Share

CAPÍTULO 2

last update publish date: 2025-12-18 23:20:56

ANYA DEVEREUX.

Há guerras e perdas externas… e há perdas e guerras que moram no coração dela.

Minutos depois, vestida com um vestido azul-claro que minha mãe escolheu e com os cabelos penteados com cuidado pelas mãos habilidosas de Samira, saio do quarto ao lado de minha mãe. O castelo parece maior hoje — mais frio, mais imponente, mais distante de mim do que jamais esteve. Cada passo ecoa pelos corredores largos de pedra como se a própria estrutura quisesse me lembrar de que não sou dona da minha vida, nunca fui, e talvez nunca serei.

Antes de entrarmos na sala de jantar, minha mãe segura meu braço com firmeza, seus dedos apertando minha pele através do tecido.

— Não discuta, Anya. Seu pai quer o seu bem… e o do povo. — Sua voz é baixa, urgente.

Solto um riso curto, sem humor, seco como folhas mortas.

— O meu bem? Desde quando? — balanço a cabeça, incrédula. — Papai só se importa em ser um monarca exemplar, mesmo quando todos sabem que ele não sabe lidar com o que está acontecendo em  Elderin. Mesmo quando o reino sangra por causa das escolhas dele.

— Fale baixo! — Ela sussurra desesperada, olhando ao redor como se as paredes pudessem nos denunciar. — Se ele te ouvir, trará problemas para mim e para você. Você sabe como ele é.

— Me perdoe. — Respiro fundo, tentando acalmar o coração que b**e descompassado. — Vou tentar. Mas não será fácil.

Ela solta meu braço lentamente, como se estivesse liberando algo precioso e frágil. A porta se abre, e caminho para a mesa pesada de madeira escura, forçando o estômago embrulhado a aceitar qualquer coisa. Desde a noite passada, desde o que mamãe me contou sobre os planos de meu pai, a comida perdeu completamente o sabor. Tudo parece cinza, sem vida.

— Bom dia, Anya! Dormiu bem? — Papai pergunta do outro lado da mesa, sorrindo como se nada estivesse acontecendo, como se não estivesse prestes a destroçar o que resta da minha vida.

Eu o encaro e me sinto reduzida a uma moeda de troca, um objeto útil apenas quando conveniente.

— Bom dia. Não muito bem, mas o cansaço venceu — respondo, sentando-me na cadeira que sempre ocupo, meu lugar designado nesta farsa que chamamos de família.

Mamãe se senta à minha frente, do outro lado da mesa. Seus olhos suplicam silenciosamente para que eu colabore, para não transformar este café em um campo de batalha.

— Bom dia, família! — Helena surge radiante como sempre, quase pulando ao entrar na sala, sentando-se ao meu lado com sua energia contagiante. — O que temos hoje, titio?

Meu pai nem olha para ela, como se sua presença fosse irrelevante. Seu foco está inteiramente em mim, e isso me faz querer desaparecer.

— Ontem à noite, retornei do condado de Aldirin. Estava conversando com o soberano. — Meu coração trava no peito, parando de bater por um segundo inteiro. — Ele aceitou minha proposta.

Helena praticamente pula na cadeira, animada com qualquer novidade.

— Sério, titio?! — Ela ri, levando um pedaço generoso de bolo à boca. — Já até imaginei o vestido de casamento! Vai ser lindo, tenho certeza!

Meu pai nem ao menos dá ouvidos para o que ela acabou de dizer.

— Anya, ele aceitou que você seja a mulher do futuro rei de Aldirin. — As palavras saem da boca dele como se fossem simples, como se não estivesse decidindo meu destino sem me consultar.

Mas a leveza dela morre abruptamente no instante seguinte, congelando no ar. Helena se engasga violentamente com o bolo, tossindo, e mamãe corre para ajudá-la, batendo em suas costas. Paro de respirar completamente, como se o ar tivesse sido sugado da sala.

— Ma… mas ela já foi casada com Victor… o falecido filho do soberano! — Helena consegue dizer entre tosses, com os olhos arregalados de choque.

— Sim. — Papai responde com uma calma assustadora. — E por isso mesmo ele aceitou.

A frase atinge meu peito como uma lâmina fria, cortando fundo.

— Como assim? — Mamãe pergunta, atônita, parando de ajudar Helena para encará-lo.

