INICIAR SESIÓNNarrado por Helena Ramos
Dormi exatamente uma hora e quarenta e dois minutos.
Eu sabia porque passei o resto da noite olhando para o relógio digital do quarto do hospital, sentada ao lado da cama de Gabriel. A crise finalmente cedeu depois de três medicações, e ele adormeceu segurando minha mão como fazia quando era criança.
Mas eu não consegui fechar os olhos.
A imagem daqueles olhos azuis encarando o documento do meu pai voltava sem pedir licença.
Lorenzo Montelli.
O homem que, em menos de cinco minutos, conseguiu me fazer sentir medo, raiva e uma estranha sensação de que minha vida acabara de mudar para sempre.
— Você vai trabalhar? — Gabriel perguntou sonolento.
Sorri, escondendo o cansaço.
— Vou. E você vai obedecer às enfermeiras.
— Eu sempre obedeço.
— Mentira.
Ele riu baixinho.
Antes de sair, beijei sua testa e sussurrei a palavra que agora pertencia à nossa família.
— Persevera.
Às oito e cinco da manhã, o elevador parou no vigésimo quinto andar.
A cobertura executiva era diferente de todo o restante da empresa.
Não havia mesas enfileiradas nem funcionários andando de um lado para o outro. O silêncio ali parecia caro. Carpete cinza, madeira escura e enormes janelas revelando a cidade inteira sob um céu nublado.
Uma secretária de tailleur bege levantou os olhos.
— Helena Ramos?
Assenti.
— O senhor Montelli está esperando.
Ela abriu a porta.
Meu coração acelerou.
O escritório estava iluminado apenas pela luz natural. Lorenzo permanecia de costas para mim, observando a cidade com uma xícara de café na mão.
Sem se virar, disse:
— Feche a porta.
Obedeci.
O clique da fechadura ecoou pelo ambiente.
— Sente-se.
Continuei em pé.
— Prefiro ficar assim.
Ele finalmente se virou.
Hoje parecia ainda mais impecável. Terno azul-marinho, gravata vinho e a mesma expressão ilegível da noite anterior.
Lorenzo colocou uma pasta sobre a mesa.
Meu sobrenome estampava a capa.
RAMOS
— Você sabe por que está aqui?
— Imagino que seja por causa daquele documento.
— Não. Você está aqui porque mentiu para mim.
Meu estômago afundou.
— Eu não menti.
Ele abriu a pasta.
Havia fotografias antigas.
Recortes de jornal.
Contratos.
— Samuel Ramos trabalhou ao lado do meu pai durante anos.
Olhei para as imagens sem entender.
Uma delas mostrava meu pai muito jovem ao lado de um homem elegante que eu nunca tinha visto.
O sobrenome impresso na legenda respondeu por mim.
Augusto Montelli.
Lorenzo apoiou as mãos sobre a mesa.
— Há dezesseis anos, alguém desviou milhões da empresa da minha família. Meu pai perdeu praticamente tudo antes de reconstruir este império.
Meu peito apertou.
— Eu nunca ouvi falar disso.
— Estranho. Seu pai estava no centro da investigação.
Levantei imediatamente.
— O meu pai não era criminoso.
Lorenzo sustentou meu olhar.
— Tem certeza?
— Tenho.
Minha voz saiu firme pela primeira vez.
— O homem que me criou jamais roubaria ninguém.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— O homem que criou?
Respirei fundo.
Era uma verdade que eu odiava contar.
— Samuel não era meu pai biológico.
O silêncio caiu entre nós.
— Meu pai biológico me abandonou antes de eu nascer. Nunca colocou meu sobrenome em nenhum documento, nunca pagou uma pensão e nunca apareceu em um aniversário.
Engoli o nó na garganta.
— Samuel escolheu ser meu pai quando casou com a minha mãe. Foi ele quem me ensinou a andar de bicicleta, quem assinou meus boletins e quem me deu o sobrenome Ramos.
