LOGINA noite havia terminado.
Mas, para Darley, ela estava apenas começando. O Alfa entrou em seu territĂłrio em silĂȘncio, acompanhado por Celeste. Os portĂ”es da alcateia se fecharam atrĂĄs deles, enquanto os lobos que estavam de guarda abaixavam a cabeça em respeito. Darley nĂŁo respondeu aos cumprimentos. Sua mente estava longe dali. Helena. A imagem dela no jardim voltava repetidamente. O vestido branco. O sorriso. O beijo com Iago. A maneira como ela havia olhado para o elfo. Darley apertou os punhos. NĂŁo queria pensar naquilo. NĂŁo queria sentir aquilo. E, principalmente, nĂŁo queria admitir o que estava acontecendo dentro dele. CiĂșme. Era esse o nome. Um sentimento que ele conhecia apenas de ouvir falar, mas que nunca havia permitido que fizesse parte de sua vida. Ele sempre fora um homem controlado. Frio. Calculista. Sabia exatamente o que queria e fazia o necessĂĄrio para conseguir. Seu objetivo era claro. O Reino das Fadas. A magia daquele povo era a Ășnica coisa capaz de ampliar o poder de sua alcateia e permitir que ele alcançasse territĂłrios que, sozinho, jamais conseguiria conquistar. Celeste era apenas uma peça naquele jogo. Uma ligação conveniente. Um caminho para chegar atĂ© Helena e, consequentemente, ao reino. Mas agora... Agora Helena estava começando a ocupar seus pensamentos. E isso era perigoso. â NĂŁo â murmurou para si mesmo. Parou diante da janela de seus aposentos e observou a floresta. â Isso nĂŁo vai acontecer. Precisava manter a cabeça no lugar. NĂŁo podia se apaixonar. NĂŁo podia desejar Helena. NĂŁo podia permitir que qualquer sentimento destruĂsse anos de planos. Porque, se isso acontecesse, ele poderia perder tudo. Celeste entrou em seus aposentos pouco depois. Assim que fechou a porta, seu rosto mudou. O sorriso desapareceu. A expressĂŁo doce que mostrava diante dos outros deu lugar Ă raiva. Ela havia saĂdo do baile ainda mais incomodada do que quando chegou. Helena tinha conseguido tudo. A admiração. Os olhares. Os elogios. Os aliados. E, pior ainda, tinha Iago. Celeste caminhou de um lado para o outro. â Eu preciso fazer alguma coisa. Parou diante do espelho. â Preciso fazĂȘ-la cair. Mas como? Helena era uma princesa. Tinha proteção. Tinha aliados. E agora começava a conquistar influĂȘncia entre os reinos. Celeste precisava encontrar uma fraqueza. Alguma coisa que pudesse usar para humilhĂĄ-la diante de todos. â Alguma coisa... Ela pensou. Nada. Ainda. Mas Celeste nĂŁo desistiria. Se precisasse esperar, esperaria. Se precisasse fingir amizade, fingiria. Se precisasse mentir, mentiria. Helena pagaria. Enquanto isso, no Reino das Fadas, o amanhecer chegou. Helena abriu os olhos lentamente. Por alguns segundos, ficou olhando para o teto. EntĂŁo tudo voltou. O baile. Iago. O jardim. O beijo. Ela levou os dedos aos prĂłprios lĂĄbios. Um sorriso involuntĂĄrio surgiu. Ela havia gostado. Muito mais do que esperava. Iago sempre fora seu melhor amigo. A pessoa em quem confiava. Aquele que conhecia desde criança. Mas agora ele havia dito que a amava. E isso mudava tudo. Helena sentou-se na cama. â E agora? Ela nĂŁo sabia. NĂŁo sabia se conseguiria enxergar Iago como namorado. NĂŁo sabia se conseguiria transformar tantos anos de amizade em algo diferente. Mas sabia que havia gostado do beijo. Isso era impossĂvel negar. SĂł que havia outra coisa. Darley. Helena fechou os olhos. Lembrou-se da dança. Da mĂŁo dele em sua cintura. Do olhar intenso. Da maneira como ele a conduzia pelo salĂŁo. Por que havia gostado? Darley era arrogante. Frio. Perigoso. Perverso em muitos aspectos. Era exatamente o tipo de homem que deveria evitar. EntĂŁo por que seu coração acelerava quando pensava nele? Helena passou a mĂŁo pelo rosto. â Isso estĂĄ ficando complicado. Ela ainda nĂŁo sabia, mas havia uma razĂŁo para aquela confusĂŁo. Uma razĂŁo que fazia parte da prĂłpria natureza das fadas. Entre os lobos, o vĂnculo de alma começava de uma maneira diferente. O cheiro. O instinto. A presença. Um lobo podia reconhecer seu companheiro atravĂ©s do olfato e