LOGINNo banheiro, jogo água no rosto, tentando afastar o calor que ainda parece preso à minha pele. A respiração sai irregular, e por alguns segundos me apoio na pia, sentindo o coração bater rápido demais. Ergo o olhar lentamente para o espelho.
Meu reflexo me encara de volta. Os lábios levemente inchados, o olhar perdido… e a lembrança volta sem pedir permissão. As mãos de Gael. O toque firme, seguro… provocante. Seus dedos deslizando pela minha pele como se já me conhecessem, despertando algo que eu nunca senti antes. Algo perigoso. Algo que ainda faz meu corpo reagir só de lembrar. Mordo os lábios com força, fechando os olhos por um instante, tentando me recompor, tentando enterrar aquela sensação antes que ela me denuncie. Não posso pensar nisso. Não aqui. Não com ele. Respiro fundo mais uma vez, ajeito o vestido e saio do banheiro, mantendo a postura, mesmo que por dentro tudo ainda esteja desorganizado. Caminho de volta para a sala de estar, tomando cuidado com cada passo, evitando olhar para os lados… evitando, acima de tudo, dar de cara com Gael. Mas quando entro na sala, percebo que algo mudou. Antes, estavam apenas meu pai e Daniel Ackles. Agora… há mais um homem. Ele está sentado de forma relaxada, mas sua postura denuncia confiança. É bonito, sem dúvidas. Os traços são bem definidos, o cabelo escuro perfeitamente alinhado, o maxilar marcado dando a ele um ar de segurança. Seus olhos percorrem o ambiente com atenção calculada, e há um leve sorriso em seus lábios — daqueles que parecem treinados para impressionar. Elegante. Imponente. Mas… não chega nem perto. Não tem o mesmo peso. Não tem a mesma presença sufocante que Gael. — Helena, estamos te esperando! — meu pai diz, com um sorriso carregado de uma simpatia forçada que eu conheço bem demais. Caminho até eles, mantendo a postura impecável, e me sento ao lado dele no sofá, cruzando as pernas com delicadeza. — Desculpe a demora, a casa é bem grande — minto, sustentando um tom educado. — Tudo bem. Estamos esperando meu primogênito ainda também — Daniel comenta, com naturalidade. — Deixe-me apresentá-la. Este é meu filho, Nathanael Ackles. O homem à minha frente se levanta imediatamente. Ele vem até mim com passos firmes, pega minha mão com cuidado e deposita um beijo sobre ela, mais formal do que íntimo. — Um prazer conhecê-la — diz, com um leve sorriso. — O prazer é meu também — respondo, mantendo a educação, mesmo sentindo algo estranho se instalar dentro de mim. Ele volta a se sentar, como se tudo estivesse perfeitamente dentro do esperado. — O contrato de casamento será com ele, meu segundo filho — Daniel revela, sem rodeios. Por um segundo… tudo fica em silêncio. Olho para Nathanael. Ele me encara de volta, abrindo um sorriso leve, confiante… como se aquilo já estivesse decidido. Como se eu já fosse dele. Vou me casar com ele? Então… Gael? Quem… é Gael nisso tudo? — Desculpem a demora a todos. Acabei me distraindo com algumas coisas que requeriam minha atenção. A voz surge como um trovão. Grave. Dominante. Inconfundível. Meu corpo reage antes mesmo que eu pense. Ergo o olhar lentamente em direção às escadas. E lá está ele. Descendo com calma, cada passo carregado de uma presença que parece preencher o ambiente inteiro. A iluminação toca seu rosto de forma sutil, destacando ainda mais seus traços marcantes… e aqueles olhos verdes escuros encontram os meus sem esforço. Intensos. Diretos. E perigosamente conscientes. Não consigo desviar. Não quando um leve sorriso de lado surge em seus lábios… como se fosse um segredo compartilhado apenas entre nós dois. — Gael. Apresento a vocês meu primogênito, Gael. Irmão de Nathanael — Daniel anuncia. Meu estômago afunda. Que merda… Eu deixei o meu cunhado me tocar daquela forma? Gael se aproxima com tranquilidade, cumprimenta meu pai com um aperto de mão firme, trocando poucas palavras. Mas eu sinto. Sinto quando ele se aproxima de mim. O ar muda. Meu corpo enrijece levemente quando ele pega minha mão, como Nathanael fez antes… mas é completamente diferente. O toque dele permanece um segundo a mais. Dois. Ele vira levemente minha mão… e deposita um beijo na palma, demorado, quente demais para ser apenas educação. Meu coração dispara. — É um grande prazer conhecê-la, senhorita Carmelin — ele diz, a voz carregada de um sarcasmo sutil, quase imperceptível para qualquer outra pessoa. Mas não para mim. Porque eu sei. Aquilo não foi uma apresentação. Foi um aviso. — Desculpe a pergunta, mas pensei que o contrato seria com seu filho mais velho — meu pai diz, direcionando o olhar a Daniel, claramente surpreso. Sinto o olhar de Gael sobre mim antes mesmo de confirmar. Ele se senta ao lado do pai com uma calma calculada, como se aquele lugar sempre tivesse sido dele por direito. E mesmo sem dizer nada, sem fazer nenhum movimento brusco… ele não tira os olhos de mim. Tento ignorar. Tento mesmo. Mas é impossível não sentir aquele olhar carregado de provocação, como se ele estivesse se divertindo com toda aquela situação. — Não — Daniel responde com firmeza. — Na minha máfia, todos os primogênitos