ANMELDENDirigi-me aos estábulos sem grande intenção. Apenas queria ver os cavalos. Nunca fui uma exímia cavaleira — sei montar o suficiente para não passar vergonha em sociedade —, mas sempre gostei de os observar. Há naquele lugar algo de livre e bruto que me atrai, talvez por ser tudo o que não sou autorizada a ser.
Assim que entro, apercebo-me de um homem junto a uma das baias. Escova o pelo de um cavalo com movimentos firmes, seguros, quase instintivos. O animal mantém-se tranquilo, como se reconhecesse autoridade naquele toque. É ele. O estranho do jardim. — O que está a fazer aqui? — pergunto, parando a poucos passos, sem esconder a frieza. Ele não se vira logo. Continua a escovar o cavalo, como se a minha pergunta não fosse mais do que um ruído distante. — A governanta pediu-me que viesse para os estábulos — responde por fim. — Disse que precisavam de alguém que soubesse tratar dos cavalos… e domá-los. Sinto a irritação subir-me ao peito. — Também sabe domar cavalos? — pergunto, com um sorriso arrogante, mais provocação do que curiosidade. Ele não pára. Não me olha. Limita-se a responder: — Sei. E acrescenta, com uma calma que me irrita ainda mais: — Também sei domar éguas. A frase cai pesada. Franzo o sobrolho. Não sei se aquilo foi afronta ou simples insolência, mas não gosto do tom. Nem da segurança excessiva. Nem do facto de não sentir que controlo esta situação. Afastei-me dele sem dizer mais nada e percorri as baias com o olhar até me fixar num cavalo mais inquieto, de olhar vivo, claramente ainda indomado. Abri a porta. — Senhora, não — ouvi-o dizer de imediato, finalmente virando-se. — Esse cavalo ainda não está pronto. — Sei muito bem o que faço — respondi, erguendo o queixo. — Sou a dona desta casa. O cavalo agitou-se quando o conduzi para fora. Ele colocou-se à minha frente por um instante. — Tenha cuidado — insistiu. — Ele assusta-se facilmente. — Afaste-se — ordenei. Ele hesitou apenas um segundo. Depois recuou. Montei o cavalo sem sela, sem as rédeas adequadas, apenas com a minha vontade. Durante um breve instante senti-me vitoriosa. Até que o cavalo disparou. — Vá devagar! — ouvi-o gritar atrás de mim. — Não grite, não o assuste! — Não consigo! — respondi, já dominada pelo medo. O cavalo acelerou ainda mais. Ouvi o som de outro cavalo atrás de mim. Ele montara e vinha no meu encalço. Vi uma corda ser lançada. Senti um puxão violento. Tudo aconteceu depressa demais. O cavalo tropeçou. Fui projetada e caí com força sobre um tronco. A cabeça bateu. E depois… nada. O mundo regressou aos poucos. Primeiro, o cheiro. Não apenas couro e palha, mas o cheiro dele — quente, intenso, marcado pelo trabalho e pelo sol. Um cheiro cru, masculino, que não pertence a salões nem a convenções. Depois, a sensação. Braços firmes seguravam-me. Musculados. Seguros. Senti-me recolhida sem ter pedido, sustentada sem permissão. Abri os olhos. Os dele estavam fixos em mim. Escuros. Atentos. Demasiado próximos. — Ponha-me no chão! — ordenei de imediato, mesmo com a voz trémula. — Ponha-me no chão imediatamente. Ele abrandou o passo e, com cuidado, colocou-me no chão apenas quando teve a certeza de que eu me mantinha de pé. — Caiu com força — disse apenas. — Devagar. Ignorei-o. Endireitei-me como pude. O mundo ainda oscilava, mas recusei mostrar fraqueza. — Estou bem — declarei. — Não precisava de tanta… intervenção. Não respondeu. Entrei na casa com passos irregulares, mas decididos. A camareira surgiu de imediato, alarmada. — Minha senhora! O que aconteceu?! Logo depois apareceu a governanta. — Está ferida? — Não! — respondi mais alto do que pretendia. — Estou perfeitamente bem! Subi as escadas quase a correr, mais por orgulho do que por capacidade, e fechei a porta do quarto com força. Momentos depois, a governanta entrou. — Arthur contou-me o que se passou nos estábulos — disse. — Teve muita sorte. Se não fosse ele, poderia ter-se ferido gravemente… ou pior. Observou-me com atenção. — A partir de hoje, ele continua responsável pelos cavalos — concluiu. — E agradeci-lhe por ter agido como agiu. Quando ficou sozinha, encostei-me à porta. O corpo doía. Mas o que me perturbava verdadeiramente era a memória dos braços, do cheiro, daquele olhar firme demais. — Quem ele pensa que é? — murmurei. — Eu sou a patroa… já estou a falar como ele… que horror. — Domador de éguas… — resmunguei. — Ele vai ver. A camareira não conseguiu conter uma risada. — Está-se a rir? — perguntei, tentando não rir também. — Perdoe-me, dona Léonor… mas teve piada. Rimo-nos as duas. E, naquele momento, não soube dizer