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Helena
Abro os olhos, mundo ainda gira. Minha cabeça pesa, dolorida. Ergo a cabeça devagar, tentando reconhecer onde estou, mas a escuridão é absoluta. Passo a mão pelo rosto, sentindo os dedos trêmulos. Sem firmeza nas pernas, tento me equilibrar, percebo que estou descalça. O chão é frio, úmido, há um leve gotejar em algum ponto do ambiente.
Toco meu próprio corpo, me dou conta de que o macacão de seda que eu usava na recepção do meu aniversário de dezoito anos desapareceu. Meus cabelos estão soltos e despenteados.
— Odeio lugares escuros — resmungo para o vazio.
Prendo o cabelo num coque firme, como minha mãe sempre faz quando precisa de foco, e vou tateando as paredes frias até encontrar a quina de uma mesa. Em cima dela, sinto o contorno metálico de uma luminária grande, mas não faço a menor ideia de como acendê-la.
Antes que eu possa procurar um interruptor, a porta se abre de golpe. A luz forte que invade o ambiente me cega por um instante. Instintivamente, cubro o rosto com o braço.
Uma mulher de meia-idade, vestindo um longo e vistoso vestido amarelo com bordados dourados, entra no recinto. Logo atrás dela, como sombras silenciosas, surge uma pilha de mulheres completamente cobertas. Elas usam tecidos brancos que envolvem todo o corpo e o rosto, deixando apenas os olhos à mostra. Estão tão caladas que parecem nem sequer respirar.
— Onde estou? — pergunto, com a voz falhando pelo sobressalto.
Ao me ouvirem falar, as mulheres cobertas dão um passo atrás, assustadas. Por acaso eu virei alguma assombração? Pergunto a mim mesma.
— Finalmente! — a mulher de amarelo exclama, abrindo os braços com entusiasmo, como se estivesse me esperando há um século.
A um comando silencioso, uma das criadas posiciona uma bacia grande no chão e outras duas despejam água quente dentro dela. Assim que terminam, todas se retiram em fila indiana, deixando apenas a primeira mulher a sós comigo.
Ela se aproxima sem pedir licença e segura meus ombros. Suas mãos são mornas, macias e incrivelmente lisas, mas o gesto é frio, como o de alguém que examina uma mercadoria.
— Hum... você me parece diferente das outras. Hum... Eu vou te chamar de Jasmine.
Olho fixamente nos olhos castanhos dela, trêmula de frio, enquanto o som monocórdico da goteira ecoa ao fundo.
— Me chamo Helena dos Santos Rodrigues Samartini. Filha de Juliana Rodrigues e Ricardo Samartini.
Falo trincando os dentes pelo gelo que corre na minha espinha. A mulher me encara com intensidade.
— Apesar de estar imunda, você é muito bonita, Helena. Vejo que ele vai ficar louco por você — diz ela, com um breve sorriso entusiasmado.
— Ele quem? Quem é ele? — pergunto imediatamente.
Em resposta, a mulher me gira de costas sem cerimônia e começa a desabotoar o vestido pesado que me vestiram.
— O meu senhor. Ele vai adorar você.
Ela abre o tecido e inspeciona minhas costas e nádegas, conferindo meu corpo como se avaliasse a qualidade de um animal de raça. Quando menos espero, sinto um tapa estalado em uma das minhas nádegas. Por sorte, a mão dela é pequena e leve, então o susto é maior que a dor.
— Nossa, você foi bastante abençoada! Que Alah te abençoe com muitos filhos.
Nego com a cabeça na hora. Ter filhos definitivamente não está nos meus planos. Sou profundamente grata à minha mãe por todos os sacrifícios que fez para nos manter vivos e bem após tantos problemas, mas não pretendo abrir mão da minha liberdade por ninguém. Não que eu ache a maternidade algo terrível, mas ter obrigações de família não é para mim. Entre a construção de uma família e a música, a música sempre virá em primeiro lugar.
— Que ele abençoe você! Eu não quero ter filhos — rebato.
