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capitulo 5 : Domador de Éguas

last update Veröffentlichungsdatum: 01.02.2026 03:40:38

Dirigi-me aos estábulos sem grande intenção. Apenas queria ver os cavalos. Nunca fui uma exímia cavaleira — sei montar o suficiente para não passar vergonha em sociedade —, mas sempre gostei de os observar. Há naquele lugar algo de livre e bruto que me atrai, talvez por ser tudo o que não sou autorizada a ser.

Assim que entro, apercebo-me de um homem junto a uma das baias. Escova o pelo de um cavalo com movimentos firmes, seguros, quase instintivos. O animal mantém-se tranquilo, como se reconhecesse autoridade naquele toque.

É ele.

O estranho do jardim.

— O que está a fazer aqui? — pergunto, parando a poucos passos, sem esconder a frieza.

Ele não se vira logo. Continua a escovar o cavalo, como se a minha pergunta não fosse mais do que um ruído distante.

— A governanta pediu-me que viesse para os estábulos — responde por fim. — Disse que precisavam de alguém que soubesse tratar dos cavalos… e domá-los.

Sinto a irritação subir-me ao peito.

— Também sabe domar cavalos? — pergunto, com um sorriso arrogante, mais provocação do que curiosidade.

Ele não pára. Não me olha. Limita-se a responder:

— Sei.

E acrescenta, com uma calma que me irrita ainda mais:

— Também sei domar éguas.

A frase cai pesada.

Franzo o sobrolho. Não sei se aquilo foi afronta ou simples insolência, mas não gosto do tom. Nem da segurança excessiva. Nem do facto de não sentir que controlo esta situação.

Afastei-me dele sem dizer mais nada e percorri as baias com o olhar até me fixar num cavalo mais inquieto, de olhar vivo, claramente ainda indomado.

Abri a porta.

— Senhora, não — ouvi-o dizer de imediato, finalmente virando-se. — Esse cavalo ainda não está pronto.

— Sei muito bem o que faço — respondi, erguendo o queixo. — Sou a dona desta casa.

O cavalo agitou-se quando o conduzi para fora. Ele colocou-se à minha frente por um instante.

— Tenha cuidado — insistiu. — Ele assusta-se facilmente.

— Afaste-se — ordenei.

Ele hesitou apenas um segundo. Depois recuou.

Montei o cavalo sem sela, sem as rédeas adequadas, apenas com a minha vontade. Durante um breve instante senti-me vitoriosa.

Até que o cavalo disparou.

— Vá devagar! — ouvi-o gritar atrás de mim. — Não grite, não o assuste!

— Não consigo! — respondi, já dominada pelo medo.

O cavalo acelerou ainda mais. Ouvi o som de outro cavalo atrás de mim. Ele montara e vinha no meu encalço. Vi uma corda ser lançada. Senti um puxão violento.

Tudo aconteceu depressa demais.

O cavalo tropeçou. Fui projetada e caí com força sobre um tronco. A cabeça bateu.

E depois… nada.

O mundo regressou aos poucos.

Primeiro, o cheiro. Não apenas couro e palha, mas o cheiro dele — quente, intenso, marcado pelo trabalho e pelo sol. Um cheiro cru, masculino, que não pertence a salões nem a convenções.

Depois, a sensação.

Braços firmes seguravam-me. Musculados. Seguros. Senti-me recolhida sem ter pedido, sustentada sem permissão.

Abri os olhos.

Os dele estavam fixos em mim. Escuros. Atentos. Demasiado próximos.

— Ponha-me no chão! — ordenei de imediato, mesmo com a voz trémula. — Ponha-me no chão imediatamente.

Ele abrandou o passo e, com cuidado, colocou-me no chão apenas quando teve a certeza de que eu me mantinha de pé.

— Caiu com força — disse apenas. — Devagar.

Ignorei-o.

Endireitei-me como pude. O mundo ainda oscilava, mas recusei mostrar fraqueza.

— Estou bem — declarei. — Não precisava de tanta… intervenção.

Não respondeu.

Entrei na casa com passos irregulares, mas decididos.

A camareira surgiu de imediato, alarmada.

— Minha senhora! O que aconteceu?!

Logo depois apareceu a governanta.

— Está ferida?

— Não! — respondi mais alto do que pretendia. — Estou perfeitamente bem!

Subi as escadas quase a correr, mais por orgulho do que por capacidade, e fechei a porta do quarto com força.

Momentos depois, a governanta entrou.

