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Narrado por Helena Ramos
— Helena. A vida pode até nos pregar algumas peças, mas nós sempre temos que perseverar.
A voz do meu pai ainda mora dentro de mim.
Não importa quantos anos passem, eu ainda consigo ouvi-la com a mesma clareza das manhãs em que ele me levava para a escola, segurando um copo de café numa mão e a minha na outra. Ele dizia aquilo sempre que alguma coisa dava errado. Quando o carro quebrava. Quando um negócio não fechava. Quando eu voltava para casa chorando por causa de uma nota ruim.
Persevera.
Na época eu achava que era só uma palavra bonita. Hoje descobri que era um modo de sobreviver.
Samuel Ramos nem sempre foi um empresário de sucesso. Antes dos ternos caros e das reuniões importantes, ele era apenas um homem que acreditava demais nas pessoas. Trabalhava até tarde, fazia promessas que cumpria e nunca deixava de jantar conosco, mesmo que chegasse em casa exausto.
Para muita gente, ele foi um empresário respeitado.
Para mim, ele foi só o meu pai.
E agora esse nome está gravado em uma lápide de mármore cinza.
Cinco anos.
Cinco anos desde que o enterrei ao lado da mulher que ele amou durante toda a vida: minha mãe. Ela partiu poucos meses depois dele, como se o coração tivesse desistido de bater quando perdeu o amor da própria vida.
Desde então, sobramos apenas eu e Gabriel.
Meu irmão caçula tem dezessete anos e o sorriso mais bonito que eu já vi. Também tem uma doença que ninguém consegue explicar.
Alguns médicos chamam de síndrome autoimune rara. Outros dizem que é um conjunto de alterações imunológicas ainda sem diagnóstico definitivo. No fim das contas, todos usam palavras difíceis para esconder a mesma verdade: eles não sabem.
Gabriel passa mais tempo em quartos de hospital do que no próprio quarto.
Enquanto outros garotos da idade dele aprendem a dirigir ou saem com os amigos, ele aprende o nome de remédios impossíveis de pronunciar e conhece enfermeiros pelo primeiro nome.
A pior parte não é vê-lo doente.
É vê-lo tentando fingir que está bem para não me preocupar.
Na semana passada, encontrei um desenho escondido na gaveta dele. Era uma folha amassada, feita com lápis de cor. Nós dois aparecíamos sentados num banco de praça, tomando sorvete.
Em cima, ele escreveu:
“Quando eu melhorar, vamos fazer isso.”
Eu chorei escondida no banheiro durante quase uma hora.
Porque eu não sabia quando aquele “quando” chegaria.
Talvez nunca.
As contas médicas ocupavam metade da mesa da cozinha. Eu costumava organizá-las por cores, como se aquilo diminuísse o valor absurdo estampado nos boletos.
Não diminuía.
Os especialistas cobravam consultas que pareciam custar o preço de um carro. Os exames mais importantes nunca eram cobertos. E toda vez que eu perguntava sobre um tratamento experimental, a resposta vinha acompanhada de um orçamento impossível.
Dinheiro.
No fim, era sempre sobre dinheiro.
Meu pai costumava dizer que riqueza comprava conforto, não felicidade. Talvez ele tivesse razão.
Mas eu daria qualquer coisa para comprar a saúde do Gabriel.
Foi exatamente por isso que aceitei o emprego na Montelli Investimentos.
O maior conglomerado financeiro do estado.
Um império construído sobre números, ações e bilhões.
Diziam que trabalhar lá era como entrar em outro mundo. Salários excelentes, benefícios generosos e uma cobrança desumana.
Também diziam que o homem responsável por tudo aquilo era ainda mais intimidador do que o próprio prédio.
Lorenzo Montelli.
Trinta e um anos.
CEO.
Herdeiro.
Gênio dos negócios.
As revistas econômicas o chamavam de visionário. Os funcionários o chamavam de senhor Montelli. Já os boatos espalhados pelos corredores preferiam outro apelido:
O homem de gelo.
Segundo as histórias, ele nunca sorria durante reuniões, demitia executivos sem alterar o tom de voz e transformava empresas falidas em máquinas de lucro como quem resolvia um quebra-cabeça.
Havia também rumores menos profissionais.
Que nunca repetia a mesma mulher.
Que não comemorava aniversários.
Que havia feito o próprio pai abandonar a presidência antes dos cinquenta.
Eu não sabia quanto daquilo era verdade.
E, sinceramente?
Não fazia diferença.
Eu não estava procurando um príncipe de terno italiano.
Estava procurando um salário.
Se Lorenzo Montelli fosse a própria personificação de um iceberg, eu continuaria limpando o escritório dele desde que o dinheiro caísse na minha conta no último dia útil do mês.
Era simples.
Eu faria meu trabalho.
Ele faria o dele.
