LOGINAshford não é apenas uma cidade universitária pacata; é o lugar onde Melissa esconde seus pedaços. Desde que um trauma brutal no ensino médio transformou o toque masculino em sinônimo de perigo, ela vive em alerta constante. Na faculdade, ela é a aluna invisível: franja preta cobrindo os olhos, corpo encolhido em moletons largos, fugindo de qualquer aproximação. Mas quando a noite cai e o quarto escuro a acolhe, Melissa assume uma identidade completamente diferente. Secretamente, ela trabalha em um aplicativo de sexting, encontrando na tela do celular a única zona segura onde pode explorar sua sexualidade e ditar as regras sem medo. O que ela não esperava era capturar a atenção de seu cliente mais exigente, possessivo e viciante. Na vida real, ele é o professor mais temido e implacável do campus. Frio, analítico e dono de uma presença avassaladora, ele comanda a sala de aula como um predador testando sua presa. O que começa como um jogo virtual de submissão e comandos sombrios toma um rumo aterrorizante e excitante quando ele descobre a verdadeira identidade da aluna tímida. Ao perceber as cicatrizes invisíveis que ela carrega, ele não recua — ele usa a obsessão para encurralá-la. Mas, contrariando todas as expectativas de um monstro, ele estabelece uma linha que jamais cruza sem o seu consentimento, provando que, em meio ao terror de se render, ela finalmente tem o poder de parar o mundo... se tiver coragem para isso.
View MoreAshford, Massachusetts
Outubro A casa era pequena demais para dois corpos que precisavam de distância. Melissa abriu os olhos antes do despertador. O teto do quarto ainda carregava a mancha de umidade do inverno passado, um círculo irregular que ela contava todas as manhãs como se fosse uma oração privada. Do outro lado da parede fina, Reyna já estava no banheiro. O chuveiro ligado, a água batendo contra o box de acrílico, o som familiar que, de algum modo, não a fazia encolher. Ela se sentou na beira da cama. Os pés descalços tocaram o chão frio. Por um segundo o contato a puxou para trás — mãos, peso, a impossibilidade de gritar — e o peito apertou com a precisão cruel de sempre. Respiração curta. Contagem. Um, dois, três, quatro. O ar voltou aos poucos, como se precisasse de permissão. No criado-mudo, o celular vibrava com a discrição de quem já conhecia o horário. Ela o pegou sem olhar o nome. Já sabia. VIP_01: Acordada, coelhinha? VIP_01: Ou ainda está se escondendo atrás daquela porta trancada que você tanto gosta de mencionar? Melissa digitou com os polegares firmes. Na tela, a timidez evaporava como se nunca tivesse existido. Luna_23: Estou acordada. E a porta está trancada, sim. Como sempre. Luna_23: Você gosta de imaginar isso, não gosta? Eu do outro lado, sozinha, esperando a próxima ordem. A resposta veio em menos de dez segundos. Ele nunca demorava. VIP_01: Eu gosto de saber que você está exatamente onde eu quero, gatinha. Agora me diga o que está vestindo. Sem mentiras. Sem omissões. Ela olhou para o próprio corpo. Camiseta larga de faculdade, shorts de moletom, meias furadas no calcanhar. Nada que ele merecesse saber. Na tela, porém, a verdade era outra coisa. Luna_23: Nada. Só a camisa que você mandou eu deixar aberta na última vez. Estou fria. E esperando. Mentira suave. Necessária. O corpo físico dela era um território minado; a tela, um território conquistado. Ali ela controlava o ritmo, a distância, o que entrava e o que ficava do lado de fora. Oito meses de conversas noturnas com aquele homem tinham ensinado Melissa a respirar de um jeito diferente. Sem o gosto metálico na boca. Sem o pânico subindo pela garganta. Reyna bateu na porta do quarto. — Mel, você vai se atrasar de novo. O ônibus das sete e vinte não espera. Melissa trancou a tela antes de responder. — Já estou pronta. Não estava. Nunca estava, de verdade. Mas a mentira saía fácil quando se tratava da amiga. Reyna sabia da ansiedade, do jeito que Melissa evitava festas, dos homens que ela atravessava a rua para não esbarrar. Não sabia do resto. Nunca saberia. No ônibus, Melissa ocupou o banco do fundo e abriu o aplicativo de novo. VIP_01 ainda estava online. As mensagens continuaram durante o trajeto, cada uma mais precisa, mais exigente. Ele não pedia fotos. Nunca pedia. Só palavras. Descrições. Confissões inventadas que ela entregava com uma fluência que a surpreendia até hoje. VIP_01: Quero que você imagine minha mão na sua nuca enquanto lê isso, coelhinha. Aperte as coxas. Agora. VIP_01: Me diga se obedeceu. Melissa olhou em volta. O ônibus estava pela metade. Um homem de terno dormia dois bancos à frente. Uma estudante com fones de ouvido balançava a cabeça no ritmo de uma música que ela não ouvia. Ninguém prestava atenção