não podem se envolver romanticamente, nem ter esposas. Chega um certo tempo que contratamos barrigas de aluguel para nossos primogênitos. O ambiente muda. O peso daquelas palavras se instala no ar. Por um instante, tudo parece mais frio. Meus olhos vão automaticamente até Gael. E é então que percebo. Ele não está mais me olhando. Seu olhar se perde em algum ponto vazio do ambiente, distante, como se tivesse sido arrancado dali por algo interno. Sua expressão endurece quase imperceptivelmente, e há algo naquele silêncio… algo que não estava ali antes. Como se aquele destino já estivesse escrito para ele. Sem escolha. Sem espaço para algo diferente. Sem… amor. — Entendo. Bom, mesmo assim, Nathanael parece ser um bom homem — meu pai diz, tentando manter o clima leve, com aquele sorriso diplomático que já conheço. — Meu filho é, sim — Daniel continua, orgulhoso. — Não é tão feroz e líder como meu primogênito, mas é um menino muito dedicado e sabe seguir as regras. Regras. Sempre regras. Mas meu foco ainda está em Gael. Ele continua distante, perdido nos próprios pensamentos, como se o resto da conversa não tivesse mais importância. Como se, de alguma forma… aquilo também o atingisse. — Vamos assinar o contrato e tornar isso oficial — Daniel anuncia, quebrando o silêncio. Meu estômago se contrai. Rápido demais. Tudo está acontecendo rápido demais. — Deveriam esperar até a cerimônia. A voz de Gael surge. Calma. Controlada. Mas firme o suficiente para cortar o momento. Daniel vira o rosto em direção ao filho, claramente surpreso. — O que quer dizer, irmão? Quero torná-la minha noiva o mais rápido possível — Nathanael intervém, com um leve tom de impaciência. Mas Gael não olha para ele. Ele continua olhando… para mim. — Você sabe como são as pessoas da máfia — ele diz, com naturalidade. — Deveriam fazer algum jantar, ir a alguns compromissos com ela, mostrar que ela agora é uma de nós… e, em um jantar, anunciar o noivado. Então apenas na cerimônia vocês assinam o contrato. Cada palavra é dita com precisão. Estratégia. Controle. Mas há algo por trás disso. Algo que só eu pareço perceber. — É uma boa ideia. Faremos isso — Daniel concorda, sem pensar duas vezes. Nathanael claramente não gosta. Consigo ver no leve tensionar da mandíbula, no olhar que lança ao irmão. Mas Gael… Gael parece satisfeito. E isso me deixa ainda mais inquieta. — Durmam hoje em nosso lar — Daniel anuncia, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Meu corpo reage imediatamente. — Não queremos incomodar — digo rápido demais, quase deixando transparecer o quanto quero sair dali… o quanto preciso de distância. Distância dele. — Eu insisto — Daniel reforça, com um tom que deixa claro que não é um convite. É uma decisão. E eu não tenho escolha. Sinto antes mesmo de ouvir. — Irei pedir para prepararem os quartos — Gael diz, a voz baixa, controlada… perigosa. — Helena pode ficar no quarto ao lado do meu. Está vago e é um dos maiores da casa. Ele me olha. Direto. Sem esconder nada. Meu coração dispara. E, pela primeira vez naquela noite… Eu tenho certeza de uma coisa. Eu estou completamente ferrada.Cinco anos se passaram desde o dia em que cruzamos os portões da mansão Ackles com nossa filha nos braços. Cinco anos de risadas ecoando pelos corredores, de brinquedos espalhados pela sala, de noites mal dormidas e de um amor que só fez crescer. Nossa menina, Sofia Ackles, havia se tornado o centro do nosso mundo. Aos cinco anos, Sofia era uma mistura perfeita de nós dois. Tinha os olhos cinzentos de Gael e o meu sorriso. Era curiosa, falante e dona de uma personalidade forte que frequentemente deixava o pai dividido entre orgulho e rendição absoluta. Gael, como eu já imaginava desde o primeiro dia, transformou-se em um pai completamente apaixonado. Não havia nada que ele não fizesse por nossa filha. Ela o tinha enrolado em torno do dedo desde o instante em que nasceu, e todos na família sabiam disso. E agora, a mansão Ackles estava prestes a receber mais um pequeno membro. Eu estava grávida novamente. Dessa vez, de um menino. A descoberta havia emocionado toda a
Dois dias depois de chegarmos do hospital, a mansão Ackles estava mais movimentada do que o normal. Eu estava no quarto do bebê, sentada na poltrona de amamentação com nossa filha adormecida em meus braços, quando ouvi passos e vozes no corredor. Gael, que organizava algumas fraldas na cômoda, ergueu os olhos e sorriu de canto. — Parece que meu irmão finalmente criou coragem. Arqueei uma sobrancelha. — Ele trouxe Aurora? Gael assentiu. — E, se eu conheço Nathanael, ele está mais nervoso do que no dia em que apontou uma arma pela primeira vez. Ri baixinho. Poucos segundos depois, alguém bateu à porta. — Entrem — chamei. A porta se abriu, revelando Nathanael Ackles. Ao lado dele estava Aurora. Aurora era ainda mais bonita do que eu imaginava. Tinha cabelos castanhos ondulados, olhos expressivos e um sorriso delicado que transmitia doçura imediata. Nathanael parecia um pouco tenso. — Helena, Gael… essa é Aurora. Um sorriso espontâneo surgiu em meus lábios. — Finalmente.
