로그인Na manhã seguinte, Clara chegou à empresa decidida a agir como se nada tivesse acontecido. Porém, bastou entrar no escritório para encontrar Henrique esperando por ela com duas xícaras de café.
— Sem açúcar — disse ele. — Obrigada. — Não vou pressioná-la. Clara o encarou, surpresa. — Isso é uma promessa? — É um limite. Seu e meu. A resposta sincera a deixou desconcertada. Henrique sempre parecia ter uma frase pronta, mas naquela manhã havia algo diferente nele: menos arrogância, mais cuidado. — Agradeço — respondeu ela. Antes que a conversa continuasse, o telefone tocou. Uma reunião extraordinária havia sido marcada com o conselho administrativo. Um dos principais investidores ameaçava retirar seu apoio após descobrir irregularidades em um contrato antigo. Henrique assumiu imediatamente o controle da situação. — Quero todos os documentos desse projeto — ordenou. — Contratos, e-mails, relatórios e registros de pagamento. Clara anotou tudo. — Até que horas? — O mais rápido possível. — Então precisarei de acesso ao arquivo confidencial. Henrique ficou sério. — Vou autorizar. — Não precisa fazer isso por mim. É necessário para o trabalho. — Eu sei. Durante as horas seguintes, Clara mergulhou nos arquivos. Quanto mais lia, mais percebia que havia algo errado. Os valores de alguns pagamentos não correspondiam aos relatórios oficiais. Além disso, certas aprovações tinham sido feitas por alguém que não deveria ter acesso ao sistema. No meio da tarde, ela encontrou uma sequência de mensagens apagadas parcialmente. O nome de Marcelo aparecia em algumas delas. Clara franziu a testa. Marcelo era o diretor financeiro e um dos homens de maior confiança de Henrique. Ela levou os documentos até o escritório do CEO. — Encontrei algo importante. Henrique levantou os olhos do computador. — O que foi? Clara colocou as folhas sobre a mesa. — Existem pagamentos que não aparecem nos relatórios oficiais. E alguém alterou os registros do sistema. Henrique leu em silêncio. Sua expressão endureceu. — Você acha que alguém dentro da empresa está desviando dinheiro? — Acho que devemos investigar antes de acusar qualquer pessoa. — Marcelo cuidava desse projeto. — Eu sei. Henrique se levantou. — Você acredita que ele está envolvido? — Acredito que os documentos precisam ser analisados. Ele caminhou até a janela, visivelmente abalado. — Marcelo é meu amigo há quinze anos. — Justamente por isso, não deve tomar uma decisão baseada apenas na confiança. Henrique virou-se para ela. Em vez de se irritar, assentiu lentamente. — Você tem razão. — Eu sei. Um sorriso discreto apareceu no rosto dele. — Está ficando perigosa. — Apenas estou fazendo meu trabalho. — E fazendo muito bem. Naquela noite, os dois permaneceram na empresa. A maioria dos funcionários já havia ido embora, e o andar estava silencioso. Clara revisava os registros enquanto Henrique fazia ligações para o setor jurídico. Por volta das dez horas, ele apareceu ao lado da mesa dela. — Você precisa ir para casa. — Ainda não terminei. — Clara. — Não use esse tom de chefe preocupado. — E se eu estiver preocupado como homem? Ela ergueu os olhos. — Então será ainda mais complicado. Henrique apoiou as mãos na mesa, mantendo distância. — Você acha que tudo entre nós precisa ser complicado? — Não. Mas o senhor torna as coisas complicadas. — Como? — Olha para mim como se quisesse me beijar, depois age como se fosse capaz de esperar para sempre. — Talvez eu esteja tentando respeitar você. — E talvez esteja tentando me conquistar. — As duas coisas podem ser verdade. Clara ficou em silêncio. A sinceridade dele era mais perigosa do que qualquer cantada. — Eu não quero que você se aproxime de mim apenas porque estou disponível todos os dias. — Você acha que eu não teria interesse se você não trabalhasse aqui? — Acho que nunca teria me notado. Henrique se inclinou um pouco. — Eu teria notado. — Como pode ter tanta certeza? — Porque, desde o primeiro dia, você foi a única pessoa nesta empresa que não tentou me impressionar. Clara sentiu o coração acelerar, mas desviou o olhar. — Ainda assim, sou sua funcionária. — E eu não vou esquecer isso. — Promessas são fáceis. — Então observe minhas atitudes. A frase ficou entre os dois. Nesse momento, as luzes do andar piscaram e se apagaram. O sistema de segurança havia entrado em modo de emergência. Clara levantou-se depressa, mas tropeçou em uma caixa deixada no chão. Henrique segurou sua cintura antes que ela caísse. Por alguns segundos, ficaram muito próximos. A mão dele permanecia firme, mas cuidadosa. Clara sentiu o calor do corpo dele e o perfume familiar. — Está bem? — perguntou Henrique, em voz baixa. — Estou. Nenhum dos dois se afastou imediatamente. A