nela. Nunca prestavam. Ela apertou as coxas sob o casaco. O gesto foi pequeno, quase invisível. O corpo respondeu mesmo assim — um calor baixo, traiçoeiro, que ela só permitia existir quando a tela estava entre ela e o mundo. Luna_23: Obedeci. Luna_23: Estou apertando. E pensando no que você faria se estivesse aqui. VIP_01: Se eu estivesse aí, gatinha, você não estaria pensando. Estaria sentindo. E eu não pararia só porque tem gente por perto. A mensagem fez o estômago dela contrair. Não de medo. De algo mais complicado. Algo que ela não nomeava. Quando o ônibus parou em frente ao prédio de Ciências Sociais, Melissa já tinha o rosto quente e o corpo em um estado de alerta que não era pânico. Era outra coisa. Uma tensão que ela carregava como um segredo sob a pele. Sebastian Hale entrava na sala exatamente às oito. Sempre. Melissa já estava sentada na última fileira, casaco ainda vestido apesar do aquecimento central, caderno aberto em uma página em branco. Ela não levantava os olhos quando ele passava. Nunca. O professor tinha uma presença que ocupava o oxigênio da sala: alto, ombros largos sob o casaco escuro, voz baixa e cortante que não precisava ser elevada para silenciar qualquer conversa. Os outros alunos o temiam de um jeito quase respeitoso. Melissa o temia de um jeito diferente. Mais antigo. Mais visceral. A simples proximidade de um homem daquele tamanho, daquela frieza controlada, fazia os músculos das costas se retesarem por reflexo. Ele começou a aula sem cumprimento. — Página cento e sete. Teoria do poder simbólico. Quem leu? Ninguém respondeu de imediato. Melissa sentiu o olhar dele passar pela sala como uma varredura lenta. Quando chegou nela, demorou meio segundo a mais do que o necessário. Ou talvez fosse só a paranoia. Ela abaixou a cabeça e fingiu anotar algo que não existia. O celular vibrou no bolso interno do casaco. Ela não pegou. Não na aula dele. Nunca. Mas a vibração continuou. Duas. Três. Quatro vezes. VIP_01 não gostava de ser ignorado. Sebastian escrevia no quadro com a caligrafia precisa de quem controlava até a inclinação das letras. Melissa copiava as palavras sem realmente lê-las. O corpo dela ainda carregava o eco das mensagens da manhã. A camisa aberta. A porta trancada. A ordem de apertar as coxas. Cada vibração no bolso era um lembrete de que, do outro lado da tela, havia um homem que a queria exatamente daquele jeito: obediente, escondida, disponível. Quando a aula terminou, ela foi a primeira a se levantar. O corredor estava cheio demais. Ombros masculinos, risadas baixas, o cheiro de café e perfume barato. Melissa apertou a alça da mochila até os nós dos dedos ficarem brancos e caminhou rente à parede, contando os passos até a saída de emergência que dava para o estacionamento dos fundos. Ali o ar era mais frio. Mais seguro. O vento de outubro cortava o rosto e, por um momento, ela conseguiu respirar de verdade. Só então olhou o celular. VIP_01: Você sumiu, coelhinha. VIP_01: Eu não gosto quando você some. VIP_01: Me diga onde está agora. Exatamente. Melissa encostou as costas na parede de concreto e digitou com os dedos frios. Luna_23: Em um lugar público. Cheio de gente. Não posso falar do jeito que você quer. Luna_23: Mais tarde. Quando estiver trancada de novo. A resposta demorou quase um minuto. Tempo suficiente para o coração dela acelerar sem motivo aparente. VIP_01: Mais tarde, então. Mas não me faça esperar demais, gatinha. VIP_01: Eu quero você quieta, com as pernas fechadas, pensando em mim até a porta fechar atrás de você. Entendeu? Luna_23: Entendi. VIP_01: Boa menina. A última mensagem ficou na tela por longos segundos antes de Melissa bloquear o aparelho e guardá-lo no fundo da mochila. O elogio — tão simples, tão carregado — fez algo se mexer no peito. Não era conforto. Era reconhecimento. Como se, por um instante, alguém tivesse visto a versão dela que só existia no escuro. Ela caminhou até o ponto de ônibus com os ombros ainda tensos, o corpo ainda obedecendo a uma ordem que ninguém ao seu redor podia ouvir. Na cabeça, a voz do professor ainda ecoava, fria e precisa, falando de poder simbólico. Na tela, outra voz — a mesma frieza, a mesma precisão — continuava a dar ordens que ela escolhia cumprir. Duas presenças. Dois mundos. E Melissa, no meio, tentando não deixar que um atravessasse o outro. Quando finalmente chegou em casa, Reyna estava na cozinha, comendo cereal em pé, o cabelo molhado pingando no ombro da camiseta. — Você tá pálida — comentou, sem levantar a voz. — Aconteceu alguma coisa? Melissa balançou a cabeça. Tirou o casaco. Deixou a mochila no chão. — Só a aula. O Hale é… intenso. Reyna fez uma careta de compreensão. — Aquele homem parece que nasceu de um casaco preto