de uma conexĂŁo que despertava quase imediatamente. Com as fadas, porĂ©m, era diferente. Principalmente com as mulheres da linhagem real. A magia ancestral escondia o cheiro da alma gĂȘmea durante a maior parte do tempo. Para que uma princesa fada conseguisse reconhecĂȘ-lo, seu corpo precisava atingir um estado de intensa emoção e desejo. Era naquele momento que a magia despertava. O cheiro surgia. A conexĂŁo se revelava. E, quando acontecia, nĂŁo havia como confundir. Helena ainda nĂŁo sabia disso. Poucas pessoas conheciam aquele segredo. Era uma tradição antiga, guardada pelas mulheres da famĂlia real. E talvez fosse por isso que ela ainda nĂŁo tivesse percebido nada. Ela nunca havia sentido aquela intensidade antes. AtĂ© conhecer Darley. Helena abriu os olhos. â NĂŁo. NĂŁo queria pensar nisso. Darley era um problema. Iago era alguĂ©m que ela conhecia. Confiava. Amava como amigo. Talvez pudesse aprender a amĂĄ-lo de outra maneira. Mas Darley... Darley era diferente. Perigoso. ImprevisĂvel. E, justamente por isso, despertava nela uma curiosidade que Helena nĂŁo conseguia controlar. Ela se levantou e caminhou atĂ© a janela. Do lado de fora, o reino despertava. As fadas voavam entre as ĂĄrvores. Os elfos atravessavam os jardins. Tudo parecia tranquilo. Mas Helena sentia que alguma coisa havia mudado. Na noite anterior, ela era apenas uma princesa tentando entender seu lugar no mundo. Agora havia dois homens ocupando seus pensamentos. Um era seu melhor amigo. O outro era o Alfa que deveria ser seu inimigo. E nenhum dos dois parecia disposto a sair dali. Enquanto isso, muito longe dali, Darley tomava a mesma decisĂŁo que Helena. NĂŁo permitiria que sentimentos interferissem em seus planos. Celeste tomava outra. Encontraria uma maneira de destruir a irmĂŁ. E Helena ainda nĂŁo fazia ideia de que o maior segredo de sua prĂłpria linhagem estava prestes a despertar. Porque algumas ligaçÔes nĂŁo podiam ser escolhidas. Algumas nĂŁo podiam ser evitadas. E, quando a magia reconhecesse seu verdadeiro companheiro... Nem mesmo uma princesa seria capaz de fugir do prĂłprio destino.A coluna de luz dourada continuava atravessando o cĂ©u.Dentro da alcateia, ninguĂ©m conseguia desviar os olhos das janelas. A energia que emanava da floresta era tĂŁo intensa que atĂ© os lobos mais experientes começaram a se agitar, caminhando de um lado para o outro, incapazes de compreender o que estava acontecendo.Helena permanecia nos braços de Darley.As lĂĄgrimas ainda escorriam por seu rosto, embora ela nĂŁo soubesse explicar o motivo.NĂŁo estava triste.TambĂ©m nĂŁo sentia medo.Era como se uma lembrança esquecida estivesse tentando encontrar o caminho de volta para sua consciĂȘncia.â Helena, olhe para mim â pediu Darley, segurando delicadamente seu rosto.Ela ergueu os olhos.â Eu conheço aquela voz, Darley.Ele franziu a testa.â Como pode conhecĂȘ-la se nunca a ouviu antes?â NĂŁo sei. Mas, quando ela falou, alguma coisa dentro de mim respondeu. Foi como se eu estivesse esperando por ela durante toda a minha vida.Darley encostou a testa na dela.â EntĂŁo vamos descobrir quem Ă©. Mas
Helena apertou a mĂŁo de Darley.A voz ainda ecoava em sua mente, carregada de uma força tĂŁo antiga que parecia atravessar nĂŁo apenas seus pensamentos, mas tambĂ©m sua prĂłpria alma.VocĂȘ despertou os sete.Ela tentou responder mentalmente, mas, antes que pudesse formar qualquer palavra, uma pressĂŁo tomou conta de seu peito.NĂŁo era dor.Era reconhecimento.Como se uma parte desconhecida de sua essĂȘncia soubesse exatamente quem estava falando com ela.Darley percebeu a mudança em seu rosto.â Helena, olhe para mim.Ela ergueu os olhos.â Tem alguĂ©m falando comigo.Aren deu um passo Ă frente.â Ă um dos soberanos?â NĂŁo â respondeu Helena, balançando a cabeça. â Ă diferente. A presença de quem estĂĄ falando comigo nĂŁo se parece com a de nenhum deles.Kael ficou imĂłvel.Pela primeira vez desde que chegara Ă alcateia, sua expressĂŁo perdeu a habitual segurança.â O que vocĂȘ sentiu exatamente?Helena fechou os olhos, tentando encontrar palavras para descrever aquela sensação.â Ă como se essa