Lorenzo permaneceu imóvel.
— Então esse documento...
— Era uma das poucas coisas que ele guardava numa caixa de madeira. Depois que morreu, eu fiquei com tudo. Nunca li aquelas folhas. Eram apenas lembranças dele.
Pela primeira vez, vi dúvida atravessar os olhos de Lorenzo.
Era rápida.
Mas existia.
Ele fechou a pasta lentamente.
— Se você está dizendo a verdade, alguém usou Samuel como bode expiatório.
— Eu estou dizendo a verdade.
Lorenzo caminhou até a janela.
As mãos estavam nos bolsos da calça enquanto observava os prédios abaixo.
— A verdade tem um problema, Helena.
— Qual?
— Todo mundo acredita que possui a sua.
Fiquei em silêncio enquanto ele parecia travar uma guerra consigo mesmo.
Quando voltou para a mesa, sua expressão já havia desaparecido atrás da máscara de CEO.
— Seu irmão precisa de uma cirurgia.
Congelei.
— Como o senhor...
— Eu li sua ficha de contratação.
Senti vergonha.
Não da doença do Gabriel.
Mas de saber que minha vida inteira cabia em algumas folhas de papel.
Lorenzo abriu outra pasta.
Dessa vez havia um contrato.
— O tratamento experimental custa mais de trezentos mil reais.
Minha respiração falhou.
Era exatamente o valor que o médico mencionara dias antes.
— Eu posso pagar.
Olhei para ele sem acreditar.
— Em troca...
Claro.
Sempre existia uma troca.
— Você será transferida da equipe de limpeza.
Ele deslizou o contrato pela mesa.
— A partir de hoje, trabalhará exclusivamente para mim como assistente pessoal.
Franzi a testa.
— Eu não tenho experiência administrativa.
— Não preciso de uma secretária.
Ele aproximou-se devagar.
— Preciso de alguém que ninguém perceba.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
— O que isso significa?
— Você continuará parecendo apenas uma funcionária comum. Mas terá acesso a setores onde meus executivos não desconfiam de ninguém.
Meu coração acelerou.
— O senhor quer que eu espionasse pessoas?
— Quero que descubra quem destruiu minha família.
Balancei a cabeça.
— Eu não sei fazer isso.
— Vai aprender.
— E se eu recusar?
Lorenzo sustentou meu olhar por alguns segundos.
Depois respondeu friamente:
— O documento encontrado na sua bolsa basta para abrir uma investigação criminal. Até provar sua inocência, você perderia este emprego... e provavelmente nunca conseguiria pagar a cirurgia do Gabriel.
As lágrimas vieram de novo.
Eu odiava chorar na frente dele.
— Isso é chantagem.
— É um acordo.
— Não. Acordos têm escolha.
Ele ficou em silêncio.
Porque sabia que eu tinha razão.
Lorenzo respirou profundamente antes de dizer algo que pareceu mais difícil do que qualquer ameaça.
— Eu também quero descobrir se Samuel foi inocente.
Aquilo me atingiu como um golpe.
— O quê?
— Se ele não traiu meu pai... então alguém matou a reputação de um homem inocente.
Meus olhos arderam.
Pela primeira vez, nossos interesses deixavam de ser completamente opostos.
Ele empurrou uma caneta para perto de mim.
— Leia.
Passei quase vinte minutos analisando cada cláusula.
Moradia temporária na cobertura executiva.
Salário cinco vezes maior.
Tratamento integral custeado pela Fundação Montelli.
Confidencialidade absoluta.
No fim da última página, havia um espaço para minha assinatura.
Minha mão tremia.
Eu pensava em Gabriel.
No desenho do sorvete.
Na promessa que fiz.
Fechei os olhos.
Assinei.
Assim que terminei, deslizei a caneta sobre a mesa.
Lorenzo estendeu a mão para pegar o contrato.
Nossos dedos se tocaram.
Foi um contato breve.
