로그인Fiquei olhando para a porta por longos segundos depois que Laura saiu.
O contrato estava aberto na minha frente. As anotações dela eram precisas, inteligentes, cirúrgicas. Ela tinha encontrado exatamente as duas cláusulas que eu mesmo já marcaria. Competente. Rápida. Discreta. Perigosa. Passei a mão pelo rosto, sentindo a tensão acumulada no maxilar. O corpo ainda reagia à presença dela como se ela nunca tivesse saído da sala. O leve perfume de sabonete barato ainda pairava no ar do escritório, misturado ao cheiro de papel e café. Eu odiava o fato de conseguir distingui-lo tão facilmente. Odiava ainda mais o fato de que aquele cheiro simples me afetava mais do que qualquer fragrância cara que eu já tivesse sentido. Levantei-me e caminhei até a parede de vidro. A cidade se estendia lá embaixo, indiferente e distante. Eu precisava recuperar o controle. Rápido. Antes que a rachadura se transformasse em algo irreparável. Peguei o telefone e disquei o número da secretária do meu pai. - Quero uma reunião com meu pai ainda hoje. Antes das sete. - Sim, senhor Vitório. As sete está bom? - Pode marcar. Desliguei sem esperar confirmação. Depois liguei para Isabela Andrade. Ela atendeu na terceira chamada, a voz educada e suave de sempre. - Vitório. Que surpresa. - Precisamos falar sobre a data do anúncio - disse sem rodeios, a voz cortante. - Quero antecipar. Houve um breve silêncio do outro lado. - Antecipar? Achei que tínhamos combinado para daqui a dois meses. - Mudamos de ideia. Quanto antes for público, melhor para as duas famílias. Isabela hesitou apenas um segundo. - Tudo bem. Se é o que você acha melhor... eu concordo. Claro que concordava. Isabela sempre concordava. Era uma das razões pelas quais a escolha da família fazia tanto sentido. Ela entendia o jogo. Sabia exatamente o que se esperava dela. Não criava problemas. Não fazia o meu sangue ferver com um simples olhar. Diferente de outra pessoa. Encerrei a ligação e fiquei parado, o aparelho ainda na mão. A imagem de Laura Montanari atravessou a mente sem permissão: os olhos castanhos erguidos para mim, a forma como o peito dela subia e descia um pouco mais rápido quando eu me aproximava, o leve tremor nas mãos que ela tentava esconder a todo custo. Apertei o telefone com força até os nós dos dedos ficarem brancos. Aquilo precisava parar. Às 16h40 chamei Ricardo pelo interfone. - Peça para a senhorita Montanari trazer o relatório de produção da refinaria do Rio. Pessoalmente. Não havia nenhuma necessidade real de ser pessoalmente. O arquivo já estava no sistema. Mas eu queria vê-la de novo. Queria testar se a reação do meu corpo ainda era a mesma. Queria provar a mim mesmo que ainda conseguia controlá-la... e a mim. A porta se abriu três minutos depois. Laura entrou carregando a pasta contra o peito como se fosse um escudo. A postura era profissional, mas eu notei imediatamente a tensão nos ombros e a forma como ela evitava segurar o meu olhar por tempo demais. - O relatório que o senhor pediu. Ela colocou a pasta sobre a mesa e deu um passo para trás, claramente pretendendo sair o mais rápido possível. - Fique - ordenei, a voz mais baixa e firme do que o necessário. Laura parou. Os dedos apertaram levemente o tecido da saia. Abri a pasta com calma deliberada, folheando as páginas sem realmente ler uma única linha. O silêncio se arrastou, pesado, quase sufocante. Ergui os olhos e a encontrei ainda de pé, esperando, o corpo rígido demais. - Você ouviu a conversa mais cedo no corredor - afirmei. Não era pergunta. Laura piscou, surpresa por eu ter notado. - Eu... não prestei atenção de propósito. - Mas ouviu. Ela hesitou. Depois assentiu uma única vez. - Sim. Fechei a pasta devagar, o som do papel ecoando alto demais no silêncio. - Então sabe que meu noivado será anunciado em breve. A palavra "noivado" saiu mais dura, mais final do que eu pretendia. Laura não desviou o olhar desta vez. Apenas inclinou levemente a cabeça, a expressão controlada demais para ser