Compartilhar

◇ Dois

Autor: Anny Lago
last update Data de publicação: 2024-04-08 22:46:18

☆ Viena Santoro ☆

Saio do elevador com os passos firmes, deixando que a raiva preencha o corredor espelhado à minha frente. Cada reflexo meu me devolve a imagem de alguém que está prestes a cometer um crime - e acreditem, eu estou disposta a fazer isso.

Passo direto pela secretária que abaixa os olhos no segundo em que me vê.

Uma reação de alguém que sabe que está prestes a presenciar um assassinato ao vivo, dependendo do que sair da boca daquele desgraçado que ela chama de patrão.

Não espero ser anunciada.

Não peço licença.

Apenas sigo.

Empurro as portas pesadas de madeira com força e entro no escritório como quem invade território inimigo.

O escritório é uma extensão do próprio Hector - escuro, silencioso e excessivamente calculado.

As paredes em tons de grafite e carvão absorvem a luz. Os móveis são todos sob medida, com linhas retas e sóbrias, quase impessoais. Tudo nele grita poder contido, como se nada ali pudesse ser tocado sem permissão.

Ao fundo, uma parede inteira de vidro oferece uma vista privilegiada da cidade - que parece pequena diante da arrogância dele.

No canto, um bar discreto e uma varanda onde ele costuma desaparecer para fumar ou apenas fingir que sente algo.

Nada ali é acolhedor. Nem deve ser.

Hector Beaumont é o tipo de homem que nasceu dentro de uma herança com séculos de história. Um sobrenome tradicional, com raízes antigas na Europa, e que carrega mais influência do que muitos políticos. Herdeiro de um vasto imperio: negócios que vão de tecnologia a energia, do setor financeiro ao imobiliário, com braços em mais de quinze países.

É claro império esse construído pela família Beaumont a algumas décadas, vejam que ironia, seus avós fundaram tudo isso nos anos sessenta, assim como minha avó. Ambas as empresas trabalham juntas até hoje e minha avó é avó daquele idiota são boa amigas, mas é claro como nem tudo são flores. Nós nos odiamos desde a primeira vez que nos vimos, isso a quase quinze anos atrás. Bem, não dá primeira vez é claro, mas isso é história para outra hora.

Caminho até sua cadeira como quem ocupa território inimigo. Sento-me sem pedir licença, cruzando as pernas lentamente.

Estou com pressa.

Estou com raiva.

E a única coisa que me impede de quebrar essa sala inteira é o desejo ainda mais forte de descontar toda minha raiva naquele desgraçado.

Não demora muito para a porta da sala se abrir, e aquele imbecil entrar, afrouxando a gravata como se o ar ali dentro estivesse lhe faltando. Mal parece notar minha presença.

- Bom dia, querido - saúdo com uma doçura que beira o veneno. - Como se sente essa manhã?

A expressão estampada no rosto de Hector foi simplesmente impagável. Eu até ousaria rir, não fosse o fato de ainda estar decidida a arrancar suas bolas por essa palhaçada de contrato.

- Viena? - o espanto em sua voz é gritante. - O que está fazendo aqui?

- Vim ver como está meu amado esposo. Afinal, não é isso que uma boa esposa faz? - respondo, exibindo meu melhor sorriso de fachada.

Ele estreita os olhos, como se tentasse decifrar a situação, mas logo sua arrogância matinal ressurge com força total. Arranca a gravata, j**a-a em qualquer canto da sala e segue até o bar no canto, servindo-se de algo que não consigo identificar - e francamente, não me importo.

- Eu lhe ofereceria um gole, mas imagino que esteja tão bêbada quanto naquela noite. Caso contrário, não teria aparecido aqui desse jeito. - Ele dispara com sarcasmo transbordando. - Diga-me, Viena... como foi estar com um homem de verdade?

