Mag-log inÀs 07:00 da noite, o carro parou na frente da mansão. O Antônio desceu primeiro, deu a volta e abriu a minha porta com aquela cerimônia que eu ainda não tinha me acostumado a achar normal. Antes de descer, varri a rua com os olhos, de ponta a ponta: os carros estacionados, as janelas dos vizinhos, a esquina escura. Nenhum vulto, nenhum farol aceso, nenhum sedã cinza. Só um gato atravessando a calçada. Mesmo assim, a minha nuca ficou arrepiada. Entramos juntos, o hall quente, a casa inteira cheirando a lençol limpo. A Dona Rosa nos esperava com os olhos brilhando e nos levou, quase correndo, até a suíte azul do primeiro andar, pronta como um quarto de hotel de cinco estrelas: lençóis de percal, flores frescas na mesinha, toalhas dobradas, e uma bandeja com água aromática e água comum, para eles escolherem qual preferem tomar a noite.— Dona Rosa, muito obrigada — falei, com a voz embargada, passando a mão numa toalha dobrada. — De verdade. Os meus pais nunca tiveram tanto luxo na vida.
O resto da sexta passou tão tranquilo que eu desconfiei do relógio.O Lucas ficou na dele, o dia inteiro, revisando planilha com a cara de quem estava ocupado demais pra ser vilão. Da Júlia, nem sinal. Como a gente não trabalha no mesmo setor, tentei descobrir por fofoca, perguntando aqui e ali na copa e no corredor, mas ninguém comentou nada. Parecia que estava tudo tranquilo, e foi justamente isso que me deixou inquieta. Deixei o gravador ligado na gaveta o dia inteiro, trocando a pilha às 15:00h, como quem alimenta um bicho de estimação, e não captei nem um suspiro. Almocei na copa com a Renata e a Bruna, que passaram mais de quarenta minutos discutindo o que a gente ia vestir no jantar de noivado, e eu só concordei com a cabeça, rindo, enquanto a minha cabeça já estava a quinhentos quilômetros dali.Porque, no dia seguinte, finalmente iria ver meus pais.A minha mãe ligou às 14:10h, no meio da tarde, e eu atendi no corredor, com o coração disparado.— Filha, o seu pai está insupor
Acordei às 03:10 da manhã sem saber por quê.O quarto estava azul de luar, o ar-condicionado zumbindo baixinho, os lençóis embolados nos meus pés. Demorei um segundo pra entender o que tinha me tirado do sono. Não foi barulho. Foi silêncio demais. Daquele que parece que alguém prendeu a respiração do outro lado da parede.Virei de lado.O Antônio dormia ao meu lado, de bruços, sem camisa, um braço dobrado debaixo do travesseiro e o outro esticado na minha direção, com a mão aberta sobre o lençol, como se, mesmo dormindo, estivesse me protegendo. O luar desenhava uma linha prateada ao longo das costas dele, descendo pela curva do ombro, e a respiração subia e descia tão pesada, tão tranquila, que fiquei um bom tempo só olhando.Ele não parecia um CEO que vivia apagando incêndios, nem o filho que ouvia sermão do pai, nem o homem que tinha trancado uma porta por causa de uma traição. Parecia um menino que, depois de muito tempo, tinha finalmente aprendido a dormir.Eu o amava.Não adiant
Ele tinha esperado a Júlia sair. Entrou sem bater, as mãos nos bolsos, o olhar de quem acabou de ver uma cena engraçada e finge não ter visto.No instante em que ele entrou, deslizei a mão pra dentro da gaveta, sem desviar os olhos dele, e apertei o botão. A luzinha vermelha acendeu no escuro da gaveta.— Está tudo bem? — perguntou, com um sorriso de canto. — Eu ouvi um barulho.— Controla a sua namorada. — Eu não elevei a voz dessa vez. Falei devagar, pausada, cada palavra caindo como pedra. — Ela está me ameaçando.Ele arregalou os olhos, num susto tão exagerado que dava pra rir.— Do que você está falando? A Júlia não machucaria nem uma formiga.— Lucas.— Sério, Angel. Você anda estressada. Isso de ficar vendo ameaça em tudo... — Ele fez um gesto vago com a mão, quase compadecido. — Eu posso te ajudar com alguma coisa?— Só se for assunto de trabalho. — Apontei a porta. — Se não for, pode se retirar.Ele ficou me olhando por três segundos, calculando. Depois deu de ombros, um sorr
Na manhã seguinte, o dia começou como todos os outros nas últimas semanas: com o Antônio no volante, a mão dele na minha, e a certeza idiota de que nada podia dar errado. Eu devia ter desconfiado. Em novela, quando tudo está bonito demais, é porque o vilão está só afinando a trilha.Até as 10:00 horas, o Lucas apareceu três vezes na minha sala. A primeira, pra perguntar se eu preferia o relatório em PDF ou impresso. A segunda, pra confirmar um horário de reunião que eu tinha confirmado por e-mail na véspera. A terceira, pra me avisar que ia almoçar mais tarde. Eram perguntas inúteis, ele apenas queria me lembrar de que estava por perto, respirando no mesmo andar e isso estava me irritando muito, mas eu respondia a todas com a mesma cordialidade seca, o sorriso colado, a caneta vermelha por cima da mesa pronta pra jogar nele, caso me sentisse ameaçada.Às 11:30h, as batidas na porta vieram curtas, e eu levantei a cabeça sem esperar ninguém. Muito menos ela.— Posso entrar?A Júlia já e
Cheguei na minha sala com as mãos geladas. Fechei a porta, encostei nela e fiquei ali, de olhos fechados, repetindo a frase como quem decora uma lição: "Quando ele perder a pobre noiva dele." Perder. Peguei um bloco de notas e escrevi tudo, palavra por palavra, com a data e a hora. Duas vezes. Se um dia eu desaparecesse e alguém viesse me procurar, teria pistas ali, na minha sala: uma folha dobrada entre dois livros decorativos na minha estante, a outra na gaveta de baixo, embaixo das pastas, e o gravador no fundo da gaveta de cima, apenas com minha conversa com o Lucas, que não era nada incriminador ainda. Precisava trazer a Júlia pra sala, para tentar coletar alguma prova contra ela.Pensei em ligar pro Antônio. Abri o nome dele no celular, e o dedo ficou parado em cima. Mas não liguei. Como eu ia contar aquilo, se o Antônio nunca soube o que o Lucas e a Júlia tentaram fazer comigo no lago?Eu tinha medo de como ele reagiria. Conhecia o Antônio o suficiente pra saber que ele ia fica







