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Capítulo 2

Penulis: Nuvenzinha
"Ele aprovou tão rápido assim?", Iolanda pensou, o choque misturado a uma dor aguda no peito. Ficava claro que a vontade de vê-la fora da empresa já existia há muito tempo.

— Quem deu permissão para você voltar? — Começou Ângelo, cortando o silêncio de supetão. O tom era gélido e distante, idêntico à forma como soava nas chamadas telefônicas. Aquele, sem dúvida, era o homem que ela conhecia tão bem.

— Avisei você ontem pelo telefone. — Ela respondeu, desviando o olhar para não ser ferida pela frieza naqueles olhos escuros.

— Eu por acaso concordei com isso? — Ele rebateu de imediato.

— Já expliquei que a minha mãe está doente.

— E o que isso importa? — O olhar dele sobre ela não carregava qualquer pingo de empatia, era uma rejeição absoluta. — A empresa tem que pagar a conta dos seus problemas pessoais? Vá ao escritório amanhã e assuma as consequências da sua ausência.

"Consequências?", ela refletiu com amargura. A vontade era dizer que não havia necessidade de punições ou ameaças, afinal, o pedido de demissão já estava na mesa. O que mais ele poderia fazer? No entanto, rebater só renderia uma discussão inútil, e o tempo urgia para assuntos bem mais graves.

— Eu me resolvo com o RH depois, mas vim até aqui hoje por outro motivo. — Retrucou Iolanda, mantendo a voz firme.

— Qualquer coisa que precisar, fale com a governanta. — Ele olhou para o relógio de pulso, impaciente, e virou as costas para sair.

Percebendo que o perderia de vista, ela engoliu o orgulho e foi direto ao ponto:

— Eu preciso de dinheiro.

Os passos do marido cessaram. Ele parou, franziu a testa e perguntou:

— Quanto?

A pergunta acendeu uma faísca de esperança no peito de Iolanda. A angústia sufocante pareceu dar uma trégua, e ela respondeu com um tom mais suave:

— Um milhão e setecentos mil reais.

Com medo de que ele interpretasse mal a quantia exorbitante, ela se apressou em justificar:

— Minha mãe está internada em estado grave. Mesmo juntando todas as minhas economias, ainda falta esse valor para cobrir os custos do hospital.

Após desabafar, ela fixou os olhos naquele homem que, perante a lei e a sociedade, era o seu marido.

"Ele vai ajudar", ela tentou convencer a si mesma. "Além do trabalho, somos casados."

A história dos dois vinha desde a época da faculdade, e o pedido de casamento havia partido dele. Algum afeto precisava existir ali. Em três anos de união, ela havia se entregado de corpo e alma, um amor tão visível que ele não poderia ignorar. Além do mais, aquela quantia não passava de troco para o herdeiro do Grupo Garcia. Qualquer terno feito sob medida que ele usava custava mais do que isso.

A resposta, contudo, não veio em forma de solidariedade. O que cortou o ar foi um riso de escárnio, carregado de puro desprezo.

— Pedindo dinheiro para mim, Iolanda? Com que direito?

As palavras atingiram seu rosto como um tapa em cheio, despedaçando todas as ilusões que havia cultivado segundos antes. O mundo girou por um instante.

"Com que direito?", ela repetiu em silêncio.

Com o direito de ser a esposa dele. Com o direito de ter gerado bilhões em lucros para a empresa ao longo dos anos. Com o direito de ser dona de metade de tudo o que ele possuía. Será que não bastava? Contudo, ao encarar aqueles olhos cheios de sarcasmo, a voz travou na garganta. Cuspir aqueles argumentos agora seria apenas uma humilhação gratuita.

— Considere como um empréstimo, pode ser? — Ela tentou barganhar.

— Empréstimo? Você tem como pagar? — Ele não cedia um milímetro.

Diante daquela postura implacável, a ansiedade começou a tomar conta.

— Posso adiantar o meu salário e o bônus de fim de ano, não posso?

— Você sabe muito bem quanto tempo levaria para quitar essa dívida com o seu salário. — Retrucou ele, sem alterar a feição de pedra.

Com os olhos ardendo, ela sentiu uma mistura ácida de mágoa e ressentimento subir pela garganta.

— Precisa mesmo ser tão cruel, Ângelo?

— Cruel? — Ele baixou o olhar para encará-la, como se visse uma estranha qualquer. — É você quem ainda não entendeu qual é a nossa relação.