- Como você mesmo disse, eu estava bêbada o suficiente para não lembrar de nada. - rebato, estampando um sorriso mortal. - Tanto que nem sequer me recordo de ter me casado com você, seu filho de uma...

- Para alguém criada por alguém tão refinada quanto Eleanor, sua boca é nojenta, querida - ele diz, levando o copo aos lábios. - Mas, deixando esse detalhe de lado... sua boca também faz coisas maravilhosas. Preciso admitir. - Ele sorri com malícia, e eu reviro os olhos. - Agora me diga, que história é essa de casamento?

- Você deveria saber, seu desgraçado. Foi você quem me induziu a assinar esses malditos papéis. - digo, abrindo minha bolsa e jogando a pasta com os documentos sobre sua mesa. Continuo sentada em sua cadeira, pernas cruzadas, semblante sério, enquanto ele se aproxima. Seus olhos alternam entre o decote do meu vestido e o meu rosto.

Ele pega os papéis, folheando um a um. Pelas rugas surgindo em sua testa, percebo que está fingindo muito melhor do que eu me lembrava.

- Que merda é essa, Viena? - pergunta, com a voz e o semblante agora sérios.

- Diga-me você, querido. Não foi você quem me fez assinar essa porcaria? - cruzo os braços e o encaro. Se Hector Beaumont acha que vai me fazer de palhaça, está muito enganado.

- Aqui diz que estamos casados. Você tem noção da loucura que é isso? - ele pergunta, já andando de um lado para o outro como um leão enjaulado. - Eu não sei como você conseguiu isso, mas vai desfazer. Está ouvindo?

A irritação dele me faz gargalhar. Porque, sinceramente, esse neandertal acha mesmo que eu teria vindo até aqui se soubesse como desfazer essa merda sem cometer um homicídio?

- Ai, Hector... desse jeito você me magoa. É tão ruim assim estar casado comigo? - pergunto com falsa tristeza. - Mas, já que insiste... basta assinar esses papéis. São para a anulação do casamento. Você vai se ver livre de mim e é claro eu me livrarei de você.

Seus olhos se estreitam mais uma vez enquanto ele volta a analisar os papéis, examinando cada cláusula com precisão cirúrgica.

- Fique à vontade, querido - digo com um sorriso debochado. - Acredita que cancelei toda a minha agenda só para vir te fazer uma visitinha? Viu só como sou uma esposa dedicada?

- Alguém como você não seria uma boa esposa nem que tentasse, Viena - ele retruca, ácido.

Dou uma gargalhada diante do desprezo escorrendo da sua voz.

- Tem razão, meu bem - respondo, ainda rindo. - Então vamos acabar logo com isso. Assine essa porcaria e...

Ele me interrompe antes que eu conclua.

- Que merda de cláusula é essa?! - rosna, jogando os papéis sobre a mesa e se aproximando de mim de maneira perigosa, os olhos faiscando. - Acha que sou algum imbecil? Eu estaria MORTO antes de permitir que você colocasse as mãos em qualquer coisa que me pertence!

- Posso tornar isso realidade em dois tempos - disparo com sarcasmo, levantando uma sobrancelha. - E por que todo esse escândalo, se foi você mesmo quem enfiou essa cláusula maldita nesse contrato? Ou está achando que eu não sei que foi você quem me fez assinar essa merda quando eu estava bêbada, seu desgraçado?! - Minha voz se eleva, explodindo junto com o controle que tentei manter. - Você começou essa palhaçada, Hector. Agora vai terminar. Assina logo essa droga, ou então...

- Ou o quê? Vai me matar? - ele retruca, rindo, debochado, como se minhas palavras não passassem de teatro barato. - Eu não te induzi a porra nenhuma! Nem lembro dessa merda de contrato! E, honestamente, estou tão feliz com isso quanto você. Mas se acha que vai ser por minhas mãos que essa anulação vai ser assinada... está muito enganada, querida. - Ele finaliza em um tom mais baixo, sarcástico. - Seis meses, certo? Vamos ver quem vai ceder primeiro.

