FAZER LOGINÂngela encarava a mensagem no celular com um sorriso. Era simples, como tudo que Rafael dizia quando queria que ela se sentisse especial.
"Vai dar tudo certo. Minha mãe já te adora."
Ela respirou fundo, apertando contra o peito a caixa com algumas de suas coisas. O saguão da mansão era imenso, iluminado por lustres de cristal e paredes com molduras douradas que contavam histórias silenciosas de riqueza e poder. Ela usava um vestido de cetim azul-petróleo que delineava suas curvas com perfeição. O tecido escorregava suavemente por sua pele bronzeada, e o perfume suave que exalava parecia preencher o ambiente ao seu redor.
Lívia, a mãe de Rafael, foi cordial e calorosa. Ofereceu-lhe um chá, elogiou seu vestido e fez perguntas com um sorriso calculado.
— Você e Rafael estão juntos há quanto tempo, querida? — ela perguntou, mexendo lentamente a colher na xícara. — Já pensaram em casamento?
Ângela riu, tímida.
— Ele já falou algumas vezes… Mas não temos pressa.
— Você parece uma boa menina. Ingênua, talvez. Mas boa — observou Lívia, com os olhos apertados. — Uma esposa adequada para alguém como Rafael, se é o que ele procura.
Ângela corou com o comentário. Não sabia dizer se aquilo fora um elogio ou um aviso.
— O quarto dele fica no fim do corredor do segundo andar. Pode subir. Ele deve estar te esperando — completou, apontando com um gesto leve da mão.
A jovem agradeceu e se levantou animada, a caixa apertada nos braços. Subiu os degraus correndo, ansiosa. A madeira nobre estalava sob os saltos delicados, e o coração batia rápido uma mistura de ansiedade e encanto.
Mas ao se deparar com as inúmeras portas ficou confusa, ela seguiu devagar pelo corredor sem saber em qual entrar.
Até avistar a porta que estava entreaberta. Ela empurrou com o ombro e entrou.
O quarto era luxuoso. Cortinas finas e cinzas cobriam a grande janela. O ar estava perfumado e levemente úmido, como se alguém tivesse acabado de sair do banho.
A cama imensa era feita com lençóis brancos macios e almofadas perfeitamente alinhadas.
— Rafael? — chamou, hesitante.
Mas quem saiu do banheiro não era Rafael, um homem alto que aparentava ter seus vinte cinco anos, jovem porte atlético e olhar compenetrado, as sobrancelhas bem alinhadas um pouco grossas e bem escuras assim como seu cabelo era algo que se tornava evidente tornando sua figura ainda mais marcante.
Ele é homem alto, de porte imponente, com os ombros largos e o abdômen definido, enrolado apenas em uma toalha branca. Ele secava o cabelo escuro com outra toalha menor e, ao notar Ângela, arqueou uma sobrancelha com frieza calculada.
A caixa escapou dos braços dela e caiu no chão com um baque seco.
— Mas dona Lívia disse… que esse era o quarto de… — ela gaguejou confusa.
— Típico — murmurou ele, interrompendo com desdém. — O que Lívia está pensando? Jogando mais uma dessas garotas fáceis para me seduzir?
Ele caminhou em sua direção com passos lentos, perigosamente suaves, e agarrou o pulso de Ângela com força.
— D-desculpa, tio… — ela gaguejou, assustada. — Eu não sabia… não era minha intenção…
— está atuando agora? Fazendo pose de menina inocente? O que Lívia encontrou dessa vez? — ele perguntou a analisando de cima abaixo demonstrando curiosidade, com aquele vestido de cetim de alça decote pouco discreto, cintura acentuada e saia solta, ela passava um ar de delicadeza indecifrável.
— Não... foi um engano, eu juro. — ela disse com as bochechas ficando vermelhas apertando os olhos sem lutar.
— O que você quer? Diversão? — rosnou ele, com raiva nos olhos. — Posso pagar quanto quiser. Mas faça o favor de sair da minha frente. Não vou cair em mais uma dessas armadilhas da Lívia. Ela quer que eu engravide uma das suas marionetes pra arrancar direitos sobre o que ela tentou destruir. — ele perguntou se aproximando ainda mais, ela recuou, mas uma das mãos dele a segurou pela cintura.
