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2 — Limites Perigosos

작가: Dona Alencar
last update 게시일: 2026-10-14 12:52:34

Na manhã seguinte, Clara chegou cedo à empresa, determinada a tratar Henrique como apenas seu chefe. O problema era que ele parecia decidido a tornar isso cada vez mais difícil.

— Bom dia, senhorita Mendes — disse Henrique, surgindo atrás dela.

Clara virou-se depressa.

— Bom dia, senhor Valença.

— Dormiu bem?

— O suficiente.

— Que resposta profissional.

— É o que o senhor espera de mim.

Henrique sorriu, mas não insistiu. Deixou sobre a mesa dela uma xícara de café.

Clara olhou para a bebida.

— Sem açúcar — explicou ele. — Acertei?

Ela ficou surpresa.

— Como sabe?

— Eu observo as pessoas.

— Isso pode ser uma qualidade ou um defeito.

— Depende de quem está sendo observado.

Clara desviou o olhar e abriu a agenda. Antes que pudesse responder, o telefone tocou. Era uma reunião urgente com investidores estrangeiros, marcada para aquela tarde.

Durante toda a manhã, os dois trabalharam lado a lado. Henrique ditava instruções, Clara organizava documentos e, apesar da tensão crescente, a parceria entre eles funcionava perfeitamente.

No início da tarde, Clara entrou na sala de reuniões com uma pasta nas mãos. Henrique estava conversando com os investidores, mas interrompeu a frase assim que a viu.

Ela usava um vestido azul-marinho discreto, os cabelos presos e uma expressão concentrada. Nada exagerado, nada feito para chamar atenção. Ainda assim, Henrique não conseguiu evitar que seus olhos demorassem um pouco mais nela.

Clara percebeu.

— Trouxe os relatórios atualizados — disse, entregando-lhe a pasta.

— Obrigado.

Os dedos dos dois se tocaram por um instante. Foi breve, mas suficiente para alterar o ritmo da respiração de ambos.

Clara afastou a mão primeiro.

A reunião durou quase duas horas. Ao final, os investidores saíram satisfeitos, e Henrique fechou a porta da sala.

— Você foi excelente — disse ele.

— Apenas fiz meu trabalho.

— Você sempre diminui seus próprios méritos?

— Não. Apenas não acho que organizar documentos seja motivo para elogios exagerados.

— Não estou falando dos documentos.

Clara ergueu os olhos.

— Então está falando do quê?

Henrique se aproximou lentamente.

— Da maneira como você percebe tudo antes dos outros. Da forma como mantém a calma quando todos estão perdendo a cabeça. Da sua coragem.

O elogio a deixou sem resposta.

— Henrique…

Foi a primeira vez que ela pronunciou seu nome. Ele notou imediatamente.

— Gosto quando você me chama assim.

Clara respirou fundo.

— Não quero que nossa relação profissional fique confusa.

— Eu também não.

— Então não me olhe desse jeito.

O sorriso dele desapareceu, substituído por uma expressão séria.

— Que jeito?

— Como se eu fosse mais do que sua secretária.

Henrique ficou em silêncio. Pela primeira vez, pareceu não ter uma resposta pronta.

— Você é mais do que isso — admitiu.

Clara sentiu o coração apertar.

— Não deveria dizer esse tipo de coisa.

— Por quê?

— Porque o senhor tem uma reputação.

— Minha reputação não define o que sinto por você.

— Talvez defina o que o senhor faz depois de sentir.

A frase atingiu Henrique em cheio. Ele se afastou, passando a mão pelos cabelos.

— Você acha que eu não consigo ser sério?

— Acho que o senhor nunca precisou ser.

Henrique encarou-a.

— E se eu quiser tentar?

Clara não respondeu. Parte dela queria acreditar. Outra parte lembrava de todas as histórias que ouvira sobre ele.

Antes que o silêncio se tornasse insuportável, alguém bateu à porta. Era Marcelo, diretor financeiro e melhor amigo de Henrique.

— Desculpem interromper — disse ele, observando os dois. — Mas o jantar com os investidores foi confirmado.

— Eu não vou — respondeu Henrique.

Marcelo franziu a testa.

— Você precisa ir.

— Clara pode representar a empresa.

— Eu?

— Você participou de toda a reunião e conhece os números melhor do que qualquer pessoa.

Clara hesitou.

— Se for necessário, eu vou.

Henrique lançou-lhe um olhar de aprovação.

— Então está decidido.

À noite, Clara chegou ao restaurante acompanhada de Henrique. O local era sofisticado, com luzes baixas e música suave. Ela tentou manter a postura profissional, mas a proximidade dele tornava tudo mais difícil.

Durante o jantar, Henrique foi atencioso com todos. Falou sobre negócios, ouviu opiniões e demonstrou uma segurança que impressionava. Clara percebeu que, longe dos rumores, ele era um homem muito mais complexo.

Quando o jantar terminou, os investidores se despediram. Marcelo saiu com eles, deixando Henrique e Clara sozinhos na entrada do restaurante.

— Vou chamar um carro para você — disse Henrique.

— Não precisa. Posso ir sozinha.

— Eu sei que pode. Ainda assim, quero garantir que chegue bem.

— Não precisa cuidar de mim.

— Talvez eu queira.

Clara ficou imóvel.

A chuva começava a cair sobre a cidade. Henrique tirou o paletó e colocou-o sobre os ombros dela.

— Você vai ficar molhada.

— E o senhor?

— Eu sobrevivo.

Ela segurou o tecido junto ao corpo. O perfume dele estava impregnado no paletó, e isso tornou a situação ainda mais íntima.

— Henrique, eu não quero ser apenas mais uma mulher na sua lista.

A expressão dele ficou séria.

— Você não é.

— Como posso ter certeza?

— Não pode. Ainda não.

A honestidade inesperada a desarmou.

— Pelo menos o senhor admite.

— Eu não vou fingir ser perfeito. Mas posso ser sincero com você.

— E o que exatamente quer?

Henrique aproximou-se, sem tocá-la.

— Quero conhecê-la. Quero descobrir o que existe por trás dessa postura controlada. Quero saber por que você sorri tão pouco e por que sempre parece pronta para fugir.

Clara sentiu a garganta apertar.

— Talvez porque eu saiba que homens como você costumam deixar estragos.

— Talvez eu esteja cansado de ser esse homem.

— As pessoas não mudam tão facilmente.

— Eu sei.

A chuva aumentou. Por um instante, o barulho das gotas foi a única coisa entre eles.

Henrique levantou a mão, mas parou antes de tocar o rosto dela.

— Posso?

Clara sabia o que ele queria. Sabia também que deveria recusar.

Mas, em vez disso, fez um pequeno gesto afirmativo.

Henrique tocou suavemente seu rosto. O contato foi delicado, quase cuidadoso demais para alguém com a reputação dele.

Clara fechou os olhos por um segundo.

Então se afastou.

— Não posso.

Henrique baixou a mão imediatamente.

— Tudo bem.

— Não é porque eu não sinto nada.

— Eu sei.

— É justamente porque sinto.

Ele a observou em silêncio.

Clara devolveu o paletó.

— Boa noite, Henrique.

— Boa noite, Clara.

Ela entrou no carro e partiu, deixando-o sob a chuva.

Henrique permaneceu parado na calçada, olhando para as luzes vermelhas do veículo desaparecerem.

Pela primeira vez, desejar alguém não lhe parecia suficiente.

Ele queria conquistar a confiança dela.

E isso seria muito mais difícil do que qualquer negócio que já tivesse enfrentado.

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