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CAPÍTULO 6

Author: Maya Durand
last update publish date: 2026-01-08 10:48:54

Agenda compartilhada: POV Rachel

A confirmação da viagem chegou antes do meio-dia.

O e-mail da secretária era objetivo demais para algo que já tinha começado a ocupar espaço na minha cabeça: voos confirmados, hotel reservado, agenda preliminar anexada. Três dias. Reuniões longas. Jantares de trabalho. Pouco tempo livre — ao menos no papel.

São Paulo.

Abri o anexo com atenção profissional, marcando mentalmente horários, deslocamentos, margens de risco. Eduard estava copiado em tudo. Adrian também. Tudo limpo. Tudo correto.

Tudo parecia organizado demais para justificar o incômodo que se formava.

Fechei o arquivo e me forcei a focar em outra coisa.

Passei o resto da manhã resolvendo pendências, ligando para clientes, ajustando cláusulas que pediam urgência. Funcionava bem quando eu mantinha a mente ocupada. O problema era o que acontecia nos intervalos.

— Rachel.

A voz de Eduard veio do corredor.

Levantei o olhar quando ele apareceu à porta da minha sala, o paletó já no braço, expressão concentrada. Ele entrou sem esperar resposta, como fazia quando tinha pressa.

— Vi o e-mail da viagem — disse. — Está tudo certo para você?

— Está — respondi. — A agenda é viável.

Ele assentiu, satisfeito com a resposta objetiva.

— Ótimo. Adrian já está alinhando os investidores. Vamos precisar estar bem preparados.

Vamos.

A palavra soou correta. Familiar. Ainda assim, havia uma diferença sutil entre o que estava sendo dito e o que estava sendo vivido.

— Você parece distraída — comentou, ajeitando a manga da camisa.

— Só concentrada — corrigi.

Eduard me beijou a testa, rápido, automático, e saiu com a mesma pressa com que tinha entrado. Fiquei observando a porta fechada por alguns segundos a mais do que o necessário.

À tarde, revisei a agenda com mais cuidado.

Café da manhã com investidores.

Reunião jurídica.

Almoço de negócios.

Visita à nova sede.

Em quase todos os compromissos, meu nome aparecia ao lado do de Adrian.

O telefone tocou pouco depois.

— Rachel — a secretária disse. — O doutor Adrian pediu para confirmar se você prefere sentar próxima a ele nas reuniões. Facilita a dinâmica.

Fechei os olhos por um instante antes de responder.

— Tanto faz — disse, mantendo a voz neutra. — Siga o protocolo.

Desliguei com a sensação incômoda de que tanto faz não era exatamente verdade.

No fim do dia, abri o armário em casa e encarei as roupas com uma atenção diferente da habitual. Não escolhia vestidos. Escolhia postura. Tecidos discretos. Cortes adequados. Nada que pudesse ser mal interpretado.

Ainda assim, descartei duas peças sem saber exatamente por quê.

Na mala, coloquei o essencial. Documentos. Notebook. Sapatos confortáveis. Um vestido social que eu já tinha usado dezenas de vezes.

Era só uma viagem de trabalho.

Nada mais.

Quando Eduard entrou no quarto, falando sobre horários e compromissos, eu o escutei com atenção real. Assenti. Fiz perguntas. Organizei mentalmente o que precisava ser feito.

Estávamos indo juntos.

Tudo estava dentro do esperado.

Mas, enquanto fechava a mala, uma percepção silenciosa se impôs — clara demais para ser ignorada:

Não era a cidade que me deixava inquieta.

Era a convivência prolongada.

Três dias dividindo decisões, espaços, silêncios.

O tempo passou rápido demais até o dia da viagem.

Na manhã do embarque, acordei antes do despertador. Eduard ainda dormia ao meu lado, o rosto relaxado, distante da lista mental que eu já organizava: documentos impressos, apresentações salvas em dois dispositivos, contratos revisados pela última vez.

Levantei em silêncio e fui até a cozinha preparar café.

Enquanto a água esquentava, repassei mentalmente cada detalhe da agenda. Nada podia dar errado. Não por causa da empresa — mas porque qualquer falha seria interpretada como distração. E eu não podia parecer distraída.

Eduard apareceu poucos minutos depois, ajeitando a camisa.

— Dormiu bem? — perguntou.