Ângela arregalou os olhos. Sentia o coração acelerar e as bochechas arderem. Era como se todo o ar tivesse sido sugado do quarto.
— Ângela! — a voz de Rafael explodiu na porta.
Ele entrou ofegante, puxando-a para si com força protetora.
— Desculpa, tio. Ela entrou no quarto errado! — disse Rafael, nervoso, tentando conter a tensão.
Lúcio a encarou por um longo segundo. Ângela abaixou a cabeça, sufocada pela vergonha. O olhar dele parecia perfurar seu corpo.
Rafael a conduziu para fora sem olhar para trás. Eles passaram pelo corredor em silêncio até a escada, onde viram Lívia que passou por eles seguindo até o quarto de Lucio.
— O que você fez? — Rafael perguntou, baixo, furioso.
Ângela abaixou os olhos.
— Eu pensei que era o quarto… seu quarto... sua mãe que disse que era aquele...
— e o que pensou que estava fazendo quando ele segurou em sua cintura? Você pensava em ficar com ele? — claro que não! — ela gritou com lagrimas nos olhos.
— Ângela, você é minha... não se atreva a deixar outro homem te tocar, você não disse que queria ser minha esposa quando nos formássemos? Não aceitou? — ele perguntou com magoa nos olhos e ela percebeu o abraçando.
— eu nunca amaria qualquer outro homem, você é o único que importa, você sabe, além disso seu tio é velho para mim, o que está pensando?
Enquanto isso do lado de fora, Lúcio tinha acabado de se vestir quando saiu em direção a Lívia sua irmã mais velha.
— Você vive na minha casa — a voz de Lúcio soou atrás deles, fria como gelo. — E me jurou que não faria mais isso. Essa garota não tem permissão de voltar a entrar aqui. Nunca mais, não gosto quanto as pessoas invadem meu espaço, ao menos seja grata por eu não permitir que você e esse bastardo apodreça nas ruas!
Lívia sentiu um frio percorrer a espinha. E naquele momento, de forma silenciosa, foi riscada da casa… e da confiança de Lúcio.
Cap.166Ângela seguiu até a cozinha e encontrou a mulher sentada, enquanto os empregados a serviam. Ela mal sabia dizer do que gostava ou não; parecia que nada que era posto na mesa lhe era familiar.Assim que viu Ângela, afastou-se da comida como se estivesse sendo proibida de tocar.— Tia... desde que você foi embora, se casou cedo... a gente não tinha te visto mais. Que saudades! — Ângela disse, indo em sua direção e a abraçando.— Obrigada por me receberem... eu não sabia para onde ir.— Você não precisa ter medo. Quero que more comigo. Vou te oferecer um lar, segurança e, se você quiser, pode me ajudar com os trigêmeos. Preciso de alguém que cuide deles comigo, e eu quero que você tenha uma chance de recomeço também ao meu lado. O que acha?Helena engoliu em seco, os olhos marejados.— Você... faria isso por mim? — sua voz saiu quase sussurrada.— Sim. — Ângela sorriu, sincera. — Todo mundo merece uma segunda chance. Você vai estar segura aqui.Ângela se sentou próxima a ela, olh
Cap.1652 meses depois.Lúcios e Ângela estavam finalmente casados, e agora parecia que as coisas estavam retomando ao seu lugar, ou indo por novos caminhos, já que tudo precisava se realinhar e se reorganizar.Abigail havia deixado de lado os projetos que Ângela também desistira, e agora trabalhava como professora de meio período na faculdade. Mesmo que apenas para ocupar o tempo, parecia que, aos poucos, as determinações de cada um já não faziam mais sentido.Enquanto a aula não começava, ela estava sentada no pátio, conversando com Júnior.— Que engraçado, não é? De repente todas as nossas obstinações se tornaram nada quando Kellen morreu. Quem imaginaria que as nossas ambições estavam dependendo dela para continuar?— Verdade, eu também não vejo motivo para continuar com as pesquisas. Me sinto egoísta por isso, porque devíamos continuar e salvar pessoas.— Mas soube que Lúcios não abriu mão. Ele disse que contratou novos especialistas e que as portas estariam sempre abertas, já qu