E nossas vidas jamais se cruzariam.
Pelo menos era esse o plano.
— Helena?
A voz fraca de Gabriel me arrancou dos pensamentos.
Entrei no quarto dele carregando uma bandeja com torradas e chá de camomila. Ele estava sentado na cama, pálido como sempre, mas sorrindo daquele jeito que parecia iluminar qualquer ambiente.
— Você não precisava ter feito café pra mim.
— Precisava, sim.
Coloquei a bandeja sobre o colo dele.
— Hoje é seu primeiro dia, né?
Assenti.
Ele abaixou os olhos para a caneca.
— Pai ia ficar orgulhoso.
Meu peito apertou.
Sorri antes que ele percebesse meus olhos marejados.
— Então eu vou tentar não estragar tudo.
Gabriel deu uma risadinha.
— Você nunca estraga.
Mentiroso.
Se ele soubesse quantas noites eu passava acordada calculando contas, talvez não dissesse isso.
Beijei sua testa.
— Descansa. Eu volto cedo.
— Helena?
Parei na porta.
— Persevera.
Fechei os olhos por um segundo.
Meu pai dizia.
Agora era Gabriel.
Respirei fundo e saí de casa.
O ônibus demorou vinte e três minutos.
Sentei perto da janela observando a cidade acordar. Pessoas caminhavam apressadas pelas calçadas, vendedores abriam lojas e o céu cinza anunciava uma chuva que nunca decidia cair.
Eu segurava uma pasta simples contra o peito.
Dentro dela havia meus documentos, meu contrato de trabalho e uma fotografia antiga.
Eu e Gabriel.
Ele tinha oito anos.
Eu, quinze.
Naquela época ainda acreditávamos que adultos tinham respostas para tudo.
Quase ri dessa lembrança.
Quando o ônibus parou diante da Avenida Central, meu estômago virou.
O prédio da Montelli parecia tocar as nuvens.
Vidros espelhados refletiam o céu, e a fachada inteira transmitia uma elegância intimidadora. Homens e mulheres atravessavam a entrada usando roupas impecáveis, relógios discretamente caros e uma confiança que eu definitivamente não possuía.
Olhei para meus próprios sapatos.
Estavam limpos.
Mas gastos.
Minha calça social era de brechó, cuidadosamente ajustada por mim mesma. A camisa branca tinha sido passada três vezes naquela manhã para esconder o tecido já envelhecido.
Era o melhor que eu tinha.
E teria que ser suficiente.
As portas automáticas de vidro se abriram diante de mim.
O mármore brilhava tanto que, por um instante, tive vergonha de pisar ali. O enorme saguão exalava perfume de café recém-passado e móveis de madeira nobre. Um lustre moderno refletia luzes douradas sobre o piso impecável, enquanto o logotipo prateado da empresa ocupava toda a parede principal:
MONTELLI INVESTIMENTOS
Apertei com força a alça da bolsa.
Meu coração batia tão alto que eu tinha certeza de que a recepcionista conseguiria ouvir.
Respirei fundo.
Dei o primeiro passo.
Eu estava entrando no lugar que poderia salvar a vida do meu irmão.
Ou destruir completamente a minha.
Narrado por Helena RamosA chuva começou assim que o carro deixou o Palácio Bellavita.Gotas grossas deslizavam pelos vidros escurecidos, transformando as luzes da cidade em manchas douradas e avermelhadas. Eu mantinha as mãos sobre o colo, mas meus dedos apertavam com força o pequeno envelope preto escondido entre as dobras do vestido.“Pergunte a Lorenzo quem realmente matou Augusto Montelli.”A frase queimava na minha memória.Ao meu lado, Lorenzo respondia e-mails no celular como se aquela tivesse sido apenas mais uma noite de gala. A gravata estava levemente afrouxada, e a máscara preta repousava sobre o banco ao seu lado. Pela primeira vez, ele parecia cansado.Muito cansado.Olhei discretamente para seu perfil.Era difícil acreditar que o mesmo homem que me encurralara contra uma parede dias atrás agora parecia carregar o peso do mundo nos ombros.— O que foi? — ele perguntou, sem tirar os olhos da tela.Desviei o olhar para a janela.— Nada.— Você está me olhando há cinco min
Narrado por Helena RamosA última nota da valsa desapareceu lentamente pelo salão.Por alguns segundos, ninguém aplaudiu. Era como se todos tivessem permanecido presos naquele instante em que Lorenzo ainda segurava minha cintura e eu mantinha a mão sobre seu ombro. O brilho dos lustres refletia na máscara prateada entre meus olhos, e eu só voltei à realidade quando ouvi o mestre de cerimônias agradecer à orquestra.Lorenzo soltou minha mão primeiro.O calor dos seus dedos desapareceu, deixando uma estranha sensação de vazio.— Você mentiu de novo — murmurei enquanto caminhávamos para fora da pista.Ele arqueou uma sobrancelha.— Sobre o quê?— Você dança muito bem.— Eu disse que odiava dançar. Não que dançava mal.Revirei os olhos.— Isso é manipulação de palavras.— Chama-se precisão.Sorri sem conseguir evitar.Aquela troca de provocações estava se tornando perigosamente natural.O salão fervilhava de conversas.Garçons circulavam com bandejas de cristal, taças tilintavam discretam