- Espero que esteja pronto para conhecer o inferno, Hector - sibilo em tom grave, ameaçador. - Porque eu vou me livrar desse contrato. Nem que pra isso eu tenha que te mandar pessoalmente pra lá.

- Vá em frente, querida. Mas espero que esteja ciente de que cada movimento seu terá retaliação. Quer declarar guerra? Ótimo. Finalmente encontrou um oponente à altura - ele diz com aquele sorriso nos lábios. Aquele maldito sorriso.

A guerra foi declarada.

E se Hector Beaumont quer ver o circo pegar fogo, serei eu a responsável por derramar a gasolina e acender o fósforo.

Pego minha bolsa e a pasta com aquele maldito contrato, saindo da sala como um furacão - ainda mais furiosa do que quando entrei. Porque desta vez, não estou apenas irritada.

Estou em guerra.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • O Preço do Poder.   🎭 22 - O preço das escolhas. 🎭

    Viena. °°°°°°°Eu estava a todo custo tentando não confiar, mas estávamos no mesmo barco, sendo alvos ambulantes de alguém que não conhecemos e não sabemos o que busca. Não pedimos por esse destino, bem, ao menos eu não pedi por isso.— Sinto muito por sua família. Desejo melhoras a seu irmão e quanto à sua cunhada e sobrinhos, como estão?— Vou enviá-los para fora do país. Não quero que se tornem alvos ou que fiquem ainda mais traumatizados do que já estão.— E quanto à sua filha?— Eloá irá com eles. Não poderia correr o risco de que alguém descobrisse sobre ela.Um breve sorriso cruza meus lábios. Balanço a cabeça em sinal negativo e posso sentir seus olhos queimando sobre mim com um misto de descrença e curiosidade.— O que é tão engraçado? — ele me pergunta, antes de tomar outro gole de seu vinho, enquanto me observa.— Poderíamos ter nos tornado bons aliados desde o começo, Hector. Contudo, você tentou me matar na primeira semana que estávamos supostamente casados. — digo, rind

  • O Preço do Poder.   🎭 21- Inimigo ou Aliado ? 🎭

    Viena °°°°°°° Desisto de ler a matéria, entregando o tablet para Gaspar, foco meus olhos no horizonte novamente porém não posso deixar de perceber a preocupação que paira sobre Gaspar. — Não deixe que se aproximem da propriedade — digo olhando em seus olhos e posso notar sua preocupação. — Não deixarei que cheguem até você. — Você não é o super-homem, Gaspar, não prometa algo que não poderá cumprir... — Eu prometo aquilo que pretendo cumprir, Viena, é algo totalmente diferente — ele dá um breve sorriso, me fazendo rir também. — Vá para casa e fique com sua família, proteja-os. Não quero jogar com a sorte e não aguentaria se algo acontecesse a um deles. — Elas não estão na cidade, minha mãe precisou ir até San Gimignano para cuidar de minha tia e Isabela está junto a ela — ele diz calmamente, focando seus olhos ao longe. — Não minta para mim, Gaspar — digo calmamente, ainda o observando enquanto ele ainda observa algo no horizonte. — Você é terrível, Viena — ele b

  • O Preço do Poder.   🎭20- Emboscada🎭

    Milão [ITÁLIA] 11 de Dezembro, 09:37 A.M. "Viena." 🎭 Assim como em um jogo de xadrez, quando um movimento errado do jogador em si pode por tudo a perder, assim também é a vida, alianças se formam e são quebradas a todo momento, há momentos em que nossos aliados se tornam nossos inimigos e nossos inimigos se tornam nossos aliados, tudo não passa de um jogo, por espaço, ganância, poder. E posso afirmar com toda a certeza que tenho em meu íntimo que as coisas não iriam mudar tão facilmente, a semana se seguiu em meio a altos e baixos e as palavras de minha avó ainda ecoavam em minha mente. Diego ainda estava desaparecido, Evan estava desaparecido, meus homens haviam sido atacados em uma emboscada ontem pela manhã. Eleanor estava com sangue nos olhos, nunca a havia visto daquela forma. O desejo de vingança estampado em sua face, ela sabia de algo, mas simplesmente preferia resolver de sua maneira ao me contar, não havia como ser Hector, na verdade havia alguém maior por trás

