로그인Na manhã seguinte, Clara chegou cedo à empresa, determinada a tratar Henrique como apenas seu chefe. O problema era que ele parecia decidido a tornar isso cada vez mais difícil.
— Bom dia, senhorita Mendes — disse Henrique, surgindo atrás dela. Clara virou-se depressa. — Bom dia, senhor Valença. — Dormiu bem? — O suficiente. — Que resposta profissional. — É o que o senhor espera de mim. Henrique sorriu, mas não insistiu. Deixou sobre a mesa dela uma xícara de café. Clara olhou para a bebida. — Sem açúcar — explicou ele. — Acertei? Ela ficou surpresa. — Como sabe? — Eu observo as pessoas. — Isso pode ser uma qualidade ou um defeito. — Depende de quem está sendo observado. Clara desviou o olhar e abriu a agenda. Antes que pudesse responder, o telefone tocou. Era uma reunião urgente com investidores estrangeiros, marcada para aquela tarde. Durante toda a manhã, os dois trabalharam lado a lado. Henrique ditava instruções, Clara organizava documentos e, apesar da tensão crescente, a parceria entre eles funcionava perfeitamente. No início da tarde, Clara entrou na sala de reuniões com uma pasta nas mãos. Henrique estava conversando com os investidores, mas interrompeu a frase assim que a viu. Ela usava um vestido azul-marinho discreto, os cabelos presos e uma expressão concentrada. Nada exagerado, nada feito para chamar atenção. Ainda assim, Henrique não conseguiu evitar que seus olhos demorassem um pouco mais nela. Clara percebeu. — Trouxe os relatórios atualizados — disse, entregando-lhe a pasta. — Obrigado. Os dedos dos dois se tocaram por um instante. Foi breve, mas suficiente para alterar o ritmo da respiração de ambos. Clara afastou a mão primeiro. A reunião durou quase duas horas. Ao final, os investidores saíram satisfeitos, e Henrique fechou a porta da sala. — Você foi excelente — disse ele. — Apenas fiz meu trabalho. — Você sempre diminui seus próprios méritos? — Não. Apenas não acho que organizar documentos seja motivo para elogios exagerados. — Não estou falando dos documentos. Clara ergueu os olhos. — Então está falando do quê? Henrique se aproximou lentamente. — Da maneira como você percebe tudo antes dos outros. Da forma como mantém a calma quando todos estão perdendo a cabeça. Da sua coragem. O elogio a deixou sem resposta. — Henrique… Foi a primeira vez que ela pronunciou seu nome. Ele notou imediatamente. — Gosto quando você me chama assim. Clara respirou fundo. — Não quero que nossa relação profissional fique confusa. — Eu também não. — Então não me olhe desse jeito. O sorriso dele desapareceu, substituído por uma expressão séria. — Que jeito? — Como se eu fosse mais do que sua secretária. Henrique ficou em silêncio. Pela primeira vez, pareceu não ter uma resposta pronta. — Você é mais do que isso — admitiu. Clara sentiu o coração apertar. — Não deveria dizer esse tipo de coisa. — Por quê? — Porque o senhor tem uma reputação. — Minha reputação não define o que sinto por você. — Talvez defina o que o senhor faz depois de sentir. A frase atingiu Henrique em cheio. Ele se afastou, passando a mão pelos cabelos. — Você acha que eu não consigo ser sério? — Acho que o senhor nunca precisou ser. Henrique encarou-a. — E se eu quiser tentar? Clara não respondeu. Parte dela queria acreditar. Outra parte lembrava de todas as histórias que ouvira sobre ele. Antes que o silêncio se tornasse insuportável, alguém bateu à porta. Era Marcelo, diretor financeiro e melhor amigo de Henrique. — Desculpem interromper — disse ele, observando os dois. — Mas o jantar com os investidores foi confirmado. — Eu não vou — respondeu Henrique. Marcelo franziu a testa. — Você precisa ir. — Clara pode representar a empresa. — Eu? — Você participou de toda a reunião e conhece os números melhor do que qualquer pessoa. Clara hesitou. — Se for necessário, eu vou. Henrique lançou-lhe um olhar de aprovação. — Então está decidido. À noite, Clara chegou ao restaurante acompanhada de Henrique. O local era sofisticado, com luzes baixas e música suave. Ela tentou manter a postura profissional, mas a proximidade dele tornava tudo mais difícil. Durante o jantar, Henrique foi atencioso com todos. Falou sobre negócios, ouviu opiniões e demonstrou