— Dormi — menti, sem esforço.

Ele falou sobre trânsito, horários, o motorista que nos buscaria no aeroporto. Conversas práticas. Funcionais. Era fácil funcionar ao lado dele.

No aeroporto, tudo seguiu conforme o esperado.

Check-in rápido. Sala VIP quase vazia. Eduard atendendo ligações enquanto eu organizava a pasta com os documentos. Foi só quando ouvi a voz conhecida atrás de mim que percebi o quanto eu estava atenta ao ambiente.

— Bom dia.

Adrian.

Ele estava impecável, como sempre. Terno escuro, postura tranquila, expressão controlada. Cumprimentou Eduard com um aperto de mão firme, breve. Nada além do necessário.

— Rachel — disse em seguida, com um aceno discreto de cabeça.

— Adrian.

Nada mais.

E, ainda assim, a presença dele reorganizou o espaço.

Sentamo-nos próximos, porque era lógico. Porque facilitava. Eduard voltou ao celular quase imediatamente. Adrian abriu o notebook, revisando algo que reconheci como a apresentação da reunião.

— Ajustei a cláusula de saída — comentou, baixo, sem olhar para mim. — Ficou mais clara.

— Vi a atualização — respondi. — Resolve o risco jurídico.

— Ótimo.

Apenas trabalho.

Mas havia algo diferente na maneira como ele se comunicava comigo ali — menos pausas, menos leitura, mais objetividade direta. Como se a fase de observação tivesse terminado.

— O investidor principal é exigente — Adrian continuou. — Vai testar limites.

— Estou preparada.

Ele ergueu o olhar então, sustentando o contato visual por um segundo a mais do que o necessário.

— Eu sei.

A chamada para o embarque interrompeu o momento antes que qualquer coisa pudesse ser interpretada.

No avião, Eduard sentou na janela. Adrian no corredor. Eu fiquei no meio.

Não foi planejado.

Mas foi inevitável.

Durante o voo, trocamos comentários técnicos, observações rápidas sobre números, pontos sensíveis da negociação. Eduard participou quando precisava. Depois voltou ao laptop.

Quando o avião se moveu na pista, o braço de Adrian roçou no meu de forma breve, acidental. Ajustei a postura no mesmo instante, como se aquele detalhe mínimo exigisse correção imediata.

Em certo momento, ele se inclinou levemente para falar algo que só eu ouviria.

— Em São Paulo, o ritmo é diferente — disse, baixo. — Menos margem para erro.

— Não é novidade.

— Para a maioria, não. — Uma pausa curta. — Para você, vai ser interessante.

Não houve provocação direta naquela frase. Mas houve intenção.

Quando o avião pousou, senti um alívio estranho — como se algo tivesse sido oficialmente iniciado.

No trajeto até o hotel, Eduard falou sobre compromissos da tarde. Adrian confirmou horários. Eu ouvi, respondi, ajustei detalhes.

O hotel era sofisticado, discreto, com um movimento constante de executivos entrando e saindo. Check-in rápido. Três chaves. Mesmo andar.

— Descansamos uma hora e descemos para a primeira reunião — Adrian disse, ajustando o próprio relógio. — Quero todos pontuais.

A palavra ficou no ar por um instante a mais do que precisava.

Quero.

Não devemos.

Não seria melhor.

Era assim que ele falava quando já tinha decidido. Não pedia adesão, não abria espaço para debate. Apenas estabelecia o ritmo — e esperava que os outros acompanhassem. Eduard não parecia notar. Para ele, aquilo era só liderança.

Para mim, soou como algo diferente.

Controle confortável demais para quem estava acostumado a ser obedecido.

Assenti, profissional, como se não tivesse percebido nada além do óbvio. Mas a constatação se acomodou em silêncio: Adrian gostava de mandar. E gostava ainda mais quando ninguém questionava.

No elevador, o silêncio foi absoluto. Espelhos demais. Proximidade demais. Eduard distraído. Adrian atento.

Quando as portas se abriram no meu andar, tive a estranha sensação de que os próximos dias seriam mais longos do que a agenda sugeria.

E, enquanto caminhava até o quarto, uma certeza se formou, clara e desconfortável:

A viagem ainda nem tinha começado direito.

E eu já sabia que não seria apenas sobre negócios.

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