Mas intenso.
Como uma descarga elétrica inesperada.
Nós dois recuamos no mesmo instante.
Ele olhou para a própria mão por um segundo, como se aquilo o tivesse surpreendido tanto quanto a mim.
Depois voltou a vestir a expressão impassível.
Recolheu o contrato.
E disse em voz baixa:
— Até que eu descubra a verdade... você responderá diretamente a mim.
Guardei o orgulho onde já não cabia mais nada.
Levantei-me.
Antes de sair, parei na porta.
— Eu vou provar que Samuel Ramos era inocente.
Lorenzo não respondeu.
Saí do escritório com o coração em pedaços.
A porta se fechou atrás de mim.
Cinco segundos depois, o telefone sobre a mesa começou a tocar.
Lorenzo atendeu sem desviar os olhos do contrato recém-assinado.
— Montelli.
Uma voz masculina riu do outro lado da linha.
— Então você finalmente encontrou a garota.
O rosto de Lorenzo endureceu.
— Quem está falando?
— Um velho fantasma. Só liguei para dar um conselho...
Houve uma pausa.
— Cuidado com sua nova assistente. Helena Ramos esconde algo muito pior do que aquele documento.
A ligação foi encerrada.
Lorenzo permaneceu imóvel.
Pela primeira vez em muitos anos, o homem que controlava bilhões percebeu que talvez estivesse sendo manipulado desde o início.
Narrado por Helena Ramos O cheiro de café foi a primeira coisa que me acordou. Abri os olhos lentamente, ainda desorientada pelo quarto enorme da cobertura. Durante alguns segundos, esqueci onde estava. Depois, a lembrança caiu sobre mim como um peso: o contrato, Lorenzo, Gabriel, a cirurgia… e as três regras presas dentro da minha cabeça. Nunca entre no meu escritório sem autorização. Nunca faça perguntas sobre o meu passado. Nunca se apaixone por mim. Revirei os olhos. Como se fosse tão simples dar uma ordem para o coração. Tomei um banho rápido, prendi os cabelos em um coque baixo e vesti uma calça de alfaiataria preta com uma camisa branca que Clara havia separado para mim. Quando desci, o relógio marcava exatamente 6h02. — Bom dia, Helena. — Clara sorriu enquanto colocava frutas sobre a mesa. — O senhor Montelli já está esperando. Já esperando. Claro que estava. Atravessei a sala de jantar e encontrei Lorenzo sentado à cabeceira, lendo o jornal impresso enquanto toma
Narrado por Helena RamosNunca pensei que um elevador pudesse separar duas vidas.No térreo da Montelli Investimentos, eu era apenas a faxineira que carregava um carrinho de limpeza e evitava olhar os executivos nos olhos.No vigésimo quinto andar, eu acabava de assinar um contrato que me transformava na assistente pessoal do homem mais poderoso do estado.As portas de aço se fecharam atrás de mim com um clique suave.O reflexo no espelho devolveu uma mulher que eu mal reconhecia: uniforme cinza, olhos inchados de tanto chorar e um contrato capaz de decidir o futuro do meu irmão.Respirei fundo.— Persevera… — sussurrei.— Entre.A voz grave de Lorenzo veio antes mesmo que eu batesse pela segunda vez.O escritório permanecia impecável. Ele estava de pé diante de uma tela gigantesca repleta de gráficos financeiros, com as mangas da camisa social dobradas até os antebraços. Sem o paletó, parecia menos inalcançável… e estranhamente mais perigoso.Ele desligou a tela.— A partir de hoje,