Narrado por Helena RamosSe existia um lugar onde o dinheiro tinha cheiro, era aquele salão.Notas suaves de baunilha, rosas brancas e madeira antiga se misturavam ao perfume caro dos convidados. O teto abobadado era coberto por afrescos dourados, enquanto centenas de cristais pendiam dos lustres como estrelas congeladas. A orquestra executava uma valsa delicada, e o som dos violinos parecia envolver cada canto do Palácio Bellavita.Eu nunca havia pertencido àquele mundo.E, ainda assim, todos estavam olhando para mim.— Sorria — Lorenzo murmurou ao meu lado, sem mover os lábios.— Como consegue perceber tudo?— Porque eles não estão olhando para o salão.Engoli em seco.— Estão olhando para você?Ele soltou um suspiro discreto.— Não, Helena.Pela primeira vez, seus olhos encontraram os meus através das máscaras.— Estão olhando para nós.Meu coração acelerou.Um fotógrafo surgiu diante da escadaria.— Senhor Montelli! Uma fotografia, por favor!Antes que eu pudesse recusar, Lorenzo
Narrado por Helena RamosNunca imaginei que um vestido pudesse carregar tanto peso.Ele estava pendurado diante do espelho desde a noite anterior, como uma promessa silenciosa de que minha vida jamais voltaria a ser a mesma. O cetim azul-safira parecia absorver a luz do quarto e devolvê-la em reflexos profundos, quase líquidos. Ao lado dele, a máscara veneziana prateada brilhava delicadamente, bordada com pequenos cristais que lembravam estrelas.Eu permaneci alguns segundos apenas olhando.— Você realmente vai fazer isso… — murmurei ao meu reflexo.Clara bateu à porta antes que eu pudesse responder a mim mesma.— Posso entrar?— Claro.Ela entrou carregando uma caixa de veludo e sorriu ao perceber que eu ainda não havia tocado no vestido.— Está nervosa.— Dá para perceber tanto assim?— Um pouquinho.Ela apoiou a caixa sobre a cama.— O senhor Montelli pediu que eu a ajudasse.Meu coração acelerou de forma inexplicável.Durante a próxima hora, Clara transformou meu quarto em um pequ
Narrado por Helena Ramos O cheiro de café foi a primeira coisa que me acordou. Abri os olhos lentamente, ainda desorientada pelo quarto enorme da cobertura. Durante alguns segundos, esqueci onde estava. Depois, a lembrança caiu sobre mim como um peso: o contrato, Lorenzo, Gabriel, a cirurgia… e as três regras presas dentro da minha cabeça. Nunca entre no meu escritório sem autorização. Nunca faça perguntas sobre o meu passado. Nunca se apaixone por mim. Revirei os olhos. Como se fosse tão simples dar uma ordem para o coração. Tomei um banho rápido, prendi os cabelos em um coque baixo e vesti uma calça de alfaiataria preta com uma camisa branca que Clara havia separado para mim. Quando desci, o relógio marcava exatamente 6h02. — Bom dia, Helena. — Clara sorriu enquanto colocava frutas sobre a mesa. — O senhor Montelli já está esperando. Já esperando. Claro que estava. Atravessei a sala de jantar e encontrei Lorenzo sentado à cabeceira, lendo o jornal impresso enquanto toma
Narrado por Helena RamosNunca pensei que um elevador pudesse separar duas vidas.No térreo da Montelli Investimentos, eu era apenas a faxineira que carregava um carrinho de limpeza e evitava olhar os executivos nos olhos.No vigésimo quinto andar, eu acabava de assinar um contrato que me transformava na assistente pessoal do homem mais poderoso do estado.As portas de aço se fecharam atrás de mim com um clique suave.O reflexo no espelho devolveu uma mulher que eu mal reconhecia: uniforme cinza, olhos inchados de tanto chorar e um contrato capaz de decidir o futuro do meu irmão.Respirei fundo.— Persevera… — sussurrei.— Entre.A voz grave de Lorenzo veio antes mesmo que eu batesse pela segunda vez.O escritório permanecia impecável. Ele estava de pé diante de uma tela gigantesca repleta de gráficos financeiros, com as mangas da camisa social dobradas até os antebraços. Sem o paletó, parecia menos inalcançável… e estranhamente mais perigoso.Ele desligou a tela.— A partir de hoje,