Abaixo a cabeça e aperto minhas mãos com força sob a mesa, as unhas cravando nas palmas. As lágrimas ameaçam se juntar, queimando atrás dos olhos.

— Não haverá um novo casamento. — Papai continua, como se estivesse explicando algo óbvio. — Apenas a tradição será cumprida. O irmão solteiro deve se casar com a viúva do irmão falecido. É costume antigo em Aldirin. Orion está voltando da guerra. Assim que ele retornar, Anya irá para o castelo como esposa dele.

— Mas eu não quero… — Levanto a cabeça bruscamente, encontrando o olhar dele, escuro e duro como pedra. — Não quero ser esposa de ninguém! Victor foi… e sempre será o meu marido. Eu o amei. Eu o amo. — Minha voz quebra na última palavra.

— Você tem deveres como princesa de Elderin. — Ele b**e a mão na mesa com força, e o som reverbera pelo salão inteiro, fazendo a louça tremer. Pulo na cadeira, assustada.

— Eu só quero viver meu luto… — As lágrimas finalmente caem, escorrendo quentes pelas minhas bochechas. — Só quero isso. É muito pedir?

— Já se passou um ano! — Ele se exalta, a voz subindo de volume. — Não pode passar a vida inteira naquela floresta ou trancada no quarto, definhando. O reino precisa de você.

— Eles se encontravam lá às escondidas, sabe? — Helena comenta com desdém, como se fosse uma fofoca divertida que ela guardava há tempo. — Na floresta. Era romântico, mas também…

Meu sangue ferve instantaneamente.

— Então casa você com esse homem! — digo, encarando-a, depois olhando para papai com toda a raiva que consigo reunir. — Nem o conheço! Ele nem veio ao casamento do irmão, nunca visitou  Elderin desde que me casei com Victor. É um estranho completo para mim!

— Helena não pode se casar com um príncipe, pois ela não é filha de um rei! — O brilho nos olhos dela apaga na mesma hora, como uma vela soprada. — Orion é um soldado, um guerreiro. Ele não tem tempo para futilidades como visitas e festas. Ele protege seu povo, luta por eles.

— Ela é filha da sua irmã, Jeremy — mamãe sussurra baixinho, pegando sua xícara de chá com as mãos trêmulas.

— Sim. Fruto de uma traição. — Ele olha para Helena com uma crueldade fria nos olhos. — Só está aqui porque minha mãe a escondeu da vergonha pública e, por causa da traição da mãe dela, perdeu seu título.

Helena baixa a cabeça, e posso ver suas mãos tremendo sobre o colo. Meu coração dói por ela, apesar da minha própria dor.

— Para que falar assim? — Mamãe pergunta, magoada, a voz falhando. — Ela não merece isso, Jeremy.

— É a realidade, Isabella. — ele responde, indiferente ao estrago que suas palavras causam.

— Eu não tenho culpa… — Helena murmura, quase sem voz, tão baixo que mal consigo ouvir.

— Não, não tem. — Papai suspira, como se estivesse cansado desta conversa. — Anya, arrume suas coisas. Você irá para Aldirin em alguns dias e, assim que Orion retornar, consumará a união. Não há mais nada a discutir.

— Mas eu não…

— Eu já decidi. — Ele me corta com firmeza absoluta. — Você está debaixo do meu teto, come da minha comida, vive da minha riqueza. E fará o que eu mandar.

— Tudo isso é culpa sua! — exclamo, sem pensar, sem conseguir me conter. — Se não gastasse fortunas com mulheres, jogos, bebidas e festas extravagantes, teríamos o suficiente para o reino! Para o povo que passa fome! Eu não precisaria ser vendida!

— Filha — mamãe tenta me interromper, o terror estampado no rosto.

— Não, mãe! — Minha voz treme violentamente, mas não paro. — Eu não sou moeda de troca! — Olho para ele. — Não sou um fardo para carregar quando o senhor decide que sou útil! Sou uma pessoa! Sou sua filha!

Ele se levanta lentamente, imponente, dominando a sala com sua presença opressora.

— Me respeite, Anya. — Sua voz é baixa, perigosa.

— Onde está o seu respeito por mim, papai? — pergunto, com lágrimas escorrendo livremente agora, sem pudor. — Sou sua filha… não sou uma aliança política.

