LOGINMas equilíbrio é sempre importante, não é, Laura? — disse meu pai, num tom leve, mas que ardia por dentro. — Principalmente quando se trata de certos exageros.
O comentário veio como uma colherada de sal no meio da sobremesa. Abaixei os olhos. Eu tinha comido pequeno pedaço de bolo de limão, como todo mundo. Nada demais. Mas meu pai tinha um talento especial para transformar qualquer pequena liberdade em um alerta. E então, sem querer, olhei de novo para o padre. Ele estava ao lado do arcebispo, mas os olhos dele… estavam em mim. Não exatamente. Mas sim. Era como se ele tivesse escutado a frase. Ou sentido a tensão. O olhar de Andrei era impassível, e ainda assim, havia algo na maneira como franziu levemente a testa que me fez remexer, desconfortável. Como se ele estivesse catalogando tudo. Desviei o olhar, sentindo um calor no rosto que não vinha das velas. Nem do vinho. Pouco depois, afastada do burburinho, encontrei minha mãe perto de uma das colunas laterais, observando os convidados com um sorriso satisfeito no rosto. Um alívio suave me atravessou o peito ao vê-la assim, desperta, presente. Ultimamente, isso estava acontecendo com mais frequência do que eu esperava. Ainda era raro… mas menos raro do que antes. E, naquele instante, era o suficiente. — Está tudo muito bonito, não acha? — disse ela, estendendo a mão para ajeitar discretamente a manga do meu hábito. — Você sempre foi boa com os detalhes. Seu pai finge que não nota, mas ele se orgulha. Tentei sorrir. — Acho que ele se orgulharia mais se eu tivesse recusado o bolo — falei, tentando soar leve, mas sentindo a dor ainda presa na garganta. — ah, mas quem resiste a uma boa sobremesa, principalmente depois desse jantar maravilhoso.— Minha mãe suspira e me olha com doçura. Tocou meu braço de leve. — Você é forte, Laura. E é boa. Não precisa se esforçar tanto para provar isso. Aquelas palavras me pegaram de surpresa. — Eu não… — Eu sei — ela me interrompeu com um sorriso sereno. — Só não se esqueça de que ser correta não é o mesmo que ser dura consigo mesma. Por um instante, me senti pequena. Não infantilizada… mas acolhida. Era raro sentir isso vindo dela, mas quando acontecia, era como um cobertor morno numa noite fria. — E o novo padre? — minha mãe perguntou, voltando os olhos em direção à entrada do salão. — As meninas não falam de outra coisa. Acho que os cochichos já chegaram aos seus ouvidos, não é? Assenti, quase rindo. — Chegaram. — Bem… não é todo dia que aparece um padre que parece ter saído de um filme europeu. Arqueei as sobrancelhas, divertida. — Mãe! — Eu sorrio divertida balançando a cabeça. — Só estou dizendo que é inusitado. Ele parece… diferente. E isso sempre atrai olhares. Não respondi. Preferi guardar o silêncio. Talvez fosse isso. Só isso. Algo diferente. E é por isso que eu não conseguia parar de pensar no modo como ele me olhara. Ou no fato de que, ao lado do arcebispo, ele parecia estar ali… e não estar. Suspirei, deixando o olhar escorregar até a porta principal. ** Algo naquela noite estava fora do lugar. E eu, mesmo sem entender, já sentia que era apenas o começo. Observei o salão com os braços cruzados diante do peito, os olhos vagando pelo ambiente com a precisão de quem já conhecia cada canto daquele espaço, mas sempre se impressionava com a sua grandiosidade. As velas iluminavam suavemente o ambiente, refletindo nas paredes de pedra os seus brilhos dourados. Os arranjos de flores estavam dispostos com delicadeza, conforme os planos que eu e as outras freiras havíamos idealizado, e o cheiro da madeira, misturado com o aroma de incenso e flores frescas, preenchia a Basílica. Era quase irônico que tudo estivesse tão perfeitamente alinhado enquanto eu, por dentro, me sentia tão deslocada. O evento estava sendo um sucesso, sem dúvidas. O arcebispo, imerso em sua conversa com os doadores, sorria em satisfação. As outras freiras circulavam pelo salão, fazendo suas funções com diligência, e os convidados pareciam maravilhados com o que a Basílica tinha a oferecer. Eu, porém, não conseguia sentir o mesmo êxtase que via nos rostos de todos à minha volta. Talvez fosse o contraste entre o que era exigido de mim e o que sentia dentro de mim. Sempre fui boa em cumprir papéis, mas a sensação de que tudo ao meu redor estava tão distante de quem eu realmente era, de quem eu queria ser, se intensificava à medida que a noite avançava. Procurava algo que me conectasse com aquele evento, com o ambiente ao redor. Mas o que realmente me puxava era a sensação de que algo estava prestes a acontecer. Olhei discretamente para o outro lado do salão, onde o Padre Andrei conversava com um pequeno grupo de religiosos, todos em tons de cinza e preto, com os hábitos alinhados e serenos. Ele se destacava entre eles de maneira sutil, não por sua aparência, mas pela postura calma, mas imponente. Mordi o lábio inferior sem querer, tentando não pensar mais sobre o fato de que ele era muito… bonito para um padre. O fato de ser romeno, misterioso, apenas acentuava aquilo. Eu já não sabia se aquilo era natural ou se apenas a tensão do evento estava começando a me afetar de uma maneira inesperada. Respirei fundo, tentando afastar esses pensamentos. Ele era apenas mais um homem, como qualquer outro. Apenas um padre que logo estaria de volta à sua missão. Ele não tinha nada a ver com a minha vida, não deveria ter. Ainda assim, não pude deixar de reparar na maneira como ele se movia, como a luz da Basílica destacava os traços fortes de seu rosto e os olhos que pareciam, por um momento, encarar algo distante. — Irmã Laura. A voz suave e firme da Abadessa me interrompeu, trazendo-me de volta à realidade. Virei-me e encontrei a madre Elisa, como sempre, impecável em sua postura e com um olhar atento e preciso, como se estivesse constantemente lendo a situação ao seu redor. Ela usava o hábito com a mesma solenidade de sempre, mas seus olhos, embora gentis, não deixavam de ser afiados. — Abadessa Elisa, boa noite — disse, forçando um sorriso. — O arcebispo falou muito bem de você, minha filha — disse a madre, sem rodeios, seu tom direto e inquestionável. Observei-a atentamente. Ela parecia querer dizer algo mais, mas deixou o silêncio suspenso por um instante. — Amanhã cedo — continuou a Abadessa — o Padre Andrei estará se familiarizando com a Basílica. Ele precisará conhecer as áreas onde os atendimentos são realizados, os alojamentos e as dependências sociais. Nada mais justo que você o acompanhe, pois é você quem conhece melhor este lugar. Franzi ligeiramente a testa, surpresa pela ordem inesperada. Eu não estava preparada para essa responsabilidade. — Eu? — perguntei, com uma expressão confusa, quase involuntária. Era uma tarefa que eu geralmente desempenhava com outras freiras ou com os visitantes comuns, mas o fato de estar sendo designada para guiá-lo, especialmente ele, fez com que meu estômago se revirasse um pouco. Era mais do que uma simples obrigação — havia algo no tom da madre que soava como um convite para algo além do esperado.A caminhada pela propriedade foi longa, silenciosa. A floresta parecia prender o fôlego, como se soubesse o que estava escondido sob suas raízes. Quando cheguei à entrada do bunker, o som dos meus passos sobre a terra congelada foi engolido pelo concreto.Desci. Cada degrau afundava mais meu peito no inferno que eu mesmo criei. A porta de aço gemeu ao abrir.A luz fraca do teto tremulava, lançando sombras pelas paredes úmidas. E no centro… ali estava ele.Luiz Antônio Barreto de MendonçaAcorrentado pelo pescoço, como um cão. O rosto mal cicatrizado mostrava muitas cicatrizes, ele era quase irreconhecível.Sentado no chão de pedra, o rosto coberto de hematomas, os olhos fundos. Magro. Roupas rasgadas. Fedia a urina, fezes e suor seco. A pele marcada por cordas, sangue seco nas bordas da corrente. A barba desgrenhada. Mas mesmo ali, mesmo naquela condição deplorável, ele me olhou com uma mistura de desprezo e fanatismo que me deu nojo.— Demônio… — ele sussurrou, cuspindo no chão
— Isso é bonito, Laura — ela disse, com a voz suave.— E é libertador — completei, sorrindo, acariciando a barriga. — Eu achei o meu lugar. Finalmente. E é aqui. Com ele. Com meu filho. Com vocês por perto.Natasha segurou minha mão. E ali, por um instante, o mundo pareceu certo. Mas é claro que nada é perfeito. Às vezes… a dor volta. Como um eco.— Você já pensou… no que aconteceu com o seu pai? — ela perguntou baixinho, quase como se não quisesse estragar o momento. Olhei pra frente. Para o nada. Um ponto distante que só eu enxergava.— Alexey disse que entregou ele às autoridades no Brasil. E que… depois disso, as pessoas fizeram justiça com as próprias mãos.Meus olhos marejaram, mas eu não chorei.— Ele morreu lá. No Brasil. Como um homem comum. Sozinho. — Pauso, engolindo as lágrimas teimosa. — Ele merecia isso. Mas, ainda assim… é estranho. Ele era meu pai.Natasha não disse nada. Apenas apertou minha mão com mais força.— Minha mãe acha que eu morri — acrescentei. —
Ele me puxou com força. Como se fosse possível me colar nele e me proteger de tudo ao mesmo tempo. E então ele me beijou.Meu Deus, ele me beijou. Sem delicadeza, sem ensaio, sem medo. Um beijo desesperado, bruto, salgado por lágrimas e gosto de sangue. Como se ele precisasse provar que eu ainda estava ali, que eu era real, que ele não tinha perdido tudo.Eu chorei contra os lábios dele. Senti o rosto dele molhado também.— Eu te amo. — Ele sussurrou, colado à minha boca, a voz rouca, quebrada. — Porra, Sfântă mea, eu te amo. Eu procurei você, eu jurei que se te encontrasse de novo, nunca mais deixaria você ir.— Me perdoa. — As palavras saíram emboladas nos soluços. — Me perdoa por ter fugido. Eu tava com medo… Eu… Eu também te amo, Alexey. Eu te amo tanto que dói.Ele encostou a testa na minha, os olhos fechados, respirando como se o ar do meu corpo fosse o único que ele precisava.As mãos dele desceram pelo meu corpo, como se quisessem verificar se eu estava inteira, viva. Q
O som foi ensurdecedor. Mas Alexey se moveu de forma tão rápida que o disparo passou por ele como se ele fosse uma sombra. Ele já estava desarmando o homem, uma arma preta e enorme aparecendo na sua mão, algo que eu não fazia ideia de onde ele havia tirado. Ele atirou, e o capanga que tentava matá-lo caiu no chão com um estalo abafado.A briga começou então, uma luta feroz. O outro capanga tentou também, mas Alexey foi mais rápido, mais implacável. Socos, chutes, gritos, os dois rolando pelo chão, sangue espirrando por todos os lados.Foi tudo um borrão. A confusão tomou conta de mim. Eu sabia que precisava me mover, mas a visão da luta estava me paralisando, o caos me engolindo. E era agora ou nunca.Foi quando eu vi uma brecha.Eu me agachei, tentando fugir do alcance, enquanto os homens se batiam. Meus pulsos ainda estavam atados, mas com a atenção do pai voltada para a luta, eu consegui deslizar para o lado, quase sem fôlego. Mas então o meu pai me viu. Ele me viu e, em um m
Meus dedos tocaram a marca na bochecha. Ele não parecia arrependido. Nem por um segundo.— O que você vai fazer comigo?Ele se abaixou ao meu lado. O hálito quente, ácido, perto demais.— O que eu fiz com a Isabel. — disse, com um sorrisinho de canto. — Aliás… o que eu fiz com ela foi fichinha comparado ao que vou fazer com você.Minhas mãos voaram para a barriga, como se pudessem proteger algo. Como se fossem capazes de esconder o que ele já sabia. A vontade de vomitar era quase física. Mas não havia nada dentro de mim. Nem comida. Nem esperança.Fiquei ali imóvel, sem tocar na comida. Meu pai saiu da sala como se nada tivesse acontecido. E quando voltou, trazia uma fita preta e Rígida.Prendeu meus pulsos com força.— Levanta. Eles chegaram.As palavras dele cortaram o ar como uma lâmina. Lágrimas de raiva e medo arderam nos meus olhos, mesmo que eu tentasse contê-las. Minha voz saiu trêmula, sufocada, mas carregada de desespero:— Não, pai… por favor… não faz isso comigo
Me levantei, tomado por raiva, mas ele levantou a mão.— Escuta até o fim. Você vai com eles, Alexey. Ninguém sabe quem você é. Você vai se infiltrar, fingir ser um deles. Essa é a chance perfeita pra pegar o pai dela. E… resgatá-la.Apertei o maxilar com tanta força que senti estalar.— E se ela estiver ferida? E se…?— Eu sei. Mas você vai encontrá-la. Vai trazê-la de volta. Só que tem um detalhe…— Fala. — Esfrego as mãos no rosto, soltando um gemido de frustração. — Você não vai conseguir tirá-la do Brasil como ela está agora. Ela é alvo da imprensa, da igreja, do governo. E você… você é o homem que matou o arcebispo. Todo mundo quer sua cabeça.— Então o que a gente vai fazer?Luka me olhou nos olhos. Firme.— Ela vai ter que morrer. — um sorriso diabólico surgem em seus lábios.Meu coração parou por um segundo.— O quê?— Não de verdade, porra. Fingir. É o único jeito. Ela vai precisar desaparecer. Tecnicamente, Laura vai ter que morrer.Fiquei em silêncio por u







