LOGINAs lágrimas ardem em meus olhos enquanto corro pelos corredores intermináveis do castelo, cada passo ecoando contra as paredes de pedra fria. A cada movimento, o peso esmagador das palavras de meu pai me esmaga um pouco mais, como se carregasse pedras sobre os ombros. Não posso mais ficar ali, respirando aquele ar sufocante, suportando aqueles olhares. Preciso de ar, de espaço, de liberdade... das lembranças que me ajudam a esquecer toda a dor e a pressão implacável que me cercam como uma prisão invisível.
Assim que chego à porta principal, ofegante e com o coração disparado, o estábulo está à vista. Meu coração, ainda em pedaços, b**e rápido demais — não apenas pela discussão violenta com meu pai, mas pela necessidade urgente e desesperada de me refugiar no único lugar que me resta de Victor, o lugar sagrado que ninguém poderá tirar de mim, não importa o quanto tentem.
Então, corro e entro no estábulo, avistando Sable imediatamente, o magnífico cavalo negro que ele me deu de presente meses antes de partir. Suas orelhas se levantam ao me ver, alertas e atentas, como se soubesse exatamente o que se passa em minha alma atormentada. Passo a mão pela sua crina macia e sedosa, buscando conforto desesperado em sua presença sólida e reconfortante. Sorrio em meio às lágrimas que não param de cair ao lembrar da escolha carinhosa de seu nome, de como Victor sempre pensava em cada detalhe quando se tratava de mim.
Flashback on…
— Por que esse nome? — pergunto curiosa, passando a mão admirada pela pelagem lisa e brilhante do cavalo.
— Sable é uma palavra inglesa que significa “zibelina”, um pequeno animal de florestas frias da Sibéria, famoso por sua pelagem negra, macia e rara. Durante séculos, a pele da zibelina foi símbolo de luxo e poder, usada por reis e imperadores como prova de riqueza. — Ele sorri, aquele sorriso que sempre me desarma. — Assim como a zibelina, o cavalo que você recebe carrega em sua pelagem a mesma aura de elegância e mistério. Negro, ágil, precioso. Um presente que não é apenas raro, mas também um tributo à sua própria força e beleza.
— Gostei do nome. — digo, acariciando o focinho do animal.
— Tem que combinar com você, com quem vai recebê-lo. — Victor se aproxima, colocando a mão sobre a minha. — Sable é um nome elegante e sofisticado, que evoca a beleza e a força do cavalo. É uma boa escolha para alguém especial.
— Por quê? — pergunto, virando-me para encará-lo.
— Você é delicada e romântica, aprecia a beleza e a elegância das coisas simples. — Seus olhos brilham enquanto fala. — Então, ele tem que combinar com você, tem que ser digno de quem o recebe. — Sorrio amplamente e o abraço com força, sentindo seu perfume me envolver.
— Amei o presente. Amei cada detalhe dele.
Flashback off.
— Você também sente a falta dele, né? — sussurro para Sable, a voz embargada. Ele relincha alto, abaixa e levanta a cabeça várias vezes seguidas, como se confirmasse exatamente o que eu disse, como se compartilhasse da minha dor. — Vamos, amigo. Preciso de você mais do que nunca! Leve-me para o nosso lugar seguro, para onde ainda posso senti-lo perto.
Com um único impulso ágil, subo na sela sem auxílio de ninguém — algo que aprendi com Victor — e logo estamos galopando velozmente pelos campos verdes ao redor do castelo. O vento forte b**e em meu rosto com violência, secando as lágrimas salgadas que teimam em cair sem parar. Sable corre com vigor renovado, como se estivesse tão saudoso quanto eu de estar no nosso lugar favorito, nosso santuário secreto. O bosque denso, nosso refúgio sagrado e proibido, aparece à frente, majestoso e acolhedor, como sempre esteve, esperando pacientemente por nós.
As folhas secas estalam ruidosamente sob os cascos fortes de Sable enquanto seguimos devagar pelo caminho familiar e sinuoso até a clareira escondida. Quando avisto a pequena cabana rústica oculta estrategicamente entre as árvores antigas, meu coração se aperta dolorosamente no peito. É ali que tudo começou, onde nossa história nasceu… onde nos encontrávamos às escondidas, longe dos olhares atentos e julgadores da corte e dos dedos apontados com desaprovação.