o que doía mais: a cabeça, o orgulho ferido, ou a certeza inquietante de que aquele homem não me obedeceria facilmente. Antes que eu possa continuar aquele pensamento, batem à porta. Três batidas secas, formais. Afasto-me imediatamente, compondo a postura. — Entre — digo, sem elevar a voz. A governanta entra, impecável como sempre. — Com licença, Dona Léonor — anuncia. — Mandei chamar o médico. Ele encontra-se aqui para examiná-la. O meu maxilar contrai-se. — Não era necessário — respondo de imediato. — Sinto-me bem. Antes que a governanta possa responder, o médico entra… acompanhado. Arthur está atrás dele. O embaraço instala-se de imediato. Desvio o olhar, incomodada com a sua presença ali, no meu quarto, naquele estado. Arthur detém-se à entrada, mantendo uma distância adequada. Inclina ligeiramente a cabeça. — Com licença, doutor — diz, num tom respeitoso. Sem me dirigir mais nenhuma palavra, afasta-se e fecha parcialmente a porta, deixando o médico avançar sozinho. Respiro fundo. O médico aproxima-se da cama. — Lady Léonor — diz, com voz calma. — Deite-se, por favor. Obedeço, contrariada, sentando-me antes de me estender sobre a colcha. — Não senti nada além de uma ligeira dor de cabeça — digo, tentando minimizar. — Ainda assim, é prudente examiná-la — responde, já atento às pupilas, às têmporas, ao couro cabeludo. Os movimentos são rápidos, experientes. — Uma contusão ligeira — conclui por fim. — Nada de grave, graças a Deus. Mas o cuidado foi acertado. O senhor… Arthur fez bem em mandar chamar-me. O sangue ferve-me. — Arthur? — repito, irritada. — Agora tratamo-nos todos pelo primeiro nome? O médico limita-se a sorrir, recolhendo os seus instrumentos. — Repouso apenas hoje. Evite esforços. Amanhã estará como nova. Inclina a cabeça em despedida e sai. A porta fecha-se. Permaneço sentada na cama, com a camareira de um lado e a governanta do outro, ambas a observar-me como se eu fosse feita de vidro. — Está tudo bem — digo, seca. — Não precisam de me olhar assim. Trocam um olhar rápido entre si. — Vou providenciar o almoço — diz a governanta. Levanto-me de imediato. — Não é necessário. Vou descer. A governanta hesita apenas um segundo. Depois assente. Não há muito a discutir: a casa continua a ser minha. A camareira ajuda-me a trocar o vestido, limpando qualquer vestígio da queda. Penteia-me novamente, ajeita o cabelo, devolve-me a compostura que se espera de mim. Quando termina, estou irrepreensível. Antes de seguir para a sala de refeições, atravesso o átrio principal. As grandes portas envidraçadas encontram-se abertas para o jardim. E paro. Arthur está lá fora, a falar com um dos homens das cavalariças. Gestos firmes, postura segura. Fala pouco, mas é escutado. Aquilo irrita-me mais do que deveria. Fico ali apenas um instante, a observá-lo. — Detesto este domador de éguas — penso. Nesse momento, Arthur levanta os olhos. Vê-me. Sinto o rosto aquecer. Afasto-me de imediato, como se tivesse sido apanhada em falta, e sigo para a sala de jantar. Ao aproximar-me da mesa, resisto à tentação… Lanço um último olhar pela janela. Disfarçado, contido, ele continua lá fora. E, sem perceber quando isso acontece, dou-me conta de que já não observo os cavalos, mas o seu domador.Saio do gabinete do detetive com a sensação de que o meu mundo pode desabar a qualquer momento.Assim que desço as escadas, sinto novamente os olhares. Não são discretos, são diretos, avaliadores, julgadores.Caminho com a postura erguida, mas por dentro estou a desmoronar.As palavras do detetive ecoam na minha mente.Arthur William Carter.William…O nome que conheci primeiro, o estranho que me encantou.Continuo a andar até ao ponto onde a carruagem me deixou. Cada passo parece aproximar-me cada vez mais da verdade.Sinto-me tola, impulsiva, ingénua.Casei-me sem perguntar quem ele era, deixei que o coração falasse mais alto do que a prudência.Como pude?Quando tiver todas as informações, falarei abertamente com o meu marido… será que ainda o devo chamar assim?Só lhe direi a verdade quando tiver provas concretas.Fecho os olhos por um instante.Peço a Deus que ele não esteja a enganar-me.Não suportaria a sua traição, não depois de tudo o que vivemos, de todos os momentos. De tud