A mulher se afasta de mim rapidamente, recolhendo as mãos como se estivessem queimando. O olhar que me lança é de puro repúdio.
— Não diga bobagens, garota. Agora vá para a água.
Ela aponta para a bacia. Entro sem resistir; a água está quente e deliciosa, um alívio imediato para o frio do calabouço.
— Isso é um sequestro? — arrisco, enquanto ela começa a passar algo gelatinoso e cheiroso nas minhas costas. — Meus pais podem pagar. Minha mãe tem dinheiro, meu pai também... até meu tio! Meu avô é um... é um embaixador!
A mulher solta uma risadinha debochada.
— Não se trata de um sequestro, Helena. Você irá morar aqui.
Viro o rosto para ela, o pavor finalmente rasgando minha compostura. Ninguém define a minha vida dessa forma. As lágrimas começam a descer quente pelo meu rosto. Não posso ficar longe da minha família; não imagino minha vida sem eles.
— Eu sei o número de telefone da minha mãe e de casa de cabeça! Se quiser, posso anotar — digo, me levantando da água em pânico.
Ela me empurra com firmeza pelos ombros para dentro da bacia novamente e diz algo ríspido em um idioma que não entendo.
— Aqui você não pode falar com sua família. Na verdade, não pode falar com ninguém. Pelo menos não por enquanto.
— Onde estamos? — insisto.
Ela se recusa a responder. Sei que não estamos mais no Brasil, nem no Chile, mas o paradeiro exato é um mistério.
Quando termina o banho, a mulher dá uma ordem em voz alta naquela língua estranha. A porta se abre no mesmo instante; as servas pareciam estar atrás da porta o tempo todo, escutando tudo. Uma delas traz um balde para recolher a água suja, enquanto outra me envolve rapidamente em uma toalha macia e uma terceira prepara a cama.
Veste-me com um vestido comprido e austero, muito parecido com as roupas que as beatas usavam na igreja onde minha avó Conça ia aos domingos. Em seguida, as servas saem e uma nova bandeja de inox prateada é trazida. Sento-me e como as frutas e os pãezinhos de formato estranho sob o olhar atento da mulher de amarelo.
Logo em seguida, a luz se apaga e sou deixada sozinha na escuridão novamente.
Passei a noite inteira em claro. No silêncio da casa, comecei a ouvir gritos abafados ecoando pelos corredores. Eram vozes de mulheres, vindas de diferentes direções, falando idiomas distintos. O máximo que consegui entender foi uma delas suplicando em inglês, entre gemidos altos: “More, please... more, Mr.”
Levantei da cama e comecei a andar em círculos na penumbra. Como nunca enxerguei bem no escuro, esbarrava nos móveis, tonta de medo e insônia. Fiquei me perguntando se aquelas mulheres estavam sendo atacadas por algum tipo de monstro ou vampiro. Pensei comigo mesma: se eu tivesse que enfrentar um vampiro poliglota, nós dois teríamos que resolver essa situação na porrada.
Nas duas semanas seguintes, tentei decifrar a rotina do lugar. Quando traziam comida durante o dia, eu fingia dormir; à noite, prestava atenção às vozes. Identifiquei duas mulheres falando inglês (uma com sotaque fluente e outra derivado), uma falando francês, além de ecos em espanhol e italiano. Havia um homem com elas, e todas o chamavam de "Senhor".
Quando finalmente comecei a me acostumar àquele cativeiro subterrâneo, a mulher de meia-idade voltou. Mas, dessa vez, ela me conduziu para fora do calabouço e me levou até um quarto no corpo principal da casa.
Era a minha nova prisão, embora infinitamente mais luxuosa. O espaço era decorado em tons de rosa e dourado, com uma cama imponente de madeira escura cujas colunas iam até o teto, sustentando um mosquiteiro de seda puríssima. O colchão era incrivelmente macio.
Toquei cada detalhe daquele lugar, ainda chocada com o contraste, e notei que a mulher me observava atentamente pelas minhas costas. Viro-me de repente, pegando-a no pulo.
— Quando eu vou sair daqui?
Ela me examina com uma curiosidade quase ardente.