— Querendo ou não, será mulher do príncipe Orion — ele declara, como se fosse uma sentença final. — Ele te ensinará a ser esposa, já que sua mãe não soube ensinar. — Ele olha para mamãe com desdém profundo, e ela baixa a cabeça, ferida, humilhada.

Meu corpo inteiro treme de raiva e impotência.

— Se eu tiver que ir… — minha voz sai trêmula, mas determinada — farei de tudo para que ele me rejeite! Vou ser impossível de suportar!

— Se isso acontecer — ele diz, sua voz fria como gelo — você será rejeitada por mim também. Nunca mais será bem-vinda neste castelo. Entendeu?

Sinto o chão desaparecer sob meus pés, como se estivesse caindo em um abismo sem fim.

— Jeremy! — Mamãe grita, levantando-se bruscamente. — Ela é a nossa única filha… — mas ele a ignora completamente.

— Sente-se e tome seu café. Em silêncio. — Ele ordena, voltando a se sentar como se nada tivesse acontecido.

— Perdi o apetite — digo, virando-me para sair, as pernas bambas.

Saio da sala com passos rápidos, quase correndo, ignorando a voz trêmula e desesperada de minha mãe me chamando. Quando alcanço o corredor frio de pedra, o ar me falta completamente, como se alguém estivesse apertando minha garganta. Então corro. Corro para longe daquela sala sufocante, daquela mesa cruel, daquele destino que me espera como uma prisão.

Corro para longe daquilo que tenta me aprisionar, mesmo sabendo que não há para onde fugir.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • PROMETIDA AO REI.   CAPÍTULO BÔNUS 3

    O RETORNO.ANYA DOMINUS.Há tronos que cobram mais do que governam.Quando Orion finalmente volta, dois meses depois de partir, eu o vejo antes mesmo que ele atravesse os portões do castelo.Estou na torre leste — o lugar de onde consigo ver a estrada principal — esperando.Como tenho esperado todos os dias.Todas as manhãs.Todas as tardes.Victória está ao meu lado, brincando com uma boneca de pano, mas meus olhos estão fixos no horizonte.E então…Eu o vejo.A silhueta familiar montada em Tempestade, a capa azul escura ondulando ao vento, a cavalaria o acompanhando.Meu coração dispara.Corro.Desço as escadas tão rápido que quase tropeço na própria saia, ignorando os gritos assustados das criadas, ignorando tudo exceto a necessidade desesperada de chegar até ele.Atravesso o pátio principal no momento exato em que ele desmonta.— Orion! — grito, sem me importar com quem está ouvindo.Ele se vira.E no segundo em que nossos olhos se encontram…Eu sei.Simplesmente sei.Pelo jeito q

  • PROMETIDA AO REI.   CAPÍTULO BÔNUS 2

    A JORNADA À PÉRSIAORION DOMINUS.Quando a justiça é herdada, a culpa também é.Um mês.Um maldito mês de viagem através de desertos escaldantes que parecem sugar a vida de cada célula do corpo, montanhas traiçoeiras onde um passo em falso significa morte, e estradas que serpenteiam através de territórios instáveis onde bandidos espreitam nas sombras.Mas finalmente, no horizonte distante, tremulando no ar quente como miragem que ameaça desaparecer a qualquer momento…As torres douradas da Pérsia se erguem.Altas.Imponentes.Impossíveis de ignorar.O Reino de Ashar. Capital do império persa.Lar do Rei Kerym Ashari.Já lutei ao lado dele — todos ouviram a história de como ele lutou cercado de cem homens da tropa inimiga e de como, sozinho, os derrubou. Lutamos lado a lado naquele dia — eu segurando o flanco oeste enquanto ele massacrava os inimigos com uma eficiência brutal que até hoje me impressiona.O Rei Implacável.O Conquistador do Leste.A fênix da Pérsia.O homem que, ao lad