Desço do cavalo com cuidado, acaricio sua crina uma última vez com gratidão e o deixo livre para pastar tranquilamente. Sigo a pé lentamente até a entrada da cabana, cada passo pesado de memórias. Empurro a porta de madeira com cuidado reverente, como se o passado ainda estivesse lá dentro, vivo e pulsante, à minha espera. Dentro, tudo parece assustadoramente intocado, congelado no tempo. O cheiro amadeirado e familiar ainda preenche o ar denso, e as poucas lembranças preciosas que deixamos aqui me envolvem de uma maneira profundamente dolorosa e reconfortante ao mesmo tempo.
Passo a mão devagar pelos poucos móveis simples, sentindo a textura áspera da madeira sob meus dedos, até chegar à nossa cama. Passo a mão reverente por ela, sentindo o tecido gasto, e desabo ali, sem forças. Sento-me no chão frio de madeira, abraçando meus joelhos com força enquanto as memórias voltam, uma a uma, implacáveis e vívidas. Fecho os olhos com força e sou imediatamente transportada para aquele dia distante e perfeito.
Flashback on...
Estou no jardim do castelo, cuidando carinhosamente das rosas vermelhas, quando ouço vozes masculinas ao longe. Meu pai mencionou mais cedo que o rei Kholyn nos visitaria hoje em assuntos diplomáticos, mas não esperava ver seu filho, o príncipe Victor, acompanhando-o. Enquanto arrumo delicadamente as flores, organizando-as com atenção, sinto uma presença forte se aproximando. Levanto o olhar curioso e ele está lá, parado a poucos metros de mim, observando-me com um sorriso discreto, mas encantador.
— Gosta de flores? — ele pergunta, a voz suave, profunda e genuinamente curiosa.
Assinto devagar, sentindo o coração acelerar perigosamente com sua proximidade inesperada, algo que nunca senti com nenhum outro homem antes. Claro que ele é extremamente bonito — já o tinha visto algumas vezes pelo condado, até mesmo quando fui ao castelo de Aldirin com meu pai em visitas oficiais — porém nunca tínhamos conversado diretamente, nunca tínhamos trocado mais que olhares rápidos.
— Sim... são minha verdadeira paixão. — respondo tentando manter a voz firme. — E você? Também aprecia?
Victor dá alguns passos decididos até mim, aproximando-se com naturalidade, olhando para as flores com interesse genuíno e profundo.
— Tenho uma estufa inteira no castelo do meu pai — ele diz, os olhos claros brilhando intensamente enquanto observa meu jardim com admiração. — Sempre me fascinei pela delicadeza aparente e pela resistência oculta delas. Mesmo com as piores condições adversas, mesmo quando tudo conspira contra, as flores sempre encontram uma maneira de florescer. É admirável.
A simplicidade sincera de suas palavras me encanta profundamente, tocando algo dentro de mim. Ele não é apenas um príncipe arrogante e frescurento como imaginei que seria, mas alguém sensível que parece enxergar a beleza verdadeira naquilo que muitos consideram trivial ou insignificante. Continuamos conversando naturalmente e, ao passar das horas, sinto uma conexão inexplicável e poderosa crescendo entre nós, algo que vai além das palavras.
👑
Nos dias que se seguiram, comecei a receber visitas cada vez mais frequentes de Victor, e nos encontramos sempre aqui no jardim, entre as rosas e os jasmins. Sei perfeitamente que isso é arriscado, que os olhos vigilantes do castelo estão sempre atentos a cada movimento meu, ainda mais depois que papai deixou claro que estou prometida a alguém que ele se recusa a nomear. Claro que cresci ouvindo que me casaria com um príncipe e que, quando completei dezessete anos, foi oficializado o contrato do casamento. Mas há algo magnético em Victor que me puxa irresistivelmente para ele. Ele não é como os outros nobres vazios que conheço — fala com verdadeira paixão sobre suas flores, seus sonhos de um reino melhor, seus ideais. E o modo intenso como ele me olha, como se estivesse me vendo de verdade... parece que vê algo precioso em mim que ninguém mais jamais viu... não sou apenas uma troca que eles acham justa, sou uma pessoa.
Nossas conversas logo mudam naturalmente de tom. Não falamos mais apenas sobre plantas e jardins, mas também sobre nossos desejos mais profundos, nossos medos secretos e o futuro incerto que sonhamos construir. Cada encontro é progressivamente mais intenso e íntimo, e sinto claramente que algo poderoso cresce entre nós, algo que vai muito além das palavras trocadas.
