secreto ou as pastas pesadas do curso de Direito, agora seguravam uma caneca de esmalte quente. O silêncio da roça não era o silêncio sufocante e asséptico do apartamento de Lucas; era um silêncio vivo, preenchido pelo canto dos pássaros e pelo estalar da lenha no fogão.Dona Helena sentou-se ao meu lado, ajeitando o xale sobre os ombros. Ela não fazia perguntas sobre o passado, nem insistia em tocar nos nomes que nos feriram. O amor dela manifestava-se em ges

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    (Henrique)Duas semanas após a noite da invasão na cobertura do Leblon, o ar no escritório de advocacia em Botafogo era de uma sobriedade tensa. Sobre a mesa de reunião de madeira nobre, pilhas de documentos, relatórios periciais e depoimentos assinados formavam o dossiê que colocaria fim, de uma vez por todas, à impunidade de Lucas Alencar.Valentina estava sentada ao meu lado. Vestia um jeans confortável e uma blusa clara simples, sem os trajes sóbrios e rígidos impostos pelo padrão de luxo do magnata. O semblante dela ainda carregava as marcas das noites mal dormidas e do processo doloroso de metabolizar o trauma, mas os olhos — antes sombrios e hesitantes — agora brilhavam com uma determinação inabalável.Do outro lado da mesa, Dra. Beatriz, a advogada criminalista contratada por minha equipe, ajustava os óculos enquanto folheava a versão final da denúncia.— A situação do Lucas desmoronou em cadeia — começou Beatriz, direcionando o olhar para Valentina. — O depoimento da sua cole

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