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O acordo de sangue
O acordo de sangue
Autor: Eros

Capítulo 1

Autor: Eros
last update Data de publicação: 2026-03-14 05:21:46

A música vibrava nas paredes como um coração artificial.

Do meu escritório, no segundo andar do clube, eu conseguia sentir cada batida grave atravessando o chão de madeira escura, subindo pelas pernas da mesa e chegando até mim como um lembrete constante de onde eu estava — e de quem mandava ali.

Silverport nunca dormia de verdade. A cidade apenas trocava de máscara.

Durante o dia, vestia ternos caros, discursos políticos e promessas de investimento. À noite, tirava tudo isso e revelava o que realmente era: uma criatura viva feita de ambição, pecado e dinheiro sujo.

E Raven Fall, o distrito noturno, era o coração dessa criatura.

Meu clube ficava no meio da rua principal, um edifício de fachada discreta que escondia um interior cuidadosamente projetado para seduzir e intimidar ao mesmo tempo. As paredes eram totalmente pretas, absorvendo a luz como se fossem um abismo. Não havia quadros, não havia decoração desnecessária — apenas a escuridão elegante de quem não precisava provar nada a ninguém.

Os sofás eram de couro vermelho.

Um vermelho profundo, quase da cor do vinho… ou do sangue.

As garotas que circulavam pelo salão usavam vestidos retrô, inspirados nas décadas passadas — cinturas marcadas, saltos altos, maquiagem impecável e sorrisos treinados para fazer homens esquecerem seus próprios nomes. Era parte da identidade do lugar. Parte do teatro.

Lá embaixo, a pista estava cheia.

Risos, copos tilintando, homens ricos fingindo ser mais importantes do que eram, políticos tentando não serem reconhecidos, empresários em busca de diversão cara.

Tudo cuidadosamente controlado.

Tudo sob meu domínio.

Eu estava sentado atrás da minha mesa quando levei o copo de uísque aos lábios. O gosto queimou suavemente na garganta, deixando um rastro quente que me ajudava a manter a mente afiada.

Do lado de fora do escritório, dois dos meus homens faziam guarda.

Dentro, apenas eu… e o silêncio relativo que o vidro grosso proporcionava.

Minha mesa era de madeira escura, pesada o suficiente para sobreviver a uma explosão. Atrás de mim, uma estante minimalista com algumas garrafas raras e documentos que não existiam oficialmente.

Era um espaço simples.

Mas cada centímetro dele gritava poder.

Eu estava revisando alguns relatórios financeiros quando o telefone sobre a mesa vibrou.

Não tocou.

Não precisava.

Apenas vibrou uma vez, curta e direta — o sinal de uma linha privada.

Olhei para a tela.

Conrad.

Um pequeno sorriso apareceu no canto da minha boca.

Meu irmão mais novo nunca ligava sem motivo.

Atendi.

— Fale.

Do outro lado da linha, o barulho de vento e motores ao fundo denunciava que ele estava na rua.

— Alex — disse ele.

A voz de Conrad sempre carregava uma energia inquieta, como se o mundo estivesse constantemente um passo atrás dele.

— Algo estranho está acontecendo no Porto Velho.

Eu me recostei na cadeira, girando levemente o copo entre os dedos.

— Estranho como?

— Movimentação demais.

Pausa.

— De quem?

— De todo mundo.

Agora sim minha atenção despertou.

Conrad continuou:

— Nossos vigias nos galpões disseram que alguns caminhões apareceram na região nas últimas horas. Placas falsas. Homens armados circulando pelas docas.

— Quantos?

— Mais do que o normal.

Outro segundo de silêncio.

— E não são só os nossos rivais habituais.

Aquilo fez meu olhar endurecer.

— Quem mais?

— Gente da família Moretti… talvez alguns dos Kovalenko também.

A menção desses nomes pairou no ar como uma lâmina invisível.

As famílias de Silverport tinham uma espécie de equilíbrio silencioso. Não era paz, exatamente. Era algo mais parecido com um acordo implícito de sobrevivência.

Todos sabiam até onde podiam ir.