Já se passaram longos meses desde nosso primeiro encontro. Meu pai disse recentemente que está apenas esperando o homem misterioso a quem estou prometida voltar para sua terra natal, para que finalmente eu o conheça e aceite meu destino. Claro que perguntei insistentemente quem é esse homem, mas não obtive resposta alguma, apenas evasivas irritantes. Assim como também falei abertamente que não queria me casar com o tal desconhecido, pois estava genuinamente interessada em outra pessoa, em alguém que realmente me conhecia. Papai, como sempre inflexível, disse friamente que era para eu tirar essa ideia absurda da cabeça imediatamente e pensar apenas em meu futuro marido arranjado.
“Mas como pensar em alguém que nem sequer vi” Essa pergunta angustiante paira constantemente sobre minha cabeça, apesar de Victor ser o único homem que visita meus dias e rodeia completamente meus pensamentos, acordada ou sonhando.
Saí cedo de casa hoje, antes que alguém pudesse me questionar, e fui diretamente para a clareira secreta, onde Victor descobriu que é meu refúgio particular. Agora, nos encontramos ali com frequência, rindo juntos de algo bobo que ele disse, quando, de repente, ele para abruptamente e me encara com seriedade, seus olhos profundos e penetrantes fixos intensamente nos meus. O silêncio repentino entre nós é denso, cheio de expectativa palpável. Então, ele se inclina devagar, com cuidado extremo, como se pedisse permissão silenciosa, e seus lábios finalmente tocam os meus — suaves, quentes e perfeitos.
Meu coração dispara violentamente no peito. É o nosso primeiro beijo, o momento que muda tudo. O mundo inteiro parece parar de girar, e, naquele instante suspenso no tempo, percebo com clareza absoluta que já não posso mais fugir do que sinto tão profundamente e muito menos me casar com quem não está constantemente em meus pensamentos e, principalmente, firmemente enraizado em meu coração.
O RETORNO.ANYA DOMINUS.Há tronos que cobram mais do que governam.Quando Orion finalmente volta, dois meses depois de partir, eu o vejo antes mesmo que ele atravesse os portões do castelo.Estou na torre leste — o lugar de onde consigo ver a estrada principal — esperando.Como tenho esperado todos os dias.Todas as manhãs.Todas as tardes.Victória está ao meu lado, brincando com uma boneca de pano, mas meus olhos estão fixos no horizonte.E então…Eu o vejo.A silhueta familiar montada em Tempestade, a capa azul escura ondulando ao vento, a cavalaria o acompanhando.Meu coração dispara.Corro.Desço as escadas tão rápido que quase tropeço na própria saia, ignorando os gritos assustados das criadas, ignorando tudo exceto a necessidade desesperada de chegar até ele.Atravesso o pátio principal no momento exato em que ele desmonta.— Orion! — grito, sem me importar com quem está ouvindo.Ele se vira.E no segundo em que nossos olhos se encontram…Eu sei.Simplesmente sei.Pelo jeito q
A JORNADA À PÉRSIAORION DOMINUS.Quando a justiça é herdada, a culpa também é.Um mês.Um maldito mês de viagem através de desertos escaldantes que parecem sugar a vida de cada célula do corpo, montanhas traiçoeiras onde um passo em falso significa morte, e estradas que serpenteiam através de territórios instáveis onde bandidos espreitam nas sombras.Mas finalmente, no horizonte distante, tremulando no ar quente como miragem que ameaça desaparecer a qualquer momento…As torres douradas da Pérsia se erguem.Altas.Imponentes.Impossíveis de ignorar.O Reino de Ashar. Capital do império persa.Lar do Rei Kerym Ashari.Já lutei ao lado dele — todos ouviram a história de como ele lutou cercado de cem homens da tropa inimiga e de como, sozinho, os derrubou. Lutamos lado a lado naquele dia — eu segurando o flanco oeste enquanto ele massacrava os inimigos com uma eficiência brutal que até hoje me impressiona.O Rei Implacável.O Conquistador do Leste.A fênix da Pérsia.O homem que, ao lad