uma segurança que impressionava. Clara percebeu que, longe dos rumores, ele era um homem muito mais complexo. Quando o jantar terminou, os investidores se despediram. Marcelo saiu com eles, deixando Henrique e Clara sozinhos na entrada do restaurante. — Vou chamar um carro para você — disse Henrique. — Não precisa. Posso ir sozinha. — Eu sei que pode. Ainda assim, quero garantir que chegue bem. — Não precisa cuidar de mim. — Talvez eu queira. Clara ficou imóvel. A chuva começava a cair sobre a cidade. Henrique tirou o paletó e colocou-o sobre os ombros dela. — Você vai ficar molhada. — E o senhor? — Eu sobrevivo. Ela segurou o tecido junto ao corpo. O perfume dele estava impregnado no paletó, e isso tornou a situação ainda mais íntima. — Henrique, eu não quero ser apenas mais uma mulher na sua lista. A expressão dele ficou séria. — Você não é. — Como posso ter certeza? — Não pode. Ainda não. A honestidade inesperada a desarmou. — Pelo menos o senhor admite. — Eu não vou fingir ser perfeito. Mas posso ser sincero com você. — E o que exatamente quer? Henrique aproximou-se, sem tocá-la. — Quero conhecê-la. Quero descobrir o que existe por trás dessa postura controlada. Quero saber por que você sorri tão pouco e por que sempre parece pronta para fugir. Clara sentiu a garganta apertar. — Talvez porque eu saiba que homens como você costumam deixar estragos. — Talvez eu esteja cansado de ser esse homem. — As pessoas não mudam tão facilmente. — Eu sei. A chuva aumentou. Por um instante, o barulho das gotas foi a única coisa entre eles. Henrique levantou a mão, mas parou antes de tocar o rosto dela. — Posso? Clara sabia o que ele queria. Sabia também que deveria recusar. Mas, em vez disso, fez um pequeno gesto afirmativo. Henrique tocou suavemente seu rosto. O contato foi delicado, quase cuidadoso demais para alguém com a reputação dele. Clara fechou os olhos por um segundo. Então se afastou. — Não posso. Henrique baixou a mão imediatamente. — Tudo bem. — Não é porque eu não sinto nada. — Eu sei. — É justamente porque sinto. Ele a observou em silêncio. Clara devolveu o paletó. — Boa noite, Henrique. — Boa noite, Clara. Ela entrou no carro e partiu, deixando-o sob a chuva. Henrique permaneceu parado na calçada, olhando para as luzes vermelhas do veículo desaparecerem. Pela primeira vez, desejar alguém não lhe parecia suficiente. Ele queria conquistar a confiança dela. E isso seria muito mais difícil do que qualquer negócio que já tivesse enfrentado.A revelação deixou Henrique imóvel. Durante toda a vida, acreditara que seu tio Ricardo havia morrido em um acidente de carro, anos antes de ele assumir a presidência da empresa. Agora, sua mãe afirmava que Ricardo estava vivo — e que poderia ser o verdadeiro responsável por tudo. — Você tem certeza? — perguntou Henrique. A mulher sentada na cama segurou sua mão com dificuldade. — Eu vi Ricardo naquela noite. Ele discutia com seu pai e Augusto. Depois, ouvi um disparo. — Por que nunca contou? — Porque fui mantida presa. Augusto dizia que, se eu falasse, mataria você e Helena. Henrique desviou o olhar, tentando conter a raiva. — Você deixou que eu acreditasse que estava morta. — Eu não tive escolha. Clara aproximou-se com cuidado. — Precisamos sair daqui. O atirador pode voltar. O delegado concordou e ordenou a retirada imediata. A mãe de Henrique foi transferida para um local protegido, enquanto Helena permaneceu ao lado dela. Henrique e Clara seguiram para uma sala reserv
As luzes se apagaram completamente. Clara ouviu o som de uma porta sendo trancada e sentiu Henrique procurar sua mão no escuro. — Estou aqui — sussurrou ele. — Eu sei. No palco, Beatriz permaneceu imóvel, como se conhecesse cada canto do teatro. — Vocês sempre acreditaram que Augusto era o único vilão — disse ela. — Isso tornou tudo muito fácil. Henrique avançou alguns passos. — Pare de fazer jogos. Quem está ajudando Augusto? Beatriz acendeu uma lanterna. O feixe iluminou Helena. — Pergunte a ela. Helena empalideceu. — Eu já contei tudo. — Não contou a parte mais importante. Clara observou o rosto de Helena. Havia medo ali, mas também culpa. — O que você está escondendo? — perguntou. Helena fechou os olhos. — Na noite em que nosso pai morreu, eu entreguei a Augusto a chave do escritório. Henrique ficou imóvel. — Por quê? — Ele disse que precisava pegar documentos para provar que nosso pai estava roubando a empresa. Eu acreditava nele. — E depois? — Ouvi a discuss
