Se connecterPOV Alessandro
Era cinco horas da manhã quando abri a porta do quarto dela. Paige Bellini estava dormindo, com metade da cara coberta por um travesseiro. E roncava.
Quase ri. A princesa do nada roncava. Depois de horas falando sem parar, reclamando de tudo e transformando minha casa numa comédia, aquele pequeno ronco a fazia parecer... estranhamente humana.
Uma das pernas escapava do lençol fino. A pele muito clara contrastava com o tecido branco, per
POV PaigeTrês anos depoisEnquanto me agarrava a Alessandro, sentia meu coração acelerar na mesma velocidade da moto. Deitei a cabeça em suas costas e fechei os olhos, confiando completamente no homem que, anos antes, eu jamais permitiria que conduzisse qualquer parte da minha vida.Tínhamos dois filhos lindos, Samael e Natanael. E ainda esperávamos a pequena Bela, que crescia havia dezesseis semanas dentro de mim. A família pandinha só aumentava.Alessandro realmente falou sério quando disse que queria participar de três gestações. E, como praticávamos bastante a forma como os bebês eram feitos, eu engravidava com facilidade.Alessandro dizia que aquilo não era um argumento científico. Eu dizia que a existência de três pandinhas comprovava minha teoria.Enfim, eu tinha concluído uma faculdade. Fiz uma graduação à distância em Harmonização de Chás e Energias de Cristais. Escolhi aquela porque era muito interessante e importante.O que seria de mim se não soubesse combinar a cor das p
POV AlessandroMinha vida havia se transformado num caos. Mas aquele caos era a melhor coisa que já tinha acontecido. Lisandro fingia que me odiava, e eu fingia que não o aceitava. A verdade era que ele não me odiava... apenas não me perdoava. E eu? Eu aceitava aquilo.Por fim, compreendi que ele foi muito mais amigo do que namorado da minha mulher. E, se não fosse por Lisandro, talvez Paige nem tivesse conseguido seguir em frente e se tornar a mulher que era.Como se isso não bastasse, ele fez Bianca feliz e deu um novo rumo para ela dentro da nossa história.Lorenzo parou ao meu lado, com os olhos voltados para mim. Não o encarei. Continuei observando a felicidade reinar em minha casa, em Monte Belo do Sul.— Você está feliz — afirmou.— Sim. Como jamais imaginei que seria.— Eu... estou feliz por você. Jamais imaginei que um dia pudesse renunciar a essa vingança.— Mas eu renunciei. E... sinto muito por você.— Por mim? — Lorenzo virou o rosto e me encarou.— Lisandro e Bianca.— L
Samael tentou apagar as velas, mas o sopro fraco apenas movimentou as chamas. Todos riram. Ele tentou novamente, ficou vermelho com o esforço e acabou espalhando saliva sobre o bolo inteiro.O silêncio tomou conta da mesa. Horloge foi o primeiro a reagir:— Acho que ninguém vai querer comer o bolo.— Eu quero — Madame Samovar respondeu, emocionada demais para se importar.— Também quero — Lumière concordou.— Já sobrevivi à comida de Paige — Lisandro acrescentou. — Minha imunidade é excelente.— Eu fiz um curso de confeitaria — protestei.Alessandro beijou minha testa:— Que você não concluiu.— Porque engravidei. Precisei priorizar um curso de desenvolvimento infantil.— Também não concluiu esse.— Nosso filho ainda está em desenvolvimento. Tecnicamente, o curso continua em andamento.Meu filho abriu um sorriso enorme e bateu as pequenas mãos, orgulhoso como se tivesse realizado sozinho a maior façanha da humanidade ao apagar as velas com sopros.Observei Alessandro beijar o rosto de
Levei as mãos à boca e comecei a chorar. Eu chorava com frequência naquela gravidez. Chorei porque o sorvete acabou, porque Alessandro comprou o sabor errado e porque uma uva rolou para debaixo da mesa e me pareceu solitária. Mas, daquela vez, existia um motivo real.Abracei Bianca novamente:— Ela será perfeita.— Espero que não se pareça muito com o pai — Alessandro comentou.Lisandro se virou lentamente para a longa estrada que levava ao portão principal:— Ainda dá tempo de irmos embora — disse, olhando para Bianca.— Vocês acabaram de chegar — reclamei.— E já fomos ofendidos pelo anfitrião.Antes que a Primeira Guerra Mundial daquela festa tivesse início, o som de um helicóptero surgiu ao longe. Olhei para o céu.— Lumière poderia chegar de carro, como uma pessoa normal.— O trabalho dele exige agilidade — Alessandro explicou.— O trabalho dele exige que atravesse o país, não que faça uma entrada cinematográfica no aniversário de uma criança.Samael começou a pular, apontando pa
— Qual sindicato?— O das pessoas que insistem em não se achar parte da família — respondi, piscando para ela.Madame Samovar finalmente se sentou, enquanto Horloge ocupou a cadeira ao lado dela, embora ainda observasse os pratos como se temesse que algum talher estivesse um centímetro fora do lugar.Samael correu até os dois com os braços abertos.— Vovó Samovar!Helena o pegou no colo e cobriu seu rosto de beijos. Ela tentou corrigi-lo nos primeiros meses, explicando que não era sua avó. No entanto, Samael decidiu que era. E ninguém naquela família discutia com uma criança que possuía metade da teimosia de Alessandro e toda a minha capacidade de argumentação.Horloge estendeu os braços:— Venha com o vovô Horloge.Meu coração apertou ao vê-los disputando a atenção dele. Durante muito tempo, Alessandro acreditou que não possuía mais uma família. Demorou para compreender que algumas famílias não eram formadas apenas por laços de sangue. Eram construídas pela permanência, pelo cuidado
POV Paige— Samael, não coloque o dedo no bolo!Meu filho olhou diretamente nos meus olhos enquanto afundava o indicador na cobertura de chocolate.Não foi um acidente. Não houve hesitação, falta de coordenação motora ou qualquer sinal de arrependimento. Foi um ato consciente de rebeldia, executado diante de mim e de todas as testemunhas presentes.Depois, levou o dedo à boca e sorriu:— Gostoso.Aos três anos, Samael já tinha os olhos verde-escuros do pai, a capacidade de ignorar as ordens de nós dois e uma expressão inocente tão convincente que começava a me preocupar.— Ele fez isso olhando para mim — reclamei. — Foi uma afronta direta à minha autoridade materna.Alessandro apareceu atrás de mim e passou um braço ao redor da minha cintura. A outra mão pousou sobre minha barriga, já grande o bastante para anunciar que a família panda voltaria a crescer em poucos meses.— Talvez ele tenha aprendido com a mãe.— Eu jamais enfiaria o dedo num bolo antes de uma festa.Alessandro arqueou







