FAZER LOGINCapítulo 3
Gabriele acordou atrasada. Não cinco minutos. Não dez. Quarenta e três. Ela abriu os olhos, viu a claridade atravessando a janela e soube imediatamente que alguma coisa estava errada. Pegou o celular. — Não! Saiu da cama tão depressa que prendeu o pé no cobertor e quase caiu. — Mãe! Sônia apareceu à porta. — Eu chamei você três vezes. — Por que não entrou? — Porque ontem disse que era adulta e responsável. — Hoje ainda não sou! Gabriele correu para o banheiro. Em menos de quinze minutos, tomou banho, vestiu a roupa que Izadora separara e prendeu os cabelos. A calça preta estava levemente amassada, a camisa branca tinha um botão que insistia em abrir e os sapatos novos apertavam quase tanto quanto os do baile. Na cozinha, Joaquim colocou uma caneca diante dela. — Respira. — Não dá tempo. — Sempre dá tempo para respirar. Gabriele bebeu um gole e queimou a língua. Sônia colocou um pão embrulhado dentro de sua bolsa. — Coma no caminho. — Vou ser demitida antes de começar. — Sua irmã avisou que teve problema no transporte. — Mas eu não tive. — Teve, sim. O transporte entre sua cama e o banheiro falhou. Gabriele beijou o rosto dos pais e saiu correndo. O Bazar Almeida ocupava a parte inferior da casa da família. Desde criança, Gabriele ajudava Joaquim a organizar produtos, atender clientes e criar cartazes promocionais. Amava o lugar, mas sabia que o comércio enfrentava dificuldades. O pai nunca falava sobre dinheiro. O silêncio dele, porém, dizia o bastante. A Agência Braga funcionava em um edifício moderno na região da Avenida Paulista. Quando Gabriele finalmente chegou, estava ofegante, com uma mecha solta e uma pequena mancha de café na manga. A recepcionista indicou o décimo segundo andar. Ela entrou no elevador. Apertou o botão errado. Foi parar no estacionamento executivo. Na segunda tentativa, desceu novamente ao térreo. Na terceira, chegou ao setor de criação. Izadora a esperava perto da recepção, com os braços cruzados. — Você está atrasada. — Percebi quando o sol já estava quase no meio do céu. — Arrume o cabelo. — Não tenho espelho. Izadora tentou ajeitar a mecha rebelde. — Fique séria. Não fale demais. Não invente intimidade com ninguém. — Eu sei me comportar. A irmã olhou para a mancha de café. — Claro. Gabriele foi apresentada à equipe. Júlia trabalhava no atendimento e parecia conhecer cada detalhe da agência. Caio era redator, falava muito e observava mais do que fingia. — Você é a irmã da Izadora — disse ele. — Espero que isso não conte contra mim. — Depende. Você também organiza canetas por tonalidade? — Não. Eu perco as canetas. Júlia sorriu. — Vai se encaixar perfeitamente no setor de criação. O cargo de Gabriele seria auxiliar de criação e apoio administrativo. Ela ajudaria em pesquisas, organização de campanhas, revisão de apresentações e tarefas operacionais. Na teoria, parecia simples. Na prática, recebeu três senhas provisórias, quatro pastas e uma explicação sobre procedimentos internos que parecia ter sido feita em outro idioma. Na hora do almoço, sentou-se com Júlia e Caio na copa. — Sobreviveu? — perguntou Caio. — Parcialmente. — Ainda não conheceu os irmãos Braga. — Minha irmã trabalha para um deles. — Mateus — disse Júlia. — O educado. — Existe um mal-educado? Os dois se entreolharam. — Teodoro não é mal-educado — respondeu Caio. — Só faz o que quer. — Ele é o CEO — explicou Júlia. — Isso não significa que possa fazer o que quer. Caio segurou o riso. — Tecnicamente, significa um pouco. Gabriele abriu o pão que a mãe colocara na bolsa. — Desde que cheguei, só ouço “Teodoro pediu”, “Teodoro decidiu”, “Teodoro não aprovou”. Mas ninguém me apresentou a criatura. Júlia olhou discretamente para trás dela. — Gabi... — Aposto que é um desses filhinhos de papai mimados. Caio abaixou a cabeça. — Deve andar por aqui esperando que todo mundo saiba quem ele é — continuou Gabriele. — Provavelmente entra em uma sala e as pessoas precisam adivinhar as regras. — Uma avaliação interessante. A voz masculina surgiu atrás dela. Gabriele congelou. Virou-se devagar. Um homem alto estava parado à porta da copa, segurando uma xícara de café. Usava camisa branca com as mangas dobradas até os cotovelos. Algumas tatuagens apareciam em seus antebraços. Tinha pele morena clara, barba curta e olhos castanhos intensos. Não usava terno. Não estava cercado por assessores. E parecia se divertir bastante. Júlia se levantou. — Teodoro, esta é... Ele estendeu a mão. — Teodoro Braga. O filhinho de papai mimado. Gabriele sentiu o rosto queimar. — Gabriele Almeida. — A nova auxiliar. — Sim. Ela apertou a mão dele. Por um breve instante, Teodoro ficou imóvel. O perfume. Havia algo familiar naquela fragrância. Delicada. Levemente doce. Mas o cheiro de café e dos produtos usados na copa misturava-se ao aroma. Talvez fosse apenas coincidência. — Já nos conhecemos? — perguntou. O coração de Gabriele bateu mais forte. A voz também parecia estranhamente familiar. Mas o homem da máscara tinha uma presença diferente. Mais misteriosa. Menos provocadora. Ela olhou para os sapatos de Teodoro. Pretos. Sem costura clara. Sem risco no salto. — Não — respondeu. — Eu me lembraria. — Tem certeza? — Tenho memória fotográfica. — Então deve mesmo se lembrar de tudo. — De quase tudo. Teodoro soltou sua mão. — Bem-vinda à Agência Braga. — Obrigada. — E, para sua informação, não espero que todos adivinhem as regras. Gabriele engoliu em seco. — Fico aliviada. — Apenas que as cumpram. Ele pegou uma cápsula de café no armário. Caio fingia estudar a embalagem do próprio copo. Júlia observava o teto. Teodoro preparou a bebida com calma. Antes de sair, voltou-se para Gabriele. — Gostei da sinceridade. — Foi um acidente. — As melhores sinceridades costumam ser. Ele deixou a copa. Caio esperou alguns segundos antes de começar a rir. — Você chamou o CEO de mimado na frente dele. — Eu não sabia quem ele era. — Esse argumento vai funcionar muito bem na demissão. Gabriele colocou as mãos sobre o rosto. — Quero ir embora. Júlia voltou a sentar. — Ele não pareceu irritado. — Isso é pior. Pessoas poderosas sorrindo são perigosas. Do lado de fora, Teodoro caminhava em direção à própria sala. Olhou discretamente para trás. Gabriele estava falando alguma coisa com as mãos, enquanto Caio ria. A mulher do baile parecera silenciosa. Delicada. Quase tímida. Gabriele Almeida era incapaz de guardar um pensamento por mais de alguns segundos. Não podiam ser a mesma pessoa. Mesmo assim, aquele perfume continuava perturbando sua memória.Capítulo 67 Um ano e três meses depois. — Teodoro! O grito atravessou o apartamento. Teodoro apareceu correndo no escritório. — O que aconteceu? Gabriele estava diante do notebook, completamente imóvel. — Gabi? Ela apontou para a tela. — Olha. Teodoro se aproximou. Um e-mail estava aberto. Ele leu uma vez. Depois outra. Então olhou para ela. — É isso que estou pensando? Gabi assentiu lentamente. — Meu livro vai ser publicado em Portugal. O sorriso de Teodoro apareceu antes que ela terminasse. — E na Espanha. Ele a puxou da cadeira. — Teo! Teodoro girou Gabi no ar. — Meu Deus! Me coloca no chão! — Minha esposa é internacional! — Seu ego está comemorando como se o livro fosse seu! — Eu inspirei parte dele. Gabi estreitou os olhos. — Você continua acreditando nisso? — O viajante tem tatuagens, barba e mania de fugir. — Coincidência. — E se chama Theodore na versão inglesa? Ela congelou. — Como você sabe disso? Teodoro sorriu. — Li escondido. — Teodoro
Capítulo 66Durante exatos sete minutos, o noivado permaneceu em segredo.Foi o máximo que conseguiram.Quando Gabriele e Teodoro voltaram ao salão, ela tentou esconder a mão esquerda.Tentou.Izadora precisou de três segundos para perceber.— Gabi...Ela olhou para a irmã.Depois para Teodoro.Depois novamente para a mão dela.— Não.Gabi mordeu o lábio.— Sim.O grito de Izadora chamou atenção de metade do salão.— VOCÊS ESTÃO NOIVOS?— Sete minutos — Teodoro murmurou. — Tivemos sete minutos de paz.Gabi começou a rir.Izadora a abraçou tão forte que quase a derrubou.Mateus aproximou-se.— Então ela aceitou.Gabi estreitou os olhos.— Você sabia?Mateus percebeu tarde demais.— Eu...— Izadora também sabia?A irmã ergueu as mãos.— Tecnicamente, eu desconfiei.— Todo mundo sabia menos eu?Teodoro passou o braço por sua cintura.— Esse era o objetivo.Júlia apareceu logo depois.— Posso contar agora?Gabi arregalou os olhos.— Você também?Teodoro beijou sua testa.— Surpresa.Helen
Capítulo 65Teodoro já havia olhado o relógio quatro vezes.— Ela vai chegar — disse Mateus.— Eu sei.— Então pare de olhar para a porta.Teodoro lançou um olhar para o irmão.— Cuida da sua namorada.Mateus sorriu.Izadora estava a poucos metros, conversando com Júlia. Usava um vestido verde-escuro e uma máscara delicada.— Minha namorada está perfeitamente bem.Teodoro estreitou os olhos.— Você gosta muito de falar isso.— Bastante.— Irritante.Mateus riu.— Está nervoso?— Não.— Sua mão está no bolso há cinco minutos.Teodoro retirou imediatamente.— Hábito.— Claro.A pequena caixa parecia pesar uma tonelada.O salão estava irreconhecível.Velas, flores brancas, luzes douradas e fotografias antigas contavam os cinquenta anos da Agência Braga.Teodoro deveria estar pensando na empresa.No pai.Nos convidados.Mas só conseguia olhar para a entrada.Até que sentiu.Antes mesmo de vê-la.O perfume.Teodoro fechou os olhos por um segundo.Sorriu.Então virou.Gabriele estava no alt
Capítulo 64 Gabriele releu a mensagem de Lavínia pela quarta vez. Gostaria de conversar com você sobre Teodoro antes do baile. Aquilo poderia significar tantas coisas que sua imaginação já havia criado pelo menos seis versões. Em quatro, Lavínia era insuportável. Em uma, queria Teodoro de volta. Na última, provavelmente a mais absurda, revelava que os dois eram casados secretamente na Europa. — Para. Gabi largou o celular. Memória fotográfica era uma péssima qualidade quando acompanhada de imaginação fértil. Digitou: Podemos tomar um café amanhã. A resposta chegou pouco depois. Lavínia: Perfeito. Prometo não tornar isso estranho. Gabi fez uma careta. Já estava estranho. Lavínia chegou exatamente no horário. Gabriele a reconheceu imediatamente. Alta. Elegante. Cabelos castanhos compridos. Bonita de um jeito que parecia exigir pouco esforço. — Gabriele? — Lavínia. Ela sorriu e estendeu a mão. — Finalmente. Gabi apertou. — Finalmente? — Teodoro falou bastante
Capítulo 63— Lavínia?Teodoro levantou os olhos do celular.Mateus estava sentado à sua frente.— Confirmou presença ontem — explicou. — Júlia achou melhor avisar.— Por quê?Mateus arqueou uma sobrancelha.— Porque vocês tiveram uma história.— Tivemos um acordo estranho e algumas viagens.— Para algumas pessoas isso se chama namoro.Teodoro fechou o notebook.— Lavínia morava na Europa. Nós nos encontrávamos quando dava. Nenhum dos dois queria compromisso.— Até você querer a Gabi.Teodoro ficou em silêncio.Era exatamente isso.Com Lavínia, a distância nunca incomodara.Talvez porque fosse conveniente.Ela não cobrava presença.Ele não prometia permanência.Funcionava porque nenhum dos dois esperava muito.Gabriele tinha sido diferente desde o começo.Ela bagunçara tudo.— Gabi sabe que ela vai?— Ainda não.Mateus inclinou-se na cadeira.— Vai contar?— Claro.A resposta veio tão rapidamente que Mateus sorriu.— O antigo Teodoro esconderia para evitar problema.— O antigo Teodoro
Capítulo 62Gabriele estava atrasada.Não cinco minutos.Não dez.Quarenta e três.Quando entrou no café quase tropeçando na própria bolsa, encontrou Teodoro sentado perto da janela.Notebook aberto.Café pela metade.— Desculpa!Ele olhou o relógio.— Quarenta e três minutos.— Eu sei.— Eu estava começando a considerar abandono.Gabi sentou-se diante dele.— A reunião demorou. Depois Dante quis discutir o capítulo seis e...Parou.Esperou.Teodoro percebeu.— E?— E nada.— Então por que parou?Gabi hesitou.— Costume.Ele fechou o notebook.— Você achou que eu ficaria incomodado porque estava com Dante.— Um pouco.Teodoro respirou fundo.— Não vou fingir que gosto dele.— Teo...— Mas confio em você.Ela ficou em silêncio.— E seu trabalho não precisa ser um assunto delicado entre nós.Gabriele sorriu.— Você realmente leu meu livro três vezes.— Terapia teria saído mais barato.Ela começou a rir.Teodoro pediu outro café para ela.— Como está o segundo livro?— Travado.— Você es







