LOGINLucia
A sala de reuniões estava tão fria como no dia anterior, mas a tensão tinha mudado: transparecia nos pequenos gestos, como a Claudia a esfregar as mãos como se tentasse apagar uma mancha invisível, ou a Claudia a andar de um lado para o outro, a rever pastas que já conhecia de cor. Era o segundo dia de entrevistas e nenhum dos perfis se encaixava. Todos insuficientes para o padrão implacável do Adrián.
Há horas que observava as candidatas a entrar e a sair: todas adequadas no papel, todas marcadas por um desespero que reconhecia em mim mesma, todas descartadas com um aceno de cabeça. Nenhuma tinha ultrapassado aquela barreira invisível que ele erigia sem esforço.
Coloquei outra pasta sobre a mesa, com movimentos automáticos.
—Próxima candidata em dez minutos — informei, a minha voz neutra como sempre.
—Que ela entre já — ordenou Adrián, sem olhar para mim.
—Não pode. Ainda estamos à espera dos relatórios médicos — respondi, firme. Parte do meu trabalho era travar os seus impulsos, evitar que tudo desmoronasse.
Claudia lançou-me um olhar exausto, quase agradecido.
—Obrigada, Lucia. Sem ti, isto seria um caos total.
Acenei com a cabeça, mas a minha mente estava noutro lugar. Não estava totalmente ali.
Mal conseguia manter-me de pé. Desde o amanhecer, o corpo pesava-me o dobro, como se tivesse chumbo nas veias. E não era por causa das entrevistas.
A chamada do hospital tinha chegado às três da manhã, um toque que cortou o silêncio como uma faca.
«A sua mãe teve outra crise. Precisamos que venha imediatamente.»
Corri pelas ruas desertas, o frio a morder-me a pele, as luzes a desfocarem-se devido ao pânico. Quando cheguei, a mãe ofegava, agarrada à cama, à vida, a mim. Os olhos abertos, suplicantes, a pedir algo que não conseguia articular. Os médicos estabilizaram-na por um milagre precário. Eu ainda tremia quando o amanhecer tingiu as janelas de cinzento.
Agora estava ali, a servir água, a organizar papéis, a ouvir como o Adrián rejeitava a décima candidata do dia com um veredicto seco.
—Ela não está preparada — sentenciou ele, fechando a pasta com um estalo.
—Adrián, não podemos descartar toda a gente —replicou a Claudia, a voz quebrada pelo cansaço.
—Não vou confiar a nossa última tentativa a qualquer um.
A palavra «última» flutuou no ar como uma sentença. Claudia pestanejou rapidamente, contendo as lágrimas que ameaçavam derramar-se. Compreendia-os mais do que queria admitir: a dor deles era um espelho distorcido da minha.
Mas enquanto eles falavam do seu desespero, eu só pensava no meu. No formulário que tinha guardado na minha mala no dia anterior. No contrato que tinha visto de relance: o adiantamento, a cirurgia, a possibilidade de a mãe respirar sem máquinas. O pagamento que a poderia salvar.
A minha mão fechou-se num punho debaixo da mesa. A garganta ardia-me. Algo se partiu dentro de mim, algo que já não conseguia conter.
—Há outra candidata — disse de repente, quebrando o silêncio.
Ambos se viraram para mim.
—Quem? — perguntou o Adrián, com a voz afiada como uma lâmina.
Engoli em seco, com o coração a bater-me nos ouvidos como um tambor descontrolado.
—Eu — respondi.
A Claudia arregalou os olhos, surpreendida.
O Adrián endireitou-se, como se não tivesse ouvido bem.
—Repete isso.
—Quero candidatar-me — insisti, mantendo a voz firme, embora por dentro estivesse a desmoronar-me. — Cumpro todos os requisitos: não tenho filhos, estou saudável e conheço o processo melhor do que ninguém.
O silêncio foi brutal, quase tangível, como um peso sobre o peito.
O Adrián reagiu primeiro, com a expressão a endurecer.
—Não. Trabalhas aqui. Não é apropriado. Poderia complicar tudo: legalmente, eticamente.
—Não falou em ser apropriado —contra-ataquei—. Falou em capacidade. Sei o que isso implica e sei que preciso disso tanto quanto vocês.
A Claudia observava-me com uma mistura de desconcerto e compaixão, as mãos a tremer ligeiramente.
—Lucia... por que farias algo assim? Por que agora?
Foi aí que surgiu a fratura. O momento em que deixei de me segurar.
—A minha mãe não tem tempo —confessei, com a voz a falhar pela primeira vez—. Ontem à noite teve outra crise. Não tenho dinheiro para pagar a operação. A única coisa que a pode salvar... é isto. Este pagamento.
Claudia cobriu a boca com uma mão, abafando um suspiro. Adrián franziu o sobrolho, a processar a informação.
—Isso não garante nada —objeu ele, num tom clínico—. É uma gravidez: riscos, obrigações, consequências emocionais. Não podes tratar isto como uma simples troca.
—Não é simples — admiti, as palavras a saírem como veneno —. Não é para ninguém nesta sala. Mas sei que sou capaz. E sei que vocês precisam de alguém de confiança. Não posso perdê-la, Adrián. Não posso.
Ele sustentou o meu olhar: forte, desconfortável, afiado como um bisturi. A avaliar-me, a dissecar-me.
Havia algo perturbador em ser olhada assim por ele. Não da mesma forma que os outros me olhavam — com indiferença ou com o desdém educado que reservam para o pessoal de apoio. Era um olhar que pesava. Que contava. E tive de me lembrar, com mais firmeza do que o necessário, que estava sentada diante do meu chefe na pior circunstância possível da minha vida, e que aquele peso no peito não era nada que merecesse nome.
—Sabes o que implica carregar um filho que não é teu? Entregá-lo depois, como se nada fosse?