Narrado por Helena RamosDormi exatamente uma hora e quarenta e dois minutos.Eu sabia porque passei o resto da noite olhando para o relógio digital do quarto do hospital, sentada ao lado da cama de Gabriel. A crise finalmente cedeu depois de três medicações, e ele adormeceu segurando minha mão como fazia quando era criança.Mas eu não consegui fechar os olhos.A imagem daqueles olhos azuis encarando o documento do meu pai voltava sem pedir licença.Lorenzo Montelli.O homem que, em menos de cinco minutos, conseguiu me fazer sentir medo, raiva e uma estranha sensação de que minha vida acabara de mudar para sempre.— Você vai trabalhar? — Gabriel perguntou sonolento.Sorri, escondendo o cansaço.— Vou. E você vai obedecer às enfermeiras.— Eu sempre obedeço.— Mentira.Ele riu baixinho.Antes de sair, beijei sua testa e sussurrei a palavra que agora pertencia à nossa família.— Persevera.Às oito e cinco da manhã, o elevador parou no vigésimo quinto andar.A cobertura executiva era dif
Narrado por Helena RamosO relógio da recepção marcava 21h47 quando o último executivo deixou o décimo nono andar.As luzes principais foram reduzidas, deixando apenas a iluminação indireta dos corredores. Durante o dia, a Montelli Investimentos era um organismo vivo, barulhento e apressado. À noite, tornava-se um palácio de vidro onde até os próprios passos pareciam altos demais.Eu gostava do silêncio.Era a única parte do expediente em que ninguém me olhava como se eu fosse invisível.Empurrei o carrinho de limpeza pelo corredor presidencial, organizando os frascos de álcool, panos de microfibra e o balde de água morna. Meu corpo inteiro doía. Os ombros estavam pesados, meus pés queimavam dentro dos sapatos gastos e minhas mãos já tinham adquirido aquele cheiro permanente de produtos de limpeza.Mas toda vez que o cansaço ameaçava vencer, eu pensava em Gabriel.Na conta do hospital.Nos remédios.No desenho escondido na gaveta.Foi então que meu celular vibrou dentro do bolso do av
Narrado por Helena RamosNunca imaginei que um chão pudesse me fazer sentir tão pobre.Meus sapatos produziam um som tímido sobre o mármore polido enquanto eu atravessava o saguão da Montelli Investimentos. Tudo ali parecia ter sido desenhado para lembrar às pessoas quem mandava: o pé-direito gigantesco, as paredes de vidro, o aroma sofisticado de café e o silêncio elegante de quem vestia ternos que provavelmente custavam mais do que o aluguel da minha casa.A recepcionista sorriu de maneira impecavelmente profissional.— Bom dia. Nome, por favor?— Helena Ramos. Sou a nova auxiliar de serviços.Ela digitou algumas coisas no computador e entregou um crachá provisório.HELENA RAMOS — SERVIÇOS GERAISSegurei o cartão entre os dedos. Pela primeira vez, meu nome parecia pesado.— O elevador à esquerda. Décimo nono andar. A supervisora Beatriz está esperando.Agradeci e caminhei até os elevadores.Enquanto esperava, observei meu reflexo nas portas espelhadas. Prendi uma mecha do cabelo atr
Narrado por Helena Ramos— Helena. A vida pode até nos pregar algumas peças, mas nós sempre temos que perseverar. A voz do meu pai ainda mora dentro de mim. Não importa quantos anos passem, eu ainda consigo ouvi-la com a mesma clareza das manhãs em que ele me levava para a escola, segurando um copo de café numa mão e a minha na outra. Ele dizia aquilo sempre que alguma coisa dava errado. Quando o carro quebrava. Quando um negócio não fechava. Quando eu voltava para casa chorando por causa de uma nota ruim. Persevera. Na época eu achava que era só uma palavra bonita. Hoje descobri que era um modo de sobreviver. Samuel Ramos nem sempre foi um empresário de sucesso. Antes dos ternos caros e das reuniões importantes, ele era apenas um homem que acreditava demais nas pessoas. Trabalhava até tarde, fazia promessas que cumpria e nunca deixava de jantar conosco, mesmo que chegasse em casa exausto. Para muita gente, ele foi um empresário respeitado. Para mim, ele foi só o meu pai. E ag