— Você já esteve com ele, não esteve? Está apaixonada também, como as outras?
— O quê? Não! Eu nem conheço esse homem — respondo, com a voz rouca. — Nunca estive com ele e nunca vou estar.
Ao ouvir minha resposta, a mulher sorri abertamente, e o brilho em seus olhos reaparece.
— Tudo bem. É assim mesmo que eu quero.
Ela permanece no quarto enquanto as servas cobertas de branco começam a organizar dezenas de vestidos elegantes em cabides. Eram peças refinadas, nada comparadas aos trajes de beata do calabouço.
— Eu quero que você seja a melhor! — a mulher fala alto, encarando-me de frente. — Você tem que se destacar entre todas, principalmente porque é a mais bonita.
Porra, onde foi que eu me meti?, penso, mantendo a boca fechada enquanto escuto.
— Coma pouco e mantenha esse corpo perfeito — ela continua com as instruções. — Sempre que tomar banho, passe o óleo do pote transparente. Escove os cabelos, esteja sempre arrumada, com dentes limpos, postura ereta e alinhada.
Ela tira de uma bolsa uma pequena vara de madeira e começa a usá-la para corrigir minha postura, tocando meus ombros e minhas costas.
Pronto, ferrou. Fui sequestrada por uma bruxa, penso, desesperada. Mãe, vem me buscar logo!, imploro em meu pensamento.
Quando a varinha chega à minha cintura, recebo uma batida firme na bunda que me faz dar um salto.
— Empina esse bumbum! Se ele te trouxe para cá, é porque gosta disso. E isso você tem de sobra, mais do que qualquer uma das outras.
Engulo o grito de dor, empino as costas e coloco o peito para a frente. Me sinto uma verdadeira pata — só falta começar a fazer quack, quack, quack.
Após a sessão de etiqueta forçada, me sento na cama, dolorida.
— Perfeita! Ele vai ficar louco — ela comemora com um sorriso esnobe.
— Como é o seu nome? — pergunto.
Ela hesita por alguns segundos antes de responder:
— Me chamo Hortência. Sou a governanta desta casa. Cuido de você e das outras, mas a minha atenção especial será sua.
Hortência segura meu queixo, avalia meu rosto mais uma vez e finalmente me deixa sozinha.
Vou direto até a janela. Lá embaixo, estende-se um jardim impecável de tulipas e, mais adiante, um portão alto de ferro escuro. O inferno pode até ser bonito, mas continua sendo o inferno. Olho para a altura; se eu pulasse, certamente quebraria as pernas, mas talvez saísse viva.
Na penteadeira de madeira, vejo uma escova de cabelo pesada. Pegando o objeto, me debruço na janela e o atiro com força lá para baixo para testar a reação dos guardas.
Poucos minutos depois, surge no portão um homem forte, loiro, vestindo uma túnica marrom. Droga, é claro que tinha segurança.
Antes que eu possa pensar no próximo passo, a porta do quarto se abre. É Hortência, trazendo a escova que joguei nas mãos.
Puta que pariu. E eu aqui esperando a resposta da escova, penso, congelando no lugar.
— Pensei que você fosse mais inteligente — Hortência diz, erguendo a escova. — Não fez escândalos, não gritou, não chorou, nem gemeu... e agora isso, Helena?
— Eu ia pentear os cabelos e a escova escorregou da minha mão — minto descaradamente, soltando o coque na hora para dar veracidade ao meu álibi.
Hortência nem sequer pisca.
— Se fizer isso novamente, o Senhor irá puni-la. E acredite: será muito doloroso.
Ela coloca a escova de volta na penteadeira enquanto outra serva traz uma bandeja de refeição. Sento-me para comer sob o olhar vigilante de Hortência. Desde que cheguei, sou forçada a comer com as mãos. Será que esse povo não conhece talheres?
— Helena, eu não estou aqui para ser sua inimiga. Quero ser sua amiga — ela diz, mudando o tom.
Solto uma risada debochada e me viro para ela.