Acordo sentindo a preocupação pesar, sufocar-me. Arthur ainda dorme quando me levanto. Observo-o por alguns segundos, calmo, alheio ao peso que começa a instalar-se no meu peito. Não o acordo. Não quero justificar a minha saída. Se lhe disser que vou à cidade sozinha, tentará impedir-me. E eu preciso de respostas. Visto-me com simplicidade, o suficiente para não levantar suspeitas. Não peço ajuda a Lucy, para não a alarmar. Já faz muito tempo que não vou à cidade. Prefiro a calmaria dos meus campos, os meus jardins floridos, sem comentários desnecessários nem olhares constrangedores. Antes de sair da casa do capataz, olho uma última vez para Arthur. O cocheiro deixa-me na praça principal, e eu ordeno que volte dentro de uma hora. Assim que desço da carruagem, sinto os olhares sobre mim. Primeiro, apenas observam. Depois, cochicham. Por fim, afastam-se. Murmúrios. E a sensação de mal-estar que provoco quando passo. Caminho devagar, mantendo a postura erguida. Não darei a nin
O crepúsculo sempre foi o meu momento favorito do dia. A transição. O instante em que a luz é envolta na obscuridade da noite. Arthur está atrás de mim, deitado na relva, com os braços atrás da cabeça, a observar-me como se eu fosse parte da paisagem. — Estás silenciosa — diz ele, por fim. Sorrio, mas não me viro. — Só estou a apreciar o momento. Ele levanta-se, aproxima-se e envolve-me pela cintura, encostando o queixo ao meu ombro. — Quando ficas assim pensativa, parece que estás longe de mim. Fecho os olhos por um instante. Não quero mentir-lhe. Mas também não quero destruir o nosso matrimônio. — Não estou longe… — murmuro. — Só tenho medo que esta felicidade seja frágil. Ele roda-me suavemente para que eu fique frente a frente com ele. — Olha para mim, Léonor. Obedeço. — Nada do que vivemos é frágil. Eu escolhi-te. Tu escolheste-me. O resto… não me importa. O resto? Será que o nosso casamento irá suportar as expectativas, os olhares da sociedade e, sob
Os dias da nossa lua de mel passam num piscar de olhos.Sem horários, sem obrigações, sem olhares curiosos. Apenas nós dois e a liberdade de viver o nosso amor.Numa tarde quente, entro na biblioteca da mansão para procurar um livro. O cheiro a papel antigo e madeira polida envolve-me, trazendo uma sensação de calma.Passo os dedos pelas lombadas dos livros, distraída, até sentir duas mãos firmes pousarem na minha cintura.O meu coração dispara antes mesmo de me virar.— Arthur… — murmuro, sorrindo.— Ando à tua procura pela casa inteira — diz ele, aproximando-se do meu ouvido. — E encontro-te aqui… escondida entre livros.— Não estava escondida… só queria ler um pouco.Ele ri baixinho.— Prefiro escrever a nossa própria história.Arthur puxa-me suavemente para si. As minhas costas encostam-se a uma das estantes, e os seus lábios encontram os meus. O beijo começa lento, mas rapidamente se torna mais profundo, mais urgente.O silêncio da biblioteca torna o momento ainda mais intenso. C
Acordo e, de rompante, olho para ele, para ter a certeza de que é real, de que está ao meu lado. O seu rosto está sereno e lindo. Como não vi a sua beleza antes? Falo da beleza interior, do homem maravilhoso que Arthur é, da sua índole. Não podia ter escolhido melhor marido. Observo-o durante alguns minutos, até que Arthur começa a despertar pouco a pouco. — Bom dia, meu amor… — digo, num sorriso cheio de emoção. — Bom dia, minha esposa… — responde também em tom baixo. Aconchego-me ao seu corpo. — Dormiste bem? — pergunta o meu marido. — Dormi tão bem… — digo com um sorriso que, mesmo Arthur não podendo ver, ele sente na minha voz. — O que a minha esposa gostaria de fazer hoje? Estamos em lua de mel, quero satisfazer todos os seus caprichos — diz, beijando a minha cabeça. — Em primeiro lugar, quero… tomar um banho com o meu marido… — É uma boa ideia… Arthur pega-me no colo e leva-me até à banheira. De seguida, enche-a de água quente e começa a despir-me. O
Saímos da tenda ainda de mãos dadas, como se tivéssemos medo de que o mundo nos separe a qualquer momento.O jardim parece diferente.O sol atravessa as folhas húmidas, fazendo-as brilhar como pequenas joias. O cheiro a terra molhada sobe do chão e mistura-se com o perfume das flores. Tudo parece mais vivo, mais intenso… como se o mundo tivesse mudado juntamente connosco.Ou talvez sejamos nós que mudamos.Arthur olha para mim, ainda com aquele brilho nos olhos.— Então, minha esposa… — diz ele, num tom baixo, quase divertido. — Para onde vamos agora?A palavra esposa faz o meu coração acelerar. Ainda soa estranho… e ao mesmo tempo, encaixa-se perfeitamente.Sorrio.— Para casa.Ele levanta uma sobrancelha.— Para a mansão?Abano a cabeça devagar.— Não. Para a tua casa… para a casa do capataz.Quero ficar lá contigo. Sem criados, sem regras, sem olhares… só nós.Arthur fica em silêncio por um instante, como se queira ter a certeza de que ouviu bem.— Tens a certeza, Dona Léonor?Eu p







