LOGINEla finalmente começou a varrer o chão com o olhar, encarando a devastação dos seus equipamentos médicos com uma mistura evidente de irritação, cansaço e um humor ácido disfarçado.
— Mas no exato momento em que ela ergueu os olhos e o seu tom de voz indignado atingiu os meus ouvidos, algo visceral aconteceu dentro do meu peito. — O meu lobo ancestral, adormecido e altivo há um século, despertou com um rugido silencioso que reverberou por cada fibra do meu ser. — Uma onda de choque percorreu minha espinha; o instinto reconheceu aquela presença antes mesmo que a minha mente lógica pudesse processar. — Era como se uma luz cegante atravessasse a bruma densa de uma manhã de inverno, e o abalo dessa revelação fez com que o meu autocontrole milenar oscilasse perigosamente diante daquela mulher caída a meus pés. — Você me chamou de quê? — perguntei, a voz saindo em uma frequência grave, contida e perigosamente baixa, carregando o peso de uma autoridade que raramente era questionada. O tom trazia a ferocidade latente do predador que sou, mas escondia, sob a superfície de ferro, uma fascinação avassaladora. — O ar entre nós pareceu condensar instantaneamente, esticando um fio invisível de tensão eletrizante que ameaçava romper a qualquer segundo. — Eu precisava entender de onde vinha tamanha audácia, e como aquela criatura franzina conseguia provocar uma reação tão avassaladora nos meus instintos mais profundos. A resposta dela não veio através do medo ou da retratação; pelo contrário, ela ergueu o rosto devagar, percorrendo a minha extensão de baixo para cima com um olhar afiado e absolutamente destemido. — Não havia nele um único vestígio de submissão, reverência ou pavor diante do perigo evidente que eu representava. — A postura dela na terra emanava uma dignidade teimosa, como se não se importasse minimamente com a minha envergadura física ou com a aura dominadora que eu e meu Beta projetamos. —O espaço ao nosso redor pareceu encolher, transformando aquele clareira isolada em uma arena privada onde sua vontade indomável colidia frontalmente contra a minha. — De armário ambulante,repetiu sem o menor sinal de hesitação, enquanto um sorriso provocativo e genuinamente travesso despontava nos seus lábios, desafiando abertamente o meu poder. — Por acaso você tem dois metros de altura? Sentindo a pontada de uma ironia que há muito tempo ninguém ousava me direcionar, estive muito próximo de deixar escapar um sorriso. A ferocidade dela era simplesmente fascinante, me deixou excitado. — Não, respondi mantendo o semblante calmo e analítico. — Tenho um metro e noventa e oito, e isso dá medo para a maioria, mas ela, me olha como se eu não fosse, nada.. — Humm, uma diferença irrelevante , ela retrucou, estalando a língua no céu da boca com um gesto de desaprovação teatral, como se a minha precisão exata fosse uma tentativa fútil de defesa. — E o que exatamente está faltando para atingir essa marca tão imponente? — Apenas dois centímetros, afirmei, cruzando os braços e observando a reação dos seus olhos. — Pois é! —Ela exclamou, projetando os braços abertos para os lados de forma dramática, transformando o protesto em um verdadeiro monólogo de indignação. — Apenas dois centímetros a menos e você já se julga no pleno direito de me atropelar como um trator e me desmontar no meio da trilha? — Olhe bem para mim, sou pequena, delicada, estava aqui equilibrando baldes e equipamentos pesados para fazer o meu trabalho, e você surge do nada feito um obstáculo de concreto e me lança ao chão. — Você por acaso tem noção do que é ser um fiapo de gente tentando sobreviver no meio de gigantes arrogantes como você? Ela fez uma careta expressiva e passou a mão pelo quadril, massageando o local do impacto com um dramatismo refinado que misturava a dor real com uma comédia involuntária. — Agora, quando eu for tratar das crianças, elas vão olhar para a minha cara e achar que eu fui surrada no caminho. Já é difícil o suficiente manter a moral alta com eles sem precisar passar pelo vexame de ser abalroada por um armário ambulante em pleno expediente! — Crianças? — Perguntei, genuinamente confuso, sentindo a minha mente decifrar aquela mulher