Helena permaneceu em silĂȘncio por alguns segundos.A frase continuava ecoando em sua mente.Quando todos os companheiros forem reunidos, o herdeiro nascerĂĄ do poder que os uniu.Mas, dessa vez, alguma coisa havia mudado.Ela nĂŁo sentia mais medo.Sentia compreensĂŁo.Como se todas as peças que estavam espalhadas dentro dela finalmente começassem a encontrar seus lugares.Helena olhou para Darley.Depois para Aren e Daren.â Eu entendi.Darley se aproximou.â Entendeu o quĂȘ?Helena respirou fundo.â Por que os sete despertaram.Os trĂȘs ficaram atentos.â NĂŁo foi para que eu tomasse o poder de vocĂȘs. E tambĂ©m nĂŁo foi para que vocĂȘs tomassem o meu.Ela levou a mĂŁo ao peito.â O despertar de vocĂȘs aconteceu porque o poder dentro de mim estava crescendo demais.Aren franziu a testa.â Crescendo?â Sim.Helena fechou os olhos.â Existe algo dentro de mim que ainda nĂŁo nasceu completamente. Algo muito maior do que o poder que eu jĂĄ despertei. E eu nĂŁo conseguiria controlar isso sozinha.Darle
A noite parecia ter parado.No instante em que Helena abriu os olhos, todos os sons ao redor desapareceram.As folhas deixaram de se mover.O vento cessou.AtĂ© os animais da floresta permaneceram imĂłveis, como se alguma força invisĂvel tivesse ordenado que o mundo inteiro esperasse.EntĂŁo veio o puxĂŁo.Mais forte do que todos os anteriores.Helena levou a mĂŁo ao peito.Seu coração bateu uma vez.Depois outra.E, no terceiro batimento, uma onda de energia atravessou seu corpo.â Helena! â Darley gritou.A energia explodiu para fora dela.NĂŁo foi uma explosĂŁo destrutiva.Foi como se a prĂłpria natureza tivesse acordado junto com ela.As ĂĄrvores se curvaram.O chĂŁo vibrou.A ĂĄgua dos rios prĂłximos se ergueu por alguns centĂmetros, formando pequenas ondas sem que houvesse vento.As flores que estavam fechadas durante a noite começaram a desabrochar.E, muito longe dali, os sete soberanos sentiram.Kael foi o primeiro a cair de joelhos.Aren sentiu as pernas perderem a força.Daren segurou
Kael permaneceu em silĂȘncio por alguns instantes.Helena ainda tentava compreender tudo o que havia visto.Seis histĂłrias.Seis quedas.Seis maneiras diferentes de serem destruĂdos pelo prĂłprio poder.Mas agora havia uma sĂ©tima presença.A Ășltima rainha.Aquela que ainda faltava.Kael respirou profundamente.â O nome dela era AurĂ©lia.Helena levantou os olhos.â AurĂ©lia?â Sim.Kael observou a floresta atravĂ©s da abertura entre as ĂĄrvores.â Ela foi uma boa rainha. Talvez a melhor entre todos nĂłs.Helena pareceu surpresa.â EntĂŁo por que ela estĂĄ entre eles?Kael demorou a responder.â Porque bondade nĂŁo significa que alguĂ©m continuarĂĄ se importando com os outros para sempre.Helena franziu a testa.â O que aconteceu?Kael suspirou.â AurĂ©lia perdeu quase tudo. Pessoas. FamĂlia. Reino. Confiança.Sua voz ficou mais baixa.â Depois de tantos sĂ©culos, ela simplesmente deixou de se importar.Helena permaneceu pensativa.â Ela se tornou cruel?â NĂŁo.Kael balançou a cabeça.â Esse foi jus
Eryon começou a se mover.Depois de sĂ©culos preso nas profundezas da terra, cada passo parecia carregar o peso de uma era inteira.As pedras prĂłximas tremiam quando ele passava.Algumas se erguiam sozinhas.Outras rolavam pelo chĂŁo como se estivessem sendo atraĂdas por sua presença.Eryon nĂŁo precisava tocĂĄ-las.NĂŁo precisava sequer olhar para elas.A terra reconhecia seu poder.O ar parecia responder Ă sua respiração.E, a cada quilĂŽmetro percorrido, aquela sensação dentro de seu peito ficava mais forte.O chamado.Aquela energia que o havia arrancado das profundezas.Aquela presença que, desde o instante em que despertara, parecia estar esperando por ele.Eryon sabia que precisava encontrĂĄ-la.Mas havia outra coisa que começava a chamar sua atenção.Ele nĂŁo estava sozinho.Existiam outras presenças se movendo.Algumas muito distantes.Outras mais prĂłximas.E uma delas estava se aproximando rapidamente.LĂșcio.Eryon fechou os olhos por alguns segundos.Sentiu a energia daquele antigo







