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Capítulo 3.1 Laura Montanari

작가: Milla Almeida
last update 게시일: 2026-09-17 02:06:56

Ele estava de pé perto da parede de vidro, de costas para a porta, falando com alguém que eu não conseguia ver. A voz dele chegou até mim, baixa e cortante:

— O anúncio precisa ser feito o quanto antes. Não estou disposto a esperar mais dois meses.

Baixei a cabeça rapidamente, fingindo me concentrar na tela.

Anúncio.

Eu não precisava ser gênia para imaginar do que se tratava. As revistas de fofoca corporativa já especulavam há meses sobre um possível noivado entre Vitório Leoni e a herdeira dos Andrade. Uma união de impérios. Sangue com sangue. Poder com poder.

Exatamente o tipo de mulher que um homem como ele deveria ter ao lado.

Apertei os lábios e digitei com mais força do que o necessário.

Não era da minha conta. 

Não deveria me importar.

Ainda assim, uma pontada estranha e indesejada se instalou no peito.

Continuei o trabalho tentando esquecer tudo o que acabara de ouvir. Estava tão focada que só percebi o post-it colado no monitor minutos depois.

A letra era firme, angular, masculina: Preciso da revisão do contrato da refinaria até às 16h. 

V.L.

Poxa. Como eu não tinha me atentado àquele bilhete?

Olhei para a porta fechada. 

Ele nem se dera ao trabalho de chamar pelo interfone. Apenas deixara o bilhete. Distante. Frio. Exatamente como prometido.

Puxei o arquivo, abri o documento e comecei a trabalhar. 

Mas a cada linha que lia, a memória dos olhos pretos e da mão quente na cintura voltava. Traidora. Persistente.

Às 15h47 terminei a revisão. Levantei-me, ajustei a blusa e caminhei até a porta do escritório. Bati duas vezes.

— Entra.

Abri a porta. 

O senhor Leoni estava sentado, a gravata ligeiramente afrouxada, as mangas do terço dobradas até os cotovelos. Os antebraços musculosos e as veias salientes contrastavam com a formalidade do restante. Uma das mãos era coberta por uma tatuagem que subia em direção ao antebraço. Ele não ergueu a cabeça imediatamente.

— O contrato — disse eu, colocando a pasta sobre a mesa.

Só então ele levantou o olhar e me encarou.

O impacto foi o mesmo de todas as outras vezes. Senti o ar ficar mais denso. Os olhos dele percorreram meu rosto com uma lentidão que fez a pele formigar.

— Já revisou tudo?

— Sim. Marquei as cláusulas que precisam de atenção na página sete e na doze.

Ele abriu a pasta como se ainda duvidasse que eu tivesse feito a revisão direito. Folheou rapidamente e assentiu uma única vez quando chegou à última página.

— Bom trabalho.

Duas palavras. Só isso. 

Mas a forma como ele as disse, baixa, quase rouca, fez algo se revirar dentro de mim. 

Eu precisava sair dali. Mas o meu corpo não me obedeceu. Em vez disso, permaneci parada mais um segundo do que o necessário.

O senhor Leoni ergueu o olhar novamente. Desta vez não havia apenas frieza. Havia algo mais escuro, mais perigoso, como se ele também estivesse lutando contra a mesma corrente invisível que me puxava na direção dele.

— Pode ir, senhorita Montanari.

A ordem foi clara.

Assenti, caindo em mim mesma. Nem precisava que ele dissesse. Minha própria mente gritou o aviso: Você precisa ficar longe, Laura, ou terá sérios problemas.

Nem mesmo o olhei de novo. Virei-me e saí antes que fizesse ou dissesse qualquer coisa estúpida.

Quando me sentei novamente na cadeira, as minhas mãos ainda formigavam.

Olhei para a porta fechada e tive uma certeza incômoda e assustadora: Eu precisava manter o foco. Ou teria problemas muito antes do que eu podia imaginar. 

E eu não queria ultrapassar nenhum limite.

Estava quase terminando os relatórios quando Ricardo parou ao lado da minha mesa. A voz dele soou baixa, mas carregada de uma formalidade que já começava a me irritar.

— Senhorita Montanari, o senhor Leoni pediu que você leve este relatório até a sala dele. Pessoalmente.

Senti o estômago revirar.

Ele estava me testando. De novo. Queria ver se eu tremia, se hesitava, se me quebrava só de ter que atravessar aqueles poucos metros até a porta de madeira escura. Queria medir até onde ia a minha compostura.

Mas nada do que ele fizesse iria me fazer desistir.

Não sem luta antes.

Procurei o relatório com dedos firmes, mesmo sentindo o leve tremor traidor nas mãos. Segurei a pasta contra o peito como se ela pudesse me proteger e respirei fundo, uma, duas, três vezes, tentando acalmar o coração que já batia rápido demais.

Você consegue, Laura.

Só mais algumas horas e o primeiro dia terá acabado.

Você volta para a tranquilidade da sua casa. Para o cheiro de comida da sua mãe. Para o silêncio que não carrega o peso de olhos pretos e de uma voz grave demais.

Gritei o mantra dentro da própria cabeça, com uma força quase desesperada, para que minha mente e meu corpo finalmente compreendessem e me obedecessem.

Porque do outro lado daquela porta estava Vitório Leoni.

E eu não podia, de jeito nenhum, deixar que ele visse o quanto ele já tinha conseguido me abalar.

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