LOGINO caminho que levava até o canil dos lobos selvagens rasgava o coração de uma mata antiga, onde árvores seculares erguiam-se como colunas de uma catedral esquecida.
— As copas densas filtravam a suave luz dourada do entardecer, projetando um mosaico de luz e sombra que dançava ritmicamente sobre o solo forrado de folhas secas. — A cada passo que eu dava, sentia o ar tornar-se mais espesso, impregnado com uma energia ancestral que parecia desacelerar o próprio tempo; o sussurro do vento entre as folhas e o piar distante dos pássaros compunham uma sinfonia que reverberou diretamente no meu peito. — Eu não estava apenas caminhando por uma propriedade corporativa; estava pisando em um território soberano que pulsava como um único organismo vivo. — A floresta e a alcateia compartilhavam o mesmo sopro de vida, e essa conexão visceral fazia com que o meu próprio lobo agitasse os sentidos, reconhecendo o domínio terreno que sempre me pertenceu. — Os guardiões estão incrivelmente tranquilos, o Beta comentou, que avançava ao meu lado mantendo uma postura de confiança serena. — Seus olhos aguçados varriam a vegetação densa, analisando cada movimento invisível nas sombras. — Desde que a veterinária assumiu o manejo diário, não registramos um único incidente. —É como um navio perfeitamente calafetado que navega por águas absolutamente calmas, sem enfrentar qualquer turbulência. A presença e a responsabilidade que ela abraçou trouxeram uma paz sem precedentes para este setor; parece até que a própria natureza ao redor se curvou ao ritmo dela. — Ela murmurei, repetindo a palavra em tom quase inaudível, deixando que o eco do pronome ressoasse no fundo do meu ser. — Algo no tom do Beta e na simples menção daquela figura feminina despertou uma faísca inédita na minha mente, uma mescla perigosa de respeito instantâneo e profunda intriga. — Para alguém como eu, que aos trezentos e cinquenta anos já havia testemunhado impérios ruírem e alianças milenares se desfeitas, a existência de uma humana capaz de subjugar a ferocidade de lobos selvagens pela mera presença era um fenômeno quase mítico. — Eu não sentia pressa ou impaciência, mas sim uma curiosidade cirúrgica, semelhante à de um conquistador que se depara com um território fascinante e inteiramente inexplorado. — Queria entender que tipo de força essa mulher carregava para estabelecer tal sintonia com feras indomáveis e, acima de tudo, para conquistar o respeito implícito do meu povo. Antes que eu pudesse aprofundar minhas reflexões, o silêncio da mata foi rompido por um prenúncio de caos: passos rápidos e desajeitados, o metálico tilintar de instrumentos cirúrgicos e o chacoalhar ruidoso de um balde aproximaram-se em uma velocidade absurda. — Uma figura irrompeu pela curva da trilha como um vendaval desgovernado, movendo-se com tanta determinação quanto cagueira, incapaz de notar a presença de dois homens de grande porte parados no meio do caminho. — Eu mal tive tempo de esboçar um movimento de esquiva quando o choque aconteceu; o impacto foi seco, pesado e direto, lembrando o estalo de um tronco quebrando sob a força de uma tempestade súbita, desfazendo qualquer postura solene em uma fração de segundo. — AI! O grito agudo cortou o ar ao mesmo tempo em que o balde voava pelos ares. O recipiente metálico atingiu o solo com um estrondo ensurdecedor, espalhando uma verdadeira bagunça pelo chão de terra batida. —Panos coloridos, frascos de vidro, gases e utensílios de metal saíram rolando em todas as direções, criando uma cena de caos quase cômico sob a penumbra das árvores. — Os frascos tilintavam ao colidir com as pedras, enquanto uma das ataduras de gaze desatou-se no ar e acabou presa em um galho baixo, pendurada como uma irônica bandeira branca de rendição decretada pelo destino. — Ela foi ao chão de forma abrupta, caindo sentada com violência; o choque do impacto roubou-lhe o fôlego por alguns instantes, deixando-a paralisada na terra enquanto tentava entender o que acabara de acontecer. — Armário ambulante, olha por onde você anda! Ela vociferou, ainda sem fôlego, tentando apoiar as palmas das mãos no solo para firmar o próprio corpo. O mundo parecia girar ao seu redor enquanto ela piscava repetidamente para dissipar a tontura da queda, sentindo a textura da terra e das folhas secas sob as pontas dos dedos. — Suas respirações vinham curtas e entrecortadas, denunciando o esforço do seu corpo para processar a súbita interrupção de sua caminhada rápida. — Meu Deus., resmungou, soltando um suspiro carregado de pura incredulidade enquanto tentava se reacomodar na terra. — Ainda bem que eu tenho carne e osso para amortecer, porque se fosse frágil como vidro, teria me esfacelado inteira agora mesmo. — Chega a ser ridículo! Imaginei a cena perfeita: eu, estilhaçada em mil pedaços no meio da floresta, como um vaso barato caindo do balcão. — O universo claramente decidiu incluir uma comédia pastelão na sua narrativa hoje, e eu acabei sendo a dublê acidental que levou a pior parte.Irina permanece pensativa, mas sua expressão demonstra uma preocupação que não desaparece diante da possibilidade apresentada.— Estamos falando de consequências que não conseguimos prever, Melina. Se o vínculo realmente possui a força que o ancião descreveu, qualquer acontecimento envolvendo Liara poderá provocar reações muito mais graves do que imaginamos. Não podemos considerar apenas aquilo que desejamos alcançar.— Eu sei — respondo. — E justamente por isso não pretendo agir sem compreender todos os riscos. Precisamos descobrir quem Liara realmente é, o que sua ligação com Lunara representa e quais consequências poderão surgir quando o acasalamento estiver completo.Andrina se aproxima da mesa e apoia uma das mãos sobre a superfície, mantendo a expressão determinada.— Então nossa única alternativa é esperar?— Nossa alternativa é observar e compreender — corrijo. — Não podemos tomar decisões importantes apenas porque estamos contrariadas com a escolha de Roderick. Precisamos rec