Cap.164Arthur pegou o tablet que trazia consigo. Um simples toque fez a tela acender, revelando imagens que Ângela não reconheceu de imediato. Até que o coração dela parou por um instante: era o dia do parto.O vídeo mostrava a correria dos médicos, os equipamentos sendo preparados e, no centro da sala, ela mesma, desacordada e em estado crítico.O som da gravação trazia ordens rápidas, urgentes, e um detalhe a fez prender a respiração: Lúcios. Ela o reconheceu no processo da cirurgia; viu-o cuidando dela, viu o vídeo dele e soube que foi ele quem salvou as crianças e fez o parto acontecer com segurança, sem arredar o pé, os olhos fixos nela como se sua vida dependesse disso.Ângela levou a mão à boca, trêmula.— N-não… — murmurou, em choque. — Pai… não foi o senhor?Arthur a fitou, sério, sem desviar o olhar.— Eu não estava apto para realizar a cirurgia. Se tivesse tentado… teria perdido você e as crianças. — A voz dele vacilou por um instante. — Foi Lúcios quem a salvou. Ele… e ap
Cap.163O dia seguinte amanheceu cinzento, o céu carregado parecia chorar junto com todos. O caixão de Kellen, fechado, repousava diante do pequeno cortejo. Flores brancas o cercavam, mas nada era capaz de aliviar a sensação de tragédia que pairava no ar.Ângela mal conseguia ficar em pé. Os olhos marejados, a pele pálida, o corpo curvado como se todo o peso da dor tivesse se alojado em suas costas.Abigail e Júnior a amparavam de cada lado, sustentando a amiga que parecia desabar a cada passo.Kaedra se aproximou lentamente. O semblante que sempre fora firme agora estava desfeito.O choro vinha em soluços sufocados, o orgulho que sempre a acompanhava tinha desaparecido.Ao se ajoelhar diante do túmulo, a mulher que parecia inabalável se rendeu ao peso da culpa.— Me perdoa, minha filha… — murmurou, com a testa encostada na pedra fria. — Me perdoa pelas vezes que não disse que te amava. Me perdoa por ter escolhido caminhos errados acreditando que te salvaria… quando só te machuquei at
Cap.162Kaedra atravessava o portão principal do hospital apressada, os passos firmes, mas o coração inquieto. Mal teve tempo de respirar quando Miquelangelo surgiu diante dela, o rosto transtornado.— É sua culpa! — gritou, a voz embargada pela fúria e pela dor. — Se não fosse você, Ângela e Kellen nunca teriam sido atacadas! Elas quase foram mortas, Kaedra! Ângela levou uma facada! Você sabe o quanto isso é grave?Kaedra parou, o corpo rígido. O olhar dela vacilou, perdida entre orgulho e culpa.— Eu… eu não sabia que isso aconteceria — murmurou, sem forças. — Sinto muito, Miquelangelo… eu juro que sinto muito.As palavras mal haviam saído quando um som seco, terrível, ecoou alguns metros atrás deles. Algo havia caído com violência, atraindo o olhar dos dois.Miquelangelo foi o primeiro a ver. Não precisou se aproximar para reconhecer. O rosto dele empalideceu instantaneamente, as mãos subiram para cobrir a boca. Ele recuou, cambaleando, balbuciando como se não quisesse acreditar.—
Cap.161O sol entrava timidamente pelas janelas do hospital, refletindo nas paredes brancas e esterilizadas.Ângela abriu os olhos lentamente, sentindo a cabeça pesada, mas logo percebeu que não estava mais em casa, e sim em um quarto de hospital. Não tinha ideia de quando foi socorrida ou do que aconteceu depois. Seu lado doía de forma irritante, a ponto de mal conseguir se mover. Seus olhos se arregalaram ao se lembrar de Kellen, mas suspirou aliviada ao vê-la ali. Ainda assim, a dor em seu corpo a lembrava de que nada do que aconteceu tinha sido mentira; a cena de Kellen e toda aquela loucura estava gravada em sua mente.Ao seu lado, Kellen respirava de forma irregular, os olhos arregalados e molhados de lágrimas.— Kellen… — Ângela chamou baixinho, segurando a mão dela ao se esticar até a cama ao lado. — Está acordada.Kellen se virou, quase tremendo, e encarou a irmã com um olhar que misturava medo, culpa e desespero.Cada lembrança da noite anterior parecia gravada em sua mente