e uma voz de baixo. Mas ele é brilhante, né? Todo mundo diz. Melissa não respondeu. Foi direto para o quarto, trancou a porta com o truque silencioso que já era hábito e só então tirou o celular de novo. VIP_01 ainda estava online. Ela sentou na beira da cama, as pernas juntas como ele tinha pedido, e digitou a primeira mensagem da noite com a mesma mão que, horas antes, tremia no corredor da universidade. Luna_23: A porta está trancada. Luna_23: Estou esperando. Do outro lado da cidade — ou do país, ou do mundo, ela nunca soube — alguém digitou de volta quase imediatamente. VIP_01: Então começa, coelhinha. VIP_01: Me conta exatamente o que você está sentindo agora. Sem filtro. Sem mentira. Eu quero tudo. Melissa olhou para a porta trancada. Depois para as próprias mãos. Depois para a tela. E, pela milésima vez em oito meses, escolheu entregar a versão dela que só existia quando ninguém podia alcançá-la.Melissa saiu da sala com o celular apertado contra o peito, como se o aparelho pudesse ainda carregar o calor da mão dele. Os corredores estavam cheios. Ela colou-se à parede e caminhou rápido, a cabeça baixa, o coração batendo em um ritmo irregular. Dois dias, dois atrasos e o celular confiscado. A voz baixa de Hale ainda ecoava: Da próxima vez… as consequências serão diferentes. Não fora gritado. Não precisara. A ameaça quieta doía mais. No banheiro do segundo andar, trancou a cabine e só então desbloqueou a tela. A foto ainda estava na galeria. A mesma que ela enviara na noite anterior. O estômago revirou. E se ele tivesse visto? O aparelho não estava bloqueado quando ela o entregou. A imagem poderia ter ficado aberta. A possibilidade era nauseante. Uma nova mensagem de VIP_01 apareceu no topo. VIP_01: Você esteve quieta demais hoje, coelhinha. VIP_01: Me diga exatamente onde está agora.
Sebastian Hale odiava improviso. A aula começava às oito em ponto. Ele entrava, fechava a porta e esperava o silêncio se instalar antes de pronunciar a primeira palavra. Pontualidade não era formalidade. Era o primeiro exercício de poder da manhã. Quem chegava atrasado aprendia rápido que o tempo dele não era negociável. Às 8:28 a porta se abriu. Melissa Quinn entrou com a cabeça baixa, o casaco preto oversized, a mochila batendo na coxa. Onze minutos ontem. Vinte e oito agora. A segunda vez em dois dias. A sala inteira notou. Algumas cabeças se viraram. Outras fingiram não ver. Sebastian interrompeu a frase no quadro, deixou o giz pairar no ar por um segundo e depois continuou escrevendo como se a interrupção não tivesse existido. Não comentou. Ainda não. Ela foi direto para a última fileira, canto perto da janela. A mesma carteira de sempre. Sentou-se rápido, abriu o caderno, baixou os olhos. O padrão era previsível.
A casa estava quieta quando Melissa chegou. Reyna deixara um bilhete torto na geladeira: “Saindo com o Vinny. Volto tarde. Tem sobra de macarrão.” O silêncio era um alívio. Melissa largou a mochila perto da porta, tirou o casaco e foi direto para o banheiro. Trancou por hábito, mesmo sabendo que estava sozinha. O chuveiro esquentou devagar. Ela entrou debaixo da água quente e ficou parada longos minutos, a testa apoiada no azulejo, deixando o calor descer pela nuca, pelos ombros, pela coluna. O dia inteiro ainda estava grudado na pele: o atraso, os olhares da sala, a voz baixa do professor Hale, o residual da madrugada. A água não apagava nada disso. Só tornava o corpo um pouco mais suportável. Quando saiu, a pele estava rosada do calor. Enrolou a toalha em volta do corpo, pegou o celular e foi para o quarto. O gancho de metal fez o clique familiar. Só então ela se deixou sentar na beira da cama, o cabelo molhado pingando no ombro. A tela já t
O celular marcava 7:51. A aula de Hale começava às oito. — Merda. Ela se levantou de um salto. A camiseta de dormir ainda cheirava a sabonete da noite anterior. O pesadelo tinha vindo, mas desta vez a mensagem enviada e a resposta da manhã tinham sido suficientes para o corpo não carregar o dia inteiro como um peso. Quatro meses de conversas assim tinham ensinado o sistema nervoso a baixar a guarda um pouco mais rápido. Não eliminavam o medo. Só o tornavam administrável. Melissa se vestiu em cinco minutos: calça jeans escura, casaco oversized preto, cabelo preso em um coque torto. Sem maquiagem. Sem café. Pegou a mochila, trancou o quarto por hábito e saiu sem fazer barulho para não acordar Reyna. O ônibus das 7:55 já tinha passado. Ela correu até o ponto seguinte, o ar frio de outubro cortando o rosto. Chegou na parada ofegante, embarcou no próximo coletivo e ficou em pé perto da porta, uma mão segurando o corrimão, a outra no bolso onde o ce
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