LOGINPriscila BarcellaEu jĂĄ estava no limite, atravessando o outro lado do Beach Park, perguntando pra todo mundo. Mostrava a foto no celular, mostrava o rostinho delas, implorava:â VocĂȘ viu minhas meninas? Viu essas duas?NinguĂ©m sabia responder. Alguns balançavam a cabeça, outros nem olhavam direito. Meu coração parecia um tambor descontrolado, e minhas pernas tremiam como se fossem me deixar cair a qualquer momento. Eu estava completamente desesperada.O telefone vibrou na minha mĂŁo trĂȘmula. Atendi sem nem olhar o visor.â Priscila, o Pedro achou as meninas! â a voz da VitĂłria saiu quase gritando.Naquele instante, o ar voltou pros meus pulmĂ”es de uma vez sĂł. Era como se alguĂ©m tivesse me devolvido a respiração que eu tinha perdido desde a hora que percebi que elas nĂŁo estavam mais perto de mim.Minhas meninas. Minhas pequenas. O Pedro tinha achado.Senti as lĂĄgrimas queimarem meus olhos, mas dessa vez nĂŁo eram de pavor: era de alĂvio.Eu saĂ correndo, o celular quase escorregando da
Mavie Barcella A raiva ainda queimava dentro de mim, como quando a gente fica no sol muito tempo sem chapĂ©u e parece que a cabeça vai explodir. Eu via a carinha da Marcelina, toda molhada de lĂĄgrima, e sentia o coração bater âtum-tum-tumâ forte, como se fosse um tambor de guerra. Eu sabia que a gente nĂŁo podia deixar aquilo passar. O menino tinha sido cruel, cruel de verdade. Ele nĂŁo sĂł empurrou a Marcelina, mas tambĂ©m falou aquelas coisas horrĂveis, dizendo que ela ia para o inferno. Como alguĂ©m podia ser tĂŁo maldoso? A Marcelina acreditou na hora. E agora estava ali, agarrada no pescoço do pai dela, gritando entre soluços que nĂŁo queria ir pro inferno, que nĂŁo queria sumir pra sempre. A cena parecia um redemoinho. Todo mundo em volta dela tentava ajudar. A tia VitĂłria falava rĂĄpido, quase se atropelando nas palavras: â Isso Ă© mentira, Marcelina, mentira! A mamĂŁe fazia carinho na cabeça dela, repetindo: â Calma, Princesa A vovĂł esta indignada com a situação e falando para o
Liam Matarazzo Eu ainda estava tentando digerir a raiva que sentia daquela cena toda. Como podia existir criança tĂŁo maldosa? Como podia uma mĂŁe ensinar tanta crueldade ao prĂłprio filho? A fĂșria latejava em mim, mas eu tambĂ©m precisava respirar, me acalmar, porque tinha uma responsabilidade muito maior: cuidar da minha famĂlia.Priscila, no entanto, nĂŁo se acalmava. Ela estava vermelha, os olhos faiscando, a respiração acelerada. Desde o momento em que levantou a voz para aquela mulher, eu percebi que a intensidade dela estava prestes a transbordar. E eu nĂŁo podia ignorar um detalhe a Priscila estava grĂĄvida. E por mais que ela fosse forte, a raiva, o estresse, o desespero... tudo aquilo me fazia temer pelo bebĂȘ.â Amor⊠â tentei puxĂĄ-la de leve, mas ela se virou de repente, os olhos faiscando.â Como um pai e uma mĂŁe podem ensinar crueldade? Como?! â ela disse, quase cuspindo as palavras. â Isso me dĂĄ nojo, Liam! Nojo! Eu a abracei apertado para acalmar ela.â E eles iam bater em v
VitĂłria Matarazzo Eu fiquei em silĂȘncio, parada alguns passos atrĂĄs, um observadora invisĂvel daquele quadro tĂŁo terno quanto complexo.Pedro, apoiado nas muletas, o corpo inclinado em um equilĂbrio precĂĄrio, transformava a Ășnica mĂŁo livre em um instrumento de pura ternura ao acariciar os cabelos da Marcelina. A forma calma e convicta como ele falava com a menina⊠nĂŁo havia sombra de dĂșvida de que ele acreditava em cada palavra que dizia.â Princesa, ouve o tio â ele sussurrava, a voz um pouco rouca. â Aquele menino estava errado. As Ășnicas opiniĂ”es que importam sĂŁo das pessoas que te amam. E nĂłs te amamos mais que tudo nesse mundo, entendeu? Mais que tudo.Eu senti um nĂł na garganta. NĂŁo era sĂł o jeito protetor ou o sorriso doce, mesmo em meio Ă s lĂĄgrimas da pequena. Era a firmeza com que ele defendia o que amava, a segurança que transmitia, e aquela sensibilidade rara em um homem que jĂĄ tinha vivido tanta coisa difĂcil.O Pablo estava ali, claro, sendo o pai incrĂvel que todo mundo
Priscila Barcella Estava uma loucura aquele passeio, as crianças estavam muito animadas e nĂŁo paravam nenhum minuto.â Eu estou ficando velha â minha sogra falou sentando comigo na sombra enquanto o Liam e o Eduardo cuidavam das meninas.â Que isso, as meninas Ă© que estĂŁo muito elĂ©tricas â falei bebendo um pouco de ĂĄgua de coco.â Priscila o que vocĂȘ achou do Pedro? â ela perguntou assim do nada e podia ver o seu olhar de mĂŁe preocupada.â Ele parece uma boa pessoa e a VitĂłria estĂĄ feliz Ă© o que importa.â Ă verdade⊠â Isabel suspirou, mas com um sorriso no rosto. â Mesmo de gesso, ele veio. Isso jĂĄ diz muito, nĂŁo acha?â Diz sim â respondi animada. â DĂĄ pra ver que ele tĂĄ feliz, sabe? Ă daquele tipo de pessoa alto-astral, que nĂŁo deixa nada estragar o momento. E a VitĂłria tĂĄ radiante. Ă tĂŁo bom ver isso.Isabel assentiu, apertando a minha mĂŁo com carinho. Eu sempre achei bonito como ela cuidava de todo mundo, mesmo sem precisar.â Mas me diz, Priscila⊠e vocĂȘ, como estĂĄ? â perguntou
NĂŁo estava nos meus planos passar as fĂ©rias em Fortaleza. A ideia era ir para o ParĂĄ, como sempre, para que as crianças ficassem com a mĂŁe da MarĂlia. Fiz essa promessa a ela, lĂĄ atrĂĄs, e nunca deixei de cumprir. Mas, dessa vez, tudo mudou de repente. Meu irmĂŁo sofreu um atropelamento, e foi impossĂvel negar o pedido das crianças. Elas estavam ansiosas, querendo vir vĂȘ-lo, e a verdade Ă© que eu tambĂ©m nĂŁo conseguiria ficar longe sabendo que ele precisava de mim. EntĂŁo, mesmo com a mala jĂĄ quase pronta para outra direção, troquei a rota. MarĂlia⊠faz cinco anos que ela partiu, e ainda dĂłi falar o nome dela. Lembro do sorriso sereno quando decidiu manter a gravidez da Marcelina, mesmo sabendo que o cĂąncer avançava. "Ela precisa nascer, Pablo. Depois a gente vĂȘ o resto", disse, com aquela calma que eu nunca consegui entender. Eu vi o "resto" de perto. Vi a vida dela se apagando na mesma madrugada em que segurei nossa filha pela primeira vez nos braços. Foi a noite mais feliz e mais dolor