  • PROMETIDA AO REI.   CAPÍTULO BÔNUS 1

    “CARTAS DA PÉRSIA”ANYA DOMINUS.O mundo não é justo com quem sonha. Nunca foi.A tarde está quente demais para o outono.Estou sentada na biblioteca do castelo, folheando um livro sobre ervas medicinais que o médico real me emprestou há alguns dias, quando uma criada entra apressada, quase tropeçando na própria saia. Ela segura uma carta lacrada com cera verde-escura — uma cor que não reconheço imediatamente.— Alteza — ela se curva, estendendo o envelope com as mãos tremendo levemente. — Chegou com o mensageiro que veio das terras ao sul. Ele disse que era urgente. Muito urgente.Meu estômago se contrai.Cartas urgentes raramente trazem boas notícias.Pego o envelope, agradecendo com um aceno gentil, e espero a criada sair antes de romper o lacre com os dedos trêmulos.A cera se quebra com um estalo seco.Desdobro o papel — amarelado, manchado pelo tempo e pela viagem — e meus olhos correm pelas primeiras linhas.A caligrafia é tremida, apressada, como se tivesse sido escrita às pre

  • PROMETIDA AO REI.   EPÍLOGO - PARTE 3

    ORION DOMINUS.Nunca teve tanto medo — nem tanto prazer — em obedecer.Eu sorrio e faço um gesto com a cabeça. — Vá. Eu te encontro em um minuto.Ela revira os olhos, mas se deixa levar pela multidão feminina, desaparecendo entre os véus e vestidos coloridos. Eu sigo em direção ao trono elevado na frente do salão. Soldados me param no caminho, apertando minha mão, batendo no meu ombro, agradecendo. Eu respondo a cada um, ouvindo histórias rápidas de bravura, de camaradagem.Finalmente, chego ao trono.Mas antes que eu possa me sentar… Uma mulher surge ao meu lado.Alta, cabelos vermelhos como fogo, caindo em ondas sobre os ombros nus. Vestido vermelho justo demais, decote baixo demais. Olhos pintados de negro que me estudam com interesse descarado.— Alteza — ela diz, a voz arrastada, doce demais para ser sincera. — Onde está a rainha?Eu a encaro, frio.— Não é da sua conta.Ela pisca, surpresa pela rispidez, mas se recupera rapidamente, sorrindo como se eu tivesse feito uma piada.

  • PROMETIDA AO REI.   EPÍLOGO - PARTE 2

    ORION DOMINUS.Reinos se erguem com espadas. Lares, com escolhas.O sol está se pondo quando o último soldado inimigo se rende.A planície está coberta de fumaça, sangue, armas abandonadas.Mas estamos vivos.Vencemos.Anya desmonta de Estrela antes de mim, os movimentos cansados, mas firmes.Eu salto de Tempestade e corro até ela, ainda com a adrenalina pulsando.— Está ferida? — pergunto desesperado, segurando-a pelos ombros, procurando cortes, sangue, qualquer sinal de dano. Ela responde com um sorriso cansado, suado, mas genuíno.— Só viva.Eu seguro o rosto dela entre as mãos sujas de batalha.E a beijo.Não como um rei.Não como um guerreiro.Mas como o homem que só respira porque ela existe.Quando nos afastamos, ela olha as bandeiras de Aldirin e de outros reinos sendo erguidas novamente no horizonte, tremulando vitoriosas.— Acabou? — ela pergunta, a voz pequena, esperançosa.Eu olho o horizonte tingido de laranja e vermelho pelo pôr do sol.Pela primeira vez em anos…Não vej

  • PROMETIDA AO REI.   EPÍLOGO - PARTE 1

    ORION DOMINUS.Não marcharam por glória — marcharam por pertencimento.O vento do Norte sempre carregou duas coisas: frio e ameaça.Durante anos, o reino deles sussurrou sobre vingança. Sobre retomar território. Sobre sangue real derramado.E agora, cinco anos depois…Eles ousaram atacar nossas fronteiras.Eles erraram o alvo. Porque mexeram com o que é meu.Com minha família.Com Aldirin.Com ela.E por isso… hoje marchamos.Não por glória.Não por guerra.Mas por justiça👑O exército se estende como um mar de aço atrás de mim — milhares de homens e mulheres, espadas cintilando sob o céu cinzento carregado de nuvens pesadas. Cavalos relincham impacientes, batendo cascos contra a terra fria. Bandeiras de Aldirin e de outros reinos tremulam violentamente ao vento, o azul e prata dançando como chamas vivas. O ar ferve com expectativa, com tensão, com a promessa de sangue.Meu cavalo negro — Tempestade, o mesmo que cavalgo há anos — bate o casco no chão repetidamente, inquieto, sentindo

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status