LOGINA MALDIÇÃO DOS VOLKOV Gideon Volkov nasceu para herdar um império. Mas também nasceu condenado. Durante gerações, os primogênitos da família Volkov morreram ao completar trinta e seis anos. Seu bisavô. Seu avô. Seu pai. Agora, faltam poucos meses para Gideon atingir a mesma idade. E ele aprendeu a aceitar a própria morte como uma dívida que, cedo ou tarde, precisará pagar. Até que uma mulher entra em sua casa. Evangeline chegou à cidade fugindo de um passado que prefere esquecer. Para desaparecer, ela abandonou a profissão de médica e passou a trabalhar como empregada doméstica na mansão Volkov. Discreta, obediente e sempre com os olhos baixos, ela faz de tudo para não chamar atenção. Mas Gideon a nota. E, depois daquela primeira noite, não consegue mais esquecê-la. Ele não sabe quem ela realmente é. Não sabe do que está fugindo. Só sabe que deseja tê-la por perto - e que sua presença desperta nele uma obsessão que jurou jamais permitir. Quando perigos do passado de Evangeline começam a alcançá-la, Gideon decide protegê-la, mesmo que precise ultrapassar todos os limites. O problema é que quanto mais perto ela fica, mais a vida de ambos parece se entrelaçar com o segredo mais sombrio dos Volkov. Porque naquela família, ninguém escapa do destino. E talvez o amor seja justamente a coisa mais perigosa que Gideon poderia encontrar antes de completar trinta e seis anos.
View MoreEvangeline
Escuto o som pesado da minha respiração enquanto passo apressada pelas portas de vidro do meu prédio. O inverno rigoroso que se aproxima faz o ar gelado comprimir meus pulmões. É madrugada e meus passos se apressam pelas calçadas vazias, numa tentativa de me levar para bem longe dali.
— Venha, entre!
A voz firme de Sophie diz, fazendo-me acomodar no banco traseiro de um carro.
A pergunta é: como eu cheguei até aqui?
Talvez seja difícil explicar sem voltar a um passado que passei tempo demais tentando esquecer. Houve uma época em que eu acreditava que minha vida seguiria um caminho completamente diferente. Eu tinha sonhos, planos e alguém ao meu lado em quem acreditava poder confiar.
Então, pouco a pouco, tudo mudou.
— Quero que leve isso com você.
Sophie segura firme nas minhas mãos e faz meus dedos se fecharem ao redor de um maço de dinheiro. Aturdida, encaro um rolo de notas.
— E-eu… não posso aceitar isso, Sophie…
Arfo.
— Essas são as suas economias de uma vida inteira. E eu não posso…
— É claro que você pode.
Seu olhar cai em minha barriga protuberante, coberta com uma manta grossa.
— Ela vai precisar.
Meus olhos se enchem de lágrimas.
Então ela me abraça forte e demorado. Choro em silêncio. E, quando ela se afasta, olha dentro dos meus olhos.
— Livre-se do seu celular, Evangeline — aconselha-me.
— Mas como vou poder falar com você?
— Você não vai.
E de repente sinto como se ela arrancasse mais um pedaço de mim.
— Vai ser melhor assim. Mais seguro. Não ligue para mim. Nem mesmo de um orelhão.
Prendo o ar.
— Eu… vou sentir sua falta.
Minha voz sai como um fio prestes a se romper.
— Eu sei, querida. — Seu olhar de pesar encara o meu. — Eu também — sussurra.
Seu polegar escorrega pela minha bochecha, secando uma lágrima desgarrada.
— Não chore.
Apenas faço um sim com a cabeça. Respiro fundo. Ela força um sorriso.
— Escute, conversei com uma amiga na Rússia. O nome dela é Nadezhda. Ela trabalha para um homem muito poderoso.
Abro a boca para falar, mas ela continua.
— Ela tem um trabalho para você lá. Assim estará segura e terá teto, proteção e comida.
— Ela sabe sobre…
Espalmo as minhas mãos no meu ventre.
— Não se preocupe. Ela sabe o que fazer.
Assinto.
— Obrigada, Sophie! Obrigada por tudo!
Volto a abraçá-la.
— Certo, agora vá, minha amiga — ela diz ao se afastar. Fecha a porta e b**e na lataria do carro.
— Vai! Vai! — ordena para o motorista.
Aperto a bolsa com as poucas roupas que consegui arrumar. O ronco do motor imediatamente libera uma fumaça, que se mistura ao frio extremo da noite. E, quando o veículo entra em movimento, olho para trás para vê-la uma última vez… até que ela desaparece de vez. Com uma respiração alta, relaxo sobre o banco e fecho os olhos por alguns instantes. O cansaço pesa sobre minhas pálpebras e, antes que eu perceba, o som do motor se transforma numa espécie de canção distante. Logo escuto os sons dos pássaros cantando. E alguns raios de sol escapam pelas copas das árvores. Em seguida, o toque suave da sua mão desliza pela minha bochecha.
Sorrio.
— Você é tão linda!