  • O Preço do Poder.   🎭19 - A verdade nunca contada 4/4 🎭

    As imponentes cortinas que adornavam o centro do salão foram abruptamente ao chão, revelando Lorenzo Mancini pendurado nu, preso ao teto por grossas cordas. O silêncio pesado se instalou no ambiente, quebrado apenas pelo som surdo do tecido ao tocar o chão e pelos murmúrios nervosos dos convidados.Os presentes se encontravam atônitos, incapazes de processar completamente o que testemunhavam, enquanto as palavras de Eleanor ecoavam em suas mentes, evocando uma mistura sombria de fascínio e horror. Era uma noite em que as máscaras caíam, revelando os segredos mais profundos e as motivações mais sinistras, e seus convidados não poderiam imaginar o que ainda estava por vir após aquela demonstração de poder da parte de Eleanor.Os olhos de Lorenzo se abriram repentinamente devido a forte luz que adornava o salão. O espanto em sua face foi nítido ao notar seu estado e percebe que estava cercado por todos ou ao menos os principais membros da organização. Gritos, ordens e chingamentos ecoara

  • O Preço do Poder.   🎭 18- A verdade Nunca contada 3/4 🎭

    Eleanor permaneceu ali no chão do quarto, com suas roupas manchadas pelo sangue de seu herdeiro. As horas se passaram ela por sua vez não notou os primeiros raios de sol que emergiram pelo quarto.Uma mão sutil pousou sobre seus ombro esquerdo, fazendo uma leve pressão para atrair a atenção da mesma. — Querida ? — a voz suave de Mattheo emergiu em meio ao silêncio do quarto. — Ele não podia ter feito isso. — a voz de Eleanor soou, pela primeira vez em horas, havia um misto de rancor, raiva, ódio e tudo de ruim que se poderia imaginar em meio aquela palavras. — Você não irá interferir Mattheo, Lorenzo irá me pagar por toda a dor que me causou. Quero que todos saibam oque acontece quando se brinca com Eleanor Santoro. — ela diz com frieza, frieza, foi isso que Mattheo encontrou ao olhar em seus olhos azuis. — Como você quiser querida. — Ele diz serenamente, abaixando ao lado dela e pegando o pequeno corpo de seu filho em seus braços. — Meu filho, sua morte será vingada. — ele diz com

  • O Preço do Poder.   🎭 17- A verdade nunca contada 2/4 🎭

    07 Janeiro de 1973MILÃO [ ITÁLIA]Narradora. 🎭 Os meses passaram rápido demais para Eleanor, desde aquele parto complicado há cerca de quatro meses. Descobrir que esperava gêmeos foi uma surpresa chocante no momento do parto, não detectada pelos médicos nas ultrassonografias anteriores. Após nove horas de trabalho de parto, finalmente pôde segurar sua filha e seu filho nos braços, amamentando-os com amor.Lorenzo estava radiante, mas sua felicidade desapareceu rapidamente quando as suspeitas começaram a surgir. Consciente dos rumores dentro da organização, envolvendo a antiga rainha da máfia Cosa Nostra e o temido DON, ele tentou ignorá-los. No entanto, sua calma não foi suficiente para ignorar o que aconteceu naquela fatídica noite.Os gritos vindos da sala principal da mansão da família Santoro ecoavam pela madrugada. Eram 02h38 quando Eleanor e Lorenzo se envolveram em uma discussão acalorada devido aos acontecimentos daquela noite.Lorenzo estava furioso, incapaz de aceitar o

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status