LOGINPaige me lançou um olhar de pânico por trás da viseira transparente.
Passei a perna sobre a motocicleta e me sentei à sua frente. Girei a chave, e o motor despertou com um ronco quase ensurdecedor que ecoou por toda a garagem.
Paige apoiou as mãos na minha jaqueta apenas para recuperar o equilíbrio.
— Não vou segurar em você.
Ergui a viseira e disse, alto o suficiente para que ela pudesse esc
A mulher abaixou a cabeça e não respondeu. Acho que ambos sabíamos que não precisava.Talvez nem ela mesma conseguisse explicar a monstruosidade que cometeu no passado. Ou talvez não quisesse admitir que Paige nunca foi o problema.— E como você vive hoje? — eu quis saber.Ela ignorou a pergunta anterior. Aquilo me fez entender que Paige foi rejeitada sem qualquer motivo além de ser uma criança difícil, birrenta, exigente e chorona.A mulher usava o comportamento de uma menina de cinco anos como justificativa para ter ido embora e abandonado o marido e a filha.Eu imaginava que Rafael devia ter sido um marido desprezível. Conhecendo-o como conhecia, provavelmente foi. Mas nada daquilo justificava abandonar a própria filha e nunca mais olhar para trás.— Eu vivo da pensão que Rafael me dá.“Dava”, pensei. Rafae
— Sou um homem de posses. Quero saber a verdade sobre a mãe de Paige e sua participação na vida da própria filha. Tenho a versão de Rafael e agora quero a sua.Ela demorou um pouco para perguntar:— E a versão de Paige?Eu ri, com escárnio:— Ela não tem versão alguma sobre você. E é exatamente por isso que estou aqui.— Quanto está disposto a pagar pela verdade?— Isso depende do quanto estiver disposta a contar. — Inclinei-me um pouco sobre a mesa e a encarei. — Acontece que estou pagando pela verdade. Caso descubra que o que recebi foi mentira, por menor que seja, sou capaz de arrancar de você o dobro do que entreguei. Pago por sinceridade.Sim, eu pagava por sinceridade, mas achava difícil que qualquer pessoa, mesmo recebendo dinheiro suficiente para mudar de vida, fosse de fato sincera.
POV AlessandroO encontro foi marcado num pequeno jardim de inverno, dentro de um restaurante discreto. A mãe de Paige escolheu o lugar e impôs algumas condições: eu deveria estar sozinho e não poderia levar o celular.Eu poderia negar, mas aceitei todas as condições dela. Aquela mulher não sabia com quem estava lidando, e eu fingi não ser o homem que ela provavelmente imaginava.As paredes de vidro permitiam que ela observasse cada movimento do lado de fora. Talvez quisesse ter certeza de que não seria surpreendida. Ou talvez existisse nela uma insegurança ou um medo cuja origem eu desconhecia.Quando entrei, ela já estava sentada diante de uma mesa posta para duas pessoas. Não precisei observá-la por muito tempo para descobrir que era a mãe de Paige. As duas tinham uma aparência absurdamente parecida.Cumprimentei-a com um aceno de cabe&c
— Éramos jovens, Paige. Tínhamos dezesseis anos. Mal sabíamos o que estávamos fazendo naquela época.Fechei os olhos e me lembrei da música alta, da minha risada, da forma como pressionava o acelerador e observava o ponteiro subir.— Poderia ter sido eu, Paige.— Mas não foi, Lisandro.— Não fui eu por uma questão de poucos segundos. Estávamos quase lado a lado quando aconteceu. Nossos carros estavam praticamente alinhados.Olhei para ele. Lisandro carregou aquela parte da história em silêncio durante seis anos. Nunca permiti que assumisse que também participava daquela corrida ilegal. Sabia que os pais dele jamais o perdoariam. Assumi tudo. Não perante a Justiça ou da forma como deveria, mas diante do meu pai. Aos olhos dele, fui a garota inconsequente que bateu o carro e fugiu. Eu sabia que Rafael Bellini resolveria a si
Olhei para nossas mãos entrelaçadas.Durante grande parte da minha vida, acreditei que Lisandro seria o homem com quem eu me casaria. Não porque meu corpo o desejasse ou porque meu coração disparasse quando ele se aproximava, mas porque ele sempre esteve ali. Crescemos juntos, dividimos segredos, medos, castigos e planos de fuga.Ele era a única pessoa em quem eu confiava completamente. Talvez eu tivesse confundido confiança com amor.— Nós não nos perdemos — respondi. — Acho que nunca estivemos onde imaginávamos.Lisandro franziu a testa:— Como assim?— Fomos criados juntos. Você sempre cuidou de mim, e eu sempre tentei cuidar de você. Quando sentia medo, corria para os seus braços. Quando alguma coisa acontecia com você, eu queria destruir o mundo inteiro para protegê-lo.Lisandro sorriu:
— Fale, Paige. Diga as palavras, nem que seja para o vento levar. Você precisa fazer isso. Eu tenho certeza que se sentirá melhor e mais leve depois que conseguir pronunciar.Apertei os papéis entre os dedos e mordi o lábio, deixando que uma lágrima solitária rolasse pela minha bochecha.— Eu amo Alessandro.A minha voz ficou quase inaudível. Mas me senti melhor depois que conseguia falar para mim mesma.— Eu amo Alessandro De Lucca Montrelli. — sorri, percebendo que não doía tanto admitir.Lisandro fechou os olhos e respirou fundo:— Desde quando você sabe?— Tive certeza no dia em que parti.Ele seguiu me olhando, procurando melhor explicação.— Enquanto estava presa naquele castelo, eu só conseguia pensar em fugir. Mesmo quando as coisas entre nós mudaram, quando Alessandro parou de