A voz grave diz com um tom baixo. Seguro na sua mão e beijo a sua palma demoradamente. Então ele se inclina para beijar a minha boca calidamente.
— Chegamos, senhora!
A voz do motorista me desperta, e solto um resmungo baixo, abrindo os olhos em seguida. Só então percebo que adormeci e encontro o dia claro do lado de fora. Alguns flocos de neve caem incessantes, formando algumas camadas nos telhados das casas e nas calçadas úmidas.
Ajeito-me em cima do banco para olhar com mais atenção para o lado de fora.
— O que eu faço agora?
— Vamos esperar até que alguém venha buscá-la.
Sinto o meu estômago roncar e me dou conta de que, na pressa da fuga, não trouxe nada para comer. Uma batida brusca no vidro me faz sobressaltar e encaro uma jovem senhora usando touca de lã e um cachecol em volta do pescoço.
Abro a porta.
GideonMeu tio avança sobre o médico, mas Anton o detém.— Tenho documentos, históricos de conversas, e-mails, áudios de negociações. Tudo guardado em um arquivo.— Seu cretino, filho da puta! — Dimitri grita, lutando para se livrar do agarre do meu amigo.Sinto que estou sendo esmagado por dentro. Por um instante não sei mais em quem confiar. O meu tio. O homem que me criou como seu filho, que esteve o tempo todo do meu lado. E o médico que jurou cuidar da minha família.Então algo se passa pela minha cabeça. Meu pai. Ele também fez parte dessa conspiração? E o meu avô?… Manter viva a ideia da maldição dos primogênitos dos Volkov.Meus dedos se fecham com tanta força contra minha palma, que sinto a ardência na pele.— E… o meu pai?A pergunta escapa da minha boca, à medida que encaro meu tio. O silêncio me faz olhar para o médico outra vez. Ele leva uma mão a nuca e solta uma respiração trêmula em seguida.— A cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva é uma doença hereditária, Gideon.
Gideon— Uma opinião longe dos domínios dos Volkov.— O que isso quer dizer? — Alina se pronuncia.— Exatamente o que você viu nesse laudo. OVolto o meu olhar para Viktor que agora mantém seu olhar fico no documento.— Que existe uma possibilidade de uma intervenção cirúrgica capaz de melhorar significativamente o meu quadro.Dou um passo na direção dele.— O que disse? — Mamãe indaga incrédula. — Você… v-você não vai morrer?A voz dela embarga. Contudo, continuo encarando o meu médico.— Me explique por que essa possibilidade nunca foi discutida comigo antes, doutor Viktor Sokolov? — questiono.Ele ergue a cabeça, solta um pigarro. Parece incomodado com os olhares em cima dele.— Gideon, você precisa compreender que o seu caso…Não espero terminar.Agarro Viktor pelo terno impecável e o empurro brutalmente contra uma parede. O impacto faz um quadro acima da sua cabeça balançar. E o meu antebraço pressiona com força a garganta dele, impedindo-o de se afastar.Um ruído de cadeiras arr
Gideon— Esperem aqui!Peço minutos depois, abrindo a porta de uma sala privada, e recebo os olhares de todos para mim. Alguns parecem confusos. Outros estão cheios de interrogação. E apenas um par de olhos está preocupado, o de minha mãe. Irina está sentada ao lado da minha prima, enquanto tio Dimitri ocupa uma das cadeiras próximas à cabeceira da mesa retangular. Doutor Viktor está em um canto afastado, perto de uma janela. Seus braços estão cruzados e ele carrega uma expressão de tranquilidade, de quem passou a vida cuidando da minha saúde.Observo cada um deles em silêncio. Sem expressão. Mas dentro da minha cabeça as perguntas gritam inquietas. A tensão estampada em seus rostos não passa despercebida. Tampouco as perguntas silenciosas que parecem aguardar minha entrada.— A culpa é sua! — Tio Dimitri acusa, ficando de pé, enquanto encara rudemente a minha esposa, que para do meu lado. — Como pode ser tão irresponsável, a ponto de tirar o meu sobrinho desse hospital sem uma recome
Gideon— E… o que isso muda? — pergunto. — Minha condição continua sendo grave, não é?— Sim. Não vou minimizar os riscos. Seu coração apresenta alterações que exigem tratamento especializado. E os episódios recentes de taquicardia não podem ser ignorados. Mas existe uma possibilidade que o senhor precisa conhecer.O médico faz uma pausa, como se escolhesse cuidadosamente as próximas palavras.— Uma intervenção cirúrgica pode melhorar significativamente o seu quadro.Demoro a compreender a frase.— Que tipo de intervenção?— Uma miectomia septal. É um procedimento no qual removemos uma pequena porção do músculo cardíaco espessado que está obstruindo a saída do sangue do ventrículo esquerdo. Pelos resultados que temos até agora, o senhor pode ser candidato à cirurgia. Precisaremos concluir a avaliação pré-operatória e analisar todos os riscos antes de tomar uma decisão definitiva.Fico imóvel.Uma cirurgia.A palavra ecoa na minha cabeça, mas não consigo atribuir a ela um significado q












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