Na manhã seguinte, Henrique chegou ao escritório antes de todos. A mensagem recebida durante a noite continuava aberta em seu celular: **“Procure no cofre do seu pai. E não confie em Helena.”** Clara entrou poucos minutos depois, carregando dois cafés. — Você não dormiu — observou. — Dormi o suficiente. — Isso significa que não dormiu. Ele aceitou a bebida. — Precisamos conversar com Helena. — Sem acusá-la antes de termos provas. — Eu sei. — E sem esconder nada de mim. Henrique segurou o olhar dela. — Não vou esconder. Helena chegou meia hora depois. Ao entrar na sala, percebeu imediatamente que havia algo errado. — O que aconteceu? Henrique mostrou a mensagem. Ela leu em silêncio e empalideceu. — Eu sabia que isso aconteceria. — O quê? — Augusto sempre teve uma obsessão pelo cofre do nosso pai. — Você sabia que ele existia? — Sabia que havia um cofre, mas nunca soube a combinação. Clara observou a reação dela. — Onde fica? Helena hesitou. — Na antiga bibliote
A antiga estação ferroviária estava cercada por mato e ferrugem. Henrique estacionou longe da entrada, enquanto Clara observava as janelas quebradas. — Isso parece uma armadilha — disse ela. — Provavelmente é — respondeu Helena. — Então por que estamos entrando? Henrique segurou a mão de Clara. — Porque Alberto pode ser a única pessoa capaz de revelar a verdade. Os três avançaram pelo saguão escuro. O vento atravessava as paredes quebradas, fazendo as placas antigas rangerem. No chão, havia marcas recentes de pneus e pegadas na lama. Clara apontou para elas. — Alguém esteve aqui há pouco tempo. Henrique fez sinal para que permanecessem em silêncio. Um ruído veio dos trilhos abandonados. — Alberto? — chamou Helena. Nenhuma resposta. De repente, uma figura surgiu atrás de uma coluna. Era um homem idoso, magro e cansado, segurando uma lanterna. — Helena? — perguntou ele. Ela correu até ele. — Alberto! O homem a abraçou brevemente, depois olhou para Henrique. — Você se p
O estampido ainda ecoava pela casa quando Henrique puxou Clara para trás da escrivaninha. — Você está ferida? — perguntou, mantendo a voz baixa. — Não. E você? — Também não. Helena permanecia imóvel perto da janela, pálida. Henrique fez um sinal para que ela se abaixasse. — O tiro veio do jardim — sussurrou Clara. — Ou de uma das janelas laterais — respondeu Henrique. Ele pegou o celular e chamou a polícia, informando o endereço. Depois, verificou as portas e desligou todas as luzes. — Não saiam daqui — ordenou. Clara segurou seu braço. — Você não vai sozinho. — Clara, isso não é uma discussão. — Somos parceiros. Você mesmo disse. Henrique encarou-a por alguns segundos. O medo em seus olhos não era por si mesmo, mas por ela. Ainda assim, ele sabia que Clara tinha razão. — Fique atrás de mim. Os três avançaram pelo corredor escuro. A casa parecia maior à noite, cheia de sombras e ruídos. Um galho batia contra a janela, fazendo Clara estremecer. Ao chegarem à sala princi
Na manhã seguinte, Clara acordou no quarto de hóspedes com a sensação de que tudo havia mudado. O beijo, a declaração de Henrique e a invasão da noite anterior pareciam pertencer a uma realidade distante. Ao sair do quarto, encontrou Henrique na cozinha, preparando café. — Bom dia — disse ele. — Bom dia. Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio. — Sobre ontem… — começaram ao mesmo tempo. Clara sorriu. — Você primeiro. Henrique apoiou a xícara sobre a bancada. — Não quero que pense que disse aquilo por causa do susto. — Eu não pensei. — Eu amo você, Clara. E sei que não posso exigir que sinta o mesmo agora. Ela se aproximou. — Eu também amo você. Henrique ficou imóvel. — Tem certeza? — Tenho. Só estava com medo de admitir. O sorriso dele foi discreto, mas verdadeiro. Henrique segurou as mãos dela. — Então vamos fazer isso com calma. — Sem segredos? — Sem segredos. Na empresa, porém, a tranquilidade durou pouco. A polícia informou que o advogado havia recebi