como se estivesse diante de um enigma fascinante. — A menção à palavra "crianças" naquele setor isolado parecia desconexa com a realidade do resort, e a minha curiosidade acendeu-se ainda mais. — Meus olhos, habituados a decifrar ameaças e estratégias de guerra, varriam o rosto dela em busca de respostas, tentando concatenar a imagem daquela humana geniosa com a rotina dos guardiões selvagens que ela gerenciava. Meus lobinhos, é claro! —Ela respondeu prontamente, gesticulando com entusiasmo exagerado enquanto falava, como se a resposta fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Eles são criaturas extremamente atentas, observam absolutamente tudo e não deixam passar um único detalhe. — É impressionante como eles conseguem enxergar a realidade com uma nitidez afiada e uma inocência pura ao mesmo tempo. — Desde o jeito como a luz solar se espalha pelas folhas até o menor estalo nas sombras da mata, eles absorvem tudo. A mente deles é inquieta, sempre buscando entender o ambiente, e eu não posso simplesmente entrar parecendo que fui atropelada por um monumento! O meu Beta deu um passo firme à frente, a fisionomia fechada em uma severidade rígida, agindo como protetor da minha posição hierárquica. — Ele não estava disposto a tolerar que uma humana tratasse o Alpha da linhagem mais antiga com tamanha irreverência e deboche. — Você tem sequer ideia de com quem está falando? — A voz do Beta ressoou alta, vibrando com a gravidade de um trovão contido, projetando uma autoridade destinada a dobrar qualquer um que ousasse desrespeitar a nossa ordem. — Ela virou o rosto na direção dele com uma expressão de puro enfado, reagindo à intervenção dele como se estivesse tentando espantar um inseto inconveniente que zumbia ao redor das suas orelhas. Ela soltou um suspiro profundo e frustrado, massageando as sêmporas enquanto a sua mente parecia buscar forças para lidar com o que considerava um excesso de arrogância masculina. — Não, ela disparou, sem qualquer floreio ou temor, a palavra cortando o ar como uma lâmina afiada. — Mas posso afirmar com absoluta certeza que você é um sujeito incrivelmente desastrado e sem modos. — O seu chefe me derrubou na lama, espalhou minhas coisas e nenhum de vocês teve a hombridade de pedir desculpas. —Aparentemente, o meu bem-estar físico é um detalhe completamente irrelevante perante as suas agendas ocupadas e importantes.Irina permanece pensativa, mas sua expressão demonstra uma preocupação que não desaparece diante da possibilidade apresentada.— Estamos falando de consequências que não conseguimos prever, Melina. Se o vínculo realmente possui a força que o ancião descreveu, qualquer acontecimento envolvendo Liara poderá provocar reações muito mais graves do que imaginamos. Não podemos considerar apenas aquilo que desejamos alcançar.— Eu sei — respondo. — E justamente por isso não pretendo agir sem compreender todos os riscos. Precisamos descobrir quem Liara realmente é, o que sua ligação com Lunara representa e quais consequências poderão surgir quando o acasalamento estiver completo.Andrina se aproxima da mesa e apoia uma das mãos sobre a superfície, mantendo a expressão determinada.— Então nossa única alternativa é esperar?— Nossa alternativa é observar e compreender — corrijo. — Não podemos tomar decisões importantes apenas porque estamos contrariadas com a escolha de Roderick. Precisamos rec
Irina assente lentamente, demonstrando que considera minha preocupação razoável. Sua expressão permanece séria, mas percebo que começa a reconhecer a importância de reunir informações antes de agir.— Então nossa prioridade precisa ser a cautela — afirma. — Não sabemos quem Liara realmente é, nem quais conhecimentos Lunara possui sobre a natureza da neta. E, depois do que ouvimos do ancião, seria uma imprudência tentar qualquer coisa sem compreender melhor a situação.Concordo com um movimento discreto de cabeça, embora não goste da perspectiva de permanecer esperando enquanto a ligação entre Roderick e a humana continua se fortalecendo. Entretanto, também compreendo que nossa impaciência poderá representar um perigo maior do que a própria cerimônia de acasalamento. Não estamos lidando apenas com uma disputa por posição dentro da corte, mas com acontecimentos relacionados à magia ancestral e a uma linhagem cuja influência desconhecemos completamente.Irina se aproxima da mesa e apoia
