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Quando se conheceram

last update publish date: 2025-04-06 00:32:52

O caminho pelas ruas de paralelepípedos e o burburinho do festival foram se distanciando, à medida que Alyssa buscava refúgio no Jardim Público de Fira que ficava a quinhentos metros do festival.

Ela avistou o portal verdejante. O ar fresco perfumado dos jasmins e hibiscos invadiu suas narinas. Caminhou até o centro do jardim e sentou-se num dos bancos de pedra.

Seu desejo era que o tempo tivesse parado, e ela pudesse se conectar com a paz interior almejada, porém o turbilhão de emoções não a deixava descansar.

As lágrimas furtivas vieram e a lembrança de quando conheceu Klaus, trouxe de volta a sensação nostálgica que queria esquecer. Por que se apaixonou pela pessoa errada?

Antes que pudesse afastar os pensamentos do passado, em Atenas, surgiu nitidamente.

Era uma manhã normal com um tímido sol de abril, no ano de 2017. Cruzou a recepção da Companhia Petrakis e seguiu para o elevador, distraída.

Seu foco era chegar na sua sala, no sexto andar para organizar as estratégias de marketing, entrevistas, além de contactar parcerias que tomavam todo o seu tempo.

Ainda bem que Phil Scoth, o seu noivo americano, dono de uma rede de restaurantes também vivia ocupado e compreendia a sua maluca rotina, se não tudo seria mais difícil.

A função de diretora de marketing da Companhia Petrakis era exaustivo. Não imaginava, porém, que daquele dia em diante, uma nova perspectiva se abriria e dividiria o fardo.

Entrou no elevador e ao estender o braço para acionar o botão, chamou-lhe a atenção um homem muito bonito de terno azul marinho de marca indefinida, 1,90 m, olhos azuis, loiro, corpo atlético, o tipo ideal que gostava de apreciar. Ele se juntou a ela e cumprimentando-a com um bom dia, agradeceu. O aroma de sândalo e canela impregnou o ambiente. Institivamente, escondeu a mão onde estava a aliança de noivado.*

" Quem é este homem sensual e cheiroso, que veio despertar meus instintos em plena segunda-feira?"

Em silêncio, apenas sorriu e permitiu-se admirá-lo discretamente. Para sua surpresa, ele também fazia a mesma inspeção pelo seu corpo. Vestida num conjunto de saia e blazer creme, com uma blusa branca por dentro e sapato alto de bico fino, repreendeu-se por estar tão formal.

Nada que chamasse a atenção de um homem tão atraente, mas quando os olhos se encontraram, ela pôde perceber a aprovação nos olhos azuis do rapaz. Sentiu sua face queimar de vergonha por omitir o noivado.

Para disfarçar o desconforto, sinalizou, com um gesto, que a gravata dele estava torta.

Ele captou a mensagem, mas não notou a aliança e enquanto arrumava o assessório, alargou o sorriso. Que perfeição!

— Obrigado mais uma vez. Você trabalha aqui?

Ela ficou surpresa com a pergunta. De que planeta era aquele homem charmoso, que não notou a sua imagem fixada com um vidro de azeite em praticamente todos os cantos do saguão?

— Sim, trabalho. — preferiu não causar constrangimentos, dizendo quem era. — E você? É novo na empresa?

— Oh, não! Fui convocado para uma entrevista de emprego.

O som de chegada interrompeu o diálogo. O painel indicava o sexto andar e a porta se abriu.

— Ah, bom, então boa sorte...

—Klaus Ferranti.

— Prazer, sou Alyssa!

Novamente trocaram olhares sugestivos e ambos acenaram, na despedida. Ele continuou no elevador para o próximo andar.

Mesmo passadas algumas horas, com uma pilha de serviços e uma agenda externa lotadissima, lembrava-se ocasionalmente do rápido diálogo com Klaus e a boa impressão que ele lhe causou.

Passando os dedos pela nuca para aliviar a tensão, de repente teve uma ideia.

Bem que podia solucionar seu problema contratando-o como seu assistente e limpar a vista com aquela virilidade de tirar o fôlego.

" É antiético contratar o gostoso com a intenção de propor hora extra em sua cama?"

Riu do seu pensamento safado. Nem era de pensar assim, mas por algum motivo desejava tê-lo por perto. Será que conseguiria apenas admirar o Deus grego, por seu mérito profissional sem se envolver? Seria uma tentação diária, sem dúvida.

"Em todo caso, preciso de um assistente e ele, de um emprego. Não estou fazendo nada de errado. "

A travessura no sorriso desmentia. A imaginação estava a todo vapor.

" Para, Alyssa!"

Antes que mudasse de ideia, pegou o celular e resolveu falar com Theodoro, responsável por recrutar novos empregados para a empresa. Quando ele atendeu, disse:

— Theodoro, só você para me ajudar!

— Claro! Em que posso ser útil, Alyssa?

— Preciso de um assistente.

O homem silenciou por uns segundos, tentando entender o motivo.

— Está sem secretária? O pessoal do RH não me comunicou nada...

— Digo, além da secretária, entende?

— Ah, bom... Ora, hoje houve entrevistas com candidatos a alguns cargos, mas não abrimos para assistente...

— Sei, sei. É o seguinte, quase não estou dando conta do serviço e quando cheguei hoje, conheci um dos candidatos no elevador. Só preciso que verifique o seu currículo e me confirme se é possível contratá-lo imediatamente.

— O nome? Você lembra?

— Klaus Ferranti.

— Certo, só um instante.

Alyssa aguardou ansiosa pela resposta, enquanto Theodoro teclava. Torcia para que ele estivesse entre os selecionados.

— Deixe-me ver... Ah... Sim! Ele tem um excelente currículo e ... Meu Deus! Você tem certeza? É um gato!

A imagem de Klaus ressurgiu em seus pensamentos e sorriu.

— Verdade, mas é apto?

— Sim, formado em administração e com experiência em Marketing e Tecnologia de Informação. Excelente! E aqui em off... Ele é solteiro e apesar do sobrenome italiano, nasceu em Santorini.

— Que é isso, Theodoro? Minha intenção é puramente profissional.

Ele riu, divertindo-se com as entrelinhas nas palavras da filha do chefe.

— Sorte do Phil, né? Mas para não ter problema, que tal ficar com uma assistente e eu, com o bonitão?

— Theodoro!

— Brincadeirinha! Vou providenciar tudo e em três dias ele será todo seu... No bom sentido, se é que me entende!

*Na Grécia, como em muitos países ocidentais, o anel de noivado e de casamento é usado na mão esquerda, no dedo anelar.

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