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🌕 Cap. 4: A Emboscada das Sombras de Ferro

last update Fecha de publicación: 2026-08-18 14:25:44

🌹 Lyra Voss

O eco da trombeta de Eryon ainda vibrava no ar úmido da floresta, como uma lâmina fria rasgando a névoa que subia do solo.

O som era um lembrete violento de que o passado nunca permanece enterrado, não importa quanta terra ou mentiras joguemos sobre ele.

Kael não se moveu.

Seu corpo continuou colado ao meu, uma barreira de puro músculo, calor e fúria contida.

Eu podia sentir a vibração do rosnado que nascia no fundo de seu peito contra as minhas próprias costelas.

O cheiro dele, aquela mistura hipnótica de pinho selvagem, chuva de verão e o aroma metálico do sangue lunar que sempre acompanhava o Alfa Supremo, envolveu meus sentidos, nublando minha mente espiã com uma névoa de desejo e desespero.

O vínculo de companheiros, que eu tentei ignorar com todas as minhas forças desde que retornei sob uma nova identidade, rugia em minhas veias como um incêndio florestal.

Cada ponto de contato entre nossas peles parecia queimar, apagando a distância e os dez anos de dor e rejeição que nos separavam.

— Ele não vai tocar em você, Lyra — Kael sussurrou contra o meu ouvido, sua voz uma promessa sombria e rouca que arrepiou cada centímetro da minha espinha. Seus lábios roçaram a curva do meu pescoço, bem acima da cicatriz em forma de lua minguante que ele mesmo havia curado com seu sangue no passado.

O toque foi eletrizante, um contraste brutal com a ameaça que se aproximava.

Eu queria empurrá-lo, lembrá-lo de que eu era uma espiã do Clã Noctharys, que minha missão era sua ruína, mas meus dedos traidores se cravaram nos ombros largos de seu peito nu, buscando âncora na única tempestade que eu não conseguia controlar.

Antes que eu pudesse responder, os arbustos ao redor da clareira se romperam.

Vultos escuros emergiram do escuro, movendo-se com a precisão letal de predadores.

Eram os guerreiros da Matilha Valkares, mas não os guardas leais que eu conhecia.

Seus olhos brilhavam com um amarelo doentio, desprovidos da honra que no passado definia os guerreiros de ferro.

No centro deles, caminhando com uma elegância arrogante e venenosa, estava Eryon Valkares.

O conselheiro traidor, o homem que orquestrou minha ruína e a falsa rejeição que destruiu minha vida anterior.

Ele segurava uma adaga de prata pura, cujas runas gravadas na lâmina brilhavam com uma luz azulada e maléfica, indicando feitiçaria antiga.

— Ora, ora... o que temos aqui? — Eryon sorriu, um sorriso que exalava malícia pura. Ele parou a poucos metros de nós, escoltado por seis guerreiros armados. — O Alfa Supremo de Ferro, enfraquecido e de joelhos por uma humana... ou deveria dizer, por um fantasma que voltou do túmulo? Eu reconheceria essa energia em qualquer lugar, Kael. Você realmente achou que poderia esconder sua Luna rejeitada de mim?

O aperto de Kael em minha cintura se tornou possessivo, quase doloroso, mas eu não reclamei.

O calor de seu corpo era a única coisa que me impedia de tremer diante do homem que roubou minha juventude.

Senti o poder ancestral de Luna começar a despertar no meu sangue, uma força adormecida que o Clã Noctharys passou anos me ajudando a dominar.

Minhas unhas se alongaram ligeiramente, a herança lupina lutando para romper a fachada de fragilidade que eu mantinha.

— Eryon — Kael pronunciou o nome como se cuspisse veneno. Sua postura era de um predador prestes a saltar, os músculos das costas tensionados ao extremo. — Você cometeu muitos erros nesta vida, mas cruzar o meu território e ameaçar o que é meu, será o seu último.

Eryon soltou uma risada seca, um som que fez os pássaros noturnos levantarem voo em pânico.

— O que é seu? Ela não é sua, Kael. Você a rejeitou. Você a baniu. E agora ela serve a outros senhores. — Os olhos frios de Eryon se voltaram para mim, brilhando com uma promessa de destruição. — Eu sei por que você está aqui, Lyra. Sei que o Clã Noctharys enviou sua melhor espiã para roubar o Selo de Ferro e expor as fraquezas da nossa matilha. Você é uma traidora tanto para nós quanto para eles, se hesitar agora.

Minhas entranhas se reviraram.

A verdade crua de suas palavras pairou no ar como fumaça sufocante.

Se eu protegesse Kael, se eu seguisse o chamado desesperado do laço de companheiros que implorava para que eu me entregasse ao meu Alfa, eu trairia o Clã Noctharys, as únicas pessoas que me acolheram quando eu não era nada além de cinzas.

Minha missão era a minha sobrevivência, a minha vingança.

Mas olhar para o semblante esculpido de Kael, ver a determinação feroz em seus olhos escuros e sentir a pulsação do seu coração batendo no mesmo ritmo que o meu, tornava qualquer escolha uma tortura insuportável.

— Eu tenho uma proposta para vocês dois — Eryon continuou, dando um passo à frente enquanto seus guerreiros fechavam o cerco, as armas de prata reluzindo sob a luz fraca da lua. — Kael, entregue o controle das fronteiras do leste e abdique de sua reivindicação sobre as terras de Noctharys. Faça isso, e eu permitirei que você viva com sua pequena espiã em algum exílio miserável. Caso contrário, revelarei ao conselho que a Luna que você declarou morta está viva e trabalhando para os nossos piores inimigos. Eles exigirão a execução dela por alta traição... e você terá que executá-la com suas próprias mãos para manter o trono.

Um silêncio profundo caiu sobre a clareira.

A fumaça da névoa parecia congelar ao nosso redor.

O vento parou.

Eu conseguia ouvir os batimentos cardíacos acelerados de cada um dos traidores, o som das garras de Kael raspando o chão de terra e a respiração pesada dele.

Ele estava sendo encurralado, chantageado através do único ponto fraco que possuía: eu.

A rejeição do passado, que outrora foi nossa maior cicatriz, agora era a arma de Eryon para nos destruir de vez.

— Lyra... — a voz de Kael era um sussurro tenso, mas havia uma nota de vulnerabilidade que quebrou meu coração em mil pedaços. Ele não olhou para mim, mantendo os olhos fixos em Eryon, mas sua mão subiu lentamente pela minha costela, parando logo abaixo do meu seio, onde meu coração martelava descontrolado. — Não ouça as mentiras dele. Escolha a mim. Deixe que o conselho queime, deixe que o mundo queime..., mas escolha a mim desta vez.

Eryon ergueu a adaga de prata, apontando-a diretamente para o meu peito, o sorriso vitorioso cortando seu rosto pálido.

— Escolha, Lyra. Salve sua missão e entregue o Alfa de Ferro à ruína, ou entregue seu coração a ele e assista enquanto a prata consome tudo o que você tentou proteger.

Antes que eu pudesse responder, Eryon deu um sinal com a mão e os guerreiros avançaram, mas o que me paralisou não foi a prata brilhante, e sim o som do meu próprio lobo interior sussurrando, que para salvar a vida de Kael, eu teria que cravar minha própria adaga em suas costas.

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