LOGIN(Henrique)Laura travou a mão no fecho da bolsa, congelando a poucos passos da porta. Ela girou o corpo devagar, encarando-me com uma mistura de dúvida e exaustão.— A mãe da Valentina? — perguntou ela, franzindo a testa. — Pai, nós quase não sabemos nada sobre a família dela. A Valentina nunca gostou de falar do passado, nem quando a gente era super coladas, ela nao falava nada. A única coisa que eu me lembro de ouvir, por alto, era que ela tinha vindo do interior para estudar...— E é exatamente por isso que essa é a nossa única cartada — respondi, apoiando o quadril na borda da mesa e cruzando os braços. — Porque nem eu, nem você, nem o Alencar sabemos os detalhes. A Valentina trancou essa parte da vida dela a sete chaves.Laura deu um passo em minha direção, atenta.— O que a minha equipe de inteligência conseguiu levantar nesses últimos dias é raso, mas suficiente — continuei, a voz calma e calculada. — A família dela é de uma origem extremamente humilde do interior. O pai é um a
(Henrique)O dia mal amanhecera quando Laura entrou na sala de reuniões da Fontes Holding.Eu estava de pé junto à imensa mesa de centro, segurando uma xícara de café já frio em uma das mãos enquanto passava os olhos pelo relatório de inteligência atualizado que a minha equipe de apoio acabara de entregar. O meu semblante não carregava mais a fúria cega da véspera; trazia apenas a rigidez gélida e analítica de um executivo que acabou de constatar um diagnóstico sem volta.— Como ela estava? — perguntou Laura, fechando a porta de madeira nobre pesada atrás de si com um estrondo abafado. — O que aconteceu exatamente naquela travessa ontem, Henrique?Caminhei em passos lentos até a vidraça panorâmica, encarando os prédios espelhados do Centro do Rio de Janeiro sob a luz acinzentada da manhã. Dei um gole cadenciado no café amargo antes de responder, mantendo a minha voz numa frequência grave e terrivelmente serena.— Ela não é mais a Valentina, Laura — declarei, sem me virar de imediato p
O silêncio que se seguiu à minha súplica pareceu durar uma eternidade.A venda de seda continuava a barrar qualquer vestígio de luz, forçando-me a habitar apenas a escuridão da minha própria vergonha. Ajoelhada sobre o futon, com o peito subindo e descendo em espasmos dolorosos decorrentes do choro contido, eu aguardava a sentença de Lucas como quem espera pela única absolvição possível neste mundo.A mão dele soltou a minha nuca devagar. O toque, que antes trouxera a rigidez do julgamento, gradativamente mudou de textura. Os dedos de Lucas deslizaram pela linha da minha mandíbula, limpando as lágrimas que desciam quentes pela minha bochecha com uma delicadeza quase inacreditável.— Olhe o quanto você fica vulnerável quando tenta caminhar sem o meu amparo... — disse ele, a voz baixando para uma frequência profundamente aveludada, impregnada de uma compaixão manipuladora e irrefutável. — Você percebe, Valentina? Percebe como o mundo lá fora só quer te fragmentar, enquanto eu sou o únic
A escuridão da venda transformava o menor som em um estrondo dentro da minha cabeça. Presa com os pulsos atados às costas, ajoelhada sobre o futon, eu ouvia apenas o roçar lento dos sapatos de Lucas contra o piso de madeira. Ele não tinha pressa. O silêncio que ele sustentava era, por si só, uma sentença.Quando as mãos dele pousaram nos meus ombros, não trouxeram o calor protetor ao qual eu me apegera. O toque era frio, cirúrgico, pesado.— Sabe o que me decepciona de verdade, Valentina? — a voz dele ressoou baixa, rente ao meu ouvido, desprovida de qualquer tom de afeição. Era a voz de um juiz diante de uma ré sem defesa. — Não foi o Henrique ter aparecido. Ele é um animal previsível. O que me decepciona é a facilidade com que você se deixa violar.A palavra "violar" cortou o ar como um golpe seco. Tentei puxar o ar, mas a gola invisível da culpa apertou a minha garganta.— N-não... Senhor, eu não quis... — tentei me explicar, o tom trêmulo e desesperado.— Quem disse que você tem a
O reservado estava impregnado pela iluminação avermelhada costumeira. O ar gelado do ambiente contrastava com o calor que subia pela minha pele a cada passo que eu dava em direção ao centro da sala. Diante de mim, a parede espelhada devolvia o meu reflexo completo: o vestido já dobrado com cuidado sobre a poltrona, restando apenas a lingerie preta e a trança que Lucas havia feito mais cedo.Lucas caminhou até mim com a firmeza de quem não aceitava nada menos que a rendição absoluta. Ele trajava apenas a calça social e a camisa branca de mangas dobradas, desprovido do paletó ou da gravata. Em sua mão direita, a fita de cetim preto repousava pronta para o uso.— Ajoelhe-se de frente para o espelho, Valentina — instruiu ele, a voz soando como um comando que ressoava fundo na minha espinha.Obedeci no mesmo segundo. Apoiei os joelhos sobre o futon macio, mantendo a coluna ereta e as mãos sobre as coxas, encarando o meu próprio reflexo e a figura imponente de Lucas postada logo atrás de mi
Avancei com passos incertos pelo piso de madeira da sala, sentindo cada centímetro de distância entre mim e Lucas pesar como chumbo. A iluminação natural que entrava pelas vidraças começava a esvanecer, deixando o ambiente em uma meia-luz densa, fria e dominada pela figura rígida dele.Parei a dois passos de distância, baixando os olhos por um segundo antes de ser forçada a encará-lo.— Olhe para mim, Valentina — a ordem veio limpa, pausada e desprovida de alarde.Ergui a cabeça, sustentando o olhar de Lucas. A tempestade contida em suas íris escuras era mais amedrontadora do que qualquer grito. Não havia fúria descontrolada, mas sim o rigor implacável de um homem cujo controle absoluto sofrera uma fissura indesejada.— Ele tocou em você? — perguntou ele, dando um passo à frente para diminuir ainda mais o espaço entre nós, cerceando qualquer rota de fuga mental ou física.— Ele... ele segurou meu braço — a voz saiu trêmula, pequena, quase sumindo no ar. — Por alguns segundos, antes do