O caminho de volta para a mansão Ackles foi um borrão de emoções. Eu permaneci no banco de trás do carro, com nossa filha adormecida em meus braços, envolta em uma manta de cashmere branca com pequenos bordados de flores. O rostinho delicado estava parcialmente escondido pela touquinha de tricô, e cada respiração suave fazia meu coração se apertar de um amor tão intenso que eu mal conseguia colocar em palavras. Ao meu lado, Gael não conseguia desviar os olhos dela. De vez em quando, estendia a mão para tocar a mãozinha minúscula da nossa filha, como se ainda estivesse tentando acreditar que aquela bebê perfeita era real. — Ela é tão pequena — murmurou pela centésima vez. Sorri. — E já conseguiu deixar o pai completamente rendido. Gael ergueu os olhos para mim, um sorriso emocionado curvando seus lábios. — Eu já era completamente rendido a vocês duas. Meu coração derreteu. Quando os portões da mansão se abriram, senti uma onda inesperada de emoção. Agora não era a
Acordei com um gemido preso na garganta. Por um instante, achei que ainda estava sonhando. Mas então outra onda de dor atravessou meu corpo, intensa e profunda, apertando meu ventre com uma força que me fez agarrar os lençóis. — Ah… Minha respiração ficou curta. Levei as duas mãos à barriga, sentindo o coração disparar. Outra contração. Muito mais forte do que qualquer desconforto que eu havia sentido até então. — Nathanael! — chamei, a voz trêmula. Não precisei chamar duas vezes. Em questão de segundos, Nathanael surgiu ao meu lado, os olhos ainda pesados de sono, mas imediatamente alertas. — Helena? Outra contração me fez fechar os olhos e apertar sua mão. — Está doendo… muito. O rosto dele empalideceu. — As contrações? Assenti, tentando respirar como o médico havia ensinado. — Acho que… acho que ele vai nascer. Nathanael entrou em ação no mesmo instante. — Certo. Vamos para o hospital. Ele me ajudou a sentar, depois a levantar com cuidado. Minhas pernas tremiam
A manhã em que Gael precisou viajar começou com um silêncio pesado no nosso quarto. Eu já estava com quase nove meses de gravidez, e minha barriga parecia enorme. Até me virar na cama exigia esforço, e caminhar pela mansão havia se tornado um exercício de paciência e equilíbrio. Nosso bebê se mexia com frequência, forte e decidido, como se estivesse tão ansioso quanto nós para finalmente nos conhecer. Gael estava terminando de arrumar a mala quando me sentei na cama, apoiando uma das mãos na lombar e a outra sobre o ventre. — Eu ainda acho que você não deveria ir — murmurei. Ele fechou a mala e veio imediatamente até mim. Ajoelhou-se à minha frente, afastou uma mecha do meu cabelo e pousou a mão na minha barriga. — Se houvesse qualquer outra opção, eu ficaria. Os olhos cinzentos dele carregavam culpa e preocupação. Acariciei o rosto do meu marido. — Eu sei. Gael inclinou-se e beijou meu ventre. — Nada de sustos enquanto o papai estiver fora, piccolo. Nosso bebê respondeu c
Naquela tarde, a mansão Ackles estava mergulhada em uma tranquilidade rara. O sol dourado do fim do dia aquecia a varanda dos fundos, e uma brisa suave fazia as cortinas brancas balançarem preguiçosamente. Eu estava sentada em uma poltrona ampla de vime, com várias almofadas apoiando minhas costas e minha barriga de sete meses. Minhas mãos acariciavam distraidamente o ventre enquanto observava os jardins perfeitamente cuidados da propriedade. Nosso bebê estava particularmente ativo naquele dia, e cada movimento arrancava um sorriso involuntário dos meus lábios. A porta de vidro se abriu atrás de mim. — Posso fazer companhia à minha cunhada favorita? Sorri ao ouvir a voz de Nathanael. — Você só tem uma cunhada. — Exatamente por isso você continua no topo do ranking. Ri baixinho. Nathanael trouxe duas canecas de chá e me entregou uma delas antes de se acomodar na cadeira ao meu lado. O hematoma da invasão já havia desaparecido, mas havia algo diferente nele nas últimas semanas.