"Nossa relação?", o eco daquela frase martelava na cabeça dela. Que tipo de laço existia entre eles? Não eram casados no papel? Ou haviam sido rebaixados a um nível inferior ao de meros desconhecidos?

Antes que a pergunta escapasse de seus lábios, um ganido agudo e desesperado ecoou do andar de cima. Um frio percorreu a espinha de Iolanda.

Antes de ser transferida para a filial em Porto Alegria, ela havia adotado um cachorrinho chamado Pipoca. Como a logística da viagem impedia a companhia do animal, o filhote ficava sob os cuidados da antiga empregada da casa. O problema é que o quadro de funcionários já havia mudado há tempos. E o Pipoca?

O pânico falou mais alto que a discussão. Ela abandonou Ângelo na sala e disparou escada acima. A cada degrau, os urros de dor do animal se tornavam mais altos, fazendo o coração dela bater na base da garganta.

Ao virar no corredor, a cena a paralisou, o ar quase faltando nos pulmões. Lá estava o seu Pipoca. No entanto, ele não estava sozinho. Giovana assistia a tudo de braços cruzados, ostentando um ar de complacência, enquanto o pequeno Lucas montava no cãozinho, distribuindo chutes e socos com uma violência brutal. A cada golpe, o menino gritava a plenos pulmões:

— Mulher gorda! Mulher feia! Você não serve para ser minha mãe!

A visão absurda fez o sangue de Iolanda ferver.

— O que vocês estão fazendo?! — Berrou ela, perdendo qualquer rastro de controle.

O grito não surtiu o menor efeito na criança. Lucas apenas lançou um olhar gelado na direção dela e continuou o massacre.

O limite havia sido ultrapassado. Ela avançou em passadas largas, agarrou o menino pelos braços e o puxou para longe. Em seguida, ajoelhou-se e tomou Pipoca nos braços, embalando o corpinho frágil. Os olhos do cachorro já estavam opacos; a respiração falhava, um sopro de vida quase imperceptível.

Foi então, pela proximidade, que um detalhe torpe saltou aos olhos dela. Colada na testa do animal, havia uma foto. Era o retrato do cartório civil no dia do seu casamento com Ângelo.

Contudo, a imagem do marido havia sido rasgada, restando apenas o rosto dela. A moça na foto exibia um sorriso tímido e radiante, um contraste grotesco com a tragédia que se desenrolava naquele corredor.

A fúria tomou conta de cada músculo de seu corpo. Tremendo de raiva, ela ergueu a mão para disciplinar o garoto. Foi a deixa para Giovana, até então uma mera espectadora, intervir. Ela puxou Lucas para trás de si, servindo de escudo.

— É para tanto? — Provocou Giovana, o tom carregado de desprezo. — É só um cachorro. Vai arrumar briga com uma criança por causa de um bicho?

— Criança? Nem todo monstro tem o direito de ser chamado de criança! — Retrucou Iolanda, os dentes cerrados. — Sem contar que esse tipo de comportamento sujo é sempre um reflexo dos adultos ao redor!

A alfinetada atingiu o alvo em cheio. O rosto de Giovana se contorceu em indignação, e sua voz subiu o tom:

— O que você está insinuando, Iolanda? Quer me dar lição de moral? Olha bem onde você está pisando. Desde quando você tem voz para gritar dentro desta casa?

Antes que uma resposta saísse, o corpinho peludo reagiu aos berros. Pipoca soltou mais dois choros doloridos, contorcendo-se em desespero no colo da dona. Com o coração partido, Iolanda alisou a cabeça do animal com extrema cautela, sussurrando palavras de conforto até que o tremor diminuísse. Aquela discussão inútil não a levaria a lugar algum. O cachorro precisava de um veterinário urgente.

Ao virar as costas para sair, a voz venenosa de Giovana a alcançou como um bote de cobra.

— Você não é mulher para o Ângelo, Iolanda.

A frase não carregava apenas escárnio, mas também um desafio velado. Naquele instante, ela não soava como uma irmã preocupada, mas sim como uma rival cega por ciúmes. Iolanda girou nos calcanhares e fuzilou a mulher com os olhos. A paciência havia esgotado.

— Não é você quem decide quem serve ou não. — Declarou Iolanda, firme e afiada. — Foi ele quem me pediu em casamento.

Para sua surpresa, o comentário não enfureceu Giovana. Muito pelo contrário. Um brilho sinistro de triunfo acendeu nos olhos da outra, acompanhado de um sorriso presunçoso.

— É mesmo? Então talvez você devesse se perguntar por quem, de verdade, ele fez esse pedido.

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