natural. - Parabéns, senhor Leoni. Desejo que seja muito feliz. A frase era perfeita. Educada. Distante. E ainda assim cortou algo dentro de mim com a precisão de uma lâmina. Levantei-me. Contornei a mesa com passos lentos e deliberados e parei à frente dela. Mais perto do que deveria. Perto o suficiente para ver as pestanas escuras e o leve brilho de nervosismo nos olhos castanhos. Perto o suficiente para sentir o calor que subia da pele dela. - Você está tremendo - observei, a voz baixa, quase um sussurro perigoso. - Não estou. Mentira. Eu via o leve tremor na base do pescoço dela. Via a pulsação acelerada sob a pele delicada. Ergui a mão sem pensar. Os dedos pararam a poucos centímetros do rosto dela. O ar entre nós dois ficou carregado, elétrico, quase inflamável. Laura prendeu a respiração. Eu também. Por um segundo perigoso e delicioso, eu quase cedi. Quase fechei a distância. Quase descobri se a boca dela era tão macia quanto parecia. Quase quebrei todas as regras que eu mesmo tinha criado. Depois a realidade voltou como um soco no estômago. Baixei a mão com violência controlada e dei um passo para trás, como se o espaço físico pudesse salvar o que já estava se desfazendo dentro de mim. - Pode ir - disse, a voz mais rouca do que o normal. - E, senhorita Montanari... da próxima vez que eu pedir um documento, mande pelo sistema. Não precisa trazer pessoalmente. Laura assentiu, o rosto ligeiramente corado. - Entendido. Ela saiu rápido demais. A porta se fechou com um clique suave que soou como um tiro. Fiquei sozinho no escritório, a mão ainda formigando pelo toque que não aconteceu. Caminhei até a janela e apoiei a testa no vidro frio, sentindo o contraste com o calor que ainda queimava sob a pele. A fissura estava maior. Eu podia sentir. E o pior era saber que, se continuasse assim, não demoraria muito para o controle que eu construíra durante uma vida inteira simplesmente... desabar. Por causa de uma simples secretária que não deveria significar absolutamente nada. Fechei os olhos com força.Fiquei olhando para a porta por longos segundos depois que Laura saiu.O contrato estava aberto na minha frente. As anotações dela eram precisas, inteligentes, cirúrgicas. Ela tinha encontrado exatamente as duas cláusulas que eu mesmo já marcaria. Competente. Rápida. Discreta.Perigosa.Passei a mão pelo rosto, sentindo a tensão acumulada no maxilar. O corpo ainda reagia à presença dela como se ela nunca tivesse saído da sala. O leve perfume de sabonete barato ainda pairava no ar do escritório, misturado ao cheiro de papel e café. Eu odiava o fato de conseguir distingui-lo tão facilmente. Odiava ainda mais o fato de que aquele cheiro simples me afetava mais do que qualquer fragrância cara que eu já tivesse sentido.Levantei-me e caminhei até a parede de vidro. A cidade se estendia lá embaixo, indiferente e distante. Eu precisava recuperar o controle. Rápido. Antes que a rachadura se transformasse em algo irreparável.Peguei o telefone e disquei o número da secretária do meu pai.- Que
Ele estava de pé perto da parede de vidro, de costas para a porta, falando com alguém que eu não conseguia ver. A voz dele chegou até mim, baixa e cortante:— O anúncio precisa ser feito o quanto antes. Não estou disposto a esperar mais dois meses.Baixei a cabeça rapidamente, fingindo me concentrar na tela.Anúncio.Eu não precisava ser gênia para imaginar do que se tratava. As revistas de fofoca corporativa já especulavam há meses sobre um possível noivado entre Vitório Leoni e a herdeira dos Andrade. Uma união de impérios. Sangue com sangue. Poder com poder.Exatamente o tipo de mulher que um homem como ele deveria ter ao lado.Apertei os lábios e digitei com mais força do que o necessário.Não era da minha conta. Não deveria me importar.Ainda assim, uma pontada estranha e indesejada se instalou no peito.Continuei o trabalho tentando esquecer tudo o que acabara de ouvir. Estava tão focada que só percebi o post-it colado no monitor minutos depois.A letra era firme, angular, mas