— Se você é minha amiga, me ajuda a sair daqui! Minha mãe deve estar sem dormir, sem comer... Eu tenho família! Tenho irmãos, pai, avós, tios que devem estar loucos atrás de mim!
— Não posso ajudá-la com isso. Sou apenas uma serva — responde, fria.
— Então me leve até o seu patrão. Eu vou convencê-lo a me libertar.
Hortência me olha de cima a baixo com desdém.
— Você não vai até ele. Se ele quiser, e quando ele quiser, ele virá até você.
— Cara escroto do caralho — resmunguo entre dentes.
— Não fale palavrões! Aqui é terminantemente proibido.
— E se eu falar, o que vocês vão fazer comigo? Prefiro morrer a viver longe da minha família!
Hortência sai do quarto sem dizer nada e retorna minutos depois trazendo algumas folhas de papel. Ela começa a ler as regras da casa em voz alta, um conjunto de absurdos onde a palavra "Senhor" aparece no início e no fim de cada frase. Basicamente, eu teria que virar a servente particular dele e ficar de boca fechada.
— O quê? Ele acha mesmo que vai fazer isso comigo? — pergunto, chocada.
Hortência arqueia uma sobrancelha e sorri.
— Sim. Isso e tudo mais o que ele desejar.
Arranco os papéis da mão dela. Quando tento ler, vejo que são símbolos completamente estranhos para mim.
— Isso é árabe? Vocês são árabes?
Ela apenas balança a cabeça, enigmática.
— Pois pode dizer para esse árabe filho da puta que ele não vai tocar num único fio do meu cabelo! Se meu pai descobre isso, ele derruba esta casa e mata esse escroto!
— Helena, acalme-se. Não é assim que funciona. Ele não fará tudo de uma vez; ele vai testando seus limites aos poucos, até onde você aguentar.
— Ele que vá testar na puta da mãe dele! Então... é isso que ele faz com as mulheres que gritam a noite inteira?
Hortência assente com a cabeça, pega as folhas da minha mão e volta a ler com voz solene.
Terceira Regra: Não falar, não encarar os olhos dele e nunca beijar sua boca, nem mesmo se ele ensaiar um beijo.
Quarta Regra: Não atingir o êxtase sem a permissão dele. Sem permissão, haverá castigo.
Quinta Regra: Nunca gritar ou pronunciar o nome dele. Se alguém o disser, cubra os ouvidos.
Sexta Regra: Lembre-se: você é uma submissa. Não tem vontades nem desejos. Seus desejos são unicamente os que o seu dono determinar.
— Que porra de regras são essas, Hortência?! — coloco as mãos nos ouvidos, horrorizada.
Tomo os papéis de sua mão e os rasgo em vários pedaços.
— Helena, não faça isso! Você precisa aprender tudo! Se não aprender, será brutalmente castigada!
— Pois que me castigue! Eu não vou cumprir exigência nenhuma! — declaro, cruzando os braços.
Hortência me lança um olhar severo de advertência e deixa o quarto.
Volto para a janela. Para passar o tempo, passo a tarde toda provocando o segurança lá embaixo. Dou "psiu", dou tchauzinho e dou risada. O homem fica visivelmente sem jeito, envergonhado, e acaba trocando de posto com outro guarda.
— Covarde! — grito da janela, rindo ao vê-lo se retirar.
Mais tarde, uma criada traz o jantar. Hortência não aparece. Como apenas as frutas e me deito na cama para descansar.
Já é quase noite quando a porta se abre de novo. É Hortência. Ela faz um sinal para a criada recolher a bandeja e me encara.
— Me conta mais sobre essa história de ser submissa — peço, curiosa apesar de tudo.
Hortência sorri, satisfeita. Tira outro papel do bolso e me entrega. Este está escrito em inglês.
— Eu tenho que ler? Que coisa chata... Você não pode me contar?
Ela nega com a cabeça e se senta na poltrona. Começo a ler as regras em voz alta e, à medida que leio, nós duas começamos a conversar e até a rir das absurdidades ali escritas. Era tudo tão exagerado que eu estava curiosa para ver como ele aplicava aquilo nas outras mulheres, porque em mim, com certeza, não funcionaria.