—Sei que dói — respondi sem hesitar. — Mas dói mais vê-la morrer por falta de dinheiro.
Claudia olhou para o marido, a voz suave mas urgente.
—Adrián... por favor. Ouve-a.
Ele não respondeu de imediato. Deu alguns passos, pensativo, ponderando os riscos como se fossem números num balanço.
—Quero que o médico a examine ainda hoje —disse ele finalmente—. Se algo não bater certo, fica descartado. Sem exceções.
—Ele aceitou —afirmei, o alívio misturando-se ao terror.
Claudia levantou-se e pegou-me nas mãos, os seus dedos frios contra os meus.
—Lucia... obrigada. Não sei se isto é coragem ou loucura. Mas obrigada.
Não soube o que dizer. Só sabia que, pela primeira vez em dias, sentia uma saída. Uma única
Lua de melPOV Lola«Tecnicamente, isto não é lua de mel», digo enquanto Lorenzo se senta em cima do Adrián no banco de trás do carro que conduz pela costa siciliana. «A lua de mel é suposto ser só o casal. Não o casal mais três crianças de seis anos com energia ilimitada.»«É uma lua de mel perfeita», diz Adrián, empurrando gentilmente Lorenzo de volta para o seu lugar. «Lorenzo, cinto. Agora.»«Mas eu quero ver melhor.»«Consegues ver perfeitamente do teu lugar. Com. O cinto. Aposto.»«Estatisticamente, viajar sem cinto de segurança aumenta em trezentos por cento as probabilidades de lesões graves em caso de acidente», diz Leonardo, sem tirar os olhos do livro sobre a história da Sicília que comprou no aeroporto.«Obrig
O casamentoO sol siciliano brilha na perfeição sobre a villa De Rossi. Não há nuvens. Não há vento excessivo. A temperatura está exatamente certa para junho na Sicília. Como se até o clima conspirasse para tornar este dia perfeito.O jardim está transformado num cenário de conto de fadas. Milhares de luzes de fada que vão brilhar quando a noite cair. Rosas brancas e hortênsias azuis por todo o lado. O arco onde as cerimónias vão decorrer está coberto de flores que cheiram a jasmim e a verão. Duzentos convidados estão sentados em cadeiras brancas com almofadas de seda, abanando-se gentilmente contra o calor do meio-dia siciliano.Nos bastidores, como os jovens lhe chamam, o caos é controlado. Por pouco.Helena está com o vestido vestido, uma elegante criação cor de champanhe que a f
Preparativos para o casamentoTrês meses depois — Villa De Rossi, SicíliaA villa que a família de Alessandro possui há várias gerações está num caos maravilhoso. Há flores por todo o lado à espera de serem arranjadas. Caixas de decorações empilhadas no átrio. Pessoas a ir e vir com pranchetas e telefones colados às orelhas. E no meio de tudo isto, três crianças de seis anos a «ajudar» de formas que são mais divertidas do que úteis.Carla DeMarco, que foi trazida de Nova Iorque especificamente para esta loucura, está parada no centro do pátio com um tablet numa mão e um café expresso na outra, a coordenar como um general a comandar tropas.«Lorenzo, não toques nessas flores», diz ela sem sequer se virar. Aparentemente, desenvolveu olhos na nuca. &
Alessandro e Helena tambémPOV HELENAEstou parada na cozinha a ver a minha família a celebrar, com o coração tão cheio que até dói. O Adrián a virar panquecas com a Lola ao seu lado. As três crianças nos bancos a falarem todas ao mesmo tempo sobre o casamento. Risos a preencher o espaço que durante tanto tempo esteve demasiado silencioso depois da morte do meu marido.Sinto uma mão na minha lombar. É o Alessandro. Ele tem estado sempre presente nas últimas semanas. A apoiar-me. A sustentar-me. A ser exatamente o que eu precisava, sem que eu tivesse de pedir.«Estás bem?», pergunta ele em voz baixa.«Mais do que bem. Estou feliz. Genuinamente feliz pela primeira vez em anos.»«Faz-te bem. A felicidade.»Viro-me para olhar para ele. Este homem que conheci há apenas alg
As crianças descobremPOV LORENZOA avó Helena levou-nos de volta para casa no sábado de manhã, depois de termos dormido na casa dela. Foi divertido. Comemos pizza ao jantar. Vimos dois filmes. Ela deixou-nos ficar acordados até tarde. Mas algo parecia estranho durante toda a noite. Como se ela soubesse algo que nós não sabíamos.«Por que é que a mamã e o papá Adrián precisavam de uma noite sozinhos?», perguntei enquanto o carro estacionava em frente à mansão.«Os adultos precisam de tempo juntos às vezes», diz a avó com um sorriso misterioso. «Vocês vão ver.»«Isso não é uma resposta a sério», diz o Leonardo, ajeitando os óculos. «Isso é uma evasiva verbal destinada a evitar uma pergunta direta.»&laqu
O pedido de casamentoPOV ADRIÁNTenho vindo a planear isto há uma semana. Desde o momento em que a direção me reintegrou, desde que todo o caos finalmente se acalmou, soube que estava na hora. Não porque devesse. Não porque é o que se espera. Mas porque não consigo imaginar passar mais um dia sem que a Lola seja oficialmente minha em todas as formas possíveis.O anel está no bolso do meu casaco, a arder como se fosse radioativo. Fui eu que o desenhei com um joalheiro, que precisou de três reuniões para perceber exatamente o que eu queria. Uma pedra em forma de coração no centro. Não é um diamante redondo tradicional. Um coração de dois quilates de diamante rosa pálido, porque a Lola não é uma mulher tradicional e merece um anel que reflita isso. Engastado em platina com pequenos diamantes a rode