— Arthur contou-me o que se passou nos estábulos — disse. — Teve muita sorte. Se não fosse ele, poderia ter-se ferido gravemente… ou pior.

Observou-me com atenção.

— A partir de hoje, ele continua responsável pelos cavalos — concluiu. — E agradeci-lhe por ter agido como agiu.

Quando ficou sozinha, encostei-me à porta. O corpo doía.

Mas o que me perturbava verdadeiramente era a memória dos braços, do cheiro, daquele olhar firme demais.

— Quem ele pensa que é? — murmurei. — Eu sou a patroa… já estou a falar como ele… que horror.

— Domador de éguas… — resmunguei. — Ele vai ver.

A camareira não conseguiu conter uma risada.

— Está-se a rir? — perguntei, tentando não rir também.

— Perdoe-me, dona Léonor… mas teve piada.

Rimo-nos as duas.

E, naquele momento, não soube dizer o que doía mais: a cabeça, o orgulho ferido, ou a certeza inquietante de que aquele homem não me obedeceria facilmente.

Antes que eu possa continuar aquele pensamento, batem à porta.

Três batidas secas, formais.

Afasto-me imediatamente, compondo a postura.

— Entre — digo, sem elevar a voz.

A governanta entra, impecável como sempre.

— Com licença, Dona Léonor — anuncia. — Mandei chamar o médico. Ele encontra-se aqui para examiná-la.

O meu maxilar contrai-se.

— Não era necessário — respondo de imediato. — Sinto-me bem.

Antes que a governanta possa responder, o médico entra… acompanhado.

Arthur está atrás dele.

O embaraço instala-se de imediato. Desvio o olhar, incomodada com a sua presença ali, no meu quarto, naquele estado.

Arthur detém-se à entrada, mantendo uma distância adequada. Inclina ligeiramente a cabeça.

— Com licença, doutor — diz, num tom respeitoso.

Sem me dirigir mais nenhuma palavra, afasta-se e fecha parcialmente a porta, deixando o médico avançar sozinho.

Respiro fundo.

O médico aproxima-se da cama.

— Lady Léonor — diz, com voz calma. — Deite-se, por favor.

Obedeço, contrariada, sentando-me antes de me estender sobre a colcha.

— Não senti nada além de uma ligeira dor de cabeça — digo, tentando minimizar.

— Ainda assim, é prudente examiná-la — responde, já atento às pupilas, às têmporas, ao couro cabeludo.

Os movimentos são rápidos, experientes.

— Uma contusão ligeira — conclui por fim. — Nada de grave, graças a Deus. Mas o cuidado foi acertado. O senhor… Arthur fez bem em mandar chamar-me.

O sangue ferve-me.

— Arthur? — repito, irritada. — Agora tratamo-nos todos pelo primeiro nome?

O médico limita-se a sorrir, recolhendo os seus instrumentos.

— Repouso apenas hoje. Evite esforços. Amanhã estará como nova.

Inclina a cabeça em despedida e sai.

A porta fecha-se.

Permaneço sentada na cama, com a camareira de um lado e a governanta do outro, ambas a observar-me como se eu fosse feita de vidro.

— Está tudo bem — digo, seca. — Não precisam de me olhar assim.

Trocam um olhar rápido entre si.

— Vou providenciar o almoço — diz a governanta.

Levanto-me de imediato.

— Não é necessário. Vou descer.

A governanta hesita apenas um segundo. Depois assente. Não há muito a discutir: a casa continua a ser minha.

A camareira ajuda-me a trocar o vestido, limpando qualquer vestígio da queda. Penteia-me novamente, ajeita o cabelo, devolve-me a compostura que se espera de mim. Quando termina, estou irrepreensível.

Antes de seguir para a sala de refeições, atravesso o átrio principal. As grandes portas envidraçadas encontram-se abertas para o jardim.

E paro.

Arthur está lá fora, a falar com um dos homens das cavalariças. Gestos firmes, postura segura. Fala pouco, mas é escutado. Aquilo irrita-me mais do que deveria.

Fico ali apenas um instante, a observá-lo.

— Detesto este domador de éguas — penso.

Nesse momento, Arthur levanta os olhos.

Vê-me.

Sinto o rosto aquecer. Afasto-me de imediato, como se tivesse sido apanhada em falta, e sigo para a sala de jantar.

Ao aproximar-me da mesa, resisto à tentação…

Lanço um último olhar pela janela.

Disfarçado, contido, ele continua lá fora.

E, sem perceber quando isso acontece, dou-me conta de que já não observo os cavalos, mas o seu domador.

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