— Você é bem mais interessante do que eu pensava, Helena. Menos encrenqueira que as outras — Hortência admite.
— Eu sempre fui assim — dou um sorriso mais leve. — Sou a mais tranquila dos meus irmãos. Na verdade, pela minha mãe somos Heloise, Saulo, eu e o Saymon. Da parte do meu pai, tem o Bryan.
— Você tem uma irmã com o seu nome? Que diferente.
— Na verdade, meu nome no documento é Helena, mas todo mundo me chama de Helen. Eu prefiro Helen. A outra Helena é filha do meu tio Júlio, mas minha mãe a cria desde pequena como se fosse filha dela. As duas são grudadas, explico, me lembrando de casa.
— Helen... Quanto mais eu te conheço, mais gosto de você — diz Hortência.
Aquela frase faz com que eu comece a vê-la de forma diferente. Nos dias seguintes, passamos a conversar com frequência. Os dias foram ficando mais toleráveis, embora a rotina continuasse a mesma: eu provocando os guardas da janela e os gritos noturnos se alternando com noites em que alguém tocava um instrumento suave pela casa.
Um mês se passou desde a minha chegada. Eu ainda não tinha visto o rosto do tal "Senhor Escroto". A mistura de ansiedade e medo continuava ali, mas minha resolução permanecia intacta: quando ele finalmente aparecesse, eu daria um jeito de fazê-lo me libertar. Aquilo só podia ser um engano. Esse tipo de coisa só funciona com quem quer ser submissa, e esse, definitivamente, não era o meu caso.
Estava distraída, encarando o teto do quarto rosa e dourado, quando ouvi o som diferente do de costume: não eram os passos leves de Hortência nem o andar silencioso das servas.
Eram passos pesados, firmes, ecoando pelo corredor e parando exatamente diante da minha porta.
A maçaneta dourada girou devagar.
HelenaSeis meses se passaram da pior e mais arrastada maneira que Salim poderia imaginar. O tempo parecia ter se transformado em uma tortura lenta, em que cada hora no palacete pesava como um dia inteiro. Se no início do nosso casamento meu marido já se incomodava em dividir meu tempo e minha atenção com a nossa própria família, a presença de Beatrice e do pequeno Khalil sob o nosso teto testou todos os seus limites.Sem que eu planejasse, me vi assumindo o papel de cuidadora principal de Beatrice. Acomodei seus remédios, preparei suas sopas nos dias em que a dor a impedia de engolir alimentos sólidos e amparei suas dores. Não fiz isso por submissão ou para agradar à cultura local, e tampouco por ingenuidade em relação a uma mulher que um dia tentou retomar a posição de primeira esposa; fiz por humanidade. Na minha criação, a dor de uma mãe moribunda não se ignora.Ao final daquele dia exaustivo, Salim entrou em nosso quarto visivelmente tenso, o peso dos negócios e daquela convivênci
HelenaDeixei meu sogro e Latifa acomodados na sala de estar, imersos em suas conversas e chás gelados, e me dirigi à cozinha principal do palacete. Aquele espaço, amplo e perfurado pelos aromas de especiarias do Oriente, tornou-se o meu refúgio pessoal naquele início de tarde. Apoiei sobre a bancada de mármore o pequeno caderno de páginas amareladas que eu guardava como um tesouro sagrado: o livro de receitas da minha avó Conça. Folhear aquelas anotações feitas à mão, com a caligrafia desenhada de quem atravessara décadas servindo amor em forma de alimento, trazia um conforto imediato ao meu peito.Passei boa parte da tarde ali, imersa no ritual de preparar a massa do jantar. Sovar a farinha, sentir a textura sob os meus dedos, ajustar os temperos e o ponto exato do forno era um exercício que me reconectava com o meu passado e acalmava a tempestade de pensamentos que a chegada de Beatrice havia provocado.Quando finalmente concluí o preparo e deixei a massa descansando sob o pano lim