E o Porto Velho…

Eu passei o polegar lentamente pela borda do copo.

O Porto Velho era outra história.

Era um distrito antigo, industrial, cheio de galpões de metal corroído pelo sal do mar e ruas largas feitas para caminhões de carga. Um lugar feio, funcional e absolutamente vital para quem sabia usá-lo.

Eu tinha vários galpões lá.

Oficialmente, eram depósitos logísticos.

Extraoficialmente…

Bem.

Silverport se movia por meio de mercadorias que raramente apareciam em documentos oficiais.

Armas.

Tecnologia.

Obras de arte.

Dinheiro.

E o Porto Velho era a porta de entrada perfeita.

Controlar aquele distrito significava controlar metade das operações clandestinas da cidade.

Se outras famílias estavam interessadas…

Isso significava apenas uma coisa.

Problema.

— Você acha que estão tentando tomar território? — perguntei.

— Não sei ainda — respondeu Conrad. — Mas tem gente demais andando por lá para ser coincidência.

Eu olhei pela janela do escritório.

Lá embaixo, uma garota de vestido vermelho girava na pista enquanto a música aumentava.

Homens riam.

Garçons circulavam com bandejas.

Tudo parecia perfeitamente normal.

Mas Silverport sempre escondia a tempestade atrás da calmaria.

— Onde você está agora? — perguntei.

— A algumas quadras do porto.

— Espere.

Houve uma breve pausa do outro lado.

— Você vai vir?

Eu soltei um suspiro baixo.

— Parece que alguém quer testar nossa paciência hoje.

Conrad riu.

— Eu já estava ficando entediado.

— Não faça nada até eu chegar.

— Claro.

— Conrad.

— Sim?

— Quantos homens você tem com você?

— Quatro.

Balancei a cabeça, mesmo sabendo que ele não podia ver.

— Ótimo. Então use o cérebro antes de usar as balas.

— Vou tentar.

A ligação terminou.

Fiquei alguns segundos olhando para a tela apagada do celular.

Silverport tinha regras invisíveis.

Uma delas era simples: ninguém mexia no território dos Sinclair sem pedir permissão.

Se alguém estava tentando fazer isso… precisava ser lembrado de como as coisas funcionavam.

Coloquei o copo sobre a mesa.

O gelo tilintou.

Então abri a gaveta lateral.

Dentro dela, perfeitamente alinhada, estava minha pistola.

Preta.

Fria.

Familiar.

Peguei a arma e senti o peso confortável encaixar na minha mão. Verifiquei o carregador com um movimento automático e a coloquei no coldre interno do paletó.

Levantei.

Do lado de fora do escritório, um dos guardas se endireitou imediatamente quando a porta se abriu.

— Chefe.

— Avise os outros.

Ele não precisou de mais explicações.

Em menos de um minuto, já estávamos descendo as escadas do clube.

A música ficou mais alta conforme nos aproximávamos do salão principal.

As luzes vermelhas piscavam nas paredes negras.

Algumas pessoas olharam quando passei.

Outras fingiram não olhar.

Era sempre assim.

Respeito e medo costumam caminhar juntos.

Do lado de fora, o ar noturno de Silverport era frio e carregado de sal.

A rua estava iluminada por letreiros de neon e faróis de carros passando.

Meu motorista já estava ao lado do veículo.

Um sedã preto blindado que parecia apenas mais um carro caro… até alguém tentar atirar nele.

A porta traseira foi aberta para mim.

Antes de entrar, olhei uma última vez para a rua.

Raven Fall brilhava como um paraíso artificial de prazer e excessos.

Mas longe dali, no distrito portuário…

Algo estava começando a se mover.

E eu tinha a estranha sensação de que aquela noite não terminaria em silêncio.

Entrei no carro.

— Porto Velho — disse ao motorista.

O motor ronronou baixo.

Os homens tomaram seus lugares.

E enquanto o carro se afastava do brilho de Raven Fall em direção às sombras industriais do porto, uma única certeza ocupava minha mente.

Se alguém estava tentando desafiar meu domínio em Silverport…

Hoje à noite, eles iam aprender exatamente quem era Alexander Sinclair.

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