Eu estava finalizando um dos contratos que precisavam ser redigidos, tão focada que o toque agudo do telefone me deu um susto real. O coração disparou antes mesmo de eu conseguir processar o som.Ainda estava me acostumando com o silêncio daquele andar. Mesmo com pessoas passando de um lado para o outro o tempo todo, quase não se ouvia um único passo. Parecia que todos tinham medo de produzir o menor ruído possível, só para não irritar o senhor Leoni. Qualquer barulho se transformava em algo estridente, quase ofensivo.Depois que ele me chamou em sua sala, eu tentei permanecer tranquila. Repeti mantras mentais para conseguir ser direta nas respostas, para não deixar a voz tremer, para não entregar o quanto ele me afetava.Fechei a porta do escritório do senhor Leoni com extremo cuidado, como se qualquer barulho mais alto pudesse me denunciar.As minhas pernas estavam trêmulas. Atravessei os poucos metros até a minha mesa e me sentei antes que os joelhos cedessem de vez. O coração ai
Isabela Andrade. O cIsabelaasamento. O império. O nome Leoni.Tudo isso tinha de vir primeiro. Sempre.Voltei à mesa, abri o dossiê de Laura novamente e o empurrei para a gaveta com mais força do que o necessário. Depois disquei o número do meu pai.- Precisamos acelerar o anúncio do noivado - disse sem nenhum preâmbulo. - Quanto antes.Do outro lado da linha, a voz grave de Antônio Leoni soou claramente satisfeita.- Finalmente você está pensando como um verdadeiro herdeiro. Farei o quanto antes.Não respondi. Apenas desliguei.E, pela primeira vez na vida, a palavra "herdeiro" deixou um gosto amargo e metálico na boca.Eu não podia seguir meu instinto. Precisava manter o foco. Nada além disso. E se fosse preciso, eu cortaria o mal pela raiz.A tela do computador se acendeu às 13h00.Ajustou a gravata com um movimento preciso e ativou a câmera. Do outro lado da chamada internacional estavam três homens do consórcio europeu, rostos pálidos, expressões tensas e a incompetência
ControleVitório Leoni não se distraía.Minha própria consciência gritava isso o tempo todo, me forçando a lembrar de como as coisas precisavam seguir. Era uma regra que eu mesmo criara e que cumprira sem falhas durante os últimos quinze anos. Mulheres existiam para satisfazer necessidades carnais que eu precisava suprir. Nada além disso. Nunca para ocupar espaço na minha cabeça. Nunca para fazer a mão formigar horas depois de um simples toque. Nunca para despertar o desejo absurdo de permanecer perto mais do que o necessário.Por isso sempre mantive distância de qualquer ilusão. A palavra amor simplesmente não existia no meu dicionário. Tesão. Sexo. Luxúria. Essa era a minha sintonia perfeita. Nada mais. E por isso sempre dava certo. Se algo ameaçasse mudar, eu fazia questão de mostrar, com frieza e precisão que aquilo jamais atrapalharia minha vida nem meus negócios.Hoje, no entanto, algo estava diferente. Algo inconsciente, quase visceral, tinha se instalado desde o esbarrão da
Ele passou por mim sem esperar resposta. O perfume ficou no ar, preso às minhas narinas como uma marca invisível. Permanece parada por alguns segundos, o coração ainda descompassado, os documentos amassados contra o peito. As pernas pareciam feitas de borracha. Mas não podia me dar o luxo de ficar parada então segui em direção aos elevadores...No vigésimo sétimo andar, um homem chamado Ricardo me recebeu com um sorriso que não chegava aos olhos. Ele me conduziu até uma mesa de vidro posicionada exatamente em frente a uma porta de madeira escura e pesada.- O senhor Leoni exige pontualidade, discrição e perfeição - informou sem rodeios. - Qualquer erro é motivo de demissão imediata. Boa sorte.Assenti, engolindo em seco. Já tô ha ideia da fama dele, e pelo visto não é apenas rumores.Me sentei. Liguei o computador. Tentei me concentrar nos e-mails que já estavam à minha espera.Mas a cada poucos minutos meus olhos se desviavam para a porta fechada. Não vou mentir depois que ele retor