luz de emergência iluminava apenas parte do rosto dele. Henrique olhava para Clara com desejo, mas também com contenção. — Se eu estiver ultrapassando algum limite, diga. Clara deveria ter respondido. Em vez disso, ficou em silêncio. Henrique soltou sua cintura e deu um passo para trás. — Vou chamar a segurança. A distância repentina fez Clara perceber o quanto estivera perto de perder o controle. Enquanto aguardavam o retorno da energia, ela encontrou mais um documento escondido em uma pasta antiga. Era uma autorização assinada digitalmente por Marcelo, liberando uma transferência para uma empresa desconhecida. — Henrique — chamou ela. Ele se aproximou e analisou o papel. — Isso confirma o envolvimento dele. — Ainda precisamos verificar a autenticidade. — Você está certa. — Não faça nada impulsivo. Henrique respirou fundo. — Quero confrontá-lo agora. — E se ele apagar as provas? A raiva dele diminuiu, substituída por concentração. — Então vamos fazer isso do jeito certo. Na manhã seguinte, Henrique convocou Marcelo para uma reunião reservada. Clara permaneceu na sala, responsável por registrar tudo. Marcelo entrou sorrindo, mas seu semblante mudou ao ver os documentos sobre a mesa. — O que significa isso? Henrique empurrou a primeira pasta em sua direção. — Explique essas transferências. Marcelo folheou os papéis. — Não sei do que está falando. — Sua assinatura digital aparece em todas elas. — Isso pode ser falsificado. Clara colocou outro documento sobre a mesa. — Também encontramos mensagens entre o senhor e o responsável pela empresa beneficiária. Marcelo olhou para ela com hostilidade. — Você não sabe com quem está mexendo. Henrique levantou-se. — Cuidado. — Você está acreditando nela contra mim? — Estou acreditando nas provas. O silêncio tornou-se pesado. Marcelo finalmente perdeu a calma. — Você sempre foi ingênuo, Henrique. Achou que poderia construir um império confiando em todo mundo. — Saia da minha empresa. — Ainda não terminei. — Terminou, sim. Marcelo lançou um último olhar a Clara e deixou a sala. Henrique permaneceu imóvel, encarando a porta fechada. — Sinto muito — disse Clara. — Pelo quê? — Por você ter descoberto isso dessa maneira. — Eu deveria ter percebido antes. — Às vezes, confiança não é ingenuidade. É apenas uma escolha que alguém decide trair. Henrique olhou para ela. — Você sempre sabe o que dizer? — Não. Só falo quando tenho certeza. Ele se aproximou, mas parou diante dela. — Obrigado por não desistir quando tudo ficou difícil. — Eu estava fazendo meu trabalho. — Não. Você fez mais do que isso. Clara sustentou seu olhar. — Henrique… — Não vou beijá-la. Ela ficou surpresa. — Eu não disse nada. — Mas pensou. O rosto dela corou. Henrique sorriu suavemente. — E eu também pensei. Porém, quero que, quando acontecer, você não tenha nenhuma dúvida. Clara sentiu o coração bater mais forte. — E se eu nunca deixar acontecer? — Então vou respeitar. — Mesmo querendo? — Principalmente querendo. Pela primeira vez, Clara sorriu de verdade. Henrique percebeu e ficou completamente imóvel. — O que foi? — perguntou ela. — Nada. — Está me olhando de novo. — Estou. — E não vai parar? — Não prometo. Clara balançou a cabeça, tentando esconder o sorriso. Naquele instante, ambos entenderam que algo havia mudado. Ainda existiam limites, riscos e diferenças entre eles. Mas também havia confiança começando a nascer. E, para Henrique Valença, conquistar Clara Mendes já não era um jogo. Era a primeira coisa que ele realmente temia perder.A revelação deixou Henrique imóvel. Durante toda a vida, acreditara que seu tio Ricardo havia morrido em um acidente de carro, anos antes de ele assumir a presidência da empresa. Agora, sua mãe afirmava que Ricardo estava vivo — e que poderia ser o verdadeiro responsável por tudo. — Você tem certeza? — perguntou Henrique. A mulher sentada na cama segurou sua mão com dificuldade. — Eu vi Ricardo naquela noite. Ele discutia com seu pai e Augusto. Depois, ouvi um disparo. — Por que nunca contou? — Porque fui mantida presa. Augusto dizia que, se eu falasse, mataria você e Helena. Henrique desviou o olhar, tentando conter a raiva. — Você deixou que eu acreditasse que estava morta. — Eu não tive escolha. Clara aproximou-se com cuidado. — Precisamos sair daqui. O atirador pode voltar. O delegado concordou e ordenou a retirada imediata. A mãe de Henrique foi transferida para um local protegido, enquanto Helena permaneceu ao lado dela. Henrique e Clara seguiram para uma sala reserv
As luzes se apagaram completamente. Clara ouviu o som de uma porta sendo trancada e sentiu Henrique procurar sua mão no escuro. — Estou aqui — sussurrou ele. — Eu sei. No palco, Beatriz permaneceu imóvel, como se conhecesse cada canto do teatro. — Vocês sempre acreditaram que Augusto era o único vilão — disse ela. — Isso tornou tudo muito fácil. Henrique avançou alguns passos. — Pare de fazer jogos. Quem está ajudando Augusto? Beatriz acendeu uma lanterna. O feixe iluminou Helena. — Pergunte a ela. Helena empalideceu. — Eu já contei tudo. — Não contou a parte mais importante. Clara observou o rosto de Helena. Havia medo ali, mas também culpa. — O que você está escondendo? — perguntou. Helena fechou os olhos. — Na noite em que nosso pai morreu, eu entreguei a Augusto a chave do escritório. Henrique ficou imóvel. — Por quê? — Ele disse que precisava pegar documentos para provar que nosso pai estava roubando a empresa. Eu acreditava nele. — E depois? — Ouvi a discuss
Na manhã seguinte, Henrique chegou ao escritório antes de todos. A mensagem recebida durante a noite continuava aberta em seu celular: **“Procure no cofre do seu pai. E não confie em Helena.”** Clara entrou poucos minutos depois, carregando dois cafés. — Você não dormiu — observou. — Dormi o suficiente. — Isso significa que não dormiu. Ele aceitou a bebida. — Precisamos conversar com Helena. — Sem acusá-la antes de termos provas. — Eu sei. — E sem esconder nada de mim. Henrique segurou o olhar dela. — Não vou esconder. Helena chegou meia hora depois. Ao entrar na sala, percebeu imediatamente que havia algo errado. — O que aconteceu? Henrique mostrou a mensagem. Ela leu em silêncio e empalideceu. — Eu sabia que isso aconteceria. — O quê? — Augusto sempre teve uma obsessão pelo cofre do nosso pai. — Você sabia que ele existia? — Sabia que havia um cofre, mas nunca soube a combinação. Clara observou a reação dela. — Onde fica? Helena hesitou. — Na antiga bibliote
A antiga estação ferroviária estava cercada por mato e ferrugem. Henrique estacionou longe da entrada, enquanto Clara observava as janelas quebradas. — Isso parece uma armadilha — disse ela. — Provavelmente é — respondeu Helena. — Então por que estamos entrando? Henrique segurou a mão de Clara. — Porque Alberto pode ser a única pessoa capaz de revelar a verdade. Os três avançaram pelo saguão escuro. O vento atravessava as paredes quebradas, fazendo as placas antigas rangerem. No chão, havia marcas recentes de pneus e pegadas na lama. Clara apontou para elas. — Alguém esteve aqui há pouco tempo. Henrique fez sinal para que permanecessem em silêncio. Um ruído veio dos trilhos abandonados. — Alberto? — chamou Helena. Nenhuma resposta. De repente, uma figura surgiu atrás de uma coluna. Era um homem idoso, magro e cansado, segurando uma lanterna. — Helena? — perguntou ele. Ela correu até ele. — Alberto! O homem a abraçou brevemente, depois olhou para Henrique. — Você se p
O estampido ainda ecoava pela casa quando Henrique puxou Clara para trás da escrivaninha. — Você está ferida? — perguntou, mantendo a voz baixa. — Não. E você? — Também não. Helena permanecia imóvel perto da janela, pálida. Henrique fez um sinal para que ela se abaixasse. — O tiro veio do jardim — sussurrou Clara. — Ou de uma das janelas laterais — respondeu Henrique. Ele pegou o celular e chamou a polícia, informando o endereço. Depois, verificou as portas e desligou todas as luzes. — Não saiam daqui — ordenou. Clara segurou seu braço. — Você não vai sozinho. — Clara, isso não é uma discussão. — Somos parceiros. Você mesmo disse. Henrique encarou-a por alguns segundos. O medo em seus olhos não era por si mesmo, mas por ela. Ainda assim, ele sabia que Clara tinha razão. — Fique atrás de mim. Os três avançaram pelo corredor escuro. A casa parecia maior à noite, cheia de sombras e ruídos. Um galho batia contra a janela, fazendo Clara estremecer. Ao chegarem à sala princi
Na manhã seguinte, Clara acordou no quarto de hóspedes com a sensação de que tudo havia mudado. O beijo, a declaração de Henrique e a invasão da noite anterior pareciam pertencer a uma realidade distante. Ao sair do quarto, encontrou Henrique na cozinha, preparando café. — Bom dia — disse ele. — Bom dia. Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio. — Sobre ontem… — começaram ao mesmo tempo. Clara sorriu. — Você primeiro. Henrique apoiou a xícara sobre a bancada. — Não quero que pense que disse aquilo por causa do susto. — Eu não pensei. — Eu amo você, Clara. E sei que não posso exigir que sinta o mesmo agora. Ela se aproximou. — Eu também amo você. Henrique ficou imóvel. — Tem certeza? — Tenho. Só estava com medo de admitir. O sorriso dele foi discreto, mas verdadeiro. Henrique segurou as mãos dela. — Então vamos fazer isso com calma. — Sem segredos? — Sem segredos. Na empresa, porém, a tranquilidade durou pouco. A polícia informou que o advogado havia recebi