SalimAcomodamo-nos todos ao redor do grande tapete central da sala de jantar para a refeição. Para minha absoluta perplexidade, observei a mudança repentina e radical no comportamento de Sarin em relação a Khalil. A minha filha, antes uma fortaleza de orgulho e rejeição, agora se inclinava com cuidado para servir o garoto. Que diabos acontecera com aquela menina durante o tempo em que estivera nos aposentos superiores? Seria apenas a comoção de saber que a mãe do menino enfrentava uma doença fatal? Admito com transparência: preferia minha filha exibindo sua habitual carranca desconfiada a vê-la cedendo tão facilmente. Se o garoto pisasse em seu calo no futuro, queria ver até onde iria aquela trégua.Almoçamos sob um silêncio denso, pontuado apenas pelo ruído brando dos talheres e das louças. Minha vontade íntima era que meu pai, o Sheik Hassam, concluísse logo sua visita para que eu e Helena pudéssemos retornar ao nosso quarto e terminar a conversa e as carícias, que havíamos interro
— Não, depende exclusivamente de você, Helena! — rebateu ele, mantendo o movimento envolvente. — Você é a senhora desta casa, a minha única e verdadeira esposa. Prometo a você, por tudo o que é mais sagrado, que jamais a procurarei como mulher. Mas também não posso simplesmente jogá-la na rua para morrer como um cão. Contudo, se você não a quiser sob este teto, eu acatarei a sua vontade sem questionar.Olhei para ele, sentindo o peso esmagador daquela responsabilidade. Ele estava colocando todo o fardo daquela escolha moral sobre os meus ombros no meio de um ato de pura paixão.— Eu não posso tomar essa decisão sozinha por você, meu amor... Ah, Salim... — respondi, soltando um suspiro involuntário quando ele aumentou a intensidade.— Não posso decidir isso sem você, habib... Se eu permitir que ela fique aqui para cumprir seus últimos dias, você vai se sentir desconfortável? Vai conseguir conviver com isso?É claro que eu não ficaria à vontade! A presença da primeira esposa dentro do m
Helena— Sarin, pare! Se ele for seu irmão, qual é o problema? O Miguel por acaso não é seu irmão? — perguntei, tentando segurar minha filha mais velha, que oferecia uma resistência feroz em vestir o roupão de banho. Ela ainda estava ensopada, com a água pingando dos cachos escuros após o banho, a fúria faiscando em seus olhos infantis.Miguel, mantendo seu temperamento calmo habitual, já estava banhado, vestido e acomodado no quarto dele, conversando pelo tablet com a minha mãe no Brasil.— Ele não é meu irmão, mamãe! Ele é um... um... Vou ligar agora mesmo para a titia para saber o que ele é! — esbravejou ela, bufando.Interrompi a pequena imediatamente. A última coisa de que eu precisava era que a chegada de Beatriz se espalhasse entre a minha família no Brasil. O que para a cultura de Salim e do Oriente Médio podia ter contornos previstos pelas tradições antigas, para a minha mãe e meus irmãos seria visto como algo absolutamente inaceitável — pior do que uma traição: uma humilhaçã
Ao cruzar os portões da residência, deparei-me com uma cena incomum: as criadas aglomeravam-se no jardim, visivelmente agoniadas e trocando sussurros aflitos sobre o retorno repentino da minha primeira esposa. Sempre soube que Beatrice não era uma santa, mas tampouco a considerava uma encarnação do mal. Passei por elas ignorando seus apelos desesperados, pois sabia bem do afeto quase devoto que todas nutriam por Helena, tratando-a como uma deusa, um título que eu não ousaria contestar. O clamor geral era um só: que eu não aceitasse Beatrice de volta sob hipótese alguma.Adentrei a sala principal com o coração pulando na boca, perturbado pela notícia de que ela retornara acompanhada por uma criança. Por que eu nunca me dera ao trabalho de procurar Beatrice quando ela simplesmente desapareceu no mundo? Por que negligenciei esse paradeiro? Os pensamentos martelavam em minha cabeça com violência, questionando minha omissão passada. Contudo, ao chegar ao recinto, fui surpreendido por uma c