Irina assente lentamente, demonstrando que considera minha preocupação razoável. Sua expressão permanece séria, mas percebo que começa a reconhecer a importância de reunir informações antes de agir.— Então nossa prioridade precisa ser a cautela — afirma. — Não sabemos quem Liara realmente é, nem quais conhecimentos Lunara possui sobre a natureza da neta. E, depois do que ouvimos do ancião, seria uma imprudência tentar qualquer coisa sem compreender melhor a situação.Concordo com um movimento discreto de cabeça, embora não goste da perspectiva de permanecer esperando enquanto a ligação entre Roderick e a humana continua se fortalecendo. Entretanto, também compreendo que nossa impaciência poderá representar um perigo maior do que a própria cerimônia de acasalamento. Não estamos lidando apenas com uma disputa por posição dentro da corte, mas com acontecimentos relacionados à magia ancestral e a uma linhagem cuja influência desconhecemos completamente.Irina se aproxima da mesa e apoia
### MELINADeixamos os aposentos do ancião em absoluto silêncio. Nenhuma de nós demonstra disposição para comentar as advertências que acabamos de receber, principalmente porque suas palavras continuam repercutindo em meus pensamentos com uma intensidade que me desagrada profundamente. — Caminho à frente de Irina e Andrina pelos corredores mais antigos do castelo, procurando manter a postura que sempre considero indispensável a uma mulher de minha posição. — Entretanto, não consigo ignorar a sensação de que nossa situação se torna cada vez mais delicada. Durante muito tempo, acreditamos possuir influência suficiente para preservar determinados interesses, mas a chegada daquela humana modifica uma estrutura que julgamos impossível de ser abalada.O eco de nossos passos acompanha o silêncio que se estabelece entre nós. As tochas presas às paredes de pedra iluminam parcialmente as passagens, revelando tapeçarias envelhecidas e detalhes arquitetônicos que permanecem praticamente inalter
Permaneço em silêncio, tentando compreender todas as implicações daquela explicação. Não desejo admitir que a escolha de Roderick seja definitiva, mas começo a perceber que nossa resistência talvez não tenha o efeito que imaginamos.— Durante muito tempo, conhecemos um rei marcado por perdas e responsabilidades, alguém que mantém uma distância cuidadosamente estabelecida entre sua vida pessoal e os assuntos da corte. —:Agora, entretanto, ele demonstra uma ligação emocional que modifica sua maneira de enxergar determinados acontecimentos.— Além disso — continua o ancião —, Liara ainda permanece em sua forma humana. Isso desperta nele uma necessidade de proteção ainda maior. Roderick conhece as consequências dos acontecimentos antigos e não permitirá que a história se repita. Vocês precisam compreender que ele não é o mesmo homem de duzentos anos atrás.Andrina aperta os lábios, demonstrando que considera aquela explicação insuficiente para modificar sua posição.— Isso não muda o fa
MELINANão preciso explicar a direção que devemos seguir. Irina e Andrina conhecem perfeitamente o caminho, assim como compreendem a razão de nossa visita. — Depois de tudo o que descobrimos sobre Roderick e a humana, existe apenas uma pessoa a quem podemos recorrer sem precisar apresentar justificativas ou esconder os verdadeiros motivos de nossa preocupação. — Caminho à frente das duas, procurando manter a expressão tranquila enquanto atravessamos os corredores do castelo. Não desejo despertar a curiosidade dos criados ou dos guardas, principalmente porque qualquer movimentação fora de nossa rotina poderá chamar a atenção de pessoas que preferimos manter distantes de nossos assuntos.Seguimos em direção às alas mais antigas da construção, onde o movimento é consideravelmente menor e os corredores conservam características de épocas que a maior parte dos habitantes do castelo conhece apenas pelos registros históricos. As paredes de pedra apresentam marcas do tempo, e algumas tapeça
Aperto as mãos, tentando controlar a indignação que aquela possibilidade desperta, não considero justo que uma mulher criada longe de nossas tradições receba uma posição que tantas outras desejam durante anos. — Entretanto, também compreendo que minha opinião não modifica a escolha de Roderick, muito menos a influência da Mãe Lua.— Não pretendo aceitar passivamente que ela assuma tudo aquilo que desejamos, mantendo a voz firme. — Mas também não permitirei que nossa impaciência destrua qualquer possibilidade de preservar nossa posição.— Precisamos ser mais cuidadosos do que fomos obrigados a ser no passado.Andrina solta um suspiro e desvia os olhos por alguns instantes, aparentemente contrariada com a necessidade de esperar. — Conheço sua disposição para agir e sei que a paciência não está entre suas maiores virtudes. — Entretanto, também percebo que começa a compreender a gravidade das consequências que enfrentaremos se alguma de nossas decisões for descoberta.— Então ficaremo