“CARTAS DA PÉRSIA”ANYA DOMINUS.O mundo não é justo com quem sonha. Nunca foi.A tarde está quente demais para o outono.Estou sentada na biblioteca do castelo, folheando um livro sobre ervas medicinais que o médico real me emprestou há alguns dias, quando uma criada entra apressada, quase tropeçando na própria saia. Ela segura uma carta lacrada com cera verde-escura — uma cor que não reconheço imediatamente.— Alteza — ela se curva, estendendo o envelope com as mãos tremendo levemente. — Chegou com o mensageiro que veio das terras ao sul. Ele disse que era urgente. Muito urgente.Meu estômago se contrai.Cartas urgentes raramente trazem boas notícias.Pego o envelope, agradecendo com um aceno gentil, e espero a criada sair antes de romper o lacre com os dedos trêmulos.A cera se quebra com um estalo seco.Desdobro o papel — amarelado, manchado pelo tempo e pela viagem — e meus olhos correm pelas primeiras linhas.A caligrafia é tremida, apressada, como se tivesse sido escrita às pre
ORION DOMINUS.Nunca teve tanto medo — nem tanto prazer — em obedecer.Eu sorrio e faço um gesto com a cabeça. — Vá. Eu te encontro em um minuto.Ela revira os olhos, mas se deixa levar pela multidão feminina, desaparecendo entre os véus e vestidos coloridos. Eu sigo em direção ao trono elevado na frente do salão. Soldados me param no caminho, apertando minha mão, batendo no meu ombro, agradecendo. Eu respondo a cada um, ouvindo histórias rápidas de bravura, de camaradagem.Finalmente, chego ao trono.Mas antes que eu possa me sentar… Uma mulher surge ao meu lado.Alta, cabelos vermelhos como fogo, caindo em ondas sobre os ombros nus. Vestido vermelho justo demais, decote baixo demais. Olhos pintados de negro que me estudam com interesse descarado.— Alteza — ela diz, a voz arrastada, doce demais para ser sincera. — Onde está a rainha?Eu a encaro, frio.— Não é da sua conta.Ela pisca, surpresa pela rispidez, mas se recupera rapidamente, sorrindo como se eu tivesse feito uma piada.
ORION DOMINUS.Reinos se erguem com espadas. Lares, com escolhas.O sol está se pondo quando o último soldado inimigo se rende.A planície está coberta de fumaça, sangue, armas abandonadas.Mas estamos vivos.Vencemos.Anya desmonta de Estrela antes de mim, os movimentos cansados, mas firmes.Eu salto de Tempestade e corro até ela, ainda com a adrenalina pulsando.— Está ferida? — pergunto desesperado, segurando-a pelos ombros, procurando cortes, sangue, qualquer sinal de dano. Ela responde com um sorriso cansado, suado, mas genuíno.— Só viva.Eu seguro o rosto dela entre as mãos sujas de batalha.E a beijo.Não como um rei.Não como um guerreiro.Mas como o homem que só respira porque ela existe.Quando nos afastamos, ela olha as bandeiras de Aldirin e de outros reinos sendo erguidas novamente no horizonte, tremulando vitoriosas.— Acabou? — ela pergunta, a voz pequena, esperançosa.Eu olho o horizonte tingido de laranja e vermelho pelo pôr do sol.Pela primeira vez em anos…Não vej
ORION DOMINUS.Não marcharam por glória — marcharam por pertencimento.O vento do Norte sempre carregou duas coisas: frio e ameaça.Durante anos, o reino deles sussurrou sobre vingança. Sobre retomar território. Sobre sangue real derramado.E agora, cinco anos depois…Eles ousaram atacar nossas fronteiras.Eles erraram o alvo. Porque mexeram com o que é meu.Com minha família.Com Aldirin.Com ela.E por isso… hoje marchamos.Não por glória.Não por guerra.Mas por justiça👑O exército se estende como um mar de aço atrás de mim — milhares de homens e mulheres, espadas cintilando sob o céu cinzento carregado de nuvens pesadas. Cavalos relincham impacientes, batendo cascos contra a terra fria. Bandeiras de Aldirin e de outros reinos tremulam violentamente ao vento, o azul e prata dançando como chamas vivas. O ar ferve com expectativa, com tensão, com a promessa de sangue.Meu cavalo negro — Tempestade, o mesmo que cavalgo há anos — bate o casco no chão repetidamente, inquieto, sentindo







