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2- Entre Heranças e Marés

Author: CaHostins
last update publish date: 2026-07-22 23:41:05

Miguel nunca quis herdar o que já estava pronto.

Enquanto muitos veriam privilégio, ele via um roteiro escrito por outra pessoa — e que insistiam para que ele seguisse sem questionar.

Aos vinte e seis anos, era um homem que chamava atenção por onde passava. Tinha um metro e oitenta de altura, pele morena clara marcada pelos dias sob o sol, cabelos castanhos levemente desalinhados pelo vento e uma barba rala, sempre bem aparada. O corpo forte e bem definido era resultado de anos de natação, mergulho e exercícios. Cuidava da saúde não por vaidade, mas porque o mar exigia preparo físico, disciplina e resistência.

Filho único, crescera cercado de conforto. Nunca lhe faltou nada. Estudou nas melhores escolas, viajou para vários lugares e teve oportunidades que muitos sonhavam em ter. Seu pai sempre fez questão de lhe oferecer o melhor, acreditando que, um dia, tudo aquilo seria retribuído quando Miguel assumisse a empresa da família.

Mas havia uma diferença entre gratidão e destino.

Desde criança, Miguel demonstrava curiosidade por tudo que envolvia a natureza. Enquanto outros meninos passavam horas em videogames, ele preferia documentários sobre oceanos, colecionava conchas das viagens e fazia perguntas intermináveis sobre os animais marinhos. Sempre que podia, convencia os pai a passar as férias no litoral. Bastava colocar os pés na areia para se sentir em casa.

Ainda assim, durante muitos anos, tentou corresponder às expectativas de seu pai.

— Você precisa começar a frequentar mais a empresa — disse seu pai, sem tirar os olhos da tela do computador. — Não dá mais para adiar isso.

Miguel respirou fundo, encostado na porta do escritório amplo e impecável.

— Eu não quero trabalhar lá, pai.

A frase saiu firme, mas não agressiva. Era uma conversa repetida, já desgastada pelo tempo.

O homem à sua frente, dono de uma das maiores empresas de sistemas da região, finalmente levantou o olhar.

— Você não quer agora — corrigiu. — Mas vai entender. Isso aqui é o seu futuro.

Miguel deu um leve sorriso, daqueles que escondem mais do que revelam.

— Não... isso aqui é o seu futuro. O meu ainda estou escolhendo.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Desde pequeno, Miguel foi preparado para assumir tudo aquilo: reuniões, números, decisões importantes. Chegou até a cursar Administração de Empresas, tentando se encaixar naquilo que esperavam dele. Esforçou-se para gostar das reuniões, das planilhas, dos números e dos projetos da empresa. Queria acreditar que, com o tempo, aprenderia a amar aquele universo.E, por um tempo, até acreditou que conseguiria.

Mas algo sempre parecia fora do lugar.

Foi em uma viagem ao litoral sul, em um final de semana, que tudo mudou. Miguel comprou um passeio de mergulho guiado. Vestiu roupa de mergulho, colocou o cilindro de oxigênio nas costas e entrou no mar para observar um recife de corais e viu de perto um mundo que até então conhecia apenas pelos livros e documentários.

Naquele instante, teve certeza de que era ali que queria estar.

O mar era vivo.

Era imprevisível.

Era desafiador.

E, principalmente, fazia com que ele se sentisse exatamente onde deveria estar.

E foi por isso que tomou a decisão que ninguém entendeu: começou uma nova faculdade.

Biologia marinha.

As discussões em casa se tornaram frequentes. O pai dizia que era uma fase. Que aquilo não daria futuro. Que ele estava desperdiçando oportunidades.

Miguel apenas seguia em frente.

Agora, prestes a concluir o curso, nunca teve tanta certeza de quem era.

Naquela tarde, saiu de casa dirigindo sem destino certo, apenas para fugir do peso das expectativas. O trânsito da cidade parecia ainda mais sufocante depois daquela conversa.

Horas depois, já no fim do dia, estacionou próximo à orla.

Assim que desceu do carro, o cheiro da maresia invadiu seus pulmões. Fechou os olhos por alguns segundos e respirou profundamente. Era como se o mar tivesse o poder de colocar cada pensamento em seu devido lugar.

Miguel caminhou pela areia, os pés afundando levemente a cada passo. O vento bagunçava seus cabelos, e pela primeira vez naquele dia, seus ombros relaxaram.

Ali, não existiam cobranças.

Não existiam reuniões.

Não existia um futuro imposto.

Apenas o presente.

Observou o horizonte enquanto o sol começava a desaparecer, pintando o céu em tons dourados, alaranjados e avermelhados. Entrou no carro e jogou a carteira no banco do passageiro, doi quando caiu uma foto já um pouco desgastada pelo tempo.

Nela, uma mulher de sorriso sereno o segurava ainda bebê nos braços.

Ele passou o polegar delicadamente sobre a imagem, como fazia desde criança.

Às vezes se perguntava como seria ouvir sua voz, sentir um abraço ou simplesmente conversar com ela depois de um dia como aquele.

Sorriu de canto.

— Acho que você diria para eu seguir meu coração... não é?

Guardou a fotografia novamente.

Sorriu sozinho.

Faltavam poucos meses para concluir a faculdade.

Seu trabalho de pesquisa havia recebido elogios dos professores e existia uma grande possibilidade de ser selecionado para um importante congresso internacional de Biologia Marinha. Só de imaginar a chance de apresentar sua pesquisa diante de pesquisadores renomados, seu coração acelerava.

Era o primeiro grande passo da carreira que sempre sonhou construir.

Miguel passou a mão pelo rosto, pensativo.

Sabia que não podia adiar aquela conversa com o pai por muito mais tempo.

Também sabia que, se fosse escolhido para o congresso, teria mais uma prova de que havia feito a escolha certa.

O futuro ainda era incerto.

Mas, pela primeira vez em muitos anos, ele não tinha medo disso.

Sem imaginar, o caminho que estava tentando construir estava prestes a cruzar com alguém que também lutava, todos os dias, para não desistir dos próprios sonhos.

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