LOGINO som da campainha do telefone chamando na caixa postal de Henrique parecia ecoar dentro da minha própria cabeça. Apertei o celular com tanta força contra a orelha que meus nós dos dedos ficaram brancos. — Caiu de novo na caixa postal? — perguntei a Laura, com a voz embargada e os olhos vermelhos, andando de um lado para o outro na sala de estar. Ela tentava o número do pai e, em seguida, o contato do assistente executivo da holding, sem obter sucesso em nenhuma das tentativas. — De novo... — respondi num fio de voz, sentindo a garganta apertada por um nó doloroso. Disquei o número do setor de emergência corporativa da holding. Após três toques longos, uma voz feminina trêmula e profissional atendeu do outro lado da linha. — Central Executiva, quem fala? — Aqui é Valentina Amaral, estou com a Laura. Nós estamos acompanhando a notícia sobre o voo... Vocês têm alguma confirmação oficial da localização? Onde está o Henrique? — despejei as perguntas em um fôlego só, o coração
O domingo amanheceu com um sol pálido e preguiçoso que mal conseguia aquecer a brisa fresca de outono. Era o tipo de dia perfeito para desacelerar, e eu havia planejado exatamente isso: passar a manhã na companhia da minha mãe e de Laura, sem livros de Direito espalhados pela mesa ou prazos processuais rondando a minha cabeça. Dona Helena cumpriu a promessa feita dias atrás e preparou um almoço caprichado. O cheiro de frango com ora-pro-nóbis e polenta fresca invadia todos os cômodos da casa, trazendo aquela sensação reconfortante de lar que eu demorara tanto tempo para conquistar. Por volta das uma hora da tarde, a campainha tocou. Fui até o portão e encontrei Laura com um sorriso aberto, vestindo um moletom largo e calça jeans, carregando uma sacola com alguns doces de padaria que ela insistira em trazer. — Cheguei a tempo do frango da dona Helena ou o cheiro da comida já me entregou do portão para fora? — brincou Laura, dando um abraço apertado em mim na entrada. — Chego
O som suave do motor do meu carro e a música baixa que tocava no rádio embalavam a viagem até Laranjeiras. Laura mexia no celular no banco do carona, comentando sobre uma foto que vira nas redes sociais de uma colega da faculdade, mas a minha atenção estava parcialmente dividida. A imagem de Henrique parado na calçada, vestindo aquela camisa social sem gravata e falando com uma transparência que eu jamais vira nele no passado, teimava em se projetar contra o parabrisa. As palavras dele continuavam ressoando com uma nitidez impressionante: “Se um dia for da sua vontade, eu estou disposto a tentar de novo. Fazer diferente. Fazer o certo desta vez.” Não havia arrogância na promessa dele. Não havia a postura do tutor que decidia por mim ou do homem que usava seu poder para me blindar do mundo. Era apenas um homem admitindo seus erros e oferecendo uma possibilidade para o futuro, sem impor prazos, sem fazer cobranças e aceitando o meu 'não' temporário com uma dignidade impecável. — Tin
O ar abafado do fim de tarde no Rio de Janeiro pedia algo refrescante. Dentro do supermercado em Botafogo, empurrei o carrinho pelo corredor de bebidas enquanto pegava meu celular do bolso para enviar uma mensagem para Laura. > Valentina: Laura, vai passar lá em casa mais tarde? Tô no mercado agora. Se você for, já levo aquela água saborizada de limão siciliano que você gosta. Não demorou nem dois minutos para a tela acender com a resposta. > Laura: Vou sim, Tina! Amiga, faz um favorzão? Meu carro tá na oficina desde ontem. Consegue passar aqui em casa pra me buscar na saída do mercado? A gente já vai juntas pra lá! Eu pediria pro meu pai tá arrumando as malas pra viajar a trabalho, então ele não pode me levar. Ao ler a última frase, meu coração deu um salto involuntário contra o peito. A simples menção ao nome de Henrique ainda tinha o poder de causar aquele arrepio discreto na espinha, uma mistura de surpresa e memória. Respirei fundo para acalmar o pulso acelerado e dig
Capítulo 227: Seis meses se passaram desde que a batida final do martelo no tribunal da 2ª Vara Criminal encerrou o capítulo mais sombrio da minha vida. A condenação de Lucas Alencar e a sua transferência para o sistema penitenciário haviam deixado de ser manchete nos portais de notícias; para mim, tornaram-se apenas uma página virada no livro da minha história. O outono no Rio de Janeiro trazia manhãs mais amenas. Às sete horas, a luz suave do sol filtrava-se pelas folhas dos jacarandás e invadia a cozinha da nossa casa. Sentada à mesa de madeira de demolição, eu tomava uma xícara de café preto enquanto lia um artigo sobre Direitos Fundamentais e Processo Penal para a minha iniciação científica. Ao meu lado, dona Helena regava as orquídeas que começavam a florir na varanda dos fundos, cantarolando uma canção antiga do interior. — O pão tá quentinho, Tina — disse minha mãe, colocando a cesta na mesa e beijando o topo da minha cabeça. — Você vai passar o dia todo na faculdade
Os vinte minutos de intervalo pareceram se arrastar no ritmo arrastado dos ponteiros do relógio de parede do quarto andar. O ar na sala da 2ª Vara Criminal, ao ser reaberta pelo oficial de justiça, parecia ainda mais denso do que no início da manhã. A umidade da chuva que continuava a cair lá fora infiltrava-se no ambiente, trazendo um arrefecimento que arrepiava a pele. Acomodei-me novamente ao lado da Dra. Beatriz na mesa da acusação. Minhas mãos estavam calmas, repousadas sobre o colo. Ao meu lado, minha mãe segurava o rosário de madeira entre os dedos, num murmúrio silencioso de orações. Do outro lado do corredor, Henrique e Laura mantinham a presença sóbria e vigilante, enquanto Lucas Alencar reocupava sua cadeira com os ombros curvados e o olhar fixo na madeira escura da mesa da defesa. O som do martelo do juiz ecoou pelo recinto, exigindo silêncio absoluto. — Retomamos a sessão de instrução e julgamento do processo crime em epígrafe — declarou o magistrado, ajustando os ócu