### MELINADeixamos os aposentos do ancião em absoluto silêncio. Nenhuma de nós demonstra disposição para comentar as advertências que acabamos de receber, principalmente porque suas palavras continuam repercutindo em meus pensamentos com uma intensidade que me desagrada profundamente. — Caminho à frente de Irina e Andrina pelos corredores mais antigos do castelo, procurando manter a postura que sempre considero indispensável a uma mulher de minha posição. — Entretanto, não consigo ignorar a sensação de que nossa situação se torna cada vez mais delicada. Durante muito tempo, acreditamos possuir influência suficiente para preservar determinados interesses, mas a chegada daquela humana modifica uma estrutura que julgamos impossível de ser abalada.O eco de nossos passos acompanha o silêncio que se estabelece entre nós. As tochas presas às paredes de pedra iluminam parcialmente as passagens, revelando tapeçarias envelhecidas e detalhes arquitetônicos que permanecem praticamente inalter
Permaneço em silêncio, tentando compreender todas as implicações daquela explicação. Não desejo admitir que a escolha de Roderick seja definitiva, mas começo a perceber que nossa resistência talvez não tenha o efeito que imaginamos.— Durante muito tempo, conhecemos um rei marcado por perdas e responsabilidades, alguém que mantém uma distância cuidadosamente estabelecida entre sua vida pessoal e os assuntos da corte. —:Agora, entretanto, ele demonstra uma ligação emocional que modifica sua maneira de enxergar determinados acontecimentos.— Além disso — continua o ancião —, Liara ainda permanece em sua forma humana. Isso desperta nele uma necessidade de proteção ainda maior. Roderick conhece as consequências dos acontecimentos antigos e não permitirá que a história se repita. Vocês precisam compreender que ele não é o mesmo homem de duzentos anos atrás.Andrina aperta os lábios, demonstrando que considera aquela explicação insuficiente para modificar sua posição.— Isso não muda o fa
MELINANão preciso explicar a direção que devemos seguir. Irina e Andrina conhecem perfeitamente o caminho, assim como compreendem a razão de nossa visita. — Depois de tudo o que descobrimos sobre Roderick e a humana, existe apenas uma pessoa a quem podemos recorrer sem precisar apresentar justificativas ou esconder os verdadeiros motivos de nossa preocupação. — Caminho à frente das duas, procurando manter a expressão tranquila enquanto atravessamos os corredores do castelo. Não desejo despertar a curiosidade dos criados ou dos guardas, principalmente porque qualquer movimentação fora de nossa rotina poderá chamar a atenção de pessoas que preferimos manter distantes de nossos assuntos.Seguimos em direção às alas mais antigas da construção, onde o movimento é consideravelmente menor e os corredores conservam características de épocas que a maior parte dos habitantes do castelo conhece apenas pelos registros históricos. As paredes de pedra apresentam marcas do tempo, e algumas tapeça
Aperto as mãos, tentando controlar a indignação que aquela possibilidade desperta, não considero justo que uma mulher criada longe de nossas tradições receba uma posição que tantas outras desejam durante anos. — Entretanto, também compreendo que minha opinião não modifica a escolha de Roderick, muito menos a influência da Mãe Lua.— Não pretendo aceitar passivamente que ela assuma tudo aquilo que desejamos, mantendo a voz firme. — Mas também não permitirei que nossa impaciência destrua qualquer possibilidade de preservar nossa posição.— Precisamos ser mais cuidadosos do que fomos obrigados a ser no passado.Andrina solta um suspiro e desvia os olhos por alguns instantes, aparentemente contrariada com a necessidade de esperar. — Conheço sua disposição para agir e sei que a paciência não está entre suas maiores virtudes. — Entretanto, também percebo que começa a compreender a gravidade das consequências que enfrentaremos se alguma de nossas decisões for descoberta